Shirley
Capítulo XXX
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Rushedge - Um Confessional
Todos diziam que já era tempo de Mr. Moore retornar para Yorkshire. Todos de Briarfield estranhavam sua estranha ausência e os habitantes de Whinbury e de Nunnely trouxeram sua cota separada de espanto. Indagavam os motivos de sua ausência demorada, mas o certo é que havia, pelo menos, quarenta razões plausíveis para tentar explicar aquela inexplicável circunstância. Não eram os negócios que o prendiam; havia muito que concluíra os que o tinham levado a partir; tinham sido descobertos e presos os quatro chefes do motim; ele assistira ao processo, ouvira ler a sentença que os condenava à deportação e ele mesmo os vira partir.
Isto era sabido em Briarfield. O Stilbro Courier tinha dado todos os pormenores com amplificações. Correu, portanto, o rumor de que Mr. Moore não ousava voltar para Yorkshire, pois receava por sua vida que estava ameaçada pela vingança.
– Farei com que ele saiba disto – disse Mr. Yorke, na ocasião em que o seu contramestre lhe contou o que o povo dizia. – Se isso não o fizer regressar rapidamente, nada o fará.
Essa notícia, ou qualquer outro motivo, conseguiu enfim o fazer regressar. Preveniu Joe Scott do dia em que chegaria mandando levar-lhe o cavalo. Joe Scott informou a Mr. Yorke, que decidiu ir ao encontro do viajante.
Era dia de mercado e Mr. Moore chegou a tempo de ocupar o seu lugar de sempre para o jantar no hotel. Em parte, por ser estrangeiro e também como homem de qualidade e de ação, os fabricantes o receberam com certa deferência. Alguns que em público não teriam se atrevido a recebê-lo, com medo da vingança popular, aconselhavam-no em particular como o seu campeão. Depois de os vinhos terem circulado, a amabilidade poderia ter-se transformado em entusiasmo se não fosse a impassibilidade de Mr. Moore mantê-la num grau moderado.
Mr. Yorke, presidente perpétuo desses jantares, presenciava a atitude de seu amigo com extrema satisfação. Era para ele um divertido espetáculo ver Robert Moore, recostado na cadeira, calmo e quase arrogante, ao passo que os donos das fábricas elogiavam as suas proezas, misturando, muitos deles, as lisonjas com desagradáveis investidas contra a classe operária. O seu coração dilatava-se com a agradável convicção de que Mr. Moore se sentia humilhado por aqueles grosseiros elogios.
Mr. Yorke não resistiu e lhe perguntou o que o amigo achava de seus bajuladores.
– Mas que pena, meu rapaz, não ter mandado enforcar aqueles quatro pobres diabos! Se tivesse praticado esse alto feito, a aristocracia do distrito teria desatrelado os cavalos da sua carruagem e o teriam puxado até Stilbro como um triunfante.
Mr. Moore não tardou a deixar a sala onde estavam os fabricantes, Mr. Yorke o seguiu e saíram juntos de Stilbro.
Era cedo para o regresso, embora o dia estivesse adiantado. O último raio de sol já dourava as franjas das nuvens e a noite de outubro começava a estender sua sombra sobre os pântanos.
Mr. Yorke, a quem não desagradava o regresso de Mr. Moore, fez, em grande parte, as despesas da conversa. Referiu-se rapidamente, mas com ironia, ao julgamento e à sentença. Em seguida, passou às intrigas da terra e atacou Mr. Moore em seu próprio terreno:
– Bob, parece-me que foi vencido e é muito bem feito. A fortuna apaixonou-se por você, destinou-lhe o primeiro prêmio da Cornucópia: vinte mil libras esterlinas, bastava que você estendesse a mão para pegar. E o que fez o senhor? Pediu um cavalo e foi caçar para as bandas de Warwickshire. A sua bem-amada fortuna mostrou-se indulgente. Esperou como a estátua da paciência que o senhor acabasse a caçada, pois julgava ela que o senhor havia de voltar e mostrar-se bom rapaz. Ainda poderia ganhar o grande prêmio, mas ficou indizivelmente surpreendida, e eu também, quando viu que, em vez de regressar a galope para lhe colocar aos pés os louros alcançados, tomara friamente a diligência para Londres. O que foi fazer lá o diabo é que sabe! Nada, penso eu, senão se aborrecer. O seu rosto nunca teve a brancura dos lírios, mas agora está da cor da azeitona. Já não está mais tão bonito como era, meu rapaz!
– E a quem vai caber então este grande prêmio de que tanto fala?
– A um barão, nem mais nem menos. Nem por um instante eu duvido de que ela esteja perdida para você. Será lady Nunnely antes do Natal.
– Sim. É muito provável.
– Mas era isso que não deveria ser. Que espécie de babaca você foi! Juro-lhe, ela poderia ter sido sua.
– E sobre que prova se baseia isso, Mr. Yorke?
– Sobre toda espécie de provas. Sobre o seu olhar e a cor das suas faces que se ruborizavam quando ouvia pronunciar o seu nome.
– O seu conselho é que eu me declare e lhe proponha casamento por mais tarde que seja, Mr. Yorke?
– Poderá tentar, Robert. Se ela tem um fraco por você, e eu acredito que ela tem ou tinha, talvez, ela lhe perdoe. Mas, por que está rindo, meu rapaz? Será de mim? Podia rir da sua própria estultícia. Vejo, contudo, que ri com o canto mau da sua boca. Conheço-o muito bem. Tem neste momento o ar de quem está de muito mau humor.
– Lutei tanto comigo mesmo, Mr. Yorke. Agitei-me de tal maneira dentro de uma camisa de forças, bati tanto com a cabeça de encontro às paredes!
– Ah! Gosto de ouvir isso. Bom exercício para você! Espero que lhe tenha feito bem, que lhe tenha feito perder parte da sua presunção!
– Da minha presunção? Onde está ela? É artigo que o senhor venda? Conhece alguém de quem eu possa comprá-la? Diga-me onde, Mr. Yorke, que serei um magnífico cliente.
– Será verdade, Bob? Olhe que sinto alívio por sabê-lo. Gosto de ouvir um homem falar com o coração. O que é que não vai bem?
– Horrendo, atroz, vergonhoso e crasso erro! Uma pessoa pode cometer aquilo que a envergonhará, que a deplorará durante anos e que uma vida inteira não chegará para fazê-lo esquecer.
– Continue, meu rapaz, continue; faz-lhe bem falar. Temos o pântano diante de nós e nem um ser vivo numa milha de distância.
– Falo. Não sinto vergonha em lhe dizer o que vai ouvir. Tenho uma espécie de gato bravo dentro do peito e quero que seja o primeiro a saber que ele é capaz de miar.
– Isso para mim é música. A noite está calma e o ouve; ela inclina-se para você como um padre para o penitente. Confesse, meu rapaz, não oculte nada. Faça-se mau como Belzebu e se sentirá aliviado.
– Tão vil como Mammon, devia o senhor dizer. Mr. Yorke, se eu descesse do cavalo e me atravessasse na estrada, quereria fazer o favor de passar em cima de mim a galope, para um lado e para o outro, umas vinte vezes?
– Faria com maior prazer caso houvesse um inquérito do juiz de paz.
– Pois é, amigo Yorke! Eu julgava realmente que ela me amava. Vi-lhe brilhar os olhos ao descobrir-me no meio de uma multidão. Via-a corar como uma cereja ao estender-me a mão, ao dizer-me: “– Como passou, Mr. Moore?”
– Continue, não pare.
– O meu nome tinha uma influência mágica sobre ela; quando outros o pronunciavam, ela mudava de atitude, eu bem o sabia. Mostrava interesse por mim. Queria-me bem. Meditei, refleti, pensei, estranhei e só a uma conclusão eu podia chegar: era amor. Olhei para ela, Yorke, vi-lhe juventude e certa espécie de beleza. Vi nela o poder. A sua riqueza oferecia-me a redenção da minha honra e do meu crédito. Eu devia-lhe gratidão. Ela tinha me ajudado, generosa e eficazmente, emprestando-me cinco mil libras esterlinas. Podia eu recordar estas coisas, supor que era amado por ela, ouvir a voz da sabedoria apressando-me a casa e fechar os ouvidos a lisonjeiras sugestões? Jovem, graciosa, elegante; a minha benfeitora era-me dedicada, estava enamorada de mim, costumava eu pensar. Na verdade, eu sorria secretamente da ingenuidade dela em ser a primeira a amar e se deixar ver. Parece-me que o seu chicote tem um cabo pesado e sólido, Yorke! Pode servir-se dele e deitar-me do cavalo abaixo, se quiser.
– Tenha paciência, Bob, até a lua se erguer e eu puder vê-lo, fale simplesmente. Ela o amava ou não? Gostaria de saber. Estou curioso...
– Ah! Eu digo que ela é muito linda e muito atraente à sua maneira. Por momentos parece um composto de fogo e de ar. Sinto nela um poderoso ímã para o meu interesse e a minha vaidade, mas nunca me senti atraído por ela como homem, como se a natureza a tivesse destinado a ser a segunda e a melhor parte de mim mesmo. Dizia com brutalidade: “serei rico como um homem prático e não como um herói de romance.”
– Ajuizada resolução. E que desgraça veio a resultar daí, Bob?
– Com essa ajuizada resolução, dirigi-me a Fieldhead numa certa noite de agosto. Era na véspera da minha partida para Birmingham. Antes eu tinha lhe escrito duas linhas pedindo uma entrevista em particular. Encontrei-a em casa e só. Recebeu-me com visível embaraço, pois supunha que eu ia tratar de negócios. Eu próprio me sentia também bastante embaraçado, mas estava decidido. Abordei o caso de maneira rude e firme, embora com bastante medo, devo confessá-lo. Ofereci-me à minha bela dama com as minhas dívidas como presente nupcial. Senti-me envergonhado, irritado, ao ver que ela nem corava, nem tremia, nem baixava os olhos. Respondeu-me: “– Não sei se o compreendi bem, senhor.” Então, eu fui obrigado a repetir, pela segunda vez, a minha proposta e apresentá-la tão claramente como o alfabeto, antes de ela ter visto com clareza do que se tratava. E então, o que ela fez? Em vez de soluçar um terno “sim” ou de ficar em um silêncio doce e confuso, ergueu-se, deu duas voltas na sala, naquele seu jeito tão peculiar, e exclamou: “– Deus me abençoe!”
– Santo Deus! – bradou Mr. Yorke.
– Yorke, eu estava de pé em frente à lareira, de costas para a chaminé, encostei-me a ela e fiquei à espera de qualquer coisa, disposto a tudo. Sabia a sorte que me esperava e conhecia-me bem. O seu aspecto e a sua voz não me deixaram dúvidas. Por fim, parou e fitou-me: “– Deus me abençoe!”, repetiu ela implacavelmente num tom escandalizado e, contudo, triste. Depois, concluiu: “– Fez-me uma curiosa proposta; curiosa por ter vindo do senhor, e se o senhor soubesse de que maneira a formulou e o ar que tinha ao fazê-la, teria medo de si próprio. Falava mais como um bandido exigindo a minha bolsa do que como um apaixonado pedindo o meu coração.” Engraçada essa frase, não é verdade, Yorke? E eu sabia, quando ela a pronunciou, que não era só curiosa, mas também verdadeira. Olhei para ela mudo e enfurecido. Estava cheio de raiva e vergonha.
– “Robert Moore sabe que não ama Shirley Keeldar” – disse-me ela. – Eu teria podido fazer toda espécie de juras falsas, até jurar que a amava. Mas eu não podia mentir diante do rosto puro de Shirley. Aliás, quaisquer juras que eu fizesse teriam sido inúteis. Ela não acreditaria. O que aconteceu depois? Não vai me perguntar?
– Conte-me, homem.
– Pois bem! Ela sentou-se no vão da janela e chorou. Chorou apaixonadamente. Os seus olhos não estavam apenas inundados de lágrimas, mas soltavam chispas; grandes, sombrios, altivos e diziam-me: “o senhor enganou-me!” Não tardou a acrescentar a palavra aos olhares: “– Eu respeitava-o, admirava-o, amava-o”, disse-me ela. “– Sim, amava-o como um irmão e o senhor, o senhor quis fazer de mim uma especulação! O
senhor era capaz de me sacrificar a essa fábrica que é o seu Moloch[14]!”
– Por algum tempo tive o bom senso de me abster de qualquer desculpa, de qualquer explicação. Resignei-me e ouvi-lhe as censuras. Mas, eu estava certamente meio louco, imagine o que eu lhe disse quando lhe respondi: “fossem quais fossem os meus sentimentos, tinha como certo que me amava, Miss Keeldar.”
– Admirável, não é assim? Ela sentou-se estupefata. Ouvi-a murmurar: “será um homem ou qualquer coisa mais vil?”
– “Quer dizer...”, perguntou ela em voz alta – “... quer dizer que supunha que eu o amava tal como se ama quando se pretende casar? O senhor tinha concebido uma ideia injuriosa para os sentimentos de uma mulher” – respondeu ela e de uma maneira revoltante. “– O senhor dá a entender que toda franqueza, toda a benevolência que lhe mostrei, não passava de uma manobra complicada, ousada e inconveniente para caçar um marido? Finalmente, o senhor quer dizer que veio aqui por piedade oferecer-me a sua mão por eu o ter atraído. Deixe-me dizer uma coisa: a sua visão está perturbada, enxergou mal; a sua inteligência está doente, julgou mal; a sua língua o traiu, pois falou mal. Eu nunca o amei como homem. Pode ficar tranquilo a tal respeito. O meu coração está tão livre de paixão pelo senhor como o seu carece de afeição por mim.”
– Foi isto o que ela me respondeu, Mr. Yorke, e eu disse: “Devo parecer-lhe bem cego e bem presumido.”
– “Eu amá-lo!” – exclamou ela. “– Mas eu fui tão franca para com o senhor como uma irmã; nunca o evitei, nunca o temi.”
– Eu aleguei que ao falar comigo ela corava muitas vezes e que parecia emocionada quando pronunciava o meu nome.
– “Mas não é por sua causa!” – declarou ela, rapidamente.
– Pedi explicações, mas não as obtive.
– “Julga que eu o amava quando estava sentada ao seu lado nas festas das escolas? Quando o detive no caminho? Quando ia procurá-lo no seu escritório?”
– A todas estas perguntas eu respondi que sim, que o supunha. Santo Deus, Mr. Yorke! Ela levantou-se, cresceu, parecia feita de chama.
– “Quer dizer, o senhor tinha a mais triste opinião ao meu respeito. Quer dizer que eu sou uma traidora de todas as minhas irmãs; que procedi como nenhuma mulher pode proceder sem se degradar a si e ao seu sexo.”
– Ficamos ambos silenciosos durante alguns minutos.
– “Oh! Lúcifer, Estrela da Manhã!” – prosseguiu ela. “– Como tu caíste! O senhor, que eu punha outrora tão alto na minha estima, que merecia da minha parte tão grande amizade, só merece desprezo. Vá-se embora!”
– Não fui embora. Eu tinha notado que a voz dela tremia, tinha visto passar um frêmito nos seus lábios. Sabia que outra crise de lágrimas se aproximava, parecia-me que depois viria um período de calma e queria esperar por ele. Logo depois, as suas lágrimas correram com tanta abundância como antes, porém ela estava mais calma. O seu choro tinha um tom mais doce, mais poético. Enquanto eu a contemplava, os seus olhos lançaram-me um olhar em que havia mais censura do que altivez, mais tristeza do que cólera.
– “Oh! Mr. Moore! Por quê?” – exclamou ela.
– Peguei meu chapéu. Eu nunca me resignaria a partir assim e julgo que ela não teria permitido, mas a ferida mortal que eu tinha causado à sua altivez impunha silêncio à sua compaixão.
– Fui obrigado a voltar atrás, espontaneamente, já quando estava junto à porta, para me aproximar dela e lhe dizer: “Perdoe-me.”
– “Poderia perdoar-lhe se não tivesse que perdoar a mim também” – respondeu ela – “mas devo ter procedido mal, já que induzi ao erro um homem sensato.”
– Lancei-me num discurso de que não me recordo. Sei que falei sinceramente e que o meu voto era absolvê-la perante ela própria. Ela, por fim, estendeu-me sua mão. Pela primeira vez senti vontade de apertá-la em meus braços. Beijei várias vezes a sua mão.
– “Um dia voltaremos a ser amigos” – disse ela. “– Quando o senhor tiver tido tempo para ver os meus atos sob o seu verdadeiro aspecto. O tempo se encarregará de lhe dar a chave e, talvez, então compreenda e ficaremos reconciliados.”
– Deslizaram-lhe ainda algumas lágrimas pelo seu belo rosto e ela as enxugou.
– “Estou incomodada com o que se passou, profundamente incomodada” – disse ela, soluçando.
– Eu também estava; só Deus o sabe. E foi assim que nos separamos.
– Mas que história! – comentou Mr. Yorke. – Estou petrificado!
– Nunca mais a recomeçarei, juro-lhe – replicou o seu companheiro. – Nunca mais voltarei a falar em casamento a uma mulher, a não ser que eu esteja apaixonado por ela. De agora em diante, o crédito e o comércio tratarão de si próprios. A falência que venha quando quiser. Que venha o pior! Agarrarei num machado e emigrarei com o Louis para o Oeste, já o combinamos. Nunca, em presença de uma mulher, me mostrarei tão louco, tão bruto e tão arrogantemente vaidoso!
– Ora vamos! – disse o imperturbável Mr. Yorke. – Está dando demasiada importância a isso, mas estou estupefato. Em primeiro lugar, por saber que ela não o amava; em segundo lugar, por ela lhe ser indiferente; são ambos jovens, belos, inteligentes e até quanto ao caráter são parecidos... Lógico, olhando o seu lado bom. Como é possível que não tenham podido se entender?
– Nunca estivemos nem podíamos estar inteiramente à vontade um perante o outro. Sentíamos uma admiração mútua quando estávamos afastados, mas as nossas personalidades não se ligavam bem quando nos aproximávamos.
– Pois bem, meu rapaz, aí está uma coisa estranha. Eu poderia rir dessa história e até desprezá-la, isto é, desprezar as suas complicações, mas, como é noite escura e estamos sozinhos, direi que a sua história trouxe um relance de luz à minha vida passada. Há vinte e cinco anos quis persuadir uma bela mulher a gostar de mim, mas ela não concordou. Para mim ela foi como uma parede sem janelas e sem portas.
– Mas é diferente, Mr. Yorke! O senhor amava e adorava Mary Cave; conduziu-se como homem, nunca como um caçador de dotes.
– Ah, sim! Eu a amava! Ela era bela como a lua que nós não vimos esta noite; não há ninguém que se compare a ela atualmente. Só Miss Helstone terá, talvez, certa semelhança com ela, ninguém mais.
– Suponha, Mr. Yorke, suponha que ela era dotada de um espírito refletido e original; imagine que ao conversar com ela, sentado ao seu lado, o assunto fosse fértil, variado, cheio de pitoresco encanto; suponha que, estando junto dela, por acaso ou intencionalmente, a atmosfera se tornasse para si mais leve; imagine, além de tudo isso, que tivesse sentido tremer, mais de uma vez, na sua a mãozinha de Mary; suponha, finalmente, que a sua Mary tivesse sido, não fria, mas sensível; não nula, mas pensativa; não falsamente modesta, mas pura. Teria deixado Mary para cortejar outra mulher somente por causa do dinheiro dela?
Mr. Yorke soergueu o chapéu e limpou a testa com o lenço.
– A lua já se ergueu – observou ele muito a propósito, apontando com o chicote na direção do pântano. – Lá vai ela subindo por entre a bruma, olhando para nós com sua entranha cor avermelhada. Tão pouco da cor prata como de marfim tem a testa do velho Mr. Helstone.
– Mr. Yorke, se Mary o tivesse amado em silêncio, mas fielmente, castamente, e, contudo, com ardor, como pode desejar ser amado por sua mulher, você a teria desdenhado?
– Robert!... – Mr. Yorke ergueu o braço e o conservou no ar. – Robert, o nosso mundo é singular e os homens são feitos da lama mais estranha que na sua fermentação o caos tenha agitado. Eu poderia proferir os mais sonoros juramentos, com imprecações capazes de fazerem crer aos caçadores furtivos que havia aqui uma luta terrível, e jurar-lhe que nas circunstâncias de que fala só a morte me poderia ter separado de Mary. Mas eu vivi na face da Terra durante cinquenta e cinco anos, fui obrigado a estudar a natureza humana e, para dizer a triste verdade, é provável que, se Mary tivesse me amado e não tivesse me desdenhado; se eu tivesse a certeza da sua afeição; se eu estivesse persuadido da sua constância; se não houvesse nenhuma dívida que me irritasse; nenhuma humilhação que me ferisse, é provável... – deixou cair sua mão pesadamente sobre a sela – que a tivesse abandonado!
Cavalgaram, lado a lado, em silêncio, durante alguns minutos. Já tinham atravessado o pântano de Rushedge e as luzes de Briarfield já eram visíveis lá longe. Mr. Yorke foi o primeiro a retomar a palavra:
– Quais são os seus projetos agora? O que pretende fazer?
– Os meus projetos particulares, guardo para mim, o que neste momento é fácil, pois não tenho nenhum. A vida privada não é coisa permitida na minha posição... um homem endividado! Quanto aos meus planos públicos, as minhas intenções variaram um pouco. Enquanto estive em Birmingham, estudei seriamente e na sua origem as causas das perturbações que agitam atualmente a região. Fiz o mesmo em Londres. Como eu era um desconhecido, eu podia ir aonde me apetecia e misturar-me com quem quisesse. Vi onde faltava pão, aquecimento, roupa; onde não havia trabalho nem esperança. Vi homens dotados de bons sentimentos que se debatiam nas mais sórdidas privações. Vi outros, originariamente baixos, desesperados como animais esfomeados. Vi coisas que me deram uma nova lição e me despertaram novos sentimentos. Não tenho a menor intenção de demonstrar mais doçura e mais sensibilidade do que até aqui demonstrei. Considero a revolta e a ambição como sempre as considerei; resistirei, em absoluto, a uma revolta como já fiz. Lançar-me-ei à caçada do agitador furtivo com tanto ardor e farei com que seja castigado como tanta severidade como já fiz. No entanto, há qualquer coisa a considerar, Mr. Yorke, para além do meu interesse pessoal. A menos que eu seja de agora em diante mais moderado com os ignorantes, mais compassivo para com os que sofrem, terei desprezo por mim mesmo, como sendo grosseiramente injusto. Mas, o que há? – disse Robert Moore, dirigindo-se ao seu cavalo, o qual, tendo sede, procurava dirigir-se para um fosso onde a lua resplandecia no cristal da água. – Mr. Yorke – continuou Mr. Moore – vá andando, tenho que deixá-lo beber.
Mr. Yorke continuou o seu caminho bastante devagar, olhando as numerosas luzes de Briarfield que brilhavam ao longe. O pântano de Stilbro já ficara para trás deles e estava descendo a colina. Lá embaixo estendia-se o vale, com a sua populosa paróquia; estavam quase em casa.
Quando já estavam prestes a abandonar a charneca, Mr. Yorke não ficou surpreendido por ver aparecer um chapéu e vozes vindas de trás de um muro. Contudo, as palavras eram singulares; apurou os ouvidos.
– Quando o mal perece, há gritos de alegria! – disse alguém. Depois escutou ainda: – O mal passa como um turbilhão; o inferno está diante de seus pés e há de morrer, sem esperar!
Um súbito relâmpago e uma detonação quebraram a calma noturna. Antes que Mr. Yorke tivesse tempo de voltar, compreendera que os quatro forçados de Birmingham estavam vingados.
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