Shirley
Capítulo XX
OceanofPDF.com
O Dia Seguinte
As duas moças não encontraram ninguém no regresso ao presbitério. Deslizaram sorrateiramente para o andar superior sem serem vistas. O sol que surgia no horizonte clareava o caminho. Miss Keeldar, exausta, foi imediatamente para a cama e, mesmo que estranhasse o leito, pois nunca dormira no presbitério, apesar disso, do terror e da excitação pelos quais passara àquela noite, dormiu em seguida um sono reparador.
Uma saúde perfeita era um dos benefícios de que Miss Keeldar gozava. As grandes emoções podiam excitá-la, mas como não era nervosa, não ficava abatida. Se sacudida e agitada durante a tempestade, quando esta passava, sua frescura e elasticidade habituais voltavam. Assim, como cada dia lhe trazia estimulantes emoções, em cada noite achava um sono reparador. Miss Helstone a via dormir neste momento e lia a serenidade da sua alma na beleza e na feliz calma de seu rosto.
Quanto a ela, porque era de um temperamento completamente oposto, não conseguia dormir. Esforçou-se em vão por permanecer ao menos deitada, mas logo se levantou e ficou sentada ao lado de Miss Keeldar. Olhando o sol de junho que despontava no horizonte, ela contava os minutos para que ela acordasse. A vida se esgotava depressa em vigílias semelhantes àquelas a que Miss Helstone estava sujeita. Ela era cristã e nos momentos de aflição buscava a Deus ardentemente, implorando paciência, força e socorro. Mas, pelo resultado de suas orações, parecia-lhe que não eram ouvidas.
Por fim, a casa acordou; as criadas se levantaram; as portas foram abertas. Miss Helstone deixou a cama para a qual retornara – que tinha sido para ela um leito de espinhos – sentiu reviver o vigor que traz sempre um novo dia, a ação a quem o desespero e o sofrimento não aniquilaram ainda por completo. Vestiu-se como de costume, com cuidado, e fez todos os esforços para que nada no seu exterior traísse a aflição que lhe ia dentro da alma. Pareceu tão fresca como Miss Keeldar quando as duas ficaram prontas, com a diferença, todavia, de que os olhos de Miss Keeldar estavam animados e os de Miss Helstone tinham uma expressão de languidez.
– Hoje terei muitas coisas para dizer a Mr. Moore – foram as primeiras palavras de Miss Keeldar, e podia-se ler em seu rosto que a vida era para ela cheia de interesse, de esperança e de ocupação. – Terá que se submeter a um interrogatório. Parece-me que ele pensa que me iludiu muito sabiamente. Os homens, em geral, imaginam que as mulheres se assemelham às crianças. Pois bem! É um erro pensar assim.
Enquanto falava, diante do espelho, arranjava em cachos os seus cabelos naturalmente desarranjados. Ela continuou durante uns cinco minutos com o mesmo assunto, enquanto Miss Helstone lhe apertava a saia e dava o nó no cinto.
– Se os homens pudessem nos ver como realmente somos, ficariam verdadeiramente espantados; mas os mais notáveis, os mais sensatos, iludem-se muitas vezes no que diz respeito às mulheres. Eles não as compreendem, nem em relação ao bem, nem ao mal. A mulher bondosa é para eles um ser fantástico, meio boneca, meio anjo. A má é quase sempre um demônio.
– Shirley, está tagarelando demais! Não consigo apertar isto aqui! Fique quieta. E no mais, se formos ver, as heroínas e os heróis dos nossos autores se equivalem.
– Está enganada: as autoras mulheres traçam os caracteres dos homens com mais verdade do que os autores homens os das mulheres. É o que provarei em qualquer revista quando um dia tiver tempo. Simplesmente o meu trabalho não será publicado. Será recusado muito atenciosamente e ficará às minhas ordens na administração.
– Sem dúvida. A Shirley não poderia escrever completamente, falta-lhe erudição.
– Deus sabe que não vou contradizê-la. Sou ignorante como uma pedra. Mas, uma coisa me consola: você não é mais instruída do que eu.
Desceram para o café da manhã.
– Gostaria de saber como Mrs. Pryor e Hortense passaram a noite – disse Miss Helstone no desjejum.
– Como sou egoísta! Até agora não pensei nelas um só momento. Elas, decerto, ouviram todo aquele tumulto. Fieldhead e a cottage são tão próximas.
– Hortense tem muito medo dessas coisas. E sem dúvida Mrs. Pryor também – disse Miss Helstone.
– Mr. Moore deve ter tido o cuidado de afastar a irmã, Lina. Vi, ontem, quando ela foi embora com Miss Mann. Ele pediu-lhe, certamente, que ela passasse a noite lá. Quanto à Mrs. Pryor, confesso que estou um pouco inquieta, mas antes de meia hora estaremos lá ao seu lado.
Durante este tempo, foi espalhada na vizinhança a notícia do que se passara em Hollow. Fanny, que fora a Fieldhead procurar leite, voltou às pressas para anunciar que deflagrara um combate na fábrica de Mr. Moore e que havia vinte homens mortos. Eliza, durante a ausência de Fanny, soubera, pelo rapaz do açougue, que a fábrica fora incendiada. Ambas se precipitaram pelo salão para dar as notícias.
Ainda não tinham acabado a narração quando um criado chegou de Fieldhead com uma carta de Mrs. Pryor em que pedia a Miss Keeldar que regressasse imediatamente, visto haver, com certeza, ordens a dar, e que só podiam ser dadas pela dona da casa. Dizia ainda que Miss Helstone não devia ficar no presbitério e que faria bem se acompanhasse Miss Keeldar.
– A esse respeito só há uma opinião – disse Miss Keeldar, colocando o chapéu e correndo à procura de Miss Helstone.
– Quando as duas se dirigiam a toda pressa para Fieldhead, pelo gramado de relva e pelo atalho da plantação, notaram que a estrada, ao longe, estava cheia de cavalheiros e peões que seguiam para Hollow. Entrando pela parte de trás da casa, encaminharam-se da cozinha para a sala de visitas. Mrs. Pryor saiu correndo ao encontro das duas pela estrada de carvalho. Estava aterrorizada. O sentimento que a dominava era de um grande descontentamento de si mesma, por não ter podido se manter fria, mais firme, à altura das circunstâncias.
– Sabem – começou ela, com a voz trêmula e com o maior desejo de evitar o exagero – sabem que um bando de amotinados atacou esta noite a fábrica de Mr. Moore? Daqui se ouvia muito distintamente a fuzilaria e o tumulto. Ninguém aqui em casa dormiu e foi uma noite triste. A casa esteve em grande agitação toda a manhã. Os criados se dirigiam a mim para que lhes desse ordens e instruções que eu não me julgava autorizada a fazê-lo. Mr. Moore, creio eu, mandou buscar refrescos para os soldados e também alguns objetos necessários para os feridos. Eu não podia tomar para mim a responsabilidade de dar ordens ou tomar decisões. A casa não é minha. Você estava ausente, minha querida, o que eu podia fazer?
– Não mandaram então os refrescos? – perguntou Miss Keeldar, cujo semblante se tornou, de repente, sombrio e irritado.
– Creio que não, minha filha!
– E nada para os feridos? Nem roupas, nem vinho, nem mantimentos?
– Não sei. Não posso dizer o que fez Mrs. Gill, mas parecia-me que ela não podia dispor de sua propriedade sem sua autorização. Ela não podia mandar provisões para uma companhia toda. Não perguntei quantos eram, mas eu não podia consentir em deixar desfalcar sua casa. A minha intenção era fazer o melhor. Confesso, no entanto, que ainda estou em dúvida nesse caso.
– Pois não é difícil. Esses soldados arriscaram suas vidas pela defesa da minha propriedade. Parece terem certo direito à minha gratidão! Os feridos são nossos semelhantes e parece que lhes devemos socorro. Mrs. Gill – gritou ela.
Voltou-se e chamou por ela com uma voz mais clara do que doce, que atravessou as portas maciças de carvalho da cozinha melhor do que teria feito o tinido da campainha. Mrs. Gill, que estava a amassar, chegou com as mãos e um avental que testemunhavam sua ocupação. Com voz firme e seca, Miss Keeldar começou a fazer perguntas e a dar ordens. O seu espírito altivo estava terrivelmente irritado por, em semelhantes circunstâncias, Fieldhead ter mostrado a inospitalidade da casa de um avarento. O seu orgulho estava ferido.
– Há quanto tempo chegou o pedido da fábrica?
– Há menos de uma hora – respondeu a cozinheira, num tom que parecia acalmar Miss Keeldar.
– Há menos de uma hora! Diz isso como poderia dizer menos de um dia. Teriam tempo de se dirigir à outra parte. Mande imediatamente um homem dizer-lhes que tudo o que há nesta casa está às ordens de Mr. Moore, de Mr. Helstone e dos soldados. Faça isso já!
Enquanto esta ordem estava sendo executada, Miss Keeldar afastou-se de Miss Helstone e de Mrs. Pryor e ficou de pé em silêncio na sala de jantar. Quando Mrs. Gill voltou, ela virou-se para ela.
– Tudo o que está na copa e no celeiro deve ser imediatamente carregado em carros e levado para Hollow. Havendo falta de pão ou de carne em casa, vão à casa do padeiro e do açougueiro e digam-lhes que me mandem tudo o que puderem. Bem, é melhor que vá eu mesma. E saiu.
– Este acesso não tardará a passar. Dentro de uma hora não pensará mais nisso – murmurou Miss Helstone no ouvido de Mrs. Pryor. – Suba para seu quarto, minha senhora – acrescentou afetuosamente – e procure descansar um pouco.
Depois de tê-la conduzido ao seu quarto, Miss Helstone achou que podia ser mais útil, pois as criadas eram pouco numerosas em Fieldhead.
Miss Helstone, com seu bom humor, com a diligência que ajudou a cozinheira e as outras criadas, prestou um auxílio eficaz que acalmou a dona da casa. Um olhar e um sorriso de Miss Helstone, enquanto subia a escada da adega com um cesto pesado, provocaram logo um sorriso em Miss Keeldar.
– É uma vergonha! – exclamou Miss Keeldar precipitando-se para Miss Helstone. – Vai machucar seus braços!
Miss Keeldar apoderou-se do cesto e levou-o até o meio do pátio. A tempestade tinha passado quando retornou de mãos vazias. As maneiras cordiais e alegres tinham voltado.
Miss Keeldar comandava o carregamento de uma carroça quando um homem entrou no pátio e se aproximou dela sem que o visse.
– Espero que Miss Keeldar esteja bem esta manhã – disse ele, lançando-lhe um olhar perscrutador e que refletia certa animação.
Ela olhou para ele, depois continuou o seu trabalho sem olhá-lo mais. Um sorriso de prazer brincava-lhe nos lábios, mas ela não deixou que ele percebesse.
– Muito bem – respondeu ela – e Mr. Moore também, ao que me parece. Para dizer tudo, eu não estava com muita pena do senhor. Se lhe tivesse acontecido alguma desgraça, não teria sido senão o que merecia: a sua conduta foi, digamos, estranha. Posso lhe perguntar o que o traz aqui?
– Mr. Helstone e eu acabamos de receber neste momento a mensagem em que nos informava de que tudo quanto há em Fieldhead está à nossa disposição. Pensamos, pela maneira como fez o seu oferecimento, que iríamos incomodá-la excessivamente. Não somos um regimento, mas meia dúzia de soldados e outros tantos civis, nada mais. Permita-me que restrinja um pouco este aprovisionamento excessivo – disse Mr. Moore.
Miss Keeldar corou e riu ao mesmo tempo da generosidade excessiva dos seus cálculos desproporcionais. Mr. Moore ria também. Ele fez tirar da carroça cestos e mais cestos e devolveu à adega garrafas e mais garrafas.
– O pastor ficará sabendo disso – comentou Mr. Moore. – Que linda cena ele fará! Que excelente fornecedora de exércitos teria dado Miss Keeldar! – depois, rindo outra vez, acrescentou: – Aconteceu precisamente tudo o que eu tinha pensado.
– Deveria agradecer-me – disse Miss Keeldar – em vez de fazer troça de mim e o senhor não tinha me dito nada. Além disso, um pedido de provisões para soldados sugere, naturalmente, ideias vastas.
– Parece-me que sim – concordou Mr. Moore. – Agora – disse ele ao carroceiro – pode levar o restante a Hollow.
Enquanto a carroça saía do pátio, Miss Keeldar perguntou o que estava sendo feito pelos feridos.
– Do nosso lado só teve um – ele respondeu.
– O senhor também se feriu na testa – disse uma voz doce, a de Miss Caroline Helstone, que, na sombra da porta, não tinha ainda sido notada por Mr. Moore. Quando ela falou, ele procurou penetrar a obscuridade de seu refúgio.
– Foi gravemente ferido? – ela repetiu a pergunta.
– Um arranhãozinho. Como um que a prima poderia fazer com uma agulha de coser.
– Levante o seu chapéu para nós vermos – exigiu Miss Keeldar.
Ele tirou o chapéu e fez o que lhe pediam, descobrindo o ferimento tirando uma pequena tira de tecido. Miss Helstone mostrou por um leve aceno de cabeça que estava satisfeita e desapareceu no escuro do aposento.
– Como ela soube que eu estava ferido? – indagou Mr. Moore a Miss Keeldar.
– Ouviu dizer, por certo. Mas é muita bondade da parte dela ficar incomodada. Quanto a mim, era nas suas vítimas que eu pensava quando lhe perguntei sobre os feridos. Quantas perdas tiveram os seus rivais?
– Um dos amotinados, ou vítimas como você os chama, foi morto e seis estão feridos. Mas já estamos buscando socorro médico para eles e estamos arranjando carros abertos e palha limpa para os transportarmos até Stilbro.
– Palha? Colchões e cobertores são o que eles precisam. Vou mandar o meu carro já convenientemente arranjado e Mr. Yorke, tenho certeza, mandará também o dele.
– Adivinhou. Ele já ofereceu. E Mrs. Yorke está neste momento, creio, toda ocupada a prepará-lo com colchões de pena, travesseiros, etc. Não faltará nada às vítimas. Prometo-lhe. Mr. Hall, o seu pastor favorito, está com elas desde as seis da manhã, a exortá-las, orando e tratando-as. E a boa amiga de Caroline, Miss Ainley, enviou uma provisão de ligaduras, fios de linho e roupa branca, qualquer coisa muito parecida com as provisões de carne e vinho que outra senhora estava enviando.
– Está bem. Onde está sua irmã?
– Em segurança. Mandei-a para a casa de Miss Mann. Esta manhã mesmo ambas partem para as águas de Wormwood onde ficarão algumas semanas.
– Foi assim que Mr. Helstone me alojou no presbitério. Vocês, cavalheiros, se julgam de uma habilidade notável. Frios e astuciosos.
A atitude de Mr. Moore parecia dar razão a Miss Keeldar.
– Está me olhando como se eu fosse um perigoso espécime do meu sexo, não é mesmo? – continuou ela.
– Mas Caroline não é nem excêntrica nem difícil de se conduzir, não é verdade? Não há nada nela de masculino.
– Por que motivo acentua tão fortemente a palavra nela? Acha que, a este respeito, ela é um contraste com a miss?
– Onde quero chegar é que Miss Helstone, apesar de doce, tratável e bastante cândida, é, contudo, capaz de desafiar até uma ordem sua.
– O que foi que fizeram? – perguntou Mr. Moore, de repente.
– O senhor já almoçou?
– Que mistério é esse?
– Se estiver com fome, Mrs. Gill pode lhe dar de comer. Entre para a sala de carvalho e toque a campainha. Será servido como numa hospedaria ou, se preferir, volte para Hollow.
– Não posso escolher. Tenho que ir, até logo. Voltaremos a nos ver no primeiro instante disponível que eu tiver.
OceanofPDF.com