Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 11 de 38

Páginas do PDF

Shirley

Capítulo XI

 

OceanofPDF.com

Fieldhead

 

Ainda assim Miss Helstone recusou-se mansamente a se sucumbir. No seu jovem coração havia uma grande força nativa e ela soube utilizá-la. Tanto os homens como as mulheres nunca combatem mais rijamente do que quando lutam sozinhos, sem testemunhas, sem conselheiros, sem confidentes, sem terem ninguém para encorajá-los, dar-lhes conselhos ou lamentar por eles.

A jovem Miss Helstone estava nessa situação. Os seus sofrimentos eram o seu único aguilhão e, sendo reais e afiados, despertaram seu espírito profundamente e sua coragem. Decidida a ter vitória sobre uma dor mortal, ela fez o seu melhor para abafá-la. Nunca tinha estado tão ocupada, tão estudiosa e, acima de tudo, tão ativa. Saía com todo tipo de tempo e dava longas caminhadas em lugares solitários.

Dia após dia ela voltava para casa à noite, pálida, todavia sem parecer fatigada, pois, logo que ela tinha tirado o chapéu e o xale, em vez de descansar, começava a andar pelo seu quarto e só se sentava quando estava literalmente desfalecendo. Ela dizia que fazia isso para cansar-se bem, pois assim ela poderia dormir tranquilamente à noite. Mas, se esse era seu objetivo, era inatingível, pois à noite, quando os outros dormiam, ela revolvia-se na cama parecendo se esquecer da necessidade de se buscar repouso. Muitas vezes, infeliz, ela punha-se a chorar sob a opressão de um intolerável desespero que a abatia, feria sua força e a reduzia ao desamparo infantil.

Quando assim prostrada, tentações assaltavam-na: ouvia as sugestões da fraqueza, que a aconselhava a escrever para Robert Moore, dizendo o quanto estava infeliz porque ela fora proibida de vê-lo, assim como para Miss Hortense; que ela temia perder a sua amizade (não o seu amor) e que ele a esquecesse completamente, e pedindo-lhe que se lembrasse dela e lhe escrevesse algumas vezes. Chegou a escrever uma ou duas cartas nesse gênero, mas ela nunca as mandou; a vergonha e o bom senso a proibiram.

Mas a vida atingiu um ponto em que parecia não poder suportar por mais tempo. Ela deveria encontrar uma mudança, fosse ela qual fosse, sob pena de ver fraquejar seu coração e mente. Ela desejava deixar Briarfield e se refugiar em algum lugar muito distante. Ela ansiava por algo mais, uma profunda, secreta e irresistível necessidade de descobrir quem era sua mãe e conhecê-la. Esse desejo era reforçado diariamente, mas com ele veio a dúvida, um pavor: se a conhecesse, será que ela iria amá-la? Não havia motivo para hesitação, mas a apreensão tinha sua causa. Nunca em sua vida tinha ouvido falar de sua mãe com louvor. Quando alguém falava dela, era sempre com frieza, e seu tio parecia considerar a cunhada com uma espécie de tácita antipatia. Uma velha criada, que tinha vivido com Mrs. James Helstone por um curto período de tempo depois de seu casamento, quando ela se referia à sua ex-ama, falava com fria reserva. Eram expressões de gelo para o coração de uma filha, pois elas sugeriam que, talvez, fosse melhor nunca saber de seus pais.

Entretanto, um projeto, cuja execução parecia provável que lhe trouxesse uma esperança de alívio, era o de se criar uma posição, de se tornar uma governanta. Um pequeno incidente deu a ela condições de levar seus planos ao conhecimento de seu tio.

Suas longas caminhadas tinham sempre como fim, como disse, lugares solitários; mas para qualquer lado que ela se dirigisse, fosse para a orla árida do pântano de Stilbro, fosse para os ensolarados pastos de Nunnely, a volta para casa era sempre pelo caminho de Hollow. Ela raramente descia ao fundo do vale, mas aparecia sobre a elevação tão regularmente como as estrelas despontam por cima da montanha. Seu lugar de repouso era um banco embaixo de um velho espinheiro. Dali ela podia ver a bem conhecida janela do escritório do moinho, cuja luz brilhava como uma estrela lá longe. Sua missão era observar este raio de luz; sua recompensa, distingui-la; às vezes brilhante, às vezes fraca através da névoa, noutras se quebrando entre as linhas oblíquas da chuva, pois esta vinha sempre, fosse qual fosse a época do ano.

Havia noites em que a luz não aparecia. Ela sabia então que Mr. Moore estava ausente e ia embora mais triste, ao passo que a aparição dessa luz a deixava alegre, como se nela visse promessa de qualquer vaga esperança. Se, enquanto ela olhava, uma sombra se inclinasse entre a lâmpada e a janela, seu coração dava um salto, porque esse eclipse era Robert Moore que ela tinha visto. Ela então voltava para casa confortada, levando na imaginação uma lembrança mais precisa do seu amado, uma recordação mais nítida de sua voz, do seu sorriso, do seu porte e, mesclando com essas impressões, uma persuasão doce que, se ela pudesse chegar perto dele, seu coração poderia acolher sua presença, e que, naquele momento, ele poderia estar disposto a estender a mão e puxá-la para ele e protegê-la ao seu lado como ele costumava fazer. Naquelas noites, embora ela chorasse como de costume, as lágrimas pareciam menos escaldantes.

O caminho mais curto entre o moinho de Hollow e o presbitério passava ao lado de uma mansão: a velha residência de Fieldhead. Embora o seu proprietário não residisse lá há dez anos, a casa não estava em ruínas. Mr. Yorke era o responsável por cuidar da propriedade e havia tido o cuidado de conservá-la em bom estado. Havia contratado um bom jardineiro e ele e a esposa viviam na casa para vigiá-la, cultivavam o terreno e mantinham a casa em condições habitáveis.

Se Fieldhead tinha poucos méritos como um edifício, podia pelo menos dizer que era uma construção pitoresca. Sua arquitetura era irregular, a coloração cinzenta e cheia de musgo dava a ela um aspecto sombrio. As velhas janelas gradeadas, a varanda de pedra, as paredes, o telhado e a chaminé teriam dado assunto a um rico desenho a lápis. As árvores atrás da casa eram vigorosas e belas; o cedro à frente do gramado era magnífico, e as urnas de granito que coroavam os muros do jardim e o arco cinzento da porta de entrada encantariam os olhos de um artista.

Em uma suave noite de maio, Miss Caroline passava junto desta morada no momento em que a lua ia aparecendo no horizonte. Embora fatigada, ela não estava disposta a regressar tão cedo ao presbitério onde era esperada por uma noite de tristeza. Ela sentou-se entre o musgo, deixando seus olhos vaguearem pelos cedros.

Aquela noite e aquele espetáculo eram tristes para Miss Caroline, e ao mesmo tempo encantadores. Acudiram-lhe recordações de encontros felizes de amantes comemorados em baladas antigas. Pensou como seria agradável entrar e passear em tal lugar.

Onde estaria agora Robert? Perguntava-se ela. Ele não estava em Hollow, havia muito tempo que ela não via sua lâmpada. Ela se questionava se ela e Robert Moore estariam destinados a nunca mais se encontrarem ou voltarem a se falar novamente.

De repente a porta do pórtico de pedra do salão se abriu e dois homens saíram: um era idoso, de cabeça branca; o outro era jovem, alto e de cabelos escuros. Eles passaram pelo gramado e saíram através de um portal no jardim. Miss Caroline os viu atravessar a estrada, passar a sebe e descer para os campos e desaparecer. Robert Moore tinha acabado de passar diante dela com seu amigo Mr. Yorke. Nenhum dos dois tinha dado pela sua presença.

A aparição tinha sido breve, mal tivera tempo de vê-los, mas uma faísca elétrica havia deixado um fogo de rebelião em sua alma. Aquela aparição havia encontrado uma mocinha desesperançada e a deixou ainda mais desesperada: dois estados diferentes.

“Ah, se ele estivesse sozinho! Se ele ao menos tivesse me visto!” exclamou ela. “Ele teria me dito qualquer coisa? Teria me dado a mão? Será que ele me ama pelo menos um pouquinho? Se eu o tivesse olhado de perto teria visto algum sinal de afeto em seus olhos ou em seus lábios? Teria podido ler a consolação, mas perdi essa última oportunidade.”

Miss Helstone entrou no presbitério num abatimento profundo. No dia seguinte pela manhã, de aspecto miserável como alguém que tinha visto um fantasma, ela se dirigiu a Mr. Helstone:

– Tem alguma objeção, meu tio, se eu procurar algum emprego junto de uma família?

O tio, ignorando o que ela tinha sofrido e o que sofria ainda, mal acreditou no que ouvia, disse esperadamente.

– Que capricho é esse agora? Você está enfeitiçada? Perdeu o juízo? Que significa isso?

– Não ando bem e preciso de uma mudança.

O homem a examinou e viu que nela já se dera uma mudança. Sem que ele tivesse reparado, a rosa tinha diminuído e desaparecera, perdera o frescor e murchara. Estava diante dele desperdiçada, desfalecida, sem cor e extenuada. Sem a doce expressão de seus olhos castanhos, sem a delicadeza de suas linhas e a abundância de seus cabelos, ela já não podia ser chamada de bonita.

– Que diabo está acontecendo com você? O que está errado? Está doente?

Não houve resposta; apenas os olhos castanhos se encheram de lágrimas e os lábios levemente tingidos tremiam.

– Procurar um emprego? Para que situação você se encaixa? O que você está fazendo com você mesma? Você não está bem?

– Uma mudança me faria bem.

– Essas mulheres são incompreensíveis. Elas têm a mais estranha habilidade para nos causar surpresas desagradáveis. Um dia saltam alegres, rechonchudas e vermelhas como cerejas e redondas como maçãs. Amanhã aparecem murchas como ervas mortas, esbranquiçadas e abatidas. E a razão de tudo isso? Esse é o enigma. Ela tem suas refeições regradas, sua liberdade, uma boa casa para morar e boas roupas para vestir como de costume. Ainda há pouco lhe bastava para andar bela e alegre, e algum tempo depois pálida e definhada de fazer pena. Então vem a pergunta: o que deve ser feito? Será que devo mandar chamar um médico, filha?

– Não, meu tio. Um médico não poderia me fazer nada de bom. Só quero mudar de ares e ambiente.

– Está bem. Se for esse o capricho, será satisfeito. Você deve ir para um balneário. Não me importo com as despesas. Fanny deve acompanhá-la.

– Mas, tio, um dia eu terei que fazer alguma coisa para mim. Não tenho nenhuma fortuna e é melhor eu começar agora.

– Não será uma governanta enquanto eu viver, Caroline. Não quero que digam que a minha sobrinha se reduziu a isso.

– Mas, quanto mais se espera por uma mudança desse tipo, meu tio, mais difícil e dolorosa ela é. Vale mais que eu me acostume ao jugo antes que os hábitos de facilidade e independência sejam formados em mim.

– Peço-lhe que não me atormente, Caroline. Há tempo de sobra para eu guardar e tomar medidas para seu futuro. Tenho a intenção de cuidar do seu futuro. Sempre tive essa intenção. Você receberá uma anuidade. Graças a Deus só tenho cinquenta e cinco anos, a minha saúde e minha constituição são excelentes. Não se preocupe com o seu futuro. É isso que está te preocupando?

– Não, meu tio, mas desejo mudar de vida.

Ele riu.

– Tinha que ser e proceder como uma mulher! Fala como uma mulher! – exclamou ele. – Mudar de vida! Sempre a fantástica e caprichosa mulher! Uma mudança! Uma mudança! Lunáticas mulheres! Bem, isso é próprio do sexo!

– Mas não se trata de fantasia, nem de capricho, meu tio.

– O que é então?

– A necessidade, eu acho. Sinto-me mais fraca do que antigamente. Acredito que eu deveria ter mais o que fazer.

– Admirável! Ela se sente fraca e, portanto, deve ser sujeitada a rudes trabalhos. É claro como diria Moore, que Deus a confunda! Irá a Cliff-Bridge. Aqui tem dois guinés para comprar um vestido novo.

– Tio, eu queria que o senhor fosse menos generoso e mais...

– Mais o quê?

Simpático era a palavra que quase saíra da boca de Miss Caroline, mas não fora proferida. Ela calou-se a tempo. O tio teria rido se essa palavra piegas lhe tivesse escapado. Como ela permaneceu em silêncio, ele disse: – O fato é que você não sabe exatamente o que quer.

– Só quero ser uma governanta.

– Oh! Isso é um absurdo! Não quero mais ouvir você mencionar essa coisa. É mais uma fantasia feminina. Terminei meu café da manhã, toque a campainha e expulse da sua cabeça toda essa baboseira. Saia e procure se divertir.

“Com o quê? Com minha boneca?”, Miss Caroline perguntou para si mesma assim que ele deixou a sala.

Uma ou duas semanas se passaram e a saúde física e mental de Miss Caroline Helstone não estava melhor nem pior. Era precisamente nesse momento em que, se sua constituição tivesse germes da consumpção, estes teriam se desenvolvido rapidamente, levando-a deste mundo. As pessoas nunca morrem de amor ou de pesar, embora algumas morram de doenças inerentes às torturas dessas paixões, pois prematuramente se forçam em ações destrutivas. Contudo, os seres dotados de uma natureza sã suportam essas torturas. Ficam abalados, quebrados, sua beleza e sua frescura morrem, mas a vida fica intacta.

Cada um percebia a mudança na aparência de Miss Helstone e a maioria das pessoas dizia que ela ia morrer. Ela nunca pensou assim. Miss Caroline não se sentia prestes a morrer, pois não tinha nem dor nem doença. Era verdade que seu apetite havia diminuído, mas ela sabia o motivo. Sua força também havia diminuído, ela também poderia responder por ela. O sono era tímido e difícil; os sonhos eram angustiantes e funestos. No futuro distante, ela ainda parecia antecipar um momento em que essa paisagem de miséria deveria ser superada, quando voltaria a calmaria, embora, talvez, nunca mais fosse feliz.

Enquanto isso, seu tio a incitava a fazer visitas, a aceitar os frequentes convites dos seus conhecidos, o que ela recusava, pois sentia que era observada com mais curiosidade do que simpatia. As senhoras idosas estavam sempre lhe oferecendo seus conselhos, recomendando isto ou aquilo; as jovens a olhavam com uma expressão cujo sentido ela compreendia e lhe causava pavor. Seus olhos exprimiam que sabiam que ela tinha sido desprezada. Por quem, elas não estavam certas.

Miss Caroline evitava as pessoas e, vivendo assim, em completo isolamento, ela deixou de receber informações do que se passava nas redondezas.

Uma manhã seu tio veio até a sala onde estava sentada tentando encontrar algum prazer pintando um quadro de um lindo ramo de flores selvagens colhidas numa sebe no topo das colinas de Hollow, e disse-lhe em sua maneira abrupta: – Vamos criança, está sempre curvada sobre uma paleta, sobre um livro ou molde. Coloque seu chapéu e venha comigo fazer uma visita.

– Com o senhor, tio?

Esta pergunta foi feita em tom de surpresa. Ela não estava acostumada a fazer visitas com seu tio. Ela nunca saíra com ele em qualquer ocasião.

– Depressa! Rápido! Não tenho tempo a perder.

Ela juntou rapidamente seu material de pintura e perguntou aonde iam.

– Para Fieldhead.

– Fieldhead? O quê! Para ver o velho James Booth, o jardineiro? Ele está doente?

– Estamos indo para ver Miss Shirley Keeldar.

– Miss Keeldar! Ela voltou para Yorkshire? Ela está em Fieldhead?

– Está há uma semana ou mais. Eu a conheci na festa de ontem à noite que você não quis ir. Fiquei encantado com ela e desejo que travem conhecimento. Deve lhe fazer bem.

– Ela já tem dezoito anos, não é?

– Já chegou à maioridade e deve residir por um tempo em seu solar. Aconselhei-a neste sentido, mostrei-lhe o seu dever. Ela não é intratável, é sim uma menina fina, bonita e elegante. Ela vai lhe ensinar o que é ter um espírito alegre, brilhante e forte.

– Não acho que ela vai querer me ver. Que interesse poderá ter nisso? Como poderei diverti-la?

– Ora! Coloque o seu chapéu e vamos adiante.

– Ela é orgulhosa, meu tio?

– Não sei nada disso. Não vai imaginar que ela se mostrou altiva comigo, suponho? Que criança que, por mais rica que fosse, ousaria ser altiva com o pastor da sua paróquia? Não posso sequer imaginar alguma coisa parecida!

– Não. Mas como ela se comportou com as outras pessoas?

– Não reparei, mas ela mantém a cabeça erguida e, provavelmente, pode ser atrevida o bastante para quem ousar contestá-la. De outra maneira ela não seria uma mulher. Ande! Coloque esse chapéu de uma vez!

Miss Caroline não era naturalmente muito confiante, pois era muito tímida. A falta de força física e a depressão de seu espírito não lhe davam coragem adicional para enfrentar rostos estranhos. Assim, apesar das admoestações do tio, ela tremia ao atravessar ao lado dele a larga avenida pavimentada que ligava a porta de entrada ao pórtico de Fieldhead. Ela seguiu Mr. Helstone relutantemente através desse patamar para o velho vestíbulo sombrio.

Este vestíbulo era, com efeito, muito sombrio, longo, vasto e escuro; uma janela de treliça deixava penetrar uma luz fraca. O velho e grande fogão não continha agora nenhum fogo, pois o tempo presente e quente não pedia isso, mas estava cheio de ramos de salgueiro. Da galeria só se via os contornos escuros do teto; cabeças de veados esculpidas, com chifres autênticos, olhavam para baixo grotescamente das paredes.

A casa não era grande, mas confortável. Tanto o seu interior quanto o exterior eram antigos, irregulares e assustadores. Era rodeada por uma propriedade que rendia cerca de mil libras esterlinas por ano. Propriedade que, por falta de herdeiro do sexo masculino, pertencia a uma mulher. Havia neste distrito famílias mercantis que ostentavam possuir o dobro dessa renda, mas os Keeldars, em virtude de sua antiguidade e de sua distinção de senhores do solar, tinham o direito à precedência de todos.

Mr. e Miss Helstone foram introduzidos no salão. Claro que, como era de se esperar, na mansão antiga em estilo gótico este salão era forrado com madeiras de carvalho finas, escuras e brilhantes. Estes painéis cercavam as paredes sombriamente e de forma grandiosa.

O salão marrom com painéis fora decorado todo em estilo antigo, com mobiliário também antigo. Em cada lado da alta lareira estavam duas cadeiras de carvalho, sólidas como tronos rústicos, numa das quais estava sentada uma senhora. Mas, não era Miss Keeldar. A mulher que ali estava devia ter atingido a maioridade havia mais de vinte anos. O seu aspecto era o de uma matrona e, embora não usasse touca e os seus cabelos ruivos sombreassem feições delicadas e que, naturalmente, eram de aparência jovem, não dava nem procurava dar um aspecto juvenil. Poderia ter desejado que seu traje fosse mais moderno. Ao lado de um vestido bem-feito e elegante, o seu teria feito fraca figura. Não era compreensivo como uma peça de roupa de materiais tão belos pudesse ser tão sóbria e à moda tão antiga. Você se sentiria disposto a atribuir a quem o usasse um caráter um pouco excêntrico e original.

Esta senhora recebeu os visitantes com uma mistura de cerimônia e desconfiança, modo todo britânico. Um ar incerto de si mesma, de seus méritos, de seu poder de agradar e, ainda assim, ansiosa para ser adequada e, se possível, bastante agradável. Na circunstância presente, contudo, ela mostrou-se mais constrangida do que as mais difíceis e tímidas senhoras inglesas. Miss Helstone sentiu isso e simpatizou imediatamente com a desconhecida e, sabendo por experiência a conduta a ter para com as pessoas tímidas, sentou-se tranquilamente ao lado dela e começou a falar com ela com uma facilidade suave, cheia de amabilidade, provocada, nesse momento, pela presença de uma pessoa mais tímida do que ela.

Se estivessem a sós, não tardariam a se entender muito bem. A senhora tinha a voz mais harmoniosa, infinitamente mais suave e melodiosa do que poderia. Desta voz, Miss Caroline gostou. A senhora logo descobriu a disposição da moça e em dez minutos elas estariam amigas, mas Mr. Helstone estava ali olhando para elas, olhando especialmente para a senhora desconhecida. Este olhar sarcástico e afiado, que claramente expressava impaciência, desconcertava a mulher. Ela tentou, no entanto, inseri-lo na conversa dizendo alguma coisa sobre o tempo, o aspecto da região e outros assuntos fugazes, mas o impraticável Mr. Helstone fez-se de surdo. Tudo o que ela dizia, ele fingiu que não ouvia distintamente e ela era obrigada a repetir pela segunda vez os insignificantes discursos meticulosamente construídos. O esforço logo excedeu às suas forças; ela corou e agitou-se um pouco e, nervosa, murmurou que ela não sabia o que detinha Miss Keeldar e que iria procurá-la, contudo, a herdeira a salvou do problema aparecendo. Pelo menos Miss Caroline presumia que fosse a pessoa que, vinda do jardim, entrava naquele momento pela porta de vidro.

Há graça real quando a pessoa está à vontade. Foi o que pensou o velho Mr. Helstone quando uma moça, ereta e ligeira, caminhou até ele segurando com a mão esquerda o pequeno avental de seda cheio de flores e dando-lhe a mão direita.

– Eu sabia que o senhor viria me ver, apesar de Mr. Yorke lhe ter metido na cabeça a ideia de que sou uma jacobina. Bom dia, Mr. Helstone – disse, de forma animada, Miss Shirley Keeldar.

– Mas eu não vou permitir que seja uma jacobina – voltou ele. – Não mesmo, Miss Shirley! Não me furtarão assim a flor da minha paróquia. Agora que você está no meio de nós, será minha aluna em política e religião. Vou lhe ensinar a sã doutrina em ambos os pontos.

– Mrs. Pryor antecipou-se ao senhor, reverendo – respondeu ela, virando-se para a senhora mais velha. – Mrs. Pryor foi a minha governanta, como sabe, e ainda é minha amiga. Ela é rainha de todos os inflexíveis Tories. Marcha à frente das freiras. Sou experiente em Teologia e em História. Eu lhe asseguro, Mr. Helstone.

O reitor imediatamente se inclinou profundamente diante de Mrs. Pryor e expressou um muito obrigado.

A ex-governanta declinou qualquer espécie de interferência na controvérsia política ou religiosa, explicou que ela pensava que tais assuntos são pouco adaptados às mentes femininas, mas confessou, em termos gerais, que era defensora da ordem e da lealdade e, sobretudo, era sinceramente afeiçoada à igreja como ao governo.

– Espero que Miss Keeldar pense como a senhora, madame.

– A diferença de idade e a diferença de temperamento ocasionam, por vezes, diferença de sentimento – foi a resposta da senhora.

Mr. Helstone tomou as duas mãos da herdeira, fazendo com que ela deixasse cair as flores, e sentou-a ao seu lado no sofá.

– Diga o seu credo – ele ordenou.

– Credo dos Apóstolos?

– Sim.

Ela recitou o credo como uma criança.

– Deixe-me recolher minhas flores. Lá vem o Tártaro e ele vai pisar em cima delas – disse Miss Shirley.

Tártaro era um cão bastante grande, forte e de aparência feroz, muito feio, uma mistura de bulldog e outra raça vigorosa. Neste momento, o cão entrou pela porta de vidro e, em cima do tapete, pôs-se a farejar as flores frescas colhidas por Miss Keeldar. Ele pareceu desprezá-las como alimento, mas provavelmente pensava em fazer de suas pétalas aveludadas uma conveniente cama, e já estava se preparando para estender sobre elas seu corpo maciço quando as misses Helstone e Keeldar, simultaneamente, inclinaram-se para salvá-las.

– Obrigada – disse a herdeira, estendendo seu pequeno avental sobre o qual Miss Caroline depositou as flores. – É sua filha, Mr. Helstone? – perguntou ela.

– É a minha sobrinha Caroline.

Miss Keeldar deu-lhe um aperto de mão e então olhou para ela. Miss Caroline também olhou para sua anfitriã.

Miss Shirley Keeldar não tinha outro nome de batismo senão Shirley. Seus pais, que desejavam ter um filho, vendo que depois de oito anos de casamento a Providência lhes concedera apenas uma filha, puseram-lhe o mesmo nome que teriam dado ao filho se seus votos tivessem sido realizados. Miss Shirley Keeldar não era uma herdeira feia, era agradável contemplá-la. Sua altura e formato não eram diferentes de Miss Helstone, talvez em estatura ela fosse um ou dois centímetros mais alta. O seu rosto era pálido e expressivo, mas ela possuía charme. Também era inteligente e de expressões variadas. Não era loira como Miss Caroline e, quanto à cor de sua pele, era um contraste entre claro e escuro. A pele era clara e os olhos do mais escuro cinzento, sem mistura de verde, era puro cinza transparente; os seus cabelos eram castanho-escuros e os traços cheios de distinção – não quero dizer que eles eram nobres, ossudos, romanos, pois, pelo contrário, eram delicados e pouco acentuados, era aquilo que os franceses chamam de finos, graciosos e espirituais – eram móveis e expressivos, mas sua linguagem não era para ser de fácil entendimento ou de fácil interpretação. Ela examinou Miss Caroline com gravidade, inclinando a cabeça um pouco para um lado, com um ar pensativo.

– Como vê, ela é apenas uma garota frágil – observou Mr. Helstone.

– Parece jovem, mais jovem do que eu. Quantos anos você tem? – perguntou ela, de uma forma que teria sido condescendente, protetora, se não tivesse sido extremamente solene e simples.

– Dezoito anos e seis meses – respondeu Miss Caroline, meigamente.

– Tenho vinte e um – disse Miss Shirley, sorrindo.

Ela não disse mais nada. Já tinha colocado suas flores sobre a mesa e ficou ocupada em organizá-las. Preparou um raminho com uma flor brilhante, duas ou três flores delicadas, com algumas hastes verdes de coloração mais escura. Amarrou tudo com uma fita de seda que tirou de sua caixa de costura e colocou no colo de Miss Caroline; em seguida, ficou de pé com as mãos cruzadas atrás das costas, curvando-se ligeiramente para a moça à sua frente. Tinha a atitude de um galante cavaleiro, grave, mas elegante. Esta expressão passageira tornava-se ainda mais digna de nota pela maneira como usava os cabelos, separados ao lado e alisados sobre o alto da testa de onde caíam em cachos que pareciam naturais, tão livres eram suas fluentes ondulações.

– O passeio até aqui a deixou fatigada? – perguntou ela.

– Não, absolutamente não. É uma distância curta, apenas uma milha.

– Parece pálida. É sempre tão pálida? – perguntou Miss Shirley, virando-se para o reitor.

– Ela costumava ser tão rosada quanto a mais vermelha de suas flores.

– Por que ela está alterada? O que a fez pálida? Está doente?

– Ela me diz que precisa de “uma mudança de ares” – respondeu o homem.

– Então deveria dar-lhe essa mudança. Deve mandá-la para o litoral.

– É o que tenciono fazer antes do fim do verão. Enquanto aguarda, tenho a intenção que trave conhecimento com você, se a menina não tiver nenhuma objeção.

– Tenho certeza de que Miss Keeldar não fará nenhuma objeção – observou Mrs. Pryor. – Creio que a presença frequente de Miss Helstone em Fieldhead será um estimado favor.

– Acaba de exprimir os meus sentimentos, minha senhora – disse Miss Shirley – e eu agradeço por antecipar-me. Deixe-me dizer-lhe – continuou ela, voltando-se novamente para Miss Caroline – também deve agradecer à minha governanta. Ela não acolhe todos como recebeu você. Você se distinguiu mais do que você pensa! Esta manhã, assim que vocês forem embora, vou perguntar para Mrs. Pryor o que ela pensa de você. Posso ter toda a confiança em seu julgamento, pois sempre os achei precisamente maravilhosos. Já prevejo uma resposta favorável às minhas perguntas. Não estou com razão, Mrs. Pryor?

– Minha querida, você acaba de dizer que perguntaria minha opinião quando Miss Helstone tivesse ido embora. Não é provável que eu a fale em sua presença.

– Não, e talvez passe muito tempo antes de obtê-la. Infelizmente estou atormentada, Mr. Helstone, pela extrema cautela de Mrs. Pryor. Os meus pedidos não podem fazê-la se decidir a dar sua opinião sobre o caráter de certas pessoas. Seus julgamentos são corretos quando eles vêm, mas eles são muitas vezes tardios.

Mrs. Pryor sorriu.

– Sim. Eu sei o que significa este sorriso. A senhora está pensando em meu inquilino, o gentil cavalheiro. Conhece Mr. Moore de Hollow? – perguntou Miss Shirley a Mr. Helstone.

– Sim. Sim. Seu inquilino, sem dúvida. Já o viu muitas vezes desde que chegou?

– Fui obrigada a vê-lo. Tinha negócios a tratar. Os negócios! Esta palavra me faz consciente de que eu não sou mais uma menina, mas uma mulher, e mesmo alguma coisa a mais do que uma mulher. Sou uma proprietária. Mr. Shirley Keeldar, “homem” de negócios, deveria ser o meu título. Deram-me o nome de um homem; ocupo a posição de um homem; é o suficiente para inspirar-me com um toque de masculinidade e quando vejo pessoas como esse imponente anglo-belga, esse Mr. Gérard Moore diante de mim a falar-me gravemente de negócios, sinto-me absolutamente um cavalheiro. Deveria escolher-me para ser seu tesoureiro, Mr. Helstone, da próxima vez que tiver que eleger um. Eles deveriam fazer de mim um magistrado e um capitão da milícia. A mãe de Tony Lumpkin era um coronel e a tia, um juiz de paz. Por que eu não deveria ser um também?

– Com todo o meu coração. Se você optar por receber uma requisição sobre o assunto, eu prometo encabeçar a lista de assinaturas com o meu nome. Mas, você estava falando de Moore.

– Ah! Sim. Acho que é um pouco difícil de entender Mr. Moore; saber o que pensam dele; se gostam dele ou não. Ele parece um inquilino dos quais qualquer proprietário pode ter orgulho, e orgulhosa dele eu sou nesse sentido. Mas, como um vizinho, como ele é? Por diversas vezes tenho implorado a Mrs. Pryor para dizer o que pensa dele, mas ela ainda foge de uma resposta direta. Espero que o senhor seja menos ambíguo e se pronuncie rapidamente se gosta dele ou não.

– Não, agora. O seu nome está inteiramente riscado da lista de meus amigos.

– Qual é o problema? O que ele fez?

– Meu tio e ele discordam sobre política – interpôs Miss Caroline, com voz baixa. Melhor fosse que ela não tivesse falado naquele momento, pois não havia falado antes. Ela percebeu isso e corou.

– Qual é a política de Mr. Moore? – perguntou Miss Shirley.

– Aquela de um comerciante – voltou o reitor: – estreita, egoísta e antipatriótica. O homem está eternamente escrevendo e falando contra a continuação da guerra. Eu não tenho paciência com ele.

– A guerra arruinou o seu comércio. Lembro-me de que comentou isso ontem. Mas, o senhor tem outra objeção contra ele?

– Isso é o suficiente.

– Ele parece um cavalheiro no sentido que eu dou a essa palavra – prosseguiu Miss Shirley – agrada-me pensar que não me engano.

Miss Caroline arrancou as pétalas de uma flor brilhante do seu buquê e respondeu em tons distintos: – Decididamente ele é um cavalheiro.

Miss Shirley, ao ouvir esta afirmação corajosa, seus olhos expressivos procuraram os de Miss Caroline.

– Você é, de fato, amiga dele, pois o defende em sua ausência.

– Sou ao mesmo tempo sua amiga e sua parente. Robert Moore é meu primo – respondeu com vivacidade.

– Oh! Então pode me dizer tudo sobre ele. Apenas me dê um esboço de seu caráter.

Miss Caroline ficou embaraçada com o pedido. Não podia responder. Um constrangimento insuperável tomou conta dela e nem tentou. Seu silêncio foi imediatamente coberto por Mrs. Pryor, que passou a dirigir a Mr. Helstone diversas perguntas a respeito de uma ou duas famílias da vizinhança das quais disse conhecer parentes que habitavam no Sul. Miss Shirley, percebendo o constrangimento de Miss Helstone, logo retirou o olhar do seu rosto. Ela não repetiu a pergunta, mas retornando às suas flores, passou a arranjar um ramo para o reitor. Entregou-lhe quando ele se despediu e recebeu em troca um beijo na mão.

– Faça o favor de levá-lo como uma recordação minha – disse ela.

– Tanta gentileza pode sobrecarregar meu coração – respondeu Mr. Helstone e continuou: – Mrs. Pryor, cuide desse futuro magistrado, desse tesoureiro em perspectiva, desse capitão da milícia, desse jovem escudeiro de Briarfield, em uma palavra, não o deixe se esforçar muito, não deixe quebrar o pescoço na caça e, sobretudo, tenha cuidado ao descer a cavalo a perigosa colina de Hollow.

– Gosto dos despenhadeiros – disse Miss Shirley – gosto de atravessá-los correndo e, especialmente, gosto de todo o meu coração desse romântico Hollow.

– Romântico com uma fábrica no meio – ironizou o pastor.

– O antigo moinho e a casa branca são admiráveis ao seu modo – contestou Miss Shirley.

– E o escritório, Miss Keeldar?

– O escritório vale mais do que o meu brilhante salão. Adoro o escritório!

– E o comércio? Os tecidos, a lã gordurosa, as cubas de tinta?

– O comércio é respeitável sobre todos os aspectos.

– E o comerciante é um herói? Bom! – mais uma vez ironizou Mr. Helstone.

– Estou contente de ouvir o senhor dizer isso. O comerciante parece-me heroico – a malícia, o espírito e a alegria brilhavam em todo o seu rosto durante essa troca de palavras com o velho cossaco, que também sentia prazer naquela justa.

– Capitão Keeldar, você não tem sangue mercantil em suas veias. Por que motivo gosta tanto de comércio?

– Porque sou proprietária de uma fábrica, é claro. Metade da minha renda vem de Hollow.

– Não caia na besteira de se associar a Moore. É o que eu tenho a dizer-lhe – disse Mr. Helstone.

– Pois acaba de colocar essa ideia na minha cabeça! – exclamou ela, com uma risada, e prosseguiu: – Agora não vai sair dela. Obrigada – e acenando com a mão branca como a de uma fada, desapareceu dentro do pórtico, enquanto o reitor e sua sobrinha atravessavam o arco da entrada.

 

OceanofPDF.com