Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 29 de 38

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Shirley

Capítulo XXIX

 

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Louis Moore

 

Louis Moore habituara-se a uma vida tranquila; era de caráter calmo e suportava a solidão melhor do que muitos, pois tinha cérebro e coração povoados de um mundo particularmente seu.

A mansão de Fieldhead estava tranquila. Miss Keeldar e toda a família Sympson, todos, exceto Louis Moore, tinham ido a Nunnely; Sir Philip os havia convidado para travarem conhecimento com a mãe e as irmãs, que se encontravam no Priorado. O barão tivera a amabilidade de convidar também o preceptor, mas se Louis Moore desejava alguém junto dele naquela noite não era o pequeno barão, muito menos a mãe, nem suas irmãs, nem qualquer pessoa da família Sympson.

Mas, apesar da quietude da casa, a noite estava agitada. As tempestades do equinócio revolviam a atmosfera. As chuvas torrenciais do dia acabaram; contudo, apesar de algumas nuvens terem se desfeito e se afastado, Fieldhead ainda era escorraçada por uma contínua e sonora tempestade.

Louis Moore, sentado na sala de estudos, escutava o barulho que fazia a tempestade. O lado onde se encontrava era abrigado e a chuva não o incomodava; nem o silêncio nem o fato de ter que estar bastante agasalhado, algo muito mais profundo o perturbava. “Toda a casa está vazia”, pensava ele, “e a solidão, outrora bem-vinda, hoje me faz mal ao coração.”

Saiu do seu lugar e foi até onde as janelas mais largas e mais desafogadas deixavam ver livremente o tempo escuro e lúgubre que se mostrava lá fora. Não levou qualquer luz consigo; a chuva havia passado e uma tênue claridade da lua cheia, embora as nuvens teimassem em ocultá-la de vez em quando, refletia timidamente no assoalho e nas paredes.

Parecia que ele perseguia uma visão de sala em sala. Deteve-se numa forrada de carvalho, menos úmida e fria do que o grande salão. Lá o fogo crepitava na lareira e, junto dela, uma mesa de trabalho era rodeada por algumas cadeiras vazias.

A visão que Louis perseguia poderia, por acaso, ter ocupado uma dessas cadeiras? É um caso que merece reflexão. Ao vê-lo, assim, de pé, vê-se interesse em seu olhar, tanta expressão em seu rosto como se tivesse encontrado, naquela solidão, um ser vivo com quem pudesse conversar.

Louis foi fazendo pequenas descobertas: uma bolsa pequena de cetim estava pendurada no espaldar de uma cadeira; uma gaveta estava aberta e as chaves, na fechadura, eram um convite para ser revistada, mas ele se conteve; um lindo sinete; uma pena de prata; uma ou duas bagas maduras presas a um ramo verde; um par de luvas, bem pequenas, limpas e delicadas, estava jogado, esparsamente, sobre a mesinha. Uma desordem que podia passar por uma fantasia.

“Eis os seus vestígios!”, pensou ele. “Descuidada feiticeira! Chamada às pressas, esqueceu-se de voltar para colocar as coisas em ordem. Por que a fascinação? Há sempre o que censurar nela, mas para o amante ou o marido a censura sempre acabará em beijos. Mas o que estou pensando? A que fantasia deixei-me arrastar?...”

Fez um esforço em vão para calar sua mente. Pensativo, instalou-se comodamente para passar o serão solitário.

Fechou o reposteiro da larga janela da sala; alimentou o fogo que ainda ardia, mas se consumia rapidamente; acendeu uma das duas velas que tinha diante de si; colocou uma segunda cadeira em frente da que estava ao lado da mesa e sentou-se. Tirou do bolso um caderninho e pôs-se a escrever numa letra compacta e forte. Aproxime-se, leitor, e acompanhe a leitura à medida que ele escreve:

“São nove horas da noite, a carruagem não voltará antes das onze, tenho certeza. Até lá sou livre, até lá posso ocupar o espaço dela, sentar-me em frente à sua cadeira, apoiar o cotovelo à sua mesa, ter em volta de mim estes deliciosos objetozinhos que falam tanto dela para mim...

É bom escrever sobre a pessoa que é mais querida para mim do que o meu próprio coração. Ninguém pode tirar de mim este caderno e, graças a esta pena, posso dizer aquilo que nem sequer ouso exprimir em voz alta...

Raramente nos encontramos desde aquela noite. Uma vez, quando eu estava sozinho no salão, à procura de um livro para Harry, ela entrou vestida para um concerto. Foi o seu embaraço e não o meu que pôs um véu entre nós. Contudo, quando passou diante da janela, depois de ter agido tacitamente, porém graciosamente para comigo, apareceu em meus pensamentos como uma virgem sem mácula. Rodeava-a um delicado esplendor e o seu recato de moça era a sua auréola. Eu devia estar com um ar de estúpido enquanto a observava, mas senti as delícias do paraíso quando ela baixou os olhos diante dos meus e desviou docemente a cabeça para esconder a cor que lhe subira à face...

Eu sei que são divagações de um sonhador, um êxtase de um louco romântico. Sim, estou sonhando, mas preciso sonhar de vez em quando...

Mas, se ela encheu de vida a minha prosaica natureza, que posso eu fazer? Como é pueril, às vezes! Que vivacidade e que inocência há nela!

Adoro as suas perfeições; contudo, são os seus defeitos ou, pelo menos, as suas fraquezas que fazem com que eu a atraia para mim, que a coloque próxima ao meu coração e do meu amor, e isso pela mais egoísta e mais natural das razões: porque os defeitos são os degraus que me fazem elevar acima dela.

Mas, para falar com simplicidade, a sua visita deleita-me, ela agrada-me. Se eu fosse um grande senhor e ela a minha criada, eu não poderia deixar de amá-la. Tire-lhe a fortuna, a educação, os atavios, os suntuosos vestidos, toda a graciosidade, exceto aquela que a beleza da sua pessoa torna inevitável. Apresente-me a ela, à porta de uma cabana, vestida do mais simples tecido, a oferecer-me um copo de água, eu a amaria!

Que negligência deixar assim aberta a sua escrivaninha onde eu sei que há dinheiro! Aqui estão as chaves de todos os seus móveis, mesmo a do guarda-joias. Nesta bolsa também há dinheiro. Semelhante descuido havia de encolerizar meu irmão, Robert, aliás, todas as suas pequenas fraquezas o incomodariam, pois o conheço bem. Seus defeitos seriam para ele motivos de grande irritação. Mas, se envergonham a mim, é uma deliciosa vergonha! Adoro achá-la em falta. Quanto mais decidido é seu humor, mais malicioso, mais impertinente; quanto mais ela me dá motivos para que eu a desaprove, tanto mais eu a procuro e a amo. Nunca é menos tratável do que quando está montada em Zoé; vem cavalgando contra o vento sobre as montanhas e, no entanto, confesso que espero horas no pátio apenas para assistir ao seu regresso e recebê-la em meus braços ao descer do cavalo. Tenho observado, e ainda é uma coisa que só confio a esta página, que ela só a mim concede este auxílio. Sei-o agora, o meu coração sente, pois o sentiu no seu abandono em meus braços sem qualquer aversão. Saberá ela a alegria que sinto em colocar minha força ao seu serviço? Não sou escravo dela, declaro-o, mas o meu ser é atraído para sua beleza como os gênios para a irradiação da lâmpada. Todo o meu saber, toda a minha prudência, toda a minha calma e toda a minha força estão aos seus pés, esperando humildemente uma tarefa a cumprir.

Chamei-a de negligente, mas é digno de nota que sua negligência nunca compromete sua elegância e é nisso que se pode verificar a realidade, a profundidade, a pureza dessa elegância. Tenho tido em minhas mãos muitos dos seus objetos, muitas vezes parecem ter sido deixados ali de propósito para que eu os apanhasse. Nunca vi nenhum que não revelasse a mulher mais delicada que conheço. Num certo sentido ela é tão minuciosa como noutros é imprudente. Se ela fosse uma aldeã, da mesma forma, seria elegante e asseada. Olhe a pureza desta luvinha! A frescura do cetim desta bolsa!

Que diferença entre Shirley e essa pérola da Caroline Helstone! A última é a alma da conscienciosa pontualidade e da encantadora exatidão. Conviria perfeitamente aos hábitos domésticos de meu irmão. Ela é tão delicada, tão hábil, tão engenhosa, tão diligente, tão calma! Com ela tudo se faz imediatamente, tudo é desenhado no esquadro. Ela, sim, conviria a Robert. Mas, o que eu faria com uma coisinha tão perfeita? Ela é igual a mim, é linda, decerto, mas o que há nela que seja preciso sofrer, que se tenha de censurar? Minha prima é composta de tons pálidos, como o lírio dos vales, as cores seriam para ela inúteis. Como retocar essas perfeições? Que pincel se atreveria a aflorar essas pétalas? Já, na minha bem-amada, se algum dia eu tiver alguma, quero antes uma semelhança com a rosa. Há de ter a doce e profunda delícia guardada por um eriçamento de espinhos. A minha mulher, se algum dia me casar, deverá espicaçar a calma dos meus nervos. Não me fizeram tão calmo para ser emparelhado com uma cordeirinha! Eu teria uma responsabilidade mais idônea no meu temperamento tendo ao meu lado uma leoa ou uma pantera. Não gosto das coisas doces, gosto das picantes, das brilhantes, mesmo que em certos momentos me queime.

Oh! Minha discípula! Oh! Peri! Turbulenta demais para o céu, inocente demais para o inferno! Nunca poderei ir além de vê-la, adorá-la e desejá-la! Ai de mim! Sabendo que poderia fazê-la feliz, estarei condenado a vê-la na posse de quem não tem esse poder! Deve tomar cuidado, Sir Philip Nunnely!...

Lá vem a carruagem! Fechemos a escrivaninha e guardemos as chaves. Ela vai procurá-las amanhã de manhã. Terá que ir ter comigo e dirá com sua voz clara, falando sem hesitação, mas parecendo envergonhada à ideia de que é a vigésima vez que me faz tal pergunta: – Mr. Moore, não viu as minhas chaves?”

Posso conservá-la na expectativa e na dúvida e, quando lhe restituir estes objetos, posso ralhar com ela: aqui estão a bolsa e o dinheiro; as luvas, a pena e o sinete. Terá que tirá-los de mim lentamente, um por um, e só à força de confissão, de penitência e de súplicas. Direi isso.

Nunca posso tocar na sua mão, ou numa madeixa de seus cabelos, ou num laço dos seus vestidos, mas tirarei disso alguns privilégios. Cada traço do seu rosto, os seus olhos brilhantes e os seus lábios passarão por transformações para o meu prazer e deleite. Por todas as transformações que podem sofrer, exibirão as deliciosas mudanças do seu olhar e da expressão para meu enlevo, para me penetrarem, talvez, para me agrilhoarem. Se tenho que ser escravo dela, não quero perder a minha liberdade por coisa alguma do mundo.”

Fechou a escrivaninha, colocou todos os objetos no bolso e foi-se embora.

 

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