Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 23 de 38

Páginas do PDF

Shirley

Capítulo XXIII

 

OceanofPDF.com

Uma Noite Fora

 

Era um belo dia de verão e Miss Helstone estava inteiramente só, pois seu tio estava em Whinbury. As longas horas luminosas, calmas e sem nuvens tinham sido para ela tão desoladas como se tivessem sido passadas na solidão do deserto do Saara, em vez de num jardim florido de uma casa inglesa.

Sentada sob um caramanchão, com o seu trabalho de costura sobre os joelhos, os dedos empurrando diligentemente a agulha, seguindo e regulando os movimentos automáticos, pois o cérebro estava longe trabalhando sem descanso. Quando Fanny chegou à porta e lançou um olhar sobre a relva e os canteiros, não achando quem procurava, chamou em voz alta: – Miss Caroline!

Uma voz doce respondeu: – Fanny – a voz vinha do caramanchão e Fanny se dirigiu para lá apressadamente com um bilhete. Miss Helstone não perguntou de onde ele vinha, nem sequer olhou para ele, deixou-o pousado sobre seu trabalho de costura.

– Foi Harry, o filho de Joe Scott, quem o trouxe – disse Fanny.

Fanny não tinha nenhum ar de fada, mas o que acabara de dizer teve um efeito quase mágico sobre a sua jovem ama. Miss Helstone ergueu a cabeça com um movimento rápido e lançou a Fanny um olhar interrogador.

– Harry Scott que o trouxe?

– Sim. De Hollow.

O papel foi apanhado com avidez; o lacre, quebrado; as suas linhas, lidas em dois segundos. Eram algumas palavras afetuosas de Miss Hortense Moore informando que estava de regresso de Wormwood-Wells e que estava só, pois Robert tinha ido ao mercado de Whinbury e que nada lhe daria mais prazer do que receber a prima para um chá.

Miss Helstone foi com prazer cobrir seus anelados cabelos com um chapéu de palha, lançou sobre os ombros uma leve manta de seda preta, cujas pregas faziam sobressair a elegância do seu busto, ao mesmo tempo que a cor escura dava destaque ao branco de seu vestido e à leveza de sua pele.

Estava contente por escapar por algumas horas da solidão, da tristeza da sua vida, por descer correndo uma encosta verdejante que conduzia a Hollow e por respirar os perfumes das flores e das sebes. Na verdade, Miss Helstone sabia que Robert Moore não estaria em casa, mas depois de estar separada dele por tanto tempo, só de ver sua casa, entrar no quarto que ele estivera naquela manhã, valia para ela como um encontro. Essa ilusão lhe dava uma nova vida e a brisa suave que soprava parecia sussurrar aos seus ouvidos: “Robert pode regressar e te encontrar lá. Então poderá lhe estender a mão, talvez possa sentar ao seu lado durante um minuto.”

“Silêncio!” Ordenou ela severamente à sua imaginação, mas tanto a consolação quanto a consoladora lhe eram agradáveis.

Das moitas do jardim, Miss Hortense Moore avistou o vestido branco de Miss Caroline Helstone e foi ao seu encontro. Estava ereta e rígida como de costume, não se permitia nenhuma demonstração de alegria que pudesse comprometer a dignidade de seu andar, mas sorria ao ver o prazer que sua discípula experimentava ao abraçá-la. Conduziu-a afetuosamente para dentro, toda desvanecida. Se pudesse saber para quem ia a maior parte da infantil alegria que Miss Helstone demonstrava, é provável que Miss Moore ficasse chocada e irritada. As irmãs não gostam de ver as moças apaixonadas por seus irmãos.

– Desejava encontrá-la antes, mas depois do jantar chegaram-me visitas – disse Miss Moore enquanto a conduzia à sala. E, abrindo a porta, deixou aparecer uma ampla extensão de uma saia escarlate que cobria inteiramente a ampla poltrona colocada num canto próximo à lareira e, elevando-se acima dessa saia, presidindo com dignidade ao conjunto, uma touca mais imponente do que uma coroa. A fita que se desdobrava em nós em volta da cabeça era então o que se chamava de fita do amor. Tinha sido aplicada com grande abundância. A touca e o vestido eram usados por Mrs. Yorke e ambos lhe convinham perfeitamente.

A grande dama tinha vindo tomar amigavelmente o chá com Miss Moore. Era um favor quase tão raro e alto como se a rainha fosse, sem ter sido convidada, jantar imprevistamente com um dos seus súditos. Mrs. Yorke não podia dar a Miss Moore maior prova de consideração.

Miss Helstone aproximou-se dessa digna pessoa com certo sentimento de desconfiança. Ela pouco sabia acerca dessa senhora e, como sobrinha de um pastor, sentia-se inquieta a respeito do acolhimento que lhe estaria reservado. Este foi muito frio e Miss Helstone apressou-se a esconder seu insucesso, afastando-se para retirar seu chapéu. Depois, quando se sentou, não lhe desagradou nada se ver monopolizada imediatamente por uma menininha de vestido azul, que surgiu como uma fada junto da grande dama, ao lado da qual tinha estado sentada num banquinho, oculta dos olhares pelas pregas da exuberante saia vermelha. Correndo para Miss Helstone, lançou-lhe sem cerimônia os braços ao redor de seu pescoço e pediu-lhe um beijo.

– Minha mãe não foi delicada com você – disse ela enquanto recebia e retribuía uma sorridente saudação. – Aquela é Rose. Ela é sem graça daquele jeito mesmo. Se ao invés da miss tivesse entrado um anjo nesta sala, assim de branco como você, com uma coroa de estrelas, a minha mãe teria feito apenas um cumprimento seco, é o jeito dela, e Rose não teria erguido a cabeça. Mas eu serei sua amiga, pois gostei de você.

– Jessy, modere a sua língua e domine a sua familiaridade – exortou Mrs. Yorke.

– Não liga não! A minha mãe é tão fria! – exclamou Jessy, continuando: – Miss Helstone nunca nos fez mal. Por que não posso ser amável para com ela? E por que a senhora também não pode ser gentil? É tão seca, seu olhar é tão frio e a sua voz é rude! Por que é sempre dessa maneira que trata as moças que vão à nossa casa? Até mesmo Miss Keeldar. E Rose é um tal de aut... aut..., esqueci a palavra, que significa uma máquina sob a forma de ser humano. As duas juntas são capazes de fazer fugir todas as pessoas de Briarmains. É o que Martin sempre diz.

– Sou um autômato? Bom! Então me deixe em paz! – respondeu Rose do canto onde estava sentada no tapete, ao lado de uma pequena estante, com um livro aberto sobre os joelhos.

– Como está, Miss Helstone? – perguntou Rose, erguendo por um instante o olhar para Miss Caroline e voltando a pousar os seus belos olhos cinzentos sobre o livro que devorava.

Miss Helstone se voltou para Rose. Ela tinha tato e era dotada de um notável instinto. Sentia que Rose era uma criança pouco vulgar e sabia como lidar com ela. Aproximando-se de mansinho, ajoelhou-se ao lado dela e olhou o livro que ela lia. Era um romance de Madame Radcliffe, O Italiano.

Miss Helstone começou a ler ao mesmo tempo que ela, sem fazer qualquer observação. Chegando ao fim da página, Rose teve a atenção de lhe perguntar antes de virar a página:

– Já posso continuar?

Miss Helstone limitou-se a fazer um aceno afirmativo com a cabeça.

– Gosta deste livro? – perguntou Rose, um instante depois.

– Li-o há muito tempo, quando eu era criança, e gostei muito.

– A mim, ele me faz sonhar com viagens – disse Rose.

– Quando for mulher, talvez possa satisfazer seus desejos.

– Estou muito resolvida a arranjar uma maneira de fazê-lo. Não posso ficar para sempre em Briarfield. O mundo não deve ser tão grande comparado à totalidade da criação. É preciso que eu veja, pelo menos, o exterior do nosso redondo planeta. Quero que a minha vida seja realmente uma vida e não um êxtase obscuro, como o de um sapo enterrado num buraco de uma pedra. Não quero uma morte lenta, como a sua na reitoria. No presbitério de Briarfield, nada muda.

– Parece-me que, para você, sem mudança não existe felicidade – disse Miss Helstone, um pouco chocada com as palavras e com a ousadia de Rose.

– Para mim, a monotonia e a morte são quase a mesma coisa.

Nessa altura Jessy tomou a palavra:

– Não lhe parece que ela é doida?

– Mas, Rose – continuou Miss Helstone – receio que essa vida de deslocações constantes acabe, pelo menos para mim, como o romance que está lendo. Pelo desapontamento, a decepção e a irritação do espírito.

– Mais vale experimentar todas as coisas e achá-las vazias do que nunca experimentar nada e levar uma vida nula. Agir assim é cometer o pecado daquele criado que, desprezível, preguiçoso, enterrou o talento que o seu senhor lhe confiou.

– Rose – interrompeu Mrs. Yorke – a satisfação real só se obtém pelo cumprimento dos nossos deveres.

– Muito bem, minha mãe! E se o meu amo me confiar dez talentos, o meu dever é fazê-los frutificar de modo que produzam outros dez e não enterrar o dinheiro na poeira das minhas gavetas.

– Rose, trouxe o molde que lhe pedi para trazer? – perguntou Mrs. Yorke mudando de assunto repentinamente.

– Sim.

– Sente-se ali e faça uma linha de marcas.

Rose sentou-se imediatamente e fez o que lhe mandou a mãe. Após uma pausa de dez minutos, Mrs. Yorke lhe perguntou:

– Sente-se oprimida neste momento? Considera-se uma vítima?

– Não, mãe.

– No entanto, se bem compreendi a sua tirada, era um pretexto contra qualquer ocupação feminina e doméstica.

– Interpretou-me mal, mãe! Sentir-me-ia mal se não soubesse costurar. Fez bem em me ensinar.

– O mesmo para costurar as meias de seus irmãos e os lençóis?

– Sim.

– Então por que fala mal dessa ocupação?

– Mas deverei passar a minha vida toda fazendo somente isso? Farei isso e depois muitas outras coisas. Agora, mãe, eu já disse tudo o que tinha a dizer. Tenho doze anos e até os dezesseis não falarei mais nisso. Durante quatro anos ainda farei o que me mandar, serei sua aprendiz de tudo que a senhora quiser me ensinar.

– Está vendo como são as minhas filhas, Miss Helstone? – disse Mrs. Yorke. – Que precoce sabedoria há na vontade delas! Dizem que gostam disso ou daquilo. Este é o estribilho de Jessy. Já Rose, num tom mais ousado, diz o que quer e o que não quer.

– Dou sempre uma razão, mãe. Além disso, se as minhas palavras são ousadas, só as digo uma vez por ano na data de meu aniversário. O meu espírito me incita a dizê-las. Agora compete à mãe escutar ou tapar os ouvidos.

– Aconselho às mocinhas – disse Mrs. Yorke – que falem menos e estudem o caráter das pessoas com quem pretendem se casar e o mesmo para os homens, pois do contrário terão a responsabilidade de guiar as preguiçosas e persuadir as teimosas. Seria um fardo contínuo.

– Mas com amor isso não pode ser muito difícil – disse Miss Helstone.

– Linda linguagem! Muito sentimental! A parte rude e prática da vida não chegou ainda para a mocinha. Bem vejo que se deixa conduzir muito pelos sentimentos e se considera uma pessoa muito impressionável e refinada. Essas ideias romanescas conseguiram dar à sua fisionomia uma expressão sonhadora que convém mais a uma heroína de romance do que a uma mulher que tem de fazer o seu caminho no mundo real pela força do senso comum.

– Não! Não tenho a menor ideia disso.

– Olhe para o espelho que está atrás de você. Compare esse rosto com o de uma leiteira que se levanta cedo e trabalha rudemente.

– Fui sempre citada, desde criança, pela minha sagacidade e discernimento – respondeu Miss Helstone, corajosamente.

– Nunca intrigou para arranjar um marido? Tenho a certeza – continuou Mrs. Yorke – de que não tem o benefício da experiência pessoal para ajudá-la a descobrir as intrigas dos outros.

– O meu rosto é pálido, mas não é sentimental, e muitas leiteiras, embora sejam coradas e robustas, são menos capazes do que eu de abrir o seu caminho no mundo. Nas circunstâncias em que muitas vezes, por falta de reflexão, elas teriam agido mal, eu, graças à reflexão, procederia judiciosamente.

– Oh! Não seria influenciada pelos seus sentimentos?

– Decerto, muitas vezes seria influenciada pelos meus sentimentos. Foram para este fim que me foram dados. Aqueles a quem os meus sentimentos me ensinaram a amar, devo amá-los e irei amá-los. Tenho esperança de que, se algum dia tiver um marido e filhos, os meus sentimentos farão com que eu os ame.

Miss Helstone sentia prazer em dizer aquilo com ênfase. Tinha prazer em ousar dizê-lo na presença de Mrs. Yorke. Corou, não de cólera, mas de enervamento, quando a dama respondeu friamente:

– Não desperdice os seus efeitos dramáticos, Miss Helstone! Isso foi muito bem dito e é muito lindo. Mas é desperdício dizê-lo diante de duas mulheres. Era preciso que um homem, em condições de desposá-la, estivesse ouvindo em qualquer parte atrás dessas cortinas. O que acha de Mr. Moore?

Miss Moore, que durante a parte principal da conversa estivera na cozinha cuidando dos preparativos para o chá, não compreendeu inteiramente o sentido da conversa e respondeu com ar espantado que Robert estava em Whinbury. Mrs. Yorke riu, com aquele seu riso tão particular.

– Excelente, Miss Hortense! – disse ela em tom protetor. – O seu espírito não se entende com o da intriga. Podem passar à sua volta coisas estranhas, mas não as perceberá nem ficará atinada. Não posso dizer que você tenha um espírito incisivo.

Estes equivocados elogios não pareceram dar prazer a Miss Hortense. Ela endireitou-se, franziu as sobrancelhas negras, mas conservou o seu ar espantado.

Miss Helstone permaneceu calada. Responder seria confessar que o golpe a acertara. Mrs. Yorke regozijava-se em vê-la de olhos baixos, de faces a escaldar, humilhada e triste. Aquela estranha senhora sentia uma antipatia natural por ela.

– A sua prima Hortense é uma excelente irmã, Miss Helstone. As moças que vêm a Hollow na intenção de caçar maridos podem, por um fácil artifício, animar a dona da casa e ter a caça nas mãos. Gosta da companhia da sua prima, miss?

– Hortense sempre foi muito amável comigo.

– Uma irmã que tem um irmão solteiro é sempre amável na opinião de suas amigas casadouras.

– Mrs. Yorke – disse Miss Helstone, erguendo lentamente os seus grandes olhos azuis, que tinham agora um brilho mais vivo e nítido, ao mesmo tempo que lhe voltava a face pálida habitual – posso saber o que pretende com isso?

– Dar-lhe uma lição de retidão. Desgostá-la do artifício do sentimentalismo. As pessoas simples e honestas são melhores do que qualquer leitora de livros e fazedora de romances que mal deita o nariz para fora do jardim de seu tio pastor.

– E que, por consequência, a senhora não me conhece. Desculpe-me. Na verdade pouco me importa se vai me desculpar ou não. Atacou-me sem provocação e eu defender-me-ei sem apologia. Ignora a natureza das minhas relações com meu primo e minha prima. Num acesso de mau humor, tentou envenená-las com insinuações gratuitas. Se eu sou pálida e às vezes pareço desconfiada, não é da sua conta. Se eu gosto de ler e detesto intrigas, é o que ainda menos lhe deve importar. Quanto eu ser uma fazedora de romances, é mera conjectura da sua parte e não é crime ser sobrinha de pastor. A senhora não gosta de mim; não tem, aliás, nenhuma razão justificável para me odiar. Guarde, portanto, para a senhora o seu ódio. E se no futuro voltar a manifestá-lo, talvez eu lhe responda com menos reserva do que neste momento.

Miss Helstone se calou. Permaneceu sentada e calma. Falara no seu tom de voz mais nítido, nem depressa, nem alto.

– Afinal, você é uma mocinha de sentimentos! Continue sempre assim – prosseguiu Mrs. Yorke – que não se arrependerá.

– Nunca usei um tom de severidade senão para responder a um insulto não provocado. Não aceito uma insinuação tão ofensiva – respondeu Miss Helstone no mesmo tom e com o mesmo olhar – ao contrário, nunca fiz nada parecido antes.

– Mãe, encontrou uma igual à senhora – disse a pequena Jessy, a quem a cena parecia agradar imensamente. Rose, que ouvira tudo sem deixar transparecer a menor emoção, disse:

– Não! Miss Helstone não é igual à minha mãe, pois se zanga. Minha mãe a dominaria em poucas semanas. Miss Shirley Keeldar domina-se melhor. Minha mãe nunca conseguiu ofender Miss Keeldar. Sob a seda de seus vestidos há uma armadura que Mrs. Yorke não consegue transpassar.

Mrs. Yorke, com todo o seu rigor e sua força de caráter, não conseguia ter qualquer autoridade sobre seus filhos. Um olhar do pai tinha mais influência sobre eles do que mil palavras da mãe.

Miss Hortense Moore preparava-se para pronunciar um discurso que provasse que ambas as partes não estavam com a razão. Felizmente para o seu auditório, a entrada de Sarah com o chá chamou-lhe a atenção. E Rose colocou-a novamente de bom humor pedindo-lhe que cantasse.

Jessy, entretanto, fazia incidir as suas assiduidades sobre Miss Helstone. Sentada num banco aos pés dela, falou-lhe primeiro de religião e em seguida de política. Jessy tinha o hábito, em casa, de escutar avidamente o que o pai dizia sobre tais assuntos para em seguida manifestar, com mais facilidade do que juízo ou discrição, suas opiniões, suas antipatias ou preferências. Censurou vivamente Miss Helstone por ela ser membro da igreja estabelecida e ter um tio eclesiástico. Fez-lhe saber que ela vivia à custa da nação e que melhor era trabalhar para viver honestamente do que levar uma vida ociosa e comer o pão da preguiça. Em seguida, Jessy passou em revista o ministério que estava então no poder, denunciou a guerra como sendo um assassinato em grandes proporções e lorde Wellington como um carniceiro mercenário.

Miss Helstone escutava, sentindo-se vivamente impressionada. Era cômico ouvir aquele vigoroso e pequeno jacobino de vestido de musselina repetir as recriminações do pai. A sua figurinha expressiva, falando com singular acentuação, cativava o interesse da sua ouvinte.

Mrs. Yorke dobrou a costura, interrompeu a lição de música e a discussão sobre política e terminou a visita a tempo de voltar a Briarmains antes de o sol ter descido abaixo do horizonte.

Tendo partido com as filhas, Miss Helstone sentiu que também devia pegar o seu chapéu, beijar a prima e dirigir-se ao presbitério. E, contudo, não conseguia deixar seu lugar junto à janela.

Fixava os olhos na porta e contemplava a sebe de loureiros que se entrelaçavam no jardim. Os seus olhos desejavam ver outra coisa senão arbustos. Por fim viu uma figura humana, ou, antes, viu duas: Frederico Murgatroyd passou levando um jarro de água. Joe Scott seguia-o com as chaves da fábrica. Iam fechar as portas da estrebaria e da fábrica antes de regressarem às suas casas.

“Devo fazer o mesmo que eles”, pensou Miss Helstone, erguendo-se e dando um suspiro. “Tudo isso não passa de loucura. Loucura de partir o coração. Já deveria ter voltado para casa.”

Levantou o chapéu da mesa onde se encontrava e estava a apertar o laço quando Miss Moore, dirigindo sua atenção para um esplêndido ramo de flores colocado num vaso na mesma mesa, disse que fora presente de Miss Keeldar e falou das visitas que estavam em sua casa, da existência atarefada que ela levava recentemente, acrescentando que Miss Keeldar não devia gostar muito desse gênero de vida, estranhando que uma pessoa que tanto prezava a sua liberdade não achasse processo de se livrar mais depressa daquele cortejo de parentes.

– Mas dizem que ela não quer deixar que Mr. Sympson e a família vá embora – acrescentou Miss Moore. – Eles queriam regressar na semana passada para receberem o filho único que voltava de uma viagem, mas ela insiste para que o tal primo Harry venha encontrar-se com os pais aqui em Yorkshire. Tenho a certeza de que, em parte, ela faz isso para ser agradável com Robert e comigo.

– Como para ser agradável com Robert e com você?

– Ah, Caroline! Como está estúpida! Pois não sabe? Deve ter escutado dizer...

– Minha senhora – disse Sarah abrindo a porta. – As conservas que tinha pedido para ferver, o doce, como a senhora chama, está todo queimado no fundo da panela.

– O doce está queimado? Oh! Que negligência! Que serviçal insuportável!

Miss Moore precipitou-se desorientada para a cozinha de onde, para falar a verdade, exalava um cheiro de açúcar queimado mais forte do que agradável. Miss Helstone ouviu uma discussão, vivas censuras e soluços ruidosos.

Ela voltou-se para o pequeno espelho, certa de que seria, não só inútil, mas desagradável demorar-se mais tempo ali, quando, de repente, a porta dos fundos se abriu e uma profunda calma se estabeleceu na cozinha. As vozes calaram-se como se tivessem sido comprimidas por freios e rédeas. Seria Robert que chegava? Não. Era apenas Joe Scott, que, depois de ter chamado sem ser ouvido, disse:

– Silêncio. Parece-me que acabo de ouvir barulho!

Ninguém respondeu.

– E – continuou ele – como o patrão já chegou e vai entrar por esta porta, julguei conveniente antecipar-me para preveni-las. Nunca se deve deixar entrar sem aviso numa casa cheia de mulheres. Ele está vindo.

– Entre, senhor.

Ouviu-se entrar outra pessoa. Joe Scott continuou:

– Que significa essa obscuridade? Oh! Sarah! Grande estúpida! Não pode acender uma vela? Ele vai quebrar a cabeça nessas panelas.

Uma pausa confusa sucedeu às observações de Joe. Miss Helstone, embora escutasse com toda atenção, nada pôde compreender. Por fim, ouviu-se um grito de surpresa, seguido pelo ruído de um beijo. Sucederam-se exclamações meio inarticuladas.

– Meu Deus! Meu Deus! Como eu podia imaginar!

Eram as únicas palavras que se ouviam claramente. 

– É você, sempre bem minha querida irmã! – disse outra voz, decerto a de Robert.

Miss Helstone estava completamente embaraçada. Obedecendo a um impulso, cujo acerto ela não tinha tempo de discutir, escapuliu-se da sala e, correndo para o patamar, parou para pensar no que faria antes de aparecer. O sol já fugira havia muito, o corredor estava escuro, mas a escuridão não era tal que a impedisse de ver Robert e Hortense vindo através dele.

– Caroline! Caroline! – exclamou Miss Hortense um instante depois. – Venha ver meu irmão!

“É estranho”, dizia Miss Helstone para si mesma. “É mais do que estranho! Por que tanta excitação a propósito de um fato tão corriqueiro e simples como o regresso de Robert do mercado? Ela terá endoidecido? O doce queimado lhe teria desarranjado os miolos?”

Desceu, sentindo-se levemente emocionada. Ficou mais ainda quando Miss Moore a tomou pela mão na entrada da sala e, conduzindo-a para junto de Robert, cuja elevada estatura se destacava na penumbra da janela, apresentou-a com um misto de agitação e de formalidade como se eles fossem completos estranhos e aquele fosse seu primeiro encontro com Robert.

O embaraço de Miss Helstone ia crescendo. O homem cumprimentou-a com certa timidez, afastou-se com a perturbação de um estranho e o seu rosto foi iluminado pela luz pálida que vinha da janela: o enigma do sonho, pois tudo aquilo parecia um sonho, atingiu o auge. Miss Helstone viu um rosto que se parecia com o de Robert, mas que não era o dele.

– Que significa isso? – perguntou Miss Helstone. – Os meus olhos estarão me enganando? É meu primo?

– Decerto que é seu primo – afirmou Miss Moore.

Então quem era que atravessava naquele momento o corredor e entrava na sala? Miss Helstone, de repente, deparou-se com outro Robert, o verdadeiro, como sentiu num instante pelo palpitar de seu coração.

– Então – disse ele, sorrindo do ar espantado e interrogativo de Miss Helstone – qual de nós é Robert?

– Ah! É você! – respondeu ela.

– Também me parece – concordou ele, rindo. – E aquele? Sabe quem é? Nunca o tinha visto, mas você já ouviu falar nele.

– Só pode ser uma pessoa: o seu irmão, pois é muito parecido com você. É o primo Louis.

– Esperta Edipozinho! Teria vencido a esfinge! Mas agora olhe para os dois ao mesmo tempo. Mude de lugar, Louis. Mude outra vez para atrapalhá-la. E agora, qual é o seu velho amigo, Lina?

– Como se fosse possível enganar-me ouvindo-o falar. A Hortense é que devia ter feito a pergunta. Mas vocês não se parecem completamente, é só a altura e a pele que se parecem.

– Eu sou o Robert, não é verdade? – perguntou o recém-chegado, fazendo uma primeira tentativa para dominar o que parecia ser natural nele, a timidez.

Miss Helstone sacudiu graciosamente a cabeça. Um terno e expressivo raio brilhou dos seus olhos sobre o verdadeiro Robert. Era um olhar que dizia tudo.

Não a deixaram partir. O próprio Robert se mostrou categórico, obrigando-a a ficar. Louis parecia ser um homem grave, circunspecto e amigo do sossego. Contudo, naquela noite Miss Helstone não tardou a fazê-lo vencer a reserva e perder a gravidade. Sentou-se junto dela e conversaram. Miss Helstone sabia que ele trabalhava com ensino, mas ficou sabendo que ele era, já há alguns anos, preceptor do filho de Mr. Sympson, que viajara com ele e o tinha acompanhado pelo Norte. Ela perguntou se ele gostava do que fazia, porém a resposta foi dada com um olhar que lhe tirou a vontade de fazer mais perguntas sobre o mesmo assunto. Compreendeu a tristeza da expressão que passou pelo rosto inteligente do primo, pois ela achava que ele tinha um ar de pessoa inteligente, embora, no seu entender, o rosto fosse bem inferior em beleza ao de Robert. Olhou de um para o outro para compará-los. Robert estava encostado numa parede, um pouco atrás dela, folheando um livro de gravuras.

“Como pude achá-los parecidos?”, perguntou a si mesma. “Bem vejo agora que o Louis se parece é com Hortense.”

E isso era, em parte, verdade: ele tinha o nariz comprido e o lábio superior saliente da irmã, mais do que as belas linhas do irmão. O seu ar, embora decidido e refletido, mal podia passar por engenhoso. Olhando para ele, tinha-se uma impressão de calma. Fazia crer que possuía uma natureza mais lenta e, provavelmente, mais benévola do que o seu irmão mais velho.

Robert Moore, sentindo, talvez, que o olhar de Miss Helstone pousara nele, embora não o tivesse encontrado e não lhe tivesse respondido, fechou o livro e, aproximando-se, instalou-se ao lado dela. Ela continuou a conversa harmoniosa com Louis, mas, enquanto lhe falava, os seus pensamentos estavam em Robert e seu coração batia acelerado sentindo a presença dele ao seu lado.

Miss Helstone reconhecia em Louis Moore um ar firme, viril e benévolo, mas inclinava-se diante do poder secreto de Robert Moore. A presença deste, embora ele estivesse calado e nem sequer tocasse na franja de sua manta ou na orla de seu vestido branco, eletrizava-a. Ela estava alegre e eloquente. Sentia que naquele dia ela tinha sido favorecida e, como Robert era espectador, essa ideia enchia-a de satisfação.

Mas a sua felicidade não foi completa por muito tempo: uma nuvem veio atravessá-la.

Miss Moore, que durante algum tempo estivera ocupada a tratar da ceia, chamou a atenção de Mr. Moore para o vaso de flores, no qual o carmim, a neve e o ouro das pétalas tinham um brilho radioso à luz das velas.

– Vieram de Fieldhead – disse ela. – Mandaram em sua intenção, sem dúvida. Todos sabem quem é o favorito de Miss Keeldar. Eu é que não sou, com certeza! – disse Miss Moore.

Era uma coisa espantosa ouvir Miss Moore gracejar. Era preciso que ela estivesse de muito bom humor.

– Isso quer dizer que Robert é o favorito? – perguntou Louis.

– Meu caro! – replicou a irmã. – O Robert é a coisa mais preciosa que há no mundo. Ao lado dele, o resto do gênero humano não passa de refugo. Não tenho razão, Caroline? – acrescentou ela dirigindo-se à prima.

Miss Helstone foi obrigada a responder que sim, mas a sua animação extinguiu-se, a sua estrela eclipsou-se quando, instante antes, fora pronunciada aquela frase.

– O que você diz disso, Robert? – perguntou Louis.

– Quando tiver oportunidade, pergunte você a ela própria – respondeu ele, tranquilamente.

Miss Helstone descobriu que era tarde e que deveria voltar para casa. Manifestou desejo de ir embora e nem o próprio Mr. Moore foi capaz de retê-la.

 

OceanofPDF.com