Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 31 de 38

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Shirley

Capítulo XXXI

 

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Tio e Sobrinha

 

Os dados estavam lançados. Sir Philip o sabia; Miss Shirley Keeldar também; aquela noite em que toda a família de Fieldhead jantou no Priorado de Nunnely decidiu o caso.

Duas ou três coisas levaram Sir Philip a declarar-se. Tinha notado que Miss Keeldar andava com o ar doente e pensativo. Aquela sua nova fase, a sua maneira de ser fragilizada, havia impressionado seu lado fraco, seu lado poético; um soneto espontâneo, de repente, fermentou-lhe no cérebro.

Havia na sala de visitas um reduto profundo, com uma janela que era como um quarto dentro do outro. Ali duas pessoas podiam ter uma conversa inteiramente secreta, desde que não falassem muito alto.

Sir Philip convenceu duas das irmãs a cantarem um dueto; arranjou entretenimento para as misses Sympson, e as senhoras mais velhas conversavam uma com as outras. Ele tinha uma história a lhe dizer a respeito de um dos seus antepassados de sombria beleza, aproximou-se dela e começou sua narração.

Havia numa espécie de vitrine, colocada em frente ao reduto, objetos que tinham pertencido à mesma mulher e, enquanto Miss Keeldar parava para examiná-los, Sir Philip deteve-se também e murmurou-lhe algumas frases rápidas.

A princípio Miss Keeldar foi tomada de tal imobilidade que se poderia crer que a magia daquele murmúrio fizera dela uma estátua, mas não tardou a erguer os olhos e a responder. Separaram-se. Miss Keeldar voltou ao seu lugar junto ao fogo; apenas Mr. Sympson tinha notado o incidente. Superficial, impaciente e teimoso como sempre, voltou triunfante para Fieldhead.

Contudo, não era homem para guardar segredos; quando estava orgulhoso de alguma coisa, não podia deixar de falar dela. No dia seguinte de manhã, tendo ocasião de empregar o preceptor do filho como secretário, anunciou-lhe, com uma entonação e modos inchados de vaidade, que era melhor ir-se preparando para voltar dentro em breve para o Sul, visto que um importante negócio que o retivera em Yorkshire durante tanto tempo estava em vésperas de ter a mais feliz conclusão, e que uma honrosa aliança estava a ponto de aumentar as relações da família.

Durante um ou dois dias Mr. Sympson mostrou-se macio como veludo, mas ao mesmo tempo, à medida que o segundo dia terminava, começou a ficar ansioso e parecia andar sobre brasas. Espreitava continuamente à janela procurando ouvir o rodar de uma carruagem.

Por fim veio uma carta. Ele próprio a entregou a Miss Keeldar; conhecia aquele sinete, mas não assistiu à leitura, pois a moça levou a carta para seu quarto. Ele também não viu a resposta. Perguntou à sobrinha se ela havia respondido e ela disse que sim.

Ele continuou a esperar, sem coragem para perguntar, pois havia uma expressão no rosto de Miss Keeldar, algo para ele inviolável. Teve por mais de uma vez a ideia de fazer um apelo ao seu filho Harry para saber o que se passava, pois este era muito amigo da sobrinha, mas as conveniências proibiam-lhe e o próprio Harry andava com ar de um aluno para quem as gramáticas são confusas e os dicionários mudos.

Entediado, Mr. Sympson tinha ido passar uma hora com os amigos de Walden-Hall. Voltou mais cedo do que esperava; a família dele e Miss Keeldar estavam reunidas na sala forrada de carvalho. Dirigindo-se a Miss Shirley, pediu que passasse com ele para a outra sala, porque desejava ter uma conversa estritamente particular.

Miss Keeldar ergueu-se sem lhe fazer qualquer pergunta nem manifestar surpresa. Fechados no salão, instalou-se cada um em sua poltrona, um em frente do outro, a alguns passos de distância.

– Fui a Walden-Hall... – disse ele. Fez uma pausa. Miss Keeldar tinha os olhos fitos no lindo tapete verde e branco. Não era coisa que merecesse qualquer comentário.

– Soube... – continuou ele, lentamente – de um fato que muito me surpreendeu.

Apoiando a face no indicador, ela esperou que ele lhe fizesse saber do que se tratava.

– Parece que o Priorado de Nunnely está fechado e que a família regressou à sua habitual residência. Parece que o barão... que Sir Philip em pessoa acompanhou sua mãe e as irmãs.

– Na verdade? – objetou Miss Keeldar.

– É uma novidade para você?

– Sim, senhor.

– Preciso... Preciso... – prosseguiu Mr. Sympson, agitando-se na cadeira – preciso ter uma explicação completa. Insisto em... em interrogar à minha maneira. Quero obter as respostas às minhas perguntas. Mas, bem entendido... quero respostas claras e satisfatórias. Eu acreditando que tudo ia bem e lá se foi a família embora...

– Suponho, senhor, que tenham todo o direito de ir embora!

– Sir Philip foi-se embora – bradou Mr. Sympson.

Miss Keeldar levantou as sobrancelhas.

– Que faça boa viagem – comentou ela.

– Isto não vai ficar assim! Isto terá volta, menina! – Mr. Sympson arrastava a cadeira para trás e para a frente, parecia furioso e indeciso.

– Vamos, vamos, meu tio – aconselhou Miss Keeldar – não comece a se agitar e a irritar-se, pois desse jeito não se consegue nada de útil. Pergunte-me aquilo que quer saber. Eu também lhe quero pedir uma explicação e prometo respostas claras e verdadeiras.

– Eu quero saber, peço para saber, Miss Keeldar, se Sir Philip lhe fez proposta de casamento?

– Fez, sim, senhor.

– Em seguida recebeu uma carta dele. O que dizia?

– Pouco importa.

– Menina! Então isso é maneira de falar?

Miss Keeldar batia o pé no tapete.

– Prometeu respostas verídicas e está silenciosa e irritada.

– Respondi-lhe até agora, senhor. Continue.

– Gostaria de ver essa carta.

– Não posso mostrá-la.

– Devo vê-la e vou vê-la, menina! Sou seu tutor.

– Já não é mais meu tutor. Deixei de ser menor. Lembra-se?

– Ingrata! Educada por mim como se fosse minha própria filha...

– Uma vez mais, meu tio, peço-lhe que tenha a bondade de não se afastar do assunto. Conversemos a sangue-frio. Não tenho vontade nenhuma de me irritar. Mas, como sabe, quando me fazem sair de certo limite, deixo de pesar as palavras. Escute! Perguntou-me se Sir Philip me tinha oferecido a sua mão: já respondi. O que quer mais saber?

– Desejo saber se aceitou ou recusou.

– Certamente que vai saber: recusei.

– Recusou? Miss Shirley Keeldar recusou a mão de Sir Philip de Nunnely?

– Sim, recusei.

O pobre homem deu um salto da cadeira e correu desorientado pela sala.

– Aí está, aí está, aí está!

– Na verdade, tio, custa-me vê-lo tão desapontado. As concessões e a contrição não dão resultado com certas pessoas.

– Eu, desapontado? Que me importa isso! Que interesse eu teria nesse casamento? Por um acaso está insinuando que eu tenho motivos?

– A maior parte das pessoas tem motivo para seus atos.

– E ela acusa-me na minha cara! A mim, que fui um pai para ela! Vai se arrepender. Quais são as suas intenções, Miss Keeldar?

– Quero que me deixem em paz e só farei aquilo que eu desejar.

– A miss lê livros demais! Livros franceses. O seu espírito está envenenado pelos romances franceses. Está imbuída de princípios franceses!

– Mr. Sympson, não admitirei expressões insultuosas. Tome cautela.

– Isto há de acabar em desonra, mais cedo ou mais tarde! Eu tinha previsto isto desde o início.

– Pretende o senhor dizer que qualquer coisa do que diz respeito a mim vai acabar em desonra?

– Sim, sim. Ainda agora disse que só faria aquilo que bem entendesse. Não conhece regras nem limites.

– Está me cansando, meu tio.

– Em suma, menina, que razões pode ter tido para recusar a mão de Sir Philip?

– Ora, aí está finalmente uma pergunta sensata. Irei respondê-la com prazer: Sir Philip é demasiado jovem para mim, considero-o uma criança. Todos os seus, sobretudo a sua mãe, ficariam contrariados se eu me casasse com ele. Tal casamento haveria de levá-lo a se zangar com sua família. Aos olhos do mundo, não sou igual a ele e os nossos temperamentos não se harmonizam.

– Como assim? Não há pessoa mais tratável!

– Ele é muito tratável, é excelente. Na verdade, uma pessoa estimável, mas não é meu ideal em nada. Eu não o poderia fazer feliz e nem por todo ouro do mundo aceitaria tal encargo. Nunca aceitarei senão a mão que me possa dominar.

– Eu que pensava que gostasse de fazer as suas vontades, agora a acho uma inconsequente...

– Quando eu prometer obediência, será na convicção de poder cumprir tal promessa; nunca poderei a um moço como Sir Philip. Aliás, ele nunca pretenderia dominar-me; descansaria sempre em mim o cuidado de governar; de guiar; e não tenho a menor queda para tal função.

– Não tem nenhuma queda para dominar, para submeter, para dar ordens, para governar?

– Ao meu marido, não, somente ao meu tio. E sei muito bem que qualquer homem que pretenda viver feliz e em paz comigo, como marido, deverá ser capaz de me dirigir.

– Gostaria que lhe aparecesse um verdadeiro tirano.

– Um tirano não poderia me segurar nem por um dia, nem sequer por uma hora. Revoltar-me-ia; abandoná-lo-ia; desafiá-lo-ia!

– Disse que Sir Philip era muito novo, mas ele tem vinte e dois anos!

– O homem para ser meu marido deverá ter trinta anos e razão dos quarenta.

– Poderia arranjar qualquer velhote e trazê-lo para você com uma trela.

– Isso faria eu, sem dúvida, se casasse com uma criança, mas eu não tenho vocação para tal coisa. Não lhe disse que preferia um senhor, um homem, cuja autoridade seja reconhecida pelo meu temperamento impaciente, ou um homem ao qual me parecesse impossível não amar e muito possível temer.

– O que a impede de ter tudo isso em Sir Philip? É um titular, é rico, pertence a um meio que está acima do seu. Fala em inteligência? Mas ele é poeta, faz versos. A miss e o Harry adoram poesia!

– Oh, meu tio, nada há com valor neste mundo, nada há de valor que não tenha poesia!

– Pronto... pronto... case-se então com um poeta: Sir Philip!

– Mas de modo algum! O senhor é quase tão poeta quanto ele.

– A menina está fugindo da questão.

– Na verdade, meu tio, quem me dera fugir dela e fazê-lo sair comigo.

– Basta de brincadeiras, menina! Trata-se de uma coisa séria e que estou decidido a esclarecer. Acaba de me descrever, com muito mais liberdade do que convém à sua idade e ao seu sexo, a espécie de indivíduo que preferiria como marido. Queira dizer-me, peço-lhe, se essa descrição é tirada de alguém?

Miss Keeldar entreabriu os lábios, mas em vez de falar, ficou vermelha como uma rosa.

– Quero uma resposta à minha pergunta – gritou o tio.

– É uma descrição histórica tirada de vários livros.

– Vários livros? Santo Deus!

– Estive apaixonada várias vezes.

– Mas isso é cinismo.

– Outrora amei Sócrates... depois Temístocles, Leônidas, Epaminondas.

– Miss Keeldar!

– Passo vários séculos em claro. Washington era bastante feio e, contudo, amei-o. Finalmente, para falar do presente... para revelar o atual ídolo da minha alma...

– Despache-se, por favor, é a hora do almoço e quero ouvir antes a sua confissão.

– Tenho de me confessar; o meu coração simplesmente transborda; gostaria que, em vez de ser Mr. Sympson, o senhor fosse Mr. Helstone. Havia de me compreender melhor e dar-me a sua absolvição.

– Menina, isto é uma questão de senso comum e não de compreensão e sentimento. Disse que era Mr. Helstone?

– Não, não é bem; mas, em suma, não deixa de ter certa semelhança.

– Quero saber o nome e os pormenores.

– São, na verdade, parecidos. Tem o mesmo rosto; um par de falcões humanos, secos, diretos e decididos. Mas o meu herói é o mais poderoso dos dois. A sua inteligência tem a transparência do mar; a paciência dos rochedos; a força dos redemoinhos.

– Miss Keeldar, essa pessoa reside em Briarfield? Responda a isto.

– Meu tio, vou lhe dizer; o nome dele tremeu na ponta da minha língua.

– Fale, minha filha!

– Muito bem dito, meu tio! “Fale, minha filha”, é perfeitamente trágico. A Inglaterra uivou ferozmente contra esse homem, meu tio, mas um dia hão de aclamá-lo com frenesi. Vamos, deixe de ficar tão agitado, meu tio, vou lhe dizer o nome dele.

– Há de dizê-lo, ou então...

– Ouça! É Arthur Wesllesley, lorde Wellington.

Mr. Sympson ergueu-se furioso, saiu da sala num salto, mas voltou imediatamente, fechou a porta e retornou ao seu lugar.

– A menina vai responder-me: os seus princípios permitem-lhe desposar um homem sem fortuna, um homem que esteja abaixo de você?

– Um homem que esteja abaixo de mim, nunca!

– Miss Keeldar – replicou ele, falando muito alto – seria capaz de se casar com um homem pobre?

– Mas com que direito me faz tal pergunta?

– A respeitabilidade da minha família não pode ser comprometida.

– É uma resolução excelente; não deixe de mantê-la. Mas isso é impossível, meu caro senhor, porque não faço parte da sua família.

– Com quem irá se casar, Miss Keeldar?

– Nem com Sam Wynne, pois o desprezo; nem com Sir Philip, por quem tenho apenas estima.

– Semelhante obstinação é inexplicável a não ser que esteja sob uma influência indesejável.

– Que quer dizer? Há certas frases que têm o condão de colocar meu sangue a ferver. Influência indesejável! Que vem a ser essa expressão de velhote?

– Lembre-se de que é uma senhora.

– Sou mil vezes melhor do que isso. Sou uma mulher honesta e como tal quero ser bem tratada.

– Sabe que a vizinhança – disse ele, inclinando-se misteriosamente para a frente e falando com aterradora solenidade – está cheia de intrigas a seu respeito e do seu caseiro falido, o estrangeiro Mr. Moore?

– Não me diga!

– É verdade, o seu nome anda em todas as bocas.

– Honrará os lábios por onde passa, oxalá possa purificá-los!

– Terá esse homem o poder de influenciá-la?

– Mais do que todos aqueles cujas causas o senhor tem defendido.

– É com ele que pretende desposar-se?

– Ele é belo, valente, decidido.

– Atreve-se a declarar isso na minha cara? Esse miserável flamengo! Esse vil negociante!

– É portador de grandes talentos, é ousado e cheio de coragem. Tem uma testa de príncipe e caminha com o aprumo de um cavalheiro.

– E ela ainda o gaba! Não esconde nada. Não tem vergonha, nada receia!

– Quando se pronuncia o nome de Mr. Moore, não se deve ter qualquer ideia de vergonha nem de receio. Os Moore’s só conhecem a honra e a coragem.

– Eu digo que ela está doida!

– Foi o senhor que causou isso. Exasperou-me com suas provocações.

– Esse Mr. Moore é irmão de certo preceptor de meu filho. Permitiria que um homem nessa posição lhe desse o nome de irmão?

– Mr. Sympson... essas suas inconveniências causam-me náuseas, fazem mal ao meu coração. Não vemos as coisas pelo mesmo prisma. Não nos medimos pela mesma medida; não falamos a mesma língua. É melhor colocarmos um ponto final nessa conversa... Isto não quer dizer – prosseguiu ela, vivamente agitada – que eu o deteste; a sua massa é boa; talvez o senhor tenha excelentes intenções, mas não podemos nos entender. O senhor me enche com suas intriguinhas medíocres, com sua mesquinha tirania. Quanto às suas máximas, os seus preconceitos, os seus dogmas, faça com eles um feixe e vá oferecê-los em holocausto à divindade do seu culto. Dele eu não aceito nada. Dirijo-me a outro Deus, a outra luz, a uma esperança diferente da sua.

– Uma ateia!

– O seu deus, meu caro senhor, é o mundo, o dinheiro. Olhe a sua obra favorita: fazer casamentos vantajosos. Ligar o que é jovem com o que é velho; o que é forte com o que é imponente...

– Essa linguagem é terrível... As minhas filhas não devem mais ter relações com a menina. O seu convívio é um perigo para elas. Se eu a tivesse reconhecido mais cedo! Mas, por mais extravagante que eu a considerasse, nunca teria pensado...

– Então começa a entender agora, senhor, que é inútil fazer projetos para mim. Está persuadido de que quem semeia vento provoca tempestade. Varro os seus projetos do meu caminho para poder passar sem me sujar. Deitei a âncora a uma resolução que o senhor não pode abalar. O meu coração e a minha consciência é que me guiarão.

Mr. Sympson estava aterrado.

– Nunca ouvi semelhante linguagem! – murmurou ele várias vezes. – Nunca fui tratado desta maneira.

– O senhor está transtornado. Será melhor retirar-se ou saio eu.

Ele levantou-se precipitadamente.

– Temos de deixar esta casa. É preciso fazermos as malas imediatamente.

– Não atrapalhe tanto a tia e as primas. Dê-lhes tempo.

– Acabaram as nossas relações. Você não é digna delas...

Dirigiu-se para a porta; voltou para buscar o lenço; deixou cair a caixa de rapé. Ao precipitar-se outra vez para fora, tropeçou em Tártaro, que estava deitado no tapete da entrada. No alto da sua exasperação, rogou uma praga ao cão e preferiu um qualitativo brutal a respeito de sua dona.

“Pobre Mr. Sympson! É ao mesmo tempo fraco e grosseiro”, pensou Miss Keeldar. “Sinto-me oca. Estou tão cansada” e, descansando a cabeça numa almofada, passou, docemente, da agitação ao repouso. Alguém, entrando na sala um quarto de hora depois, encontrou-a adormecida. O intruso deteve-se:

– Miss Keeldar!

A voz dele veio completar o sonho da adormecida; ela não estremeceu e mal despertou; sem abrir os olhos, voltou ligeiramente a cabeça; estava rosada e um vago sorriso espalhava-se em sua face, contudo, os cílios estavam úmidos, chorara ao dormir, ou talvez, antes de adormecer. O epíteto que o tio lhe lançara talvez tivesse feito correrem algumas lágrimas. Não há ninguém que seja suficientemente forte para desprezar justa opinião, para desdenhar uma palavra ultrajosa.

– Miss Keeldar! – disse novamente a voz. Desta vez ela despertou. Ergueu os olhos e encontrou os de Louis Moore, não junto dela, mas de pé a três ou quatro passos de distância.

– Oh! Tive medo de que fosse outra vez o meu tio. Estivemos brigando outra vez.

– Mr. Sympson devia deixá-la em paz. Então ele não vê que a miss está longe de ser forte?

– Garanto-lhe que ele não me achou fraca. Não chorei enquanto ele esteve aqui.

– Está prestes a abandonar Fieldhead – disse ele. – Foi à sala de estudos, onde deu as suas ordens de uma maneira que, suponho eu, seja igual à que usou para atormentá-la.

– O senhor e o Harry também vão embora?

– Parece-me, pelo o que diz respeito ao Harry, que era esse o significado daquelas ordens quase ininteligíveis. Mas, amanhã, tudo pode mudar. Duvido de que ele a deixe antes de algumas semanas. A mim ele dirigiu algumas palavras que hão de exigir comentários quando eu tiver tempo. No momento em que ele entrou, eu estava muito ocupado com uma carta que acabara de chegar da parte de Mr. Yorke. Tão ocupado que cortei a conversa de uma maneira abrupta, o que o deixou furioso. Aqui está a carta, queria que a lesse. Trata-se do meu irmão, Robert.

E Louis olhou para Miss Keeldar.

– Gostaria de ter notícias dele. Está de volta?

– Já voltou; está no Yorkshire. Mr. Yorke foi ontem ao encontro dele em Stilbro. Neste momento ele está em Briarmains. Vou vê-lo.

– O que aconteceu?

– Se empalidece assim, arrependo-me de ter lhe falado. Podia ter acontecido uma grande desgraça, ele sobreviveu, mas está gravemente ferido.

– Oh! Mas é o senhor que está pálido. Sente-se aqui.

Miss Keeldar leu a carta. Dizia, em termos breves, que, na véspera, Robert Moore fora atingido por um tiro disparado de trás de um muro de plantações, em Mildean; que o ferimento era grave, mas que se esperava que não fosse mortal. Do criminoso ou dos criminosos nada se sabia, pois tinham fugido. Era, sem dúvida alguma, vingança.

– É o meu único irmão, Miss Keeldar – comentou Louis, quando ela lhe devolveu a carta. – Não posso lembrar-me sem me sentir impressionado de que tentaram matá-lo como se fosse um animal feroz.

– Tenha coragem e confie. Ele há de se curar.

Miss Keeldar, desejosa de consolá-lo, pousou a mão sobre a de Louis, apoiada no braço da cadeira.

– Sim, dê-me a sua mão – disse ele – será a primeira vez e num momento de calamidade – e, sem esperar consentimento ou recusa, apoderou-se daquilo que pedia.

– Vou a Briarmains – continuou. – Peço que vá ao presbitério e diga a Caroline Helstone o que aconteceu. É melhor que ela o saiba da sua boca.

– Vou imediatamente. Irei também ver sua irmã, mas decerto ela já está junto de Robert.

– Decerto, ou não tardará. Até breve!

– Terá coragem, aconteça o que acontecer?

– Veremos – respondeu ele, sério.

“Eu que pensava que teria de animá-la”, pensava Louis a caminho de Briarmains, “e foi ela que animou a mim. Que compaixão! Que doce contato! A mão dela na minha parecia um floco de neve, eletrizava-me como um raio. Mil vezes tenho desejado aquela mão! Tê-la entre a minha; agora, sim, tive-a. Tive-a durante cinco minutos. Os seus dedos e os meus nunca mais poderão ser estranhos uns aos outros. Tendo-se encontrado uma vez, novamente terão que se encontrar.”

 

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