Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 13 de 38

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Shirley

Capítulo XIII

 

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Outras Cartas de Negócios

 

Era da natureza de Miss Shirley Keeldar se deixar levar em certos momentos por pura indolência. Havia períodos em que se deixava ficar em inanição absoluta, em que a ideia de sua existência e do mundo que a cercava parecia ceder. Noutros, ficava numa felicidade tão completa que não levantaria um dedo sequer para aumentar a alegria. Muitas vezes, depois de uma manhã ativa, ela passava a tarde ensolarada sentada na relva, ao pé de alguma árvore de sombra amigável. Nenhuma companhia era preciso, mas a de Miss Caroline Helstone era bem-vinda e lhe bastava. Os seus únicos livros em tais horas de doce indolência eram a vaga recordação do passado ou as páginas enigmáticas do futuro. De seus olhos jovens caíam em cada volume uma luz gloriosa para se ler; o sorriso, que por momentos brincava em seus lábios, dava vislumbres de um romance do passado ou da profecia de um futuro. Contudo, não era um sorriso triste ou mesmo sombrio. O destino tinha sido benigno para aquela feliz sonhadora e prometido favorecê-la mais uma vez: seu passado era de doces paisagens e o futuro de esperanças rosadas.

No entanto, um dia, quando Miss Helstone se aproximou para despertá-la, julgando que ela tinha ficado muito tempo deitada, viu as faces de Miss Keeldar inundadas de lágrimas como se fosse o orvalho. Aqueles belos olhos brilhavam umedecidos.

– Shirley, por que chora? – perguntou Miss Caroline.

Miss Keeldar sorriu e, virando a encantadora cabeça para Miss Helstone, respondeu:

– Porque me agrada imensamente chorar – respondeu. – O meu coração está ao mesmo tempo triste e alegre. Mas, por que não me faz companhia, minha boa e paciente criança? Eu só choro lágrimas doces que depressa se secam. Você é que poderia chorar amargamente.

– Por que eu deveria chorar amargamente?

– Porque é uma ave solitária – foi sua única resposta.

– E você também não tem companheiro, não é, Shirley?

– No fundo do meu coração, não.

– Oh! Quem ousa lá fazer ninho, Shirley?

Mas, Miss Shirley apenas riu alegremente desta pergunta em vez de respondê-la. Pouco depois, levantou-se com vivacidade.

– Eu sonhei – disse Miss Keeldar. – Não passou de um mero devaneio, certamente brilhante, mas provavelmente infundado.

Naquele momento Miss Helstone não tinha ilusões. Ela tinha uma visão suficientemente grave do futuro e imaginou que ela sabia muito bem como seria o seu próprio destino. Ainda assim, antigas associações haviam conservado sua influência sobre ela que, junto com o poder do hábito, traziam-na frequentemente à noite para o campo que dominava a cottage e a fábrica de Hollow.

Numa noite, aquela que se seguiu ao incidente do bilhete, ela tinha ido para o seu posto habitual esperando a aparição do seu farol, o que aguardou em vão, pois nessa noite nenhuma luz apareceu. Esperou até que certas constelações, elevando-se no céu, vieram adverti-la de que a noite avançava e era hora de se recolher. No regresso, passando perto de Fieldhead, o efeito do luar sobre a casa atraiu sua atenção e fez com que parasse. As árvores e a casa erguiam-se pacíficas sob um céu calmo e a plena claridade do astro da noite, o clarão dourado destacava-se harmoniosamente sobre um fundo sombrio. O pavimento amplo da frente brilhava palidamente como se algum feitiço tivesse transformado o granito escuro em um resplandecente mármore. Sobre o espaço prateado destacavam-se duas formas negras, duas figuras humanas. Estas figuras, a princípio imóveis e mudas, começaram a andar e a falar em voz baixa e harmoniosa. Um olhar ardente as seguiu quando elas saíram detrás do tronco de cedro. Seriam Mrs. Pryor e Miss Keeldar?

Certamente era Miss Shirley Keeldar. Quem mais teria uma forma assim tão graciosa! Seu rosto também era visível; seu semblante descuidado, pensativo, meditava alegre com um ar zombeteiro e terno. Não temendo o orvalho, ela não cobria a cabeça e seus sedosos cachos estavam livres, caíam como um véu em seu pescoço, acariciando seus ombros. Um ornamento de ouro brilhava através das dobras meio cerradas do lenço que ela envolvia em seu busto. Sim, era Miss Keeldar. Então a outra pessoa só pode ser Mrs. Pryor.

Sim, se Mrs. Pryor possuísse seis pés de altura e se tivesse trocado seu vestido de viúva por um disfarce masculino. A figura que caminhava ao lado de Miss Keeldar era um homem, um cavalheiro alto, imponente e jovem, era o seu inquilino, Mr. Robert Moore.

O casal conversava baixinho, quase um murmúrio, portanto, não dava para saber o que falavam um ao outro. 

Houve um tempo em que, nas noites de verão, Mr. Moore tinha o costume de andar assim com sua prima, como naquele momento estava andando com a herdeira. Muitas vezes Miss Caroline Helstone subira com ele a ladeira de Hollow, depois do pôr do sol, para respirar o frescor da terra sobre uma espécie de terraço atapetado de relva à beira de um barranco, do fundo do qual subia um gemido das águas chorando por entre os úmidos seixos. “Mas naquele tempo eu costumava estar mais perto dele”, pensou Miss Caroline. “Ele não era obrigado a tratar-me com deferência, eu só pedia ternura e ele costumava segurar a minha mão. Na dela ele não toca.” E, ainda assim, Miss Shirley Keeldar não era altiva com os que ela amava. Não havia arrogância em seu aspecto nesse momento, apenas no seu porte, esse ar de dignidade que lhe era natural e inseparável. “Robert deve pensar também como eu penso, que ele tem, neste instante, um belo rosto à sua frente. Seus olhos brilham com uma doce luz! Ela sorri seu sorriso tão meigo! Vejo que Robert sente sua beleza, portanto, deve compreendê-la com o coração de homem e não com a fraca percepção de uma mulher. Aparecem para mim como dois grandes espíritos felizes. E quem sou eu aqui escondida na sombra? Sou uma infeliz mortal que se pergunta para que nasceu e por que vive? Eis a provação mais penosa das que tenho defrontado e, contudo, eu estava preparada para ela. Renunciei a Robert e o dei a Shirley no dia em que soube da sua chegada. A primeira vez que a vi: rica, jovem e encantadora. Ela o tem agora; ele é seu amante; ela é sua querida. Ela será muito mais sua querida quando forem casados. Quanto mais Robert conhecer Shirley, mais sua alma se apegará a ela. Eles vão ser felizes e eu não invejo a felicidade deles, contudo, gemo sob o peso da minha própria miséria. Meus sofrimentos são agudos e eu não deveria ter nascido. Oh! Como minha dor é cruel! Por que não me sufocaram ao nascer?”

Neste momento, Miss Keeldar, afastando-se um pouco para colher uma flor orvalhada, entrou com seu companheiro por um atalho que ficava mais perto do portão exterior. Algumas palavras da sua conversa tornaram-se audíveis. Miss Caroline não quis ficar para ouvi-las, afastou-se sem fazer barulho e a lua veio acariciar a parte do muro que sua sombra havia esmaecido. O leitor tem o privilégio de permanecer e apanhar o que puder da conversa.

– Não posso conceber por que a natureza não lhe deu uma cabeça de bulldog, porque o senhor tem a tenacidade desse animal – disse Miss Keeldar. – E tem também qualquer coisa da maneira como esse animal se atira, não avisa, vai sorrateiramente por trás, morde com força e não larga a presa.

– Não pode observar nada parecido com isso em minha conduta. Tem testemunhado tal façanha da minha parte na sua presença? Se eu não falei abertamente ainda era porque eu não tinha nada para falar.

– O seu silêncio indica a sua raça. Como fala pouco, em geral, é profundo e perspicaz. O senhor sabe calcular.

– É que eu sei qual a maneira de proceder dessas pessoas. Tenho recolhido informações e conheço suas intenções. A minha carta de ontem à noite informava que Barraclough foi reconhecido culpado e condenado à deportação. Os seus associados vão traçar vingança. Vou preparar meus planos de modo a neutralizá-los ou, pelo menos, estarei preparado para enfrentá-los. Isso é tudo. Agora eu já lhe dei a mais clara explicação e peço sua incondicional aprovação.

– Sim. Estarei do seu lado desde que você permaneça na defensiva.

– Bem. Agora estou satisfeito. Sem qualquer ajuda, mesmo contra ou reprovado por você, eu acredito que eu deveria ter agido exatamente como eu agi. Mesmo sendo considerado um bulldog.

– Isso salta à vista e ouso dizer-lhe que a tarefa que atribuí a você lhe agrada mais, talvez, do que um contrato do governo para o fornecimento de uniformes para o exército.

– Certamente.

– O velho Mr. Helstone é como o senhor. É verdade que existe uma sombra de diferença em seus motivos e os dele. Várias diferenças, talvez. Posso falar com Mr. Helstone se você quiser.

– Faça como quiser. O seu julgamento, Miss Keeldar, irá guiá-lo com precisão. Mas, devo dizer que Mr. Helstone está um pouco chateado comigo no momento.

– Estou ciente. Contaram-me tudo sobre suas diferenças. Tenha certeza de que se desvanecerão. Ele não poderá resistir à tentação de uma aliança nas atuais circunstâncias.

– Ficaria feliz em tê-lo do meu lado. Ele é de metal verdadeiro.

– Eu penso assim também. Bem, irá tê-lo, Mr. Moore. Farei todos os esforços para isso.

– Ele cederá a uma palavra sua, a um sorriso.

– De maneira nenhuma. Vai me custar vários chás, algumas torradas e uma larga medida de conselhos, de censuras e de persuasão. Mas farei o esforço.

– Vejo que você treme. Estou agindo erroneamente em detê-la aqui. Contudo, a noite está tão calma, acho-a quase quente e uma companhia como a sua é um prazer tão raro! Se tivesse um xale mais quente...

– Poderia ficar mais tempo e esquecer o quão tarde é, mas a senhora ficaria zangada. Mantemos hábitos regulares em Fieldhead, Mr. Moore. Deitamos cedo e tenho a certeza de que sua irmã também.

– Sim. Hortense e eu entendemo-nos admiravelmente. Cada um faz o que quer.

– E o que costuma fazer?

– Três noites por semana durmo na fábrica, mas não tenho necessidade de grande descanso e, quando a luz brilha e a noite é suave, passeio muitas vezes até ao amanhecer pelos arredores de Hollow.

– Quando eu era uma menininha, Mr. Moore, a minha ama tinha o costume de me contar histórias das fadas que se viam em Hollow. Isso foi antes de meu pai construir a fábrica, quando Hollow era um barranco solitário. O senhor teria caído nos seus feitiços.

– Temo que isso já tenha acontecido – disse Mr. Moore, em voz baixa.

– Mas, há coisas piores do que as fadas de que é preciso se acautelar – prosseguiu Miss Keeldar.

– Coisas mais perigosas? – perguntou ele.

– Infinitamente mais. Por exemplo, gostaria de encontrar esse Michael Hartley, esse calvinista louco, esse tecelão jacobino. Dizem que ele é um caçador furtivo que sai muitas vezes, de noite, com uma espingarda.

– Já tive a sorte de encontrá-lo. Tivemos uma longa discussão. Achei esse incidente estranho e agradável.

– Agradável? Admiro o seu gosto! Michael não é sensato. Onde você o encontrou?

– No lugar mais profundo e sombrio do despenhadeiro, onde a água fica fraca, sob o matagal. Sentamo-nos junto da ponte de madeira. A lua brilhava, mas o céu estava nublado e havia muito vento. Tivemos uma conversa.

– Sobre política?

– E religião. Acho que a lua estava cheia e Michael estava o mais perto possível da loucura. Ele proferiu estranhas blasfêmias.

– Desculpe-me, mas eu acho que o senhor estava quase tão louco como ele para se sentar e ouvi-lo.

– As divagações dele são interessantes. Seus delírios, se não fossem absolutamente malucos, seriam como poesia. Ele poderia até ser um profeta se não fosse louco. Ele solenemente me informou que o inferno será a minha porção inevitável, que eu estava amaldiçoado. Eu quis saber mais, mas ele me disse: “O fim ainda não chegou.”

– Tornou a vê-lo desde então?

– Cerca de um mês depois, quando eu retornava do mercado, encontrei-o com Moisés Barraclough, ambos em avançado estágio de embriaguez. Poucos dias depois Michael se deu ao trabalho de aparecer na porta do meu escritório, sem chapéu, em mangas de camisa, para me entregar uma mensagem. Ele me aconselhou a colocar a casa em ordem, pois o meu dia estava chegando ao fim e minha alma não tardaria a partir.

– E o senhor trata essas coisas levianamente?

– O pobre homem tinha bebido há semanas e estava em um estado vizinho da loucura.

– E então? Não acredita que ele seja capaz de executar as suas profecias?

– Seria absurdo deixar-me impressionar por esses incidentes.

– Mr. Moore, vá para casa.

– Então, até breve.

– Passe direto pelos campos, não siga o caminho das plantações – advertiu Miss Keeldar.

– É cedo ainda.

– É tarde. Da minha parte, vou para dentro. O senhor me promete não andar pelos arredores de Hollow esta noite?

– Se assim o deseja.

– Quero isso. Posso perguntar se o senhor considera a vida sem valor?

– De maneira nenhuma. Muito pelo contrário. De algum tempo para cá tenho considerado a minha vida de um valor inestimável.

– Desde quando?

– A minha existência não é sem rumo e sem esperança para mim agora. Foi há dois ou três meses atrás. Estive quase me afogando. De repente, foi-me estendida uma mão, uma mão tão delicada, que mal ouso confiar-me a ela. Foi a sua força, contudo, que me arrancou da ruína.

– Está realmente salvo?

– Por agora a sua ajuda me deu outra chance.

– Então viva para aproveitá-la e não a ofereça como um alvo a Michael Hartley. Boa noite!

 

*******

 

Miss Helstone tinha prometido passar a noite seguinte em Fieldhead e cumpriu sua promessa. Contudo, as horas sombrias que decorreram o intervalo foram tristes. A maior parte do tempo ela passou trancada em seu próprio quarto, saindo apenas para acompanhar seu tio nas refeições, ocasiões em que evitava as perguntas de Fanny, dizendo-lhe que estava ocupada transformando um vestido e que preferia costurá-lo no andar de cima para evitar interrupção.

Ocupou-se com efeito da costura, mas seu cérebro trabalhava mais rápido do que os dedos. Mais uma vez, e agora mais intensamente do que nunca, ela desejou ter uma ocupação fixa, não importava quão aborrecida fosse. Resolveu consultar mais uma vez o tio, mas primeiro ela iria se aconselhar com Mrs. Pryor. Sua cabeça trabalhava imaginando projetos tão diligentemente quanto suas mãos a franzir e a coser a leve musselina do vestido de verão espalhada no pequeno sofá branco, ao pé do qual ela se sentou. De tempo em tempo, durante essa dupla ocupação, uma lágrima enchia seus olhos e caía sobre suas mãos ocupadas. Entretanto, este sinal de emoção era raro e rapidamente apagado. A dor aguda havia passado, aquela penumbra tinha sido apagada da sua visão.

No final da tarde, ela se vestiu sozinha e dirigiu-se para Fieldhead, chegando à sala de carvalho no momento em que se servia o chá. Miss Keeldar perguntou por que ela tinha vindo tão tarde.

– Porque estive costurando meu vestido – disse ela. – Estes dias ensolarados faziam com que eu me envergonhasse do meu vestido de inverno. Assim fiz este mais leve.

– E dá gosto de vê-la! – disse Miss Keeldar. – Tem o ar muito distinto, Caroline. Não é verdade, Mrs. Pryor?

Mrs. Pryor nunca fazia elogios. Nesta ocasião limitou-se a afastar os cachos de Miss Caroline quando ela se sentou perto dela, acariciou-lhe o rosto oval e observou enternecida: – Você emagreceu, meu amor, e está mais pálida do que de costume. Você dormiu bem? Os seus olhos têm certa expressão de languidez – e olhava para ela, cheia de ansiedade.

– Tenho, às vezes, sonhos melancólicos – respondeu Miss Helstone – e se me acontece de ficar acordada até uma ou duas da manhã, penso continuamente que o presbitério é um lugar lúgubre. Vocês sabem que ele fica muito perto do cemitério? Uma parte da casa é muito antiga e dizem que a cozinha fazia, outrora, parte do cemitério e que há sepulturas embaixo dela. Bem, eu queria muito deixar a reitoria

– Minha querida, você certamente não é supersticiosa?

– Não sou, Mrs. Pryor, mas acho que estou me tornando nervosa, pois vejo as coisas sob um aspecto sombrio, tenho medo, não de almas de outro mundo, mas tenho maus presságios de eventos desastrosos. Tenho um peso indizível em minha mente que eu daria o mundo para tirá-lo de mim.

– É estranho! – exclamou Miss Keeldar. – Não sinto nada disso.

Mrs. Pryor não disse nada.

– O bom tempo, os dias agradáveis e as paisagens encantadoras são impotentes para me darem prazer – continuou Miss Helstone. – As noites calmas não me trazem tranquilidade. O luar que eu achava tão doce, agora me parece triste. Será fraqueza de espírito ou outra coisa? Luto contra esse estado, mas os meus esforços e a minha razão nada podem fazer.

– Deve fazer mais exercícios – aconselhou Mrs. Pryor.

– Exercícios? Faço o suficiente. Faço tanto que quase me sinto desfalecer.

– Minha querida, deve deixar o presbitério – disse Mrs. Pryor.

– Gostaria de deixá-lo, mas não para uma excursão ou uma visita. Gostaria de ser uma governanta como a senhora tem sido. Ficaria muito grata se falasse com meu tio sobre o assunto.

– Que absurdo! – interrompeu Miss Keeldar. – Que ideia! Ser uma governanta! Mais vale mil vezes ser uma escrava. Para que tomar essa resolução extrema? Por que sonhar com um passo tão doloroso?

– Ah, minha querida! – disse Mrs. Pryor. – É ainda muito jovem para ser uma governanta e não tem força suficiente. Os deveres de uma professora são, por vezes, penosos.

– Creio ter necessidade de deveres penosos para me ocupar.

– Para se ocupar! – exclamou Miss Keeldar. – E quando é que está ociosa? Nunca vi uma menina mais diligente do que você. Você está sempre trabalhando, Caroline. Venha – ela continuou – sente-se ao meu lado e tome um chá para se refrescar e ganhar coragem. A minha amizade não lhe interessa? Afinal, você quer me deixar?

– Interessa-me muito, Shirley. E não desejo deixá-la. Nunca terei amiga mais querida.

Miss Keeldar colocou sua mão sobre a de Miss Helstone num movimento cheio de afeição que foi bem destacado pela expressão de seu rosto.

– Se pensa assim, para que fugir? Não gosto de separar-me das pessoas a quem me apego. Mrs. Pryor, às vezes, fala em me deixar e diz que eu poderia fazer uma conexão mais vantajosa, isto é, trocar uma mãe à moda antiga por algo mais moderno e elegante quanto você. Bem, ela me diz que você gosta de mim tanto quanto eu gosto de você e ela não faz restrição a respeito da nossa amizade.

– Sou sua amiga, Shirley. Cada vez mais. Mas isso não me faz forte nem mais feliz.

– E ficaria mais forte e feliz se partisse e fosse viver na dependência de estranhos? Não serve para você a vida de governanta, Caroline. Digo-lhe que iria falhar. Não está na sua natureza suportar a vida desolada que as governantas geralmente levam. Iria ficar doente. Não quero mais ouvi-la falar nisso.

Miss Keeldar fez uma pausa depois de ter pronunciado tal proibição muito decididamente. Logo ela recomeçou, com um ar um pouco irritado: – Ora, agora o meu prazer diário é tentar ver se vejo aparecer o pequeno chapéu e o lenço de seda brilhando por entre as árvores e saber que minha calma, meditativa e atenciosa companheira está voltando para mim. Que a terei sentada na sala de frente para mim para poder olhá-la, falar com ela ou deixá-la a sós, conforme agradar a ambas. Isto talvez seja uma maneira egoísta de falar, mas são as palavras que me vieram naturalmente.

– Escreverei para você, Shirley.

– E o que são as cartas? Apenas um pálido substituto. Beba o chá, Caroline. Coma qualquer coisa. Você nunca come nada. Ria, seja alegre e fique em sua casa.

Miss Helstone meneou a cabeça e suspirou. Compreendia a dificuldade que teria em convencer quem quer que fosse a ajudá-la na mudança de vida que ela acreditava necessária. Ela podia apenas seguir seu próprio julgamento, pensou que seria capaz de encontrar, talvez, um caminho duro, contudo uma cura eficaz para os seus sofrimentos. Mas este julgamento ela não poderia explicar a ninguém, muito menos a Miss Keeldar, pois parecia aos seus próprios olhos sem sentido. Não havia realmente necessidade para que ela deixasse a casa confortável de seu tio para se tornar uma governanta e não havia qualquer probabilidade de que seu tio permitisse. Seus amigos pensavam da mesma forma, mas eles não conheciam a profundidade dos sofrimentos de Miss Caroline, aqueles que ela desejava tão ansiosamente superar ou escapar; eles não tinham ideia de suas noites atormentadas, muito menos suspeitavam dos dias sombrios. Era, portanto, impossível e sem esperança tentar explicar.

– Agora a sua mente já acalmou? – perguntou Miss Keeldar. – Consentirá em ficar em casa?

– Não vou deixá-la contra a aprovação de meus amigos – foi a resposta – mas creio que chegará um tempo em que serão obrigados a pensar como eu.

Durante esta conversa, Mrs. Pryor parecia longe e embaraçada. A sua extrema reserva raramente lhe permitia falar com liberdade ou interrogar com persistência. Ela poderia pensar numa série de perguntas, mas nunca se aventuraria a fazê-las. Se ela estivesse a sós com Miss Caroline, talvez, lhe tivesse dito qualquer coisa sobre o assunto, mas a presença de Miss Keeldar, por mais acostumada que ela estivesse a ela, selou seus lábios. Naquelas circunstâncias, como em outras mil, inexplicáveis escrúpulos a impediam de interferir. Ela simplesmente mostrou sua preocupação para Miss Helstone de forma indireta, perguntando-lhe se o fogo estava muito quente, colocando uma tela entre a cadeira e a lareira, fechando uma janela de onde ela imaginou uma corrente de ar, tudo isso, muitas vezes, sem parar e olhar para ela. Miss Keeldar continuou a falar:

– Depois de ter aniquilado seu plano – disse ela – o que me parece que fiz, idealizei um novíssimo. O que acha? Faço sempre uma viagem de verão. Este ano tenciono passar dois meses ou mais nos lagos escoceses ou nos da Inglaterra, isto é, se você consentir em me acompanhar. Se recusar, não darei um passo.

– É uma boa pessoa, Shirley.

– Serei muito boa se você me deixar ser. Tenho todas as disposições para isso. Mas, você precisa se deixar ser feliz. Quero dedicar todos os meus esforços para fazer a minha companheira feliz. E vamos ser felizes, Caroline! O que acha das Terras Altas? Vamos para as Highlands. Se puder suportar uma viagem marítima, visitaremos as ilhas Hébridas, as Shetland e as ilhas Orkney. Vejo que essas viagens lhe agradariam. Mrs. Pryor, tomo-a como testemunha. Seu rosto não está mais animado com a simples menção da viagem?

– Gostaria muito de ir – respondeu Miss Caroline, a quem, de fato, a ideia da viagem não era apenas agradável, mas parecia gloriosamente fazê-la reviver. Miss Shirley esfregou as mãos.

– Vamos! Posso enfim fazer alguma coisa boa! – exclamou Miss Keeldar. – Posso fazer uma boa ação com minha fortuna. Neste verão, Caroline, nós duas e a Mrs. Pryor sairemos para o Atlântico Norte, além de Shetland, quem sabe para as ilhas Faroé. Vamos ver as focas no Suderoé e, sem dúvida, as sereias em Stromoé. Caroline está sorrindo, Mrs. Pryor. Pelo menos eu a fiz sorrir!

– Alegro-me com esta viagem, Shirley – disse Miss Helstone novamente. – Já me tarda ouvir o som das ondas do oceano, de vê-las como as imaginei em meus sonhos.

– Nas noites quando você ficar acordada pensará nas gaivotas, nas ondas brancas e não em túmulos sob a reitoria.

– Vou tentar. Pensarei nas focas deitadas ao sol, nas fendas dos rochedos, cheias de ovos semelhantes às pérolas; nos pássaros felizes cobrindo as areias brancas.

– E o que será desse peso inexprimível que você disse que tinha em sua mente?

– Tratarei de esquecê-lo.

– Minha querida – disse Mrs. Pryor – acho que chegou alguém. Ouvi alguns passos enquanto você estava falando.

Miss Keeldar foi até a janela.

– Sim, é alguém – disse ela, voltando-se tranquilamente e, quando retomou seu assento, um leve rubor lhe cobriu o rosto. Levou a mão ao queixo, baixou os olhos e parecia refletir.

O servo anunciou Mr. Moore, e Miss Keeldar virou-se quando ele apareceu à porta. A sua estatura parecia mais elevada em contraste com as três mulheres, das quais nenhuma excedia a estatura mediana. Miss Caroline pensou que há um ano não o via em tão boa aparência. Havia uma espécie de juventude ressuscitada. Seus olhos brilhavam e davam cor ao rosto. Uma esperança vivificante e um propósito firme revigoravam seu porte. A sua atitude anunciava firmeza, e não austeridade. Parecia tão alegre como sério.

– Chego neste instante de Stilbro – disse ele ao cumprimentar Miss Keeldar – e quis trazer-lhe o resultado da minha missão.

– Fez certo em não fazer suspense – disse ela – e a sua visita vem a propósito. Sente-se. Ainda não acabamos de tomar o chá. É suficientemente inglês para saborear um chá ou é um fiel adepto do café?

Mr. Moore aceitou o chá.

– Estou aprendendo a ser um inglês naturalizado – disse ele – os meus hábitos estrangeiros estão me deixando um por um.

Cumprimentou em seguida Mrs. Pryor e então olhou para Miss Caroline, não, contudo, pela primeira vez, pois seu olhar já havia caído sobre ela. Inclinou-se diante dela que estava sentada, estendeu-lhe sua mão e perguntou como ela estava. Uma resposta calma, quase um sussurro, uma atitude ereta e a proteção do crepúsculo esconderam dos olhares qualquer sintonia que pudesse atraiçoá-los.

Ninguém poderia afirmar que ela tremeu ou corou, que seu coração havia estremecido ou seus nervos se emocionado, ninguém poderia provar sua emoção; uma saudação mostrando menos efusão nunca fora trocada entre eles. Mr. Moore levou a cadeira vazia para perto dela, em frente a Miss Keeldar. Ele colocou-se bem ao seu lado e abrigou-se mais pelo crepúsculo que se aprofundava a cada momento. Miss Caroline logo recuperou o domínio, não apenas aparente, mas real dos sentimentos que tinham começado em insurreição no primeiro anúncio do nome de Mr. Moore.

Ele dirigiu sua conversa para Miss Keeldar.

– Fui ao quartel – disse ele – e tive uma entrevista com o coronel Mr. Ryde. Ele aprovou meus planos e prometeu a ajuda necessária. Ofereceu-me uma força maior do que eu preciso. Meia dúzia de homens basta. Não tenho a intenção de ser sugado pelas casacas vermelhas. Eles são necessários mais pela aparência do que qualquer outra coisa. A minha confiança principal eu ponho sobre os meus próprios civis.

– E no seu capitão – gracejou Miss Keeldar.

– Em quem? No capitão Keeldar? – indagou Mr. Moore, sorrindo ligeiramente, sem levantar os olhos. O tom de zombaria, no qual ele disse isso, foi muito respeitoso e suprimido.

– Não – voltou Miss Keeldar, correspondendo ao sorriso – no capitão Gérard Moore, que confia muito na destreza de seu braço direito, eu acredito.

– Equipado e armado com a verdade, isso sim – acrescentou Mr. Moore. Retomando sua gravidade de costume, ele continuou: – Recebi pelo correio desta tarde uma nota do Ministro da Administração Interna em resposta à minha carta. Parece que eles estão desconfortáveis com o estado dos negócios aqui no Norte. Condenam a moleza e a pusilanimidade dos proprietários dos moinhos. Ele diz o que eu sempre digo, ‘que a inação das circunstâncias presentes é criminosa, que é covardia e crueldade, já que ambos só podem incentivar a desordem e levar, finalmente, a surtos sangrentos’. Aqui está a nota. Trouxe-a para que leia. Aqui estão também vários recortes de jornais que contêm as mais amplas informações sobre o que se passa em Nottingham, Manchester e em outros lugares.

Colocou a carta e os jornais diante de Miss Keeldar. Enquanto ela os lia, ele tomou tranquilamente seu chá. Embora em silêncio, não perdia nada do que se passava ao seu redor. Mrs. Pryor, sentada ao fundo, não se encontrava no raio de seu olhar, mas o mesmo não sucedia com as duas moças.

À frente dele, Miss Keeldar era visível sem esforço. Como caía sobre ela a luz que restava do dia, o reflexo dourado do poente, sua forma destacava-se em relevo sobre a sombria guarnição de madeira da sala. As faces claras de Miss Keeldar ainda conservavam vestígios do rubor que as cobrira alguns minutos antes. Os negros cílios, decaídos enquanto lia, a linha escura mais delicada das suas sobrancelhas, o reflexo quase negro de seus cachos, faziam-na assemelhar-se, pelo contraste, a uma bela flor silvestre. Havia graça natural na sua atitude e um efeito de arte nas dobras amplas e brilhantes de seu vestido de seda, de forma simples, mas quase esplêndido pelos brilhos das várias cores mutantes que o faziam parecido com o pescoço de um faisão. Um bracelete brilhava em seu braço e produzia o contraste do ouro e do marfim. Havia algo de resplandecente no conjunto desse quadro. É de se supor que Mr. Moore pensasse assim, pois seus olhos demoraram muito tempo sobre ela, mas ele raramente permitia que lessem seus sentimentos ou mesmo demonstrava suas opiniões em seu rosto. Seu temperamento ostentava reserva, era pouco expansivo, e, sim, misterioso. Ele não podia, na posição em que se encontrava, ver Miss Helstone, pois, mesmo ao seu lado, ela estava coberta pela sombra. Para isso, era necessário que ele se virasse um pouco para tê-la ao alcance da sua observação. Ele, portanto, recostou-se na cadeira e pôs-se a contemplá-la. Nem ele nem ninguém poderia descobrir nada de brilhante em Miss Helstone. Sentada à sombra, sem flores ou ornamentos, com um modesto vestido de musselina incolor, que não tinha outra cor a não ser um pálido azul; sua pele sem rubor, sem animação, o tom suave de seus cabelos e dos olhos invisíveis naquela iluminação discreta, era, em comparação com a herdeira, como um gracioso esboço a lápis ao lado de uma pintura viva. Sobretudo, desde a última vez que Mr. Robert Moore a tinha visto, dera-se uma grande mudança. Se ele percebeu, não pôde ser verificado, pois ele nada disse.

– Como está Hortense? – Miss Helstone perguntou baixinho.

– Muito bem. Mas se queixa da inanição. Lastima a sua falta.

– Diga a ela que eu sinto muito não poder vê-la e que eu escrevo e leio um pouco de francês todos os dias.

– Ela vai perguntar se você enviou seus cumprimentos. É um ponto em que ela é susceptível. Você bem sabe que ela gosta de atenção.

– Os meus cumprimentos mais sinceros. E diga a ela que, se ela tiver tempo de me escrever um pequeno bilhete, ficarei muito feliz por ter notícias dela.

– E se eu me esquecer? Eu não sou um mensageiro digno de elogios.

– Não, não deve se esquecer, Robert. Deve dizer-lhe pontualmente e eu o elogiarei.

– Devo, portanto, entregar pontualmente para merecê-lo.

– Sim, por favor. Diga que a amo, que sinto muito a falta dela...

– Hortense vai chorar de emoção. Ela é muito sensível em se tratando de sua aluna. Ainda assim ela a censura por obedecer às ordens expressas do seu tio. Como o amor, a afeição é, por vezes, injusta!

Miss Helstone não respondeu à observação, pois, na verdade, o seu coração estava perturbado e, se tivesse ousado, também teria confessado que as flores do jardim da cottage de Hollow lhe eram queridas; que a saleta daquela casa era o seu paraíso terrestre; que desejava tão ardentemente voltar lá como a primeira mulher, em seu exílio, deve ter desejado voltar ao Éden. Não ousando, no entanto, dizer tais coisas, ela ficou quieta ao lado de Robert esperando que ele dissesse algo mais. Há muito tempo não sentia essa proximidade, há muito tempo não ouvia sua voz se dirigindo a ela. Aquele encontro, mesmo inesperado, tinha-lhe trazido uma felicidade profunda. Embora duvidando de que Robert sentisse prazer naquele encontro, e apesar de seu receio de vê-lo contrariado, aceitou os favores do acaso, como uma ave presa em sua gaiola aceita a claridade do sol. Era inútil discutir e lutar contra a sensação de felicidade presente. Estar perto de Robert era reviver.

Miss Keeldar acabou de ler os papéis.

– Está feliz ou triste com essas notícias ameaçadoras? – ela perguntou ao seu inquilino.

– Nem uma coisa nem outra, exatamente. Mas, certamente, estou instruído, vejo que o nosso único recurso é a firmeza, uma atitude rigorosa e decidida é o melhor meio de evitar derramamento de sangue.

Ele então perguntou se ela havia observado certo parágrafo específico, ao que ela respondeu negativamente, ele se levantou para mostrar a ela e continuou a conversa de pé diante dela. Do teor do que ele dizia, parecia evidente que ambos esperavam distúrbios em Briarfield. Nem Miss Helstone nem Mrs. Pryor fizeram perguntas. O assunto não pareceu ser considerado livre para discussão e, portanto, a senhora e seu inquilino foram impedidos de entrar em detalhes para a curiosidade de seus ouvintes.

Miss Keeldar, ao falar com Mr. Moore, adotou um tom, ao mesmo tempo, animado, cheio de dignidade, confidencial e reservado. Quando, porém, trouxeram as velas, pôde-se ler em seus traços a vida, a plenitude estava expressa em seu rosto. Não havia desejo de agradar, nenhum comportamento galanteador, o que ela sentia por Mr. Moore, sentia realmente. Da parte dele os sentimentos eram sérios, seus propósitos firmes, aparentemente, pois ele não fazia nenhum esforço para atrair, deslumbrar ou impressionar, mantendo, contudo, sempre um leve ar de autoridade. Miss Keeldar parecia feliz em conversar com ele e o seu prazer era duplo: o prazer do passado e do presente, da recordação e da esperança. O que eu acabei de exprimir são as próprias ideias de Miss Caroline sobre Miss Shirley e Mr. Robert Moore. Poucos minutos antes o seu coração faminto tinha experimentado uma queda pelas migalhas de alimento, que, se dado livremente, teria trazido de volta uma abundância de vida. Com essa maneira de sentir, ela se esforçava para não sofrer, contudo, sofria amargamente.

O relógio bateu nove horas. Era a hora de Miss Helstone voltar para casa. Portanto, a moça dobrou o seu trabalho de costura, guardou o bordado, a tesoura e o dedal em sua bolsa. Despediu-se de Mrs. Pryor com calma, deu-lhe boa-noite, recebendo da parte da senhora uma pressão de mão mais calorosa do que a habitual, e dirigiu-se a Miss Keeldar.

– Boa noite, Shirley!

Miss Keeldar sobressaltou-se.

– O quê! Tão cedo? Já vai?

– Já é tarde, Shirley, mais de nove horas.

– Nunca ouço o relógio. Voltará amanhã, não é? Esta noite você será feliz? Lembre-se dos nossos planos.

– Sim – disse Miss Caroline: – Eu não me esqueci.

Seu estado de espírito fazia-lhe temer que, nem os novos planos, nem qualquer outro, poderiam, permanentemente, restaurar a sua tranquilidade mental. Voltou-se então para Mr. Moore que estava atrás dela. No momento em que ela erguia os olhos, a luz das velas, que estavam sobre a lareira, clareou em cheio o seu rosto. Toda palidez de Miss Helstone, toda mudança que se passara em seu rosto, apareceram com todo o seu triste significado. Mr. Robert Moore tinha bons olhos e poderia ter visto as mudanças, nada, porém, indicou que ele as tivesse visto.

– Boa noite! – disse ela, tremendo como uma folha, oferecendo-lhe sua emagrecida mão, parecendo ter pressa em se separar dele.

– Você está indo para casa? – ele perguntou, sem tocar na sua mão.

– Sim.

– A Fanny veio buscá-la?

– Sim.

– Eu poderia muito bem acompanhá-la uma parte do caminho, não até o presbitério, é claro, pois o meu velho amigo Mr. Helstone me daria um tiro da janela – disse ele e, rindo, pegou seu chapéu. Miss Caroline falou que não era necessário, mas ele estava decidido e lhe disse para colocar seu chapéu e xale. Num instante ela estava pronta e saíram juntos. Mr. Moore, portanto, pegou a mão de Miss Caroline e a colocou debaixo de seu braço, como outrora, da maneira que ela achava encantadora.

– Pode ir na frente, Fanny – disse ele à criada – nós a alcançaremos.

E quando a criada tinha se distanciado um pouco, ele pegou a mão de Miss Caroline e, colocando-a entre as suas, disse que estava muito feliz por vê-la íntima de Miss Shirley Keeldar, que esperava que essa amizade com Miss Keeldar continuasse e que aquele convívio só lhe seria útil e agradável.

Miss Caroline respondeu que gostava de Miss Shirley.

– E não há dúvida de que a afeição é recíproca – disse Mr. Moore. – Se ela lhe professa amizade tenha certeza de que é sincera. Ela é incapaz de fingir, pois despreza a hipocrisia. E, mudando de assunto, Caroline, nunca mais voltaremos a vê-la na cottage de Hollow?

– Acho que não, a não ser que meu tio mude de opinião.

– Tem passado bem ultimamente? Está se sentindo muito sozinha?

– Sim, estou bem. Tenho pouco prazer em qualquer sociedade, mas Miss Keeldar tem me feito bem.

– Tem que cuidar de si mesma, Lina. Tenha cuidado para não negligenciar sua saúde. Achei que está um pouco alterada, um pouco magra e pálida. Seu tio é bom para você?

– Sim, ele é como ele sempre foi.

– Não muito afetuoso, ou seja, não muito cuidadoso e atento. E o que a aflige? Diga-me, Lina.

– Nada, Robert – mas a voz da moça vacilou.

– Isto é, nada que me queira confiar. A separação imposta pelo seu tio nos tornou estranhos, Lina? Não sou mais digno de sua confiança?

– Eu não sei. Às vezes eu quase receio isso.

– Mas, não deveria ter esse efeito, Lina. Seria preciso esquecer os velhos tempos, os dias passados...

– Robert, eu não esqueço.

– Parece que Caroline não vai à cottage há dois meses, eu acho.

– É verdade. Há dois meses eu não entro lá...

– Foi alguma vez passear por aquele lado?

– Fui algumas vezes ao topo do despenhadeiro e olhei para baixo. Uma vez eu vi a Hortense no jardim regando suas flores e sei que horas você acende a luz do escritório. Esperei algumas vezes que ela brilhasse e vi você se inclinar entre ela e a janela. Eu sabia que era você, quase podia distinguir seus contornos.

– Admiro-me nunca a ter encontrado. De vez em quando eu dou um passeio ao pôr do sol até o alto dos campos de Hollow.

– Bem sei. Uma tarde eu quase o chamei. Passou tão perto de mim.

– Será que eu passei perto de você e não a vi? Eu estava só?

– Vi-o duas vezes e em nenhuma delas estava sozinho.

– Quem era então o meu companheiro? Provavelmente Joe Scott ou a minha própria sombra ao luar.

– Não, nem Joe Scott nem sua sombra, Robert. Na primeira vez estava com Mr. Yorke e na segunda, o que você chama de sua sombra era uma forma de rosto branco, cachos escuros e um colar cintilante ao pescoço. Mas eu mal o vi, foi apenas um vislumbre, assim como sua linda sombra. Não fiquei para não escutar a conversa.

– Parece-me que você anda invisível, Lina. Notei um anel em sua

mão esta noite, seria o anel de Giges[11]? Daqui para o futuro, quando eu estiver sentado só na calada da noite no meu escritório, vou imaginar que Caroline, talvez, esteja ali, apoiada no meu ombro, lendo comigo o mesmo livro ou sentada ao meu lado, ocupada com seus trabalhos habituais, levantando de vez em quando os olhos invisíveis para o meu rosto para ler os meus pensamentos.

– Não deve recear isso. Eu não vou chegar perto de você. Só fico de longe observando o que lhe pode acontecer.

– Quando passeio à noite ao longo da sebe, depois que a fábrica está fechada ou quando tomo o lugar do guarda, eu gosto de imaginar que o movimento da ave no ninho, que o farfalhar de cada folha é um dos seus movimentos, Lina. A sombra das árvores toma sua forma, o seu contorno; julgo vê-la nas brancas flores dos espinheiros. Em tudo vejo o seu vislumbre, Lina. Estarei obcecado por você?

– Eu nunca estarei no lugar onde você não gostaria que eu estivesse; não verei nem ouvirei nunca o que você não gostaria que fosse visível e audível.

– Então eu vou vê-la no meu moinho em plena luz do dia. Na verdade eu a vi lá uma vez. Não há mais de uma semana eu estava em pé na extremidade de uma de minhas grandes salas, as moças trabalhavam no outro lado e, entre meia dúzia delas, julguei ver uma figura semelhante à sua. Foi qualquer efeito de luz duvidosa, sombra ou um raio de sol deslumbrante. Subi, dirigi-me ao grupo, e o que eu procurava tinha se desvanecido; encontrei-me entre duas moças de avental e espertalhonas.

– Nunca o seguirei para seu moinho, Robert, a menos que você me chame lá.

– E essa não foi a única ocasião em que minha imaginação me pregou uma peça. Uma noite, quando eu regressava do mercado, já muito tarde, eu entrei no salão da cottage calculando encontrar Hortense e, em vez dela, foi a Lina que julguei ver. Não havia vela na sala, as gelosias não estavam fechadas e o luar penetrava através das vidraças. Lá estava você, Lina, no batente da janela, encolhida um pouco para o lado, como é seu costume, vestida de branco, como eu a vi numa noite num serão. Por meio segundo seu rosto fresco e vivo parecia voltado para mim. Meio segundo depois tive a ideia de avançar e tomar a sua mão, de ralhar com você pela sua longa ausência, de lhe agradecer a visita. Dois passos à frente quebraram o encanto. A roupagem do vestido mudou, as cores do seu rosto desvaneceram-se e, quando fui ao lugar que supunha que a tinha visto, não havia mais nada, apenas uma cortina de musselina branca e, num vaso, uma

planta coberta de flores. Sic transit gloria mundi[12].

– Não era então o meu fantasma? Eu quase pensei que fosse.

– Não. Somente gaze, louças e flores cor-de-rosa. Uma amostra de ilusões terrenas.

– Espanta-me que tenha tempo para semelhantes ilusões, ocupada como deve ser a mente de um industrial como você.

– A mim também espanta, Lina. Mas, tenho em mim duas naturezas: uma para o mundo dos negócios e outra para a casa, o repouso e o lazer. Gérard Moore é um cão difícil na fábrica e no mercado. A pessoa que você chama de seu primo, Robert, às vezes, é um sonhador que vive em outro lugar, longe do mercado, de fazendas e do escritório.

– As suas duas naturezas parecem, neste momento, em comum acordo. Parece-me hoje de bom humor e cheio de saúde. Você perdeu por completo o ar cansado que, muitas vezes, me doía ver em seu rosto há alguns meses.

– Você observou isso? Certamente eu me desembaracei de algumas dificuldades. Tenho agora alguns cardumes e um mar mais livre.

– E com um bom vento poderá agora esperar uma feliz viagem – disse Miss Caroline.

– Ouso esperá-la, sim. Mas, a esperança é enganosa, Lina. O vento e as ondas perturbam continuamente a rota do navegante. Ele não ousa afastar da mente a expectativa de tempestade.

– Mas você está pronto para uma brisa, é um bom marinheiro, um comandante capaz. Você é um piloto habilidoso, Robert. Enfrentará a tempestade.

– A minha prima tem sempre a melhor opinião de mim, mas eu vou tomar suas palavras como um feliz presságio. Vou considerar que, tê-la encontrado hoje, me pareceu uma dessas aves cuja aparição os marinheiros saúdam como prenúncio de boa sorte.

– É uma pobre mensageira da boa sorte aquela que nada pode fazer; que não tem qualquer poder. Sinto a minha incapacidade. Entretanto, quero seu triunfo; desejo-lhe um grande destino e uma verdadeira felicidade.

– Quando me desejou outra coisa, Lina?... Mas, por que Fanny está parada? Eu disse que ela fosse indo... Ah! Chegamos ao cemitério. Então vamos nos separar aqui, eu suponho. Poderíamos nos sentar alguns minutos no pórtico da igreja se essa menina não estivesse conosco. A noite está tão calma, tão leve, tão linda e não tenho desejo de retornar para Hollow. 

– Mas não podemos nos sentar sob o pórtico agora, Robert.

Miss Caroline disse isso porque Mr. Moore foi caminhando para o pórtico.

– Talvez não. Mas, diga a Fanny para ir para dentro. Alguns minutos não farão diferença.

O relógio da igreja bateu dez horas.

– O meu tio vem fazer sua ronda habitual e ele sempre visita a igreja e o cemitério.

– E se Fanny não soubesse que estamos aqui? Teria prazer em se divertir um pouco à custa dele se esquivando e iludindo-o? Poderíamos ir para a janela leste quando ele estivesse sob o pórtico. Quando ele viesse para o lado norte, nós iríamos para o sul. Poderíamos nos esconder atrás dos túmulos; atrás do grande monumento dos Wynne seria um refúgio seguro.

– Robert, como está de bom humor! Ande, vá embora – Miss Caroline acrescentou apressadamente. – Ouço a porta da frente. Vá!

– Eu não quero ir, pelo contrário, eu quero ficar.

– Você sabe que meu tio ficará terrivelmente furioso. Ele me proibiu de ver você porque você é um jacobino.

– Jacobino. Um estranho!

– Vá, Robert, ele está vindo, ouço-o tossir.

– Diable! ÉÉ estranho, que pertinaz desejo que eu sinto de ficar!

– Você se lembra do que ele fez com o conhecido de Fanny? – começou Miss Caroline e parou abruptamente.

Sweetheart era a palavra que deveria ter saído, mas ela não conseguiu dizê-la. A palavra parecia despertar ideias que ela não tinha nenhuma intenção de sugerir, pois eram ilusórias e perturbadoras. Mr. Moore foi menos escrupuloso.

– Ao namorado da Fanny? Ele lhe deu um banho de chuveiro sob a bomba, não é? Seria um grande prazer para ele fazer o mesmo comigo. Tenho certeza. Gostaria muito de provocar o velho cossaco, no entanto, temo por você. Mas, ele saberia distinguir um primo de um namorado, não acha?

– Oh, ele não iria pensar em você dessa forma, claro que não, a briga dele com você é totalmente política. Mas, eu não gostaria de ver alargado o espaço que os separa e meu tio é tão irritado! Lá está ele no portão do jardim. Para seu próprio bem e o meu, vá, Robert, vá!

Estas palavras foram acompanhadas por um gesto e um olhar de súplica. Robert Moore apertou por um momento as mãos de Miss Caroline, cobriu-as com as suas e entrelaçou seus dedos aos dela; por um instante seu olhar encontrou o dela, deu-lhe boa noite e partiu.

Miss Caroline em segundos estava à porta da cozinha atrás de Fanny. A sombra de um chapéu projetou-se no mesmo instante sobre um túmulo. O pároco saiu ereto do seu jardim e começou em passos lentos a ronda em direção ao cemitério. Mr. Moore quase foi surpreendido. Foi obrigado a dar uma volta na igreja, teve que esconder sua alta estatura atrás do ambicioso monumento Wynne. Lá, ele foi obrigado a permanecer por dez minutos ajoelhado na relva, sem chapéu, seus cachos nus recebendo o orvalho, mas seus olhos escuros brilhavam e nos seus lábios pairava um riso que troçava a estranheza da sua posição, pois o reitor estava ali, friamente, olhando as estrelas e tragando uma pitada de rapé a dois passos dele.

Todavia, nessa noite, Mr. Helstone não desconfiou de nada, pois, como se importava muito pouco com os movimentos de sua sobrinha, não tinha dado pela sua ausência durante o dia e supunha que ela estivesse em seu quarto. Ela, de fato, lá estava ao pé da janela, com o coração pulsando rápido, espreitando ansiosamente de trás da cortina os movimentos do tio e do primo. Finalmente, ouviu Mr. Helstone entrar e viu o primo saltar os túmulos e escalar o muro do cemitério. Ela então desceu para as orações.

Quando voltou ao seu quarto foi para se encontrar com as recordações de Robert Moore. O sono não vinha e o seu espírito estava com ele. Julgava-o ao seu lado, ouvia seus passos, sua voz, e abandonava sua mão na dele. Quando o relógio da igreja bateu, quando se ouviu qualquer ruído, um rato pouco familiar e intruso que tinha escapado da armadilha de Fanny, ela ergueu os olhos e voltou à realidade. Então disse a meia voz, como se temesse ser ouvida por qualquer censor oculto, “eu não estou me abandonando a doces sonhos de amor, eu apenas sigo o curso dos meus pensamentos, pois eu não consigo dormir. Claro, eu sei que ele se casará com Shirley.”

Quando tudo voltou ao silêncio, ela recomeçou a sonhar e, novamente, na sua visão, ele se sentava ao seu lado; ela ouvia o som da sua voz; sentia o toque da sua mão. Por fim, a visão empalideceu e ela adormeceu. Ao amanhecer, o sonho tinha acabado e Miss Caroline se viu só. No seu leito, portanto, gemeu trêmula e tristemente.

 

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