Shirley
Capítulo XXI
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Mrs. Pryor
Enquanto Miss Keeldar falava com Mr. Moore, Miss Helstone foi ver como estava Mrs. Pryor. Encontrou-a profundamente abatida. Ela não queria confessar que o arrebatamento de Miss Keeldar havia chocado sua sensibilidade, porém sofria, evidentemente, de uma dor na alma.
– Tenho falta de iniciativa e de confiança em mim – disse ela, meigamente – supunha, contudo, que Miss Keeldar conhecesse o meu caráter para saber que tenho sempre um profundo desejo de fazer o melhor possível. Eu não podia tomar aquela responsabilidade e correr o risco de agir precipitadamente no lugar de outra pessoa, mas espero que não tenha sucedido nada de grave devido à minha falta de firmeza.
Neste momento ouviram uma leve pancada na porta que se entreabriu.
– Venha cá, Caroline – disse alguém em voz baixa. Miss Helstone saiu. Na galeria encontrou Miss Keeldar, contrita, envergonhada, aflita como uma criança arrependida.
– Como está Mrs. Pryor? – perguntou.
– Muito abatida.
– Portei-me vergonhosamente, sem generosidade e com ingratidão para com ela – lamentou Miss Keeldar. – Que insolência da minha parte a ter tratado assim, quando ela não era culpada de nenhum mal e havia obedecido apenas a um excesso de delicadeza! Mas, lamento muito sinceramente a forma como procedi. Diga-lhe isto e pergunte se me perdoa.
Miss Helstone fez o que Miss Keeldar pediu, com maior prazer. Mrs. Pryor ergueu-se e veio até a porta. Ela não gostava de cenas, pois tinha receio delas como todas as pessoas tímidas e, numa voz comovida, disse:
– Entre, minha querida.
Miss Keeldar entrou impetuosamente, lançou-se ao pescoço de sua preceptora e, beijando-a efusivamente, disse-lhe:
– Bem sabe que é preciso perdoar-me, Mrs. Pryor. Eu não poderia viver sem a nossa harmonia.
– Não tenho nada a lhe perdoar – respondeu Mrs. Pryor. – Não falemos mais nisso, pois me prova de uma vez por todas que eu sou incapaz de defrontar crises.
E era esse o penoso sentimento que dominava o espírito de Mrs. Pryor. Nenhum esforço de Miss Keeldar e de Miss Helstone conseguiria tirá-la daquela letargia. Ela perdoara Miss Keeldar, mas não podia perdoar a si mesma pelo seu excesso de timidez.
Neste momento vieram chamar Miss Keeldar, que naquela manhã estava destinada a ser incomodada pelas visitas. O pastor acabava de chegar e Miss Keeldar o esperava com um vivo acolhimento e uma reprimenda mais viva ainda. Mr. Helstone acatou ambos com bom humor.
Esqueceu-se completamente de perguntar pela sobrinha. A desordem, os desordeiros, o moinho, os magistrados, a herdeira, tinham absorvido todos os seus pensamentos. Ele narrou a parte que ele e os outros membros do clero tinham se reunido para defender Hollow.
– Toda a cólera dos fariseus vai cair sobre as nossas cabeças pela parte que tomamos nesse caso. Mas desafio todos os caluniadores. Eu só estava lá para dar força à lei, para cumprir o meu dever de homem e de inglês, que considero perfeitamente compatível com as obrigações de pastor e levita. O seu inquilino, Mr. Moore – prosseguiu – ganhou a minha aprovação. Nunca vi comandante mais frio nem mais decidido. Além disso, aquele homem me deu provas de que é ajuizado e sensato. Em primeiro lugar, preparando-se perfeitamente para aquilo que aconteceu e, em seguida, não abusando da vitória. Alguns magistrados têm uma tendência de se mostrarem cruéis, mas Mr. Moore os modera com admirável prudência. Até aqui tem sido impopular na região, mas, pode crer, a opinião sobre ele vai mudar.
Mr. Helstone ia acrescentar mais alguma coisa ao discurso, quando a campainha anunciou outro visitante. Era um senhor de cabelos brancos, com um ar desdenhoso, um velho conhecido e inimigo do pastor; em suma, Mr. Yorke. Mr. Helstone pegou seu chapéu e se despediu bruscamente.
Mr. Yorke não estava de bom humor e manifestou a sua opinião sobre os acontecimentos em termos nada comedidos. Mr. Moore, os magistrados, os soldados, os chefes da população, todos receberam um quinhão das suas investidas.
– O que faria Mr. Moore se ninguém lhe tivesse prestado auxílio? – perguntou Miss Keeldar.
– Tinha os soldados. Esses pobres diabos que vendem seu sangue e dos outros por dinheiro.
– Está sendo muito injusto para com os soldados e para com o clero, Mr. Yorke. A sua maneira de ver resume-se nisto: Mr. Moore deveria ter abandonado a sua fábrica e a sua vida ao ódio de um bando de loucos desvairados e Mr. Helstone e os outros tinham que ter ficado olhando para o edifício sendo destruído e o seu proprietário chacinado, sem mexerem um dedo para salvá-los.
– Se Mr. Moore tivesse procedido desde o início com os seus operários como deveria ter feito, nunca nutririam contra ele ódio tão grande.
– Isso é fácil de falar! – exclamou Miss Keeldar, já dando sinais de que estava ficando exaltada. – Para o senhor, cuja família habitou Briarmains durante seis gerações; ao senhor a quem as pessoas estão habituadas há cinquenta anos e que conhece seus hábitos e preferências, de fato, não precisa fazer nenhum esforço para ofendê-los. Já Mr. Moore, foi o estranho que veio para este distrito, pobre e sem amigos. Ele só tinha sua energia para protegê-lo, só a sua honestidade, a sua fábrica para abrir caminho. Mas, que monstruoso crime não ter sabido mostrar-se agradável, liberal, amistoso para com estes singulares aldeões! Por causa de erros dessa natureza terá que ser vítima do ódio da multidão? Até lhe recusarão o direito de se defender? E os que têm um coração de homem no peito, e Mr. Helstone, diga o que quiser dele, é um desses homens, serão tratados como malfeitores por terem se posto ao lado dele? Por terem feito deles a causa de um contra duzentos?
– Vamos! Vamos! Acalme-se – disse Mr. Yorke, sorrindo do ardor com que Miss Keeldar multiplicava as suas rápidas perguntas.
– Acalmar-me? Vou agora escutar coisas absurdas e ficar calada? Não! Gosto muito do senhor, bem o sabe, mas detesto absolutamente algumas de suas opiniões. Todas essas excitações de um contra o outro, todos esses ódios de partidos, essas tiranias disfarçadas de liberdades, me repugnam e lavo as minhas mãos. O senhor julga-se um filantropo, considera-se um advogado da liberdade, mas digo-lhe uma coisa: Mr. Hall, pastor de Nunnely, é melhor amigo da humanidade e da liberdade do que Mr. Hiram Yorke, o reformista de Briarfield.
Da boca de um homem, Mr. Yorke não teria admitido aquelas palavras e nem da parte de todas as mulheres as teria suportado. Mas achava Miss Keeldar ao mesmo tempo bondosa e bonita, e se divertia vendo-a nervosa. Além disso, era com um secreto prazer que a ouvia defender o seu inquilino, pois, como já deixamos entrever, ele tomara para si os interesses de Robert Moore. Aliás, se quisesse se vingar da severidade de Miss Keeldar, sabia que o meio estava em suas mãos. Uma palavra, pensava ele, bastaria para dominá-la e reduzi-la ao silêncio.
– O que mais tem a dizer? – perguntou ele, enquanto ela se calava, mais para recobrar o fôlego, pois seu discurso não tinha se esgotado. Podia falar horas defendendo o objeto de seu zelo.
– Que mais tenho a dizer-lhe, Mr. Yorke? – respondeu ela, percorrendo a sala de uma extremidade a outra. – Tenho a dizer que as suas ideias e as dos políticos mais avançados só podem ser defendidas por homens que se encontram numa posição irresponsável. Que são ideias vazias da oposição, das quais se fala muito alto, mas que nunca são postas em prática. Se amanhã fizerem do senhor primeiro ministro da Inglaterra, não terá outro remédio senão colocá-las à parte. Censura violentamente Mr. Moore por ter defendido a sua fábrica, mas, se estivesse no lugar dele, a sua honra e o seu bom senso não lhe teriam permitido agir de outra forma. Pergunto-me se há homens tão clementes, tão razoáveis, tão justos, que possam empreender uma reforma. Não creio que o senhor pertença a este grupo.
– Tem má opinião ao meu respeito, Miss Keeldar. Nunca, até então, me mostrara tais sentimentos.
– Nunca tive ocasião de fazê-lo. Considero-o um espécime notável de Yorkshire e tenho orgulho de ter nascido na mesma província e na mesma paróquia que o senhor. Sei que é leal, honesto, independente, mas também é duro, estreito e sem piedade.
– Não para os pobres, minha filha. Não para os humildes da terra. Só para os orgulhosos e os soberbos.
– E que direito tem o senhor de fazer semelhante distinção? Não existe homem mais orgulhoso e mais altivo do que o senhor! Acha fácil falar num tom protetor aos seus inferiores e é excessivamente orgulhoso, ambicioso e invejoso para ser polido com os que estão acima do senhor.
– E para quando é isso? – indagou Mr. Yorke, colocando-se de pé.
– Isso o quê?
– O casamento.
– Qual casamento?
– O de Mr. Robert Moore com Miss Shirley Keeldar, filha e herdeira do falecido Mr. Cave Keeldar, de Fieldhead?
Miss Keeldar corou, mas o brilho dos seus olhos não obscureceu.
– É a sua vingança – disse ela lentamente. E em seguida acrescentou: – Seria um casamento indigno daquela que representa o falecido Mr. Cave Keeldar?
– Minha filha, Mr. Moore é um cavalheiro. O seu sangue é puro e tão antigo como o meu e o seu.
– E nós, também, temos vaidade na antiguidade do sangue? Também temos o nosso orgulho de família, embora, pelo menos, um de nós seja republicano?
Mr. Yorke, que se conservava de pé diante dela, inclinou-se. Os seus lábios não se abriram, mas os olhos confessaram a verdade da acusação. Sim, tinha um orgulho de família, via-se isso em toda a sua atitude.
– Mr. Moore é um cavalheiro – repetiu Miss Keeldar, endireitando a cabeça com alegre graciosidade. Contudo, estava constrangida, seu olhar a denunciava.
Mr. Yorke procurou ler a linguagem nos olhos da moça. Visível, embora intraduzível. Um poema cheio de ardente lirismo numa língua desconhecida. Não era, porém, uma vulgar confissão de amor o que aquele olhar exprimia. Era algo mais profundo, mais obscuro do que supunha Mr. Yorke. Sentiu que a sua vingança errara o alvo e que Miss Keeldar triunfara. Sentiu-se em falta, abatido e desconcertado.
– E se Mr. Moore é um cavalheiro, a menina é, sem dúvida, uma dama de boa família, portanto...
– Portanto, não haveria qualquer desigualdade na nossa união?
– Nenhuma.
– Obrigada pela aprovação. Vão me abandonar quando eu trocar o nome de Keeldar por Moore?
Mr. Yorke, em vez de responder, contemplava-a com o mais profundo embaraço. Não podia adivinhar o que significava aquele olhar, nem se ela estava zombando da sua pessoa ou se falava sério.
– Não a compreendo – disse ele, afastando-se.
Miss Keeldar riu.
– Tenha coragem, senhor. Não é o único que não me compreende. Mas suponho que, se Mr. Moore me compreender, isso me bastará, não é assim?
– Doravante Mr. Moore pode tratar das suas coisas ele mesmo. Não quero me ocupar mais com isso.
Uma ideia nova passou pela mente de Miss Keeldar e a sua atitude mudou como por encanto. Com um olhar mais sombrio, interrogou: – Pediram-lhe a sua interferência? Está fazendo isso a mando de alguém?
– Santo Deus! Quem casar com a menina precisa tomar cuidado! Guarde as suas perguntas para Mr. Moore. Não responderei nada, adeus!
*******
O tempo estava belo. Uma leve névoa, nem fria nem úmida, dava um tom azulado às colinas. Miss Helstone, enquanto Miss Keeldar estava ocupada com as duas visitas, persuadira Mrs. Pryor que colocasse seu chapéu e o xale para ir com ela dar um passeio até a extremidade mais apertada do vale de Hollow.
Mrs. Pryor gostava dos passeios, mas evitava os caminhos frequentados e preferia as veredas afastadas. Contudo, gostava mais de ter uma companheira do que o isolamento absoluto, pois na solidão era mais medrosa e com Miss Helstone nada temia.
Quando se encontrava em meio à natureza, acompanhada pela sua jovem amiga, uma modificação feliz parecia ocorrer no seu espírito, pois seu rosto irradiava-se. Quando estava junto de Miss Caroline, sem outra pessoa presente, dir-se-ia que o seu coração se libertava do fardo que o oprimia. Com ela era alegre, às vezes, terna. Mostrava-se disposta a deixar-lhe adivinhar que vida tinha sido a sua; que cultura recebera; qual era a extensão da sua inteligência; em que momentos e quais os pontos em que os seus sentimentos eram vulneráveis.
Nesse dia, por exemplo, durante o passeio, Mrs. Pryor falou à sua companheira sobre a numerosa variedade de aves que cantava nas árvores, descreveu os seus espécimes, assim como os seus hábitos e suas particularidades. A história natural da Inglaterra também lhe era familiar. Conhecia todas as flores bravias que orlavam o caminho, as mais insignificantes plantas que cresciam entre as pedras, ou nas fendas dos velhos muros, plantas a que Miss Helstone nunca prestara atenção. Sabia dar um nome e indicar as suas propriedades.
Quando chegaram ao alto da encosta, sentaram-se num banco de rocha cinzenta e coberto de musgo. Mrs. Pryor olhou à sua volta, falou dos arredores como se já tivesse visto aquilo em outra época e comparou o seu aspecto com o das outras partes da Inglaterra.
A atitude ao mesmo tempo respeitosa e encantada com que Miss Helstone a escutava excitou as faculdades da preceptora, que se deixou arrastar para uma enternecida animação.
Com um tom de interesse um pouco mais acentuado do que habitualmente, disse, inclinando-se para a jovem companheira e afastando-lhe da testa uma mecha de cabelo que fugira do pente:
– Espero que o ar vivo que sopra desta montanha lhe faça bem, minha querida Caroline. Gostaria de ver um pouco mais de cor nessas faces... Diga-me: nunca possuiu uma face rosada?
– Outrora tinha faces rosadas – respondeu, sorrindo, Miss Helstone. – Lembro-me de que há um ano ou dois eu tinha as faces mais redondas, pois quando somos novas – acrescentou a moça de dezoito anos – o nosso espírito está despreocupado e a nossa vida é tranquila.
– Mas na sua idade – continuou Mrs. Pryor, vencendo a sua própria timidez – já se preocupa com o futuro? Isso faz mal, minha querida! Só tem dezoito anos. Deixe as coisas do amanhã para o amanhã.
– Mas, minha querida senhora, não é isso o que me atormenta. O mal do presente me oprime, às vezes, excessivamente, e desejaria ardentemente me libertar dele.
– O mal do presente... é... o seu tio? Talvez não seja... tem dificuldade em compreendê-lo? Ele não sabe apreciar...
Mrs. Pryor não pôde completar as falas. Não conseguiu formular a frase nem a hipótese de que Mr. Helstone seria demasiado duro para com a sobrinha, mas Miss Helstone compreendeu.
– Oh! Não é isso! – replicou ela. – Meu tio e eu nos entendemos muito bem. Nunca discutimos e não posso acusá-lo de ser duro, pois ele nunca me censura. Às vezes desejo que haja alguém que goste de mim, mas não posso dizer que desejo que ele tenha por mim mais afeição do que demonstra. Mas, sabe, Mrs. Pryor, quase não é viver ficar medindo o tempo como eu faço no presbitério. As horas passam, encho-as de uma maneira ou de outra, mas não vivo. Suporto a existência, mas não a gozo. Desde que Miss Keeldar e a senhora chegaram aqui, tenho sido... ia dizer mais feliz, mas não seria verdade.
Calou-se.
– Como! Não seria verdade? Mas você gosta da Shirley, não é verdade, minha querida?
– Gosto e muito. Gosto e admiro, mas estou numa situação penosa devido a uma causa que não posso lhe explicar, preciso me afastar desse lugar, e esquecer tudo por aqui.
– Já me disse que desejava ser preceptora, mas, minha querida, se bem se recorda, não a estimulei nesse propósito. Fui preceptora durante grande parte da minha vida. Hoje, considero-me feliz por ter conhecido Miss Keeldar. O seu talento e a sua disposição tornaram mais fáceis as minhas tarefas. Mas, quando eu era nova, antes de ter-me casado, as minhas experiências foram penosas. Não desejaria que passasse por aquilo. Coube-me certa vez a falta de sorte de entrar para uma família com grandes pretensões de nascimento e de superioridade intelectual, cujos membros se julgavam todos ‘especialmente dotados de graças cristãs’ e que seus corações estavam regenerados e os seus espíritos num estado especial de disciplina. Não tardaram a dar-me a entender que, como não era igual a eles, eu não devia contar com a sua simpatia. Até os criados me detestavam. Por quê? Eu nunca soube. A minha vida nessa casa foi sedentária, isolada, constrangida, sem alegria, e a minha constituição não tardou a sofrer com tal forma de vida: adoeci. A dona da casa me disse friamente que eu fui vítima de ‘vaidade ferida’. Ela me deu a entender que, se eu não fizesse um esforço para acabar com o meu ‘descontentamento ímpio, cultivasse uma profunda humildade condizente com a minha função, minha mente, muito provavelmente, cairia aos pedaços sobre a rocha da mórbida autoestima’; e que eu deveria morrer como uma ‘detenta de um manicômio’. Eu não disse nada para Mrs. Hardman; teria sido inútil; mas à sua filha mais velha, Miss H., eu um dia lhe deixei cair algumas observações, as quais foram respondidas de uma forma que me faz sorrir agora ao recordar: ‘Governantas’, ela observou, ‘devem sempre ser mantidas numa espécie de isolamento, pois é o único meio de manter a distância que a reserva, o decoro e os costumes ingleses exigem’. Eu me lembro, eu apenas suspirei, mas Miss Hardman disse severamente: ‘Eu temo, miss, que você tenha herdado a mais completa medida do pior pecado da nossa natureza decaída, o pecado do orgulho. Você é orgulhosa, e, portanto, uma ingrata também. Mamma lhe paga um salário considerável, e você tem que suportar tudo o que é fatigante e cansativo, uma vez que é seu dever.’
– Miss Hardman, meu amor, era uma jovem da aristocracia, muito forte de espírito, que decididamente se achava numa classe muito superior, você sabe, tanto física, moralmente e mentalmente. Eu não saberia descrever a dignidade de sua voz e o seu semblante quando ela se dirigia a mim. Ainda, temo eu, que ela fosse egoísta, minha querida. Eu nunca iria querer falar mal dos meus superiores hierárquicos, mas eu acho que ela era um tanto egoísta. Eu me lembro – continuou Mrs. Pryor depois de uma pausa – de outra de Miss H. Algumas de suas observações que ela proferia com um ar bastante arrogante. ‘Nós’, dizia: ‘Nós precisamos das imprudências, das extravagâncias, dos erros e dos crimes de certo número de pais para semear a semente da qual a colheita será de governantas. As filhas dos comerciantes, por mais bem-educadas, devem ser necessariamente malcriadas, e, como tal, incapazes de ser responsáveis pelas mentes das nossas crianças. Nós nunca devemos preferir colocar sobre nossa prole quem nasceu e foi criado com um pouco do mesmo requinte que nós mesmos.’
– Miss Hardman devia se achar melhor do que as outras criaturas, minha senhora, já que ela considerou que suas calamidades, e até mesmo crimes, eram necessárias para ministrar à sua conveniência. Você diz que ela era religiosa: a religião dela deve ter sido a mesma do fariseu, que agradeceu a Deus por ele não ser como os demais homens, nem mesmo como um publicano.
Mrs. Pryor fez uma leve pausa e continuou:
– Assim, minha querida, recordando a minha própria existência, não posso impedir de pensar que, se caísse numa família semelhante, lutaria corajosamente no começo, depois começaria a definhar e ficaria débil demais para poder desempenhar o seu cargo. Voltaria para casa quebrada, se ainda tivesse casa. Depois teria anos pela frente para lamentar esse período e viria a consumação. É a história de milhares de existências. Eu não queria que fosse assim com você, minha querida. Vamos caminhar mais um pouco?
Ambas se ergueram e percorreram um terreno natural e verdejante que orlava um profundo regato.
– Minha querida – disse pouco depois Mrs. Pryor, ainda tímida e embaraçada – as moças, principalmente aquelas as quais a natureza favoreceu, muitas vezes, frequentemente, antecipam, isto é, pensam em casamento como a realização das suas esperanças...
Deteve-se e levou sua mão ao peito. Miss Helstone acudiu-a prontamente, demonstrando calma, pois Mrs. Pryor estava muito embaraçada perante o assunto abordado.
– Sim. É verdade. Pensam nele e é bem natural – respondeu ela, com calma e firmeza que fizeram estremecer Mrs. Pryor. Miss Helstone continuou: – Elas consideram o casamento com alguém que amam como o mais feliz, como o único destino que lhes possa estar reservado. Fazem mal?
– Oh! Minha querida – exclamou Mrs. Pryor juntando as mãos. Calou-se. Miss Helstone lançou um olhar perscrutador ao rosto da mulher. Viu muita agitação. – Minha querida – acabou ela por murmurar – a vida é uma ilusão!
– Mas não o amor! O amor é uma coisa real, duradoura, doce e, contudo, a mais amarga que conhecemos – disse Miss Helstone.
– Muito amarga, minha querida! Dizem que é poderoso como a morte. Quanto à sua doçura, não há coisa mais fugitiva. O seu espinho fica para sempre e tortura cruelmente.
– Sim, tortura – disse Miss Helstone – a menos que se trate de um amor retribuído.
– Amor retribuído, minha querida! Os romances são perniciosos. Não os lê, espero!
– Por vezes. Sempre que os consigo. Mas os romancistas não devem saber nada de amor, a julgar pela maneira que falam dele.
– Absolutamente nada, minha querida – respondeu com vivacidade Mrs. Pryor – e tampouco do casamento. E todas as descrições que eles fazem desses assuntos só merecem severa condenação. Não se assemelham em nada à realidade. Mostram apenas a superfície verdejante e tentadora do pântano e não refletem uma verdadeira ideia do lamaçal que ele cobre.
– Mas o lamaçal nem sempre existe – objetou Miss Helstone. – Existem casamentos felizes! Quando existe uma afeição recíproca e sincera e as inteligências estão em harmonia, o casamento deve ser feliz.
– Nunca o é completamente. Mais vale não correr o risco. Pode-se cometer um erro fatal. Considere-se satisfeita, minha querida, e que todas as pessoas solteiras se considerem satisfeitas com a sua liberdade.
– É o eco das palavras do meu tio! – exclamou Miss Helstone, num tom que quase exprimia espanto. – A senhora fala como Mrs. Yorke nos seus momentos de humor sombrio, como Mrs. Mann quando está nos seus dias de hipocondria. É terrível!
– Não, apenas verdadeiro. Oh! Criança, que ainda só viveu a agradável manhã da vida! Diz que Mr. Helstone fala; mas eu gostaria de saber como falava Mrs. Matthewson Helstone, se fosse viva. Ela morreu! Morreu!...
– Ai de mim! E a minha própria mãe e meu pai!... – exclamou Miss Helstone. – Nunca lhe disse que eles tinham se separado?
– Escutei falar disso.
– Portanto, devem ter sido infelizes.
– Pois vê que todos os fatos provam a verdade do que lhe digo.
– Mas o seu próprio casamento, Mrs. Pryor!
Mrs. Pryor ficou perturbada e passou por ela com um estremecimento, como se um dedo rude lhe tivesse comprimido um nervo descoberto. Miss Helstone compreendeu que tocara num ponto doloroso.
– O meu casamento foi infeliz, mas, contudo... – disse a preceptora, juntando toda a sua coragem, mas, hesitou.
– Mas... contudo... – repetiu Miss Helstone.
– Não foi totalmente desgraçado – complementou Mrs. Pryor. – Pelo menos nos seus resultados não foi desastroso – disse ela num tom mais doce. – Aliás, eu sou uma natureza excepcional, concordo: o meu gênio não é fácil. Não sou acomodada, sou excêntrica em alguns pontos. Nunca deveria ter me casado. Conhecia perfeitamente a minha inaptidão para a vida em comum e, se não tivesse sido infeliz como preceptora, nunca teria me casado. E depois...
O olhar de Miss Helstone pedia-lhe que continuasse.
– E depois, minha querida, M..., quer dizer, o homem com quem me casei, tinha, talvez, um caráter mais excepcional que o mais incomum dos homens. Ao menos, espero que poucas mulheres tenham sentido tanto sofrimento como eu. Pouco faltou para que me abalasse o juízo. Mas não é a minha intenção desanimá-la. Desejo apenas colocá-la em sobreaviso.
– Obrigada, minha querida senhora. Compreendo perfeitamente as suas boas intenções. Contudo, não há perigo de que eu caia no erro que me aponta. Não tenho, pelo menos, ideia alguma de me casar e, por esse motivo, tenho necessidade de criar uma posição para minha sobrevivência.
– Escute-me, minha querida. Refleti profundamente sobre o que vou lhe dizer. Desde que a ouvi manifestar o desejo de obter uma situação, pensei a respeito. Sabe que vivo bem com Miss Keeldar na qualidade de dama de companhia. Se ela vier a se casar, e muitas circunstâncias me induzem a pensar que será dentro em breve, eu deixo de lhe ser útil nessa qualidade. Devo dizer-lhe que possuo uma pequena fortuna, que em parte provém das minhas economias e em parte dum legado que recebi há alguns anos. Quando deixar Fieldhead, terei uma casa minha; mas não me seria possível viver na solidão. Não é preciso dizer-lhe que tenho muita dedicação pela menina, a sua companhia seria para mim um privilégio precioso, uma consolação, um bálsamo. Viria então viver comigo? Seria capaz de recusar esta oferta, Caroline? Penso que gosta um pouco de mim e gostará mais quando me conhecer intimamente.
Depois deste desabafo abrupto, ela se calou.
– Decerto que gosto muito da senhora – respondeu Miss Helstone. – Gostaria muito de viver com você, mas a sua bondade é excessiva.
– Tudo quanto tenho lhe deixarei – acrescentou Mrs. Pryor. – Teria seu futuro assegurado. Mas não me diga nunca que sou excessivamente bondosa. Corta-me o coração, minha filha!
– Mas, minha querida senhora, essa generosidade... eu não tenho direito algum...
– Não! Não deve pensar assim. Há coisas que não podemos falar. Oh! É tarde para começar, mas talvez eu ainda possa viver alguns anos. Não posso apagar completamente o passado, mas pode ser que algo no futuro me pertença.
Mrs. Pryor parecia profundamente agitada. Grossas lágrimas escorriam por sua face. Miss Helstone beijou-a com os seus modos afáveis e carinhosos, dizendo-lhe:
– Amo-a ternamente. Não chore.
Entretanto, a pobre mulher parecia abalada até o mais íntimo de seu ser. Sentou-se, inclinou a cabeça sobre os joelhos e continuou a chorar profundamente. Por fim, a sua dor acalmou-se.
– Pobre criança! – murmurava ela, retribuindo o beijo de Miss Helstone – Pobre cordeirinho solitário! Mas vamo-nos, é preciso voltar para casa.
Durante algum tempo Mrs. Pryor caminhou apressadamente, foi se acalmando e gradualmente voltou ao seu estado normal, depois voltou ao passo habitual. Quando chegaram a Fieldhead, havia recuperado o seu aspecto calmo e tímido.
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