Shirley
Capítulo V
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A Casa de Campo de Hollow
O bom humor de Mr. Moore continuava quando ele se levantou na manhã seguinte; ele e Joe Scott tinham passado a noite no moinho em acomodações improvisadas.
O patrão, sempre matinal, levantou-se muito mais cedo do que de costume; despertou seu companheiro com uma canção francesa que vinha do seu banheiro.
– Não está desanimado, patrão? – gritou Joe.
– Não, meu rapaz! Levante-se e vamos dar uma volta pela fábrica antes da chegada dos operários. Vou lhe explicar os meus planos futuros. Teremos as novas máquinas, Joe. Você nunca ouviu falar de Bruce?
– É a história da aranha? Li uma história na Escócia e a esse respeito sei tanto quanto o senhor. Quer dizer que persistirá nos seus planos.
– Isso mesmo.
– O senhor tem alguma fortuna pessoal lá no seu país? – perguntou Joe, dobrando e guardando sua cama temporária.
– No meu país! Qual é o meu país, Joe?
– A França. Não é isso?
– Não, decerto. O fato de os franceses terem tomado a Antuérpia, onde eu nasci, não me faz um francês.
– A Holanda, então?
– Não sou um holandês. Agora você está confundindo Antuérpia com Amsterdam.
– A Flandres?
– Desprezo a insinuação, Joe! Eu, flamengo! Tenho então cara de flamengo, o nariz grosso e proeminente; a testa deprimida e lustrosa; os olhos azuis-claros à flor do rosto? Sou pesado como um flamengo? E você
não sabe como os holandeses são, Joe, eu sou um Anversois[4]. Minha mãe era uma antuerpiana, embora ela tenha vindo da linhagem francesa, que é a razão de eu falar francês.
– Mas o seu pai nasceu em Yorkshire, o que o torna também um pouco inglês, um pouco yorkshiriano. Todos daqui notam que o senhor é como nós, ambicioso e ousado.
– Joe, você é um cão insolente, mas eu sempre fui acostumado a um tipo grosseiro de insolência desde a minha mocidade. A classe operária, ou seja, as pessoas que trabalham na Bélgica agem brutalmente para com seus empregadores e, brutalmente, Joe, eu quero dizer grosseiramente mesmo. Vocês são uns selvagens, Joe. Os yorkshirianos, eu quero dizer. Você não acha que eles são civilizados, não é?
– Mais ou menos, senhor. Creio que nós, empregados do Norte, somos tão inteligentes e instruídos como os aldeãos do Sul. O trabalho desenvolve o espírito, e os que, como eu, vivem com as máquinas são forçados a pensar.
– Tenho certeza de que você, Joe Scott, se julga um rapaz notável!
– Concordo. Sei distinguir o queijo do giz e soube aproveitar as ocasiões que tive para me instruir um pouco mais do que muitos que me são superiores. Mas há milhares como eu em Yorkshire e mais dois terços que sabem mais do que eu.
– Você é um grande rapaz, Joe. Um grande espertalhão! Mas também um pedante e um vaidoso. Não julgue que ter aprendido um pouco de cálculo e ter pescado alguns elementos da química no fundo de uma cuba de tingimento o tenha transformado num sábio incompreendido. Não suponha, pelo fato de os caminhos do comércio serem, por vezes, penosos e você e seus iguais nem sempre terem trabalho e pão, que a sua classe seja de mártires e que toda forma de governo sob a qual você vive seja má. Não ache que a virtude está na casa dos ricos e que os pobres não são honestos. Deixe-me dizer-lhe que eu, particularmente, abomino esse tipo de lixo, porque eu sei muito bem que a natureza humana é natureza humana em todos os lugares, seja sob teto de telha ou de palha; que, em cada espécime da natureza humana que respira, o vício e a virtude são sempre encontrados misturados, em proporções menores ou maiores, e que a proporção não é determinada pela estação. Tenho visto vilões que eram ricos e eu já vi vilões que eram pobres; tenho visto vilões que não eram nem ricos nem pobres. Ah! Chega de conversa, Joe. O relógio vai bater seis horas. Vá tocar o sino.
Era agora meados de fevereiro, às seis horas, portanto o amanhecer estava apenas começando a penetrar com seus raios pálidos na obscuridade da noite. O aspecto da manhã era glacial, um vento áspero empurrava as nuvens e a chuva havia parado, porém deixara a terra encharcada e os ribeiros transbordavam.
As janelas da fábrica estavam abertas, o sino tocava ruidosamente e as crianças chegavam correndo, demasiado depressa para sentir a inclemência do vento. Além disso, a temperatura daquele dia devia lhes parecer mais amena, pois eles tinham ido, muitas vezes, para o trabalho durante esse inverno com neve, chuva e gelo.
Mr. Moore estava na entrada para vê-los passar. Ele contava-os à medida que chegavam. Para aqueles que vinham um pouco tarde, ele dava uma repreensão, que era repetida mais rudemente por Joe Scott quando os retardatários entravam nas salas de trabalho. Nem o patrão nem o contramestre falavam selvagemente. Nem um nem outro eram desumanos, ainda que parecessem rígidos, pois multaram um delinquente que veio consideravelmente tarde. Mr. Moore o fez pagar um penny antes de entrar e informou-o de que, na próxima falha, pagaria dois pence.
Regras, sem dúvida, são necessárias em tais casos e os mestres grosseiros e cruéis fazem regras grosseiras e cruéis que, no momento, pelo menos eram respeitosas. Mas existem aqueles que se impõem tiranicamente e, apesar de eu descrever personagens imperfeitos (cada personagem neste livro será, mais ou menos, imperfeito, pois a minha caneta se recusa a desenhar qualquer palavra irreal, qualquer personagem modelo), comprometo-me a não lidar com áreas degradadas ou totalmente infames. Crianças torturadas, senhores de escravos e carcereiros cruéis. O romancista pode ser dispensado de manchar a sua página com o registro de tais atos.
Em vez disso, então, estou feliz de ser capaz de informá-lo que Mr. Moore jamais atingira uma criança no moinho. Joe tinha, de fato, certa vez, açoitado o seu filho muito severamente por ter mentido e persistido na mentira. Mas, como seu empregador, ele era muito calmo, assim como também um homem razoável.
Mr. Moore circulou pela fábrica, pelo pátio, pela tinturaria e armazém até o amanhecer. O sol até subiu, pelo menos um disco branco, claro, tingiu o céu com um brilho branco como o gelo; espiou por cima da crista escura de uma colina; mudou a cor da borda para prata, e olhou solenemente para baixo para todo o comprimento do vale.
Às oito horas apagaram-se os candeeiros e a sineta tocou para o café da manhã. As crianças deixaram o trabalho por meia hora; pegaram suas vasilhas que continham café e os pequenos cestos que continham o seu subsídio de pão. Esperemos que eles tenham tido o suficiente para comer, seria uma pena se fosse de outra forma.
E agora, finalmente, Mr. Moore deixou o moinho e se dirigiu para casa que ficava a poucos passos do pátio da fábrica. A distância da fábrica até a casa era curta, mas a cobertura branca alta, de cada lado da pista, parecia lhe dar a aparência e sensação de isolamento. Era uma casa pequena, caiada de branco, com um pórtico verde na entrada. Alguns galhos elevavam-se em volta e por baixo das janelas, agora sem folhas e sem flores, mas prometiam uma abóboda de trepadeiras para os dias de verão. Diante da casa, estendia-se um jardim dividido em canteiros. No momento, estes só mostravam uma terra negra, exceto em alguns recantos abrigados, nos quais os primeiros brotos de açafrão saíam da terra verdes como esmeraldas. A primavera estava atrasada, o inverno tinha sido rigoroso e prolongado, as últimas neves tinham causado grandes estragos na vegetação. A chuva abundante da véspera havia derretido um pouco a neve, mas ainda restava uma mancha branca sobre as colinas, manchando as cavidades e coroando os picos. As relvas ainda não se mostravam verdes, mas ainda esbranquiçadas. Três árvores, graciosamente agrupadas, erguiam-se em frete à cottage. Elas não eram grandes; mas não tendo rivais, pareciam imponentes, produzindo um belo efeito. Era assim a morada de Mr. Moore. O seu ar de modesto conforto não parecia interessar muito seu dono, pois, em vez de entrar, foi buscar uma enxada em um pequeno barracão e pôs-se a trabalhar no jardim. Durante um quarto de hora cavou sem interrupções. Por fim, uma janela se abriu e uma voz feminina o chamou:
– Bom dia! E então? Não vai entrar para tomar seu café da manhã?
– O café está pronto, Hortense?
– Certamente. Há mais de meia hora.
– Então, estou pronto. Tenho uma fome canina.
– Não parece – ralhou Miss Hortense, mas sorriu assim que deu as costas.
Mr. Moore pousou a enxada e entrou na casa. A estreita passagem o conduziu a uma pequena sala onde estava servido o café da manhã composto por café, pão com manteiga e um acompanhamento pouco inglês de peras cozidas. A mesa era presidida pela senhorita que tinha falado da janela. Devo descrevê-la antes de ir mais longe.
Parecia um pouco mais velha do que Mr. Moore, talvez tivesse uns trinta e cinco anos. Era alta e proporcionalmente forte. Podia ser considerada até elegante. Os cabelos muito negros ainda estavam enrolados em papelotes; as faces eram rosadas; o nariz era delgado e os olhos, pequenos e negros. A parte inferior do rosto era larga em proporção à superior e sua testa era estreita e bastante enrugada. A expressão era inquieta, mal-humorada, mas não má. Havia algo na aparência que provocava o riso e irritava ao mesmo tempo. O mais estranho era a sua maneira de se vestir. Era algo fora do normal, até mesmo ridícula: uma saia de lã e uma camisola de algodão listrada. A saia era curta e mostrava um par de pés e tornozelos que deixavam muito a desejar no quesito simetria.
O leitor poderá pensar que eu descrevi uma mulher desmazelada, mas, Miss Hortense Moore (ela era irmã de Mr. Moore) não era nem um pouco desleixada. Era, portanto, uma pessoa muito organizada e econômica. O saiote, a camisola e os papelotes eram o traje de manhã de uso doméstico em seu próprio país. Ela não quis adotar a moda inglesa só porque fora obrigada a viver na Inglaterra. Ela mantinha seus velhos costumes belgas e tinha satisfação em mantê-los. Ela também tinha uma excelente opinião de si própria, apreciação que não era absolutamente imerecida, pois ela possuía algumas qualidades preciosas. Contudo, dava excessivo valor ao grau e gênero dessas qualidades e esquecia-se de diversos pequenos defeitos que possuía. Ninguém a poderia persuadir de que ela era uma pessoa preconceituosa, acanhada e intolerante; que tinha uma dignidade suscetível e que era muito propensa a se ofender com ninharias, e tudo isso era verdade. No entanto, quando seus preconceitos não eram ofendidos, ela poderia ser suficientemente gentil e amigável. Era muito dedicada aos seus dois irmãos, pois, além de Robert, havia seu outro irmão, Louis. Como os únicos representantes remanescentes de sua família decadente, estes dois irmãos eram quase sagrados para ela. Contudo, conhecia menos Louis do que conhecia Robert. Louis tinha sido enviado para a Inglaterra ainda criança e tinha sido educado numa escola inglesa. Fosse porque a sua educação não o preparara para se adaptar ao comércio, ou porque sua própria inclinação natural não fossem as atividades mercantis, quando a ruína econômica da sua família o forçara a ganhar a vida, ele adotou a árdua e modesta carreira de professor. Contava-se que ele estava, neste momento, como preceptor de uma família privada. Miss Hortense, sempre que mencionava Louis, o descrevia como uma pessoa de talento, porém demasiado tímido e pacato.
A sua opinião a respeito de Robert era muito diferente. Ela tinha muito orgulho dele e o considerava o maior homem da Europa, tudo o que ele dizia e fazia era marcante e notável, e ela esperava que os outros pensassem da mesma forma. Para Miss Hortense não havia coisa mais irracional, monstruosa e infame do que uma oposição feita a Robert Moore, a menos que fosse ela mesma a opositora.
Por isso, logo que Mr. Moore sentou-se à mesa, depois de lhe servir uma porção de peras e de lhe preparar uma boa fatia de pão com manteiga, deixou transbordar um dilúvio de espanto e de horror sobre o acontecimento da noite e a destruição dos teares.
– Que ação vergonhosa! Bem se vê que os operários desta terra são, ao mesmo tempo, estúpidos e maus. Absolutamente como os criados ingleses, as criadas, sobretudo. Essa Sarah, por exemplo.
– Mas ela parece limpa e trabalhadora – disse Mr. Moore, espantado com aquela torrente de reclamações.
– Parece? Ah! Eu não sei o que ela parece e não digo que seja totalmente suja, nem preguiçosa, mas é duma tal insolência! Ontem esteve durante um quarto de hora resmungando por causa da maneira de cozinhar a carne. Ela disse que eu a deixo cozinhar demais, que a deixo em trapos, que os ingleses nunca seriam capazes de comer um prato como o nosso cozido, que a sopa não passava de uma gorda água quente e, quanto ao chucrute, ela afirma que não pode tocá-lo! Aquele barril que temos na adega, deliciosamente preparado por minhas próprias mãos, ela chamou de lavagem para porco. Estou farta dessa menina, mas se a substituo, posso cair nas mãos de uma pior. Você está na mesma com seus operários, querido e pobre irmão!
– Receio que você não esteja muito feliz na Inglaterra, Hortense.
– É meu dever ser feliz onde você estiver, irmão. Mas, por outro lado, há certamente milhares de coisas que me fazem lamentar por nossa cidade natal. Todo mundo daqui me parece mal-educado, eles riem dos nossos hábitos e os consideram ridículos. Se qualquer menina da fábrica vem à cozinha e me encontra preparando o jantar de saia branca e camisola (pois você bem sabe que eu não posso confiar a Sarah a preparação de um único prato), ela zomba de mim pelas costas. Se aceito um convite para tomar chá, o que aconteceu uma ou duas vezes, percebo que me dão o último lugar na mesa e não tenho a atenção que, decididamente, deveria ter. Os Gerards e os Moores são uma excelente família. Temos o direito de reivindicar certo respeito e de sentirmos feridos quando isso nos é retido. Na Antuérpia eu sempre fui tratada com distinção! Aqui, seria de pensar que, quando abro a boca, falo um inglês com um sotaque ridículo, quando creio que o pronuncio perfeitamente...
– Hortense, na Antuérpia éramos conhecidos como ricos. Na Inglaterra, eles nos conheceram pobres. Isso muda tudo.
– Precisamente e, portanto, são os mercenários da humanidade. Você se lembra do que aconteceu no último domingo, querido irmão? Como estava muito molhado, eu fui à igreja com meus tamancos pretos, objetos que não seriam, de fato, usuais em uma cidade da moda, mas que no meu país, consequentemente, eu já estava acostumada a usá-los para andar em estradas sujas. Acredite em mim, quando eu andava pelo corredor, composta e tranquila, como sempre estou, vi quatro senhoras e muitos cavalheiros rindo de mim e tiveram a audácia de esconder o rosto atrás do livro de oração.
– Bem, bem! Não use os tamancos de novo, então.
– Mas, irmão, eles não são tamancos comuns. São pretos, muito limpos e convenientes para o campo e até para uma cidade elegante como Bruxelas. Lá as pessoas respeitáveis só usam tamancos para caminhar no inverno. Qualquer um que tentar percorrer a lama das estradas em um par de botas de Paris, vai virar notícia!
– Não importa o que usam na Antuérpia, em Bruxelas ou em Roma. Tem que se adaptar aos costumes ingleses se quiser ser respeitada aqui. Quanto à sua camisola e sua saia branca, não posso ter opinião sobre isso. Realmente, eu nunca vi uma senhora vestida assim. Peça opinião a Caroline Helstone.
– Perguntar a Caroline! Perguntar a Caroline? Consultá-la sobre minha maneira de vestir? É ela quem devia me consultar sobre todas as coisas. Ela é uma criança!
– Tem dezoito anos, ou, pelo menos dezessete. Tem idade suficiente para saber tudo sobre vestidos, saias e sapatos.
– Não a estrague, irmão! Peço que não o faça. Não lhe dê mais importância do que, realmente, ela merece. No momento, ela é modesta e despretensiosa. Vamos mantê-la assim.
– Com todo o meu coração. Ela vem esta manhã? – perguntou ele, sorrindo.
– Virá às dez horas, como de costume, para a aula de francês.
– Não acha que ela zomba de você, não é?
– Não! Ela aprecia-me melhor do que qualquer outro aqui. Mas ela tem mais oportunidade de me conhecer intimamente. Ela vê que eu tenho educação, inteligência, maneiras e princípios; enfim, tudo o que distingue uma pessoa bem-nascida e bem-educada.
– Isso quer dizer que você gosta muito dela?
– Não sei dizer se gosto dela assim. Como não me entusiasmo facilmente, consequentemente, a minha amizade tem mais valor. Tenho grande respeito e afeição por ela como minha parenta; a sua posição também me inspira interesse, e a sua conduta como minha aluna tem feito só aumentar e não diminuir o afeto que eu já lhe tinha por outros motivos. Contudo, a minha perspicácia vê, claramente, que Caroline não é perfeita, deixa muito a desejar.
– Ela não se comporta muito bem nas aulas?
– Para mim, ela se comporta muito bem. Mas, irmão, você é consciente que eu tenho uma maneira calculada para repelir familiaridade, para ganhar estima e impor respeito. No entanto, possuidora dessa penetração, percebo que Caroline não é perfeita e que há muito o que aprender.
– Dê-me mais uma última xícara de café e, enquanto eu estou bebendo, divirta-me contando suas falhas.
– Querido irmão, estou feliz em ver que você toma seu café da manhã com vontade depois de ter passado uma noite tão fatigante. Pois é verdade, Caroline tem seus defeitos, mas, em minhas mãos e com o cuidado quase maternal que tenho por ela, pode melhorar. Há nela qualquer coisa, uma reserva, suponho, de que eu não gosto, porque ela não é absolutamente infantil e submissa; há na sua natureza vislumbres de uma paixão inquieta que me desconcerta. No entanto, em outras vezes, é tranquila até demais, já em outras, excessivamente abatida e pensativa. Com o tempo, não tenho dúvida, vou deixá-la de maneira uniforme: calma e decorosa, sem ser inexplicavelmente sonhadora. Desaprovo sempre o que não compreendo.
– Não compreendo. O que você quer dizer com “vislumbres de uma paixão inquieta”, por exemplo?
– Vou dar-lhe um exemplo e, talvez, você compreenda: às vezes, você está ciente, a faço ler poesia francesa para que pratique a pronúncia. Ela tem lido, no decorrer das aulas, muito de Corneille e Racine, com um espírito sóbrio e firme que eu aprovo. Ocasionalmente, ela mostra, de fato, um grau de languidez na leitura desses conceituados autores, mostrando mais apatia do que sobriedade. E eu não posso tolerar apatia naqueles que têm o benefício de minhas instruções. Noutro dia, dei-lhe um volume de poesias e mandei-a para a janela para decorar uma e, quando ergui os olhos, a vi virando as folhas com impaciência, enquanto observava os pequenos poemas superficialmente como se percorresse o volume com desprezo. Ralhei com ela. ‘Minha prima, tudo isso me aborrece até a morte.’ Observei-lhe que não era maneira decente de falar. ‘Meu Deus!’, exclamou ela, ‘então não há em toda a literatura francesa duas linhas de poesias?’ Perguntei-lhe o que ela queria dizer com aquilo. Ela implorou-me, gentilmente, meu perdão. Dentro em breve, ela estava sossegada. Vi que sorria para si mesma sobre o livro e começou a estudar com ardor. Ao fim de meia hora, ela veio e pôs-se diante de mim, apresentou o volume e começou a recitar-me A Jovem Cativa, de Chénier. Se você tivesse ouvido a maneira com que ela recitou esse trecho e os comentários incoerentes que ela fez quando terminou, você teria sabido o que eu quis dizer com a frase ‘vislumbres de uma paixão inquieta.’ Olhando para ela, alguém poderia pensar que Chénier fosse mais emocionante do que Racine ou Corneille. Você tem que concordar, meu irmão, que essa preferência singular denota uma mente mal-ordenada! Mas ela está em boas mãos, como sua preceptora vou adotar um sistema, um método para fixar seus pensamentos e opiniões. Hei de ensiná-la a vigiar e a dominar seus sentimentos.
– Certifique-se do que você faz, Hortense. Aí vem ela. Creio que foi sua sombra que passou pela janela.
– Ah! Verdadeiramente. Ela veio adiantada, meia hora mais cedo. Minha filha, o que a traz aqui tão cedo? – perguntou Miss Hortense.
A pergunta foi dirigida a uma pessoa que entrava naquele momento, uma jovem envolta em um manto de inverno, cujas dobras se ordenavam com graça em volta de uma figura aparentemente delgada.
– Vim com pressa para ver como vocês estavam, isto é, principalmente o Robert. Eu tinha certeza de que estava muito triste com o que aconteceu ontem à noite. Eu só soube esta manhã. Meu tio me contou durante o desjejum.
– Ah! É extraordinário! Então simpatiza conosco e seu tio também? – perguntou Miss Hortense.
– Meu tio está muito irritado, mas ele estava com Robert, creio eu, não é, Robert? Ele não o acompanhou ao pântano de Stilbro?
– Sim, nós partimos com um aparato bastante guerreiro, Caroline, mas encontramos os presos que fomos resgatar no meio do caminho.
– É claro que ninguém se machucou, não é?
– Apenas os pulsos de Joe Scott estão um pouco esfolados por causa da corda. Eles o amarraram com muita força nas costas.
– Não estava lá? Você não estava com as carroças quando foram atacadas?
– Não. Raramente se tem a sorte de estar presente quando se deseja assistir a certos acontecimentos.
– Aonde é que você vai esta manhã? Vi Murgatroyd selando seu cavalo no quintal – perguntou Miss Caroline Helstone.
– Para Whinbury. É dia de mercado.
– Mr. Yorke vai também, pois encontrei-o em seu cabriolé. Volte para casa com ele, Robert – pediu Miss Helstone.
– Por quê?
– Melhor é serem dois do que um e ninguém quer mal a Mr. Yorke, pelo menos os pobres não o detestam.
– Portanto, ele seria uma proteção para mim, que sou odiado?
– O senhor é incompreendido. Este é o termo certo. Voltará tarde? Será que ele vai voltar tarde, prima Hortense?
– É muito provável. Ele tem negócios a tratar em Whinbury. Trouxe o seu caderno de exercício, Caroline?
– Sim. A que horas você vai voltar, Robert?
– Geralmente retorno às sete. Deseja que eu venha mais cedo para casa?
– Tente voltar por volta das seis, pois ainda não anoiteceu. Já às sete horas está absolutamente escuro.
– E de que devo ter medo, Caroline, quando o dia se for? Quais perigos você concebe que vêm com a escuridão?
– Não posso definir os meus temores, mas meu tio chama estes tempos de perigosos e diz também que os proprietários das fábricas são impopulares.
– E eu sou um dos mais impopulares, não é isso? Você está relutante em falar, mas, no fundo, você acha que estou sujeito à sorte de Mr. Pearson, que não foi baleado de trás de uma sebe, como se diz, mas em sua própria casa, através de uma janela, quando estava indo para a cama.
– Mrs. Anne Pearson mostrou-me a bala no quarto de dormir – comentou Miss Caroline gravemente, enquanto dobrava o seu manto e o colocava em um lado da mesa: – Você sabe – ela continuou – que há uma sebe em todo o caminho ao longo da estrada daqui para Whinbury e que é preciso passar pelas plantações de Fieldhead. Mas você estará de volta às seis horas, ou antes, não vai?
– Certamente, ele vai – afirmou Miss Hortense. – E agora, minha filha, prepare as lições enquanto eu ponho as ervilhas de molho para o purê do jantar – disse Miss Hortense e saiu.
– Suspeita que eu tenha muitos inimigos, Caroline? – indagou Mr. Moore. – E, sem dúvida, você sabe também que eu não tenho amigos.
– Não é bem assim, Robert. Tem a sua irmã; o seu irmão, Louis, que eu nunca vi; Mr. Yorke e o meu tio, é claro, e muitos outros.
Robert sorriu. – Você ficaria bem embaraçada se tivesse que nomear ‘os muitos outros’ – disse ele. – Mas, mostre-me o seu caderno de exercício – ele estendeu a mão e ela, hesitantemente, o entregou.
– Que cuidado você toma com a escrita! É a minha irmã, eu suponho, que exige esta perfeição. Para que existência estará destinada, Caroline? Que fará do seu francês, do seu desenho e dos seus outros talentos quando os adquirir?
– Faz bem em dizer quando eu os adquirir, pois, como sabe, antes de Hortense começar a me ensinar, eu sabia muito pouco. Quanto à vida que eu estou destinada, suponho que seja dirigir a casa de meu tio... até – ela hesitou.
– Até o quê? Até ele morrer? – Mr. Moore indagou, olhando-a nos olhos.
– Não! Como essa palavra é dura! Nunca pensei na morte dele. Ele tem apenas cinquenta e cinco anos. Mas até... em suma, até que os acontecimentos me ofereçam outras ocupações.
– A perspectiva é extremamente vaga, Caroline! Você está contente com isso?
– Costumava contentar-me. As crianças, você sabe, têm poucas reflexões. Há momentos, agora, em que não estou muito satisfeita.
– Por quê?
– Não estou fazendo nada para ganhar dinheiro.
– Chegou ao ponto, Lina. Então também deseja ganhar seu dinheiro?
– Sim. Gostaria de ter uma ocupação. Bem, se eu fosse um rapaz, não seria tão difícil encontrar uma. Vejo uma maneira tão fácil e tão agradável de aprender a comercializar e abrir caminho na vida.
– Vá em frente. Vejamos qual é esse meio.
– Poderia ser aprendiz de seu comércio de tecido. Eu poderia aprender isso com você, pois somos parentes. Gostaria de fazer o trabalho de contagem das peças, manteria os livros em dia, escreveria as cartas, faria o trabalho do escritório enquanto você estivesse no mercado. Sei que você deseja ser rico para pagar as dívidas do seu pai, talvez eu pudesse ajudá-lo a ficar rico.
– Ajudar-me? Você deve antes pensar em você.
– Também penso em mim, mas não devemos pensar apenas em nós mesmos.
– Em quem penso eu? Ousaria eu pensar em outra pessoa que não fosse eu mesmo? Os pobres não devem ter simpatias, é seu dever ser egoísta.
– Não, Robert.
– Sim, Caroline. A pobreza é necessariamente egoísta, constrangida, rastejante e ansiosa. De tempos em tempos o coração de um homem pobre é iluminado por alguns raios, refrescado por gotas de orvalho. Ele fica umedecido, envaidecido como a vegetação brotando no jardim num dia de primavera; mas não devemos nos deixar arrastar por esse agradável impulso e, para reprimi-lo, devemos invocar a prudência, gelada como o vento norte.
– Então num casebre não se pode ser feliz, Robert?
– Quando falo da pobreza, não me refiro à pobreza habitual do operário, mas à penúria envergonhada do homem cheio de dívidas, do comerciante angustiado se debatendo contra a ruína.
– Tenha esperança e não ansiedade, Robert. Há certas ideias que se fixaram em seu espírito. Talvez seja pretensão da minha parte, mas eu tenho a impressão de que se engana em suas noções da melhor forma de alcançar a felicidade, como também na... – Caroline hesitou.
– Sou todo ouvidos, Caroline.
– Na... Oh! – novamente ela hesitou. – Preciso de coragem para lhe dizer o que penso... Na... Na sua maneira. Note que eu digo “a sua maneira”... A sua maneira de proceder com esses operários de Yorkshire.
– Você sempre quis me dizer isso, não é?
– Sim. Muitas vezes, muitas vezes!
– A única falha da minha atitude está, creio eu, na negatividade. Não sou orgulhoso. De que teria orgulho um homem na minha posição? Só estou taciturno, fleumático e sem alegria. Eu poderia fingir benevolência para com eles, mas fingir não é o meu forte. Acho-os desatinados, perversos, me paralisam quando quero ir para a frente. Tratando-os com justiça, cumpro todos os meus deveres para com eles.
– Não espera que eles o estimem, não é?
– Nem o desejo.
– Ah! – disse a mocinha, balançando a cabeça e dando um profundo suspiro. Depois, ela percebeu um parafuso solto em algum lugar, mas como estava fora de seu alcance, inclinou-se sobre a gramática e pôs-se a procurar os exercícios do dia.
– Acho que eu não sou um homem carinhoso, Caroline. Basta-me a afeição de um pequeno número de pessoas.
– Robert, você faria o favor de aparar uma ou duas penas para mim antes de sair?
– Primeiro, deixe-me pautar o seu caderno, pois tem o costume de traçá-las tortas. Aqui está. E agora as penas. Creio que gosta delas bem finas, não é?
– Tal como você geralmente prepara para mim e para Hortense; não faça com a ponta larga como você usa.
– Se eu tivesse a vocação do Louis, poderia ficar em casa e dedicar esta manhã a você e aos seus estudos, mas, como não tenho, vou passar o dia todo no armazém de lã de Mr. Sykes.
– Você vai ganhar dinheiro?
– O mais provável é perdê-lo.
Quando ele terminou de aparar as penas, trouxeram-lhe um cavalo selado até o portão do jardim.
– Fred já está pronto. Preciso partir, mas antes quero ver os efeitos da primavera nos canteiros do sul – ele deixou a sala e se dirigiu para o terreno atrás do moinho. Uma encantadora franja de verdura jovem e de flores começava a despontar: violetas, açafrão e primaveras brilhavam ao sol, abrigados pelo muro da fábrica. Mr. Moore colheu uma folha aqui e uma flor acolá até formar um pequeno buquê. Voltou à sala de entrada, roubou um fio de seda na cesta da irmã, amarrou as flores e colocou-as na mesa de Caroline.
– Agora, adeus!
– Obrigada, Robert! São lindas! Parecem raios de sol num céu azul. Tenha um bom dia! Até breve!
Robert dirigiu-se para a porta, parou, abriu os lábios como se fosse falar, mas não disse nada e seguiu em frente. Ele passou pelo postigo e montou em seu cavalo. Um segundo depois, ele desmontou, transferiu as rédeas para Murgatroyd e retornou.
– Esqueci minhas luvas – disse ele, parecendo tirar alguma coisa do lado da mesa; então, como se obedecesse a um impulso, disse: – Você tem alguma obrigação hoje na casa de seu tio, Caroline?
– Não! Nunca tenho. Só algumas meias de crianças que Mrs. Ramsden me encomendou para a cesta dos judeus, mas podem esperar.
– Esqueça a cesta dos judeus e passe o dia aqui. O seu tio não morrerá por causa da sua ausência.
Ela sorriu. – Não mesmo!
– O velho cossaco! Ouso dizer que não – murmurou Mr. Moore, sorrindo.
– Então, fique para jantar com Hortense. Ela ficará encantada com sua companhia. Voltarei cedo. Teremos um pouco de leitura à noite. A lua nasce às oito e meia e às nove e meia daremos um passeio até a reitoria. Agrada-lhe?
Ela assentiu com a cabeça e seus olhos se iluminaram.
Mr. Moore ainda demorou dois minutos. Ele inclinou-se sobre a mesa de Miss Helstone e olhou para a gramática, pegou sua pena, levantou seu buquê e brincou com ele. Seu cavalo estava impaciente. Fred Murgatroyd tossiu no portão como se perguntasse o que seu mestre estava fazendo.
– Bom dia – disse Mr. Moore novamente e, finalmente, se afastou.
Quando Miss Hortense entrou, dez minutos depois, viu, surpresa, que Miss Caroline Helstone ainda não tinha iniciado o seu exercício.
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