Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 35 de 38

Páginas do PDF

Shirley

Capítulo XXXV

 

OceanofPDF.com

Alguns Progressos

 

Martin tinha idealizado um plano muito hábil para seu divertimento. Contudo, muitos sonhadores mais ajuizados do que ele, têm visto seus planos condenados e desfeitos pelas vassouradas da fatalidade. Na presente circunstância, esta vassourada foi dada pelas rijas fibras e pela força obstinada da decisão de Mr. Moore. Este, que recobrava suas forças dia após dia, fez frente à enfermeira Mrs. Horsfall com firmeza. Começou por lhe tirar as funções de criada de quarto, pois decidiu que se vestiria sozinho; depois recusou o café que ela lhe trazia, quis tomar seu café da manhã com a família; por fim, proibiu-lhe a entrada no quarto. Nesse mesmo dia, em meio aos gritos da mulherada da casa, apareceu no jardim. No dia seguinte, pediu a Mr. Yorke que mandasse chamar a carruagem da Casa Vermelha, pois decidira, disse ele, regressar a Hollow naquela mesma tarde. Mr. Yorke, em vez de contradizê-lo, ajudou-o e animou-o. Mandou buscar a carruagem, embora Mrs. Yorke tivesse declarado a Mr. Moore que semelhante imprudência seria a morte dele.

A carruagem chegou; Mr. Robert Moore, pouco disposto a falar, exprimiu a sua gratidão aos criados com o tinir de seu dinheiro.

Depois de visitar e apaziguar as cozinheiras, dirigiu-se à sala de estar, pois era preciso acalmar Mrs. Yorke, o que não era tão fácil. Ela tinha o ar muito sombrio, os seus pensamentos estavam absorvidos pelas mais tristes reflexões sobre a profundidade da ingratidão humana. Mr. Moore aproximou-se e inclinou-se para ela, que não teve outro remédio senão erguer os olhos. Havia ainda beleza no rosto desfigurado do doente; nos seus olhos encovados brilhava certa doçura.

– Adeus! – disse ele, e um sorriso enternecido iluminou-lhe as feições.

No seu estado de fraqueza lhe era impossível esconder uma leve emoção.

– Mas por que quer nos deixar? – perguntou a mulher. – Fique aqui, cuidaremos de você. Fique até estar mais forte.

– Adeus! – repetiu ele e acrescentou: – Foi uma verdadeira mãe para mim. Dê um beijo ao teimoso do seu filho.

Como estranho que era, apresentou-lhe primeiro uma das faces, depois a outra. Ela beijou-o.

– Que incômodo eu lhe causei, que fardo eu fui! – murmurou Mr. Moore.

– É agora que me dá pena, obstinado moço.

Nesse momento, as pequenas chegaram: Jessy reclamava e Rose estava calma, porém grave. Mr. Moore chamou-as para o vestíbulo para tranquilizá-las e beijá-las. Sabia que a mãe não poderia suportar um espetáculo de festas que não fosse para ela. Até um simples afagar um gatinho na sua presença a teria contrariado.

Os rapazes estavam próximos à carruagem quando Mr. Moore subiu. Para eles, acenou, e limitou-se a dizer a Mr. Yorke:

– Felizmente agora estará livre de mim. Aquele tiro foi uma falta de sorte para você, meu amigo. Transformou Briarmains num hospital. Vá visitar-me em Hollow.

Fechou a portinhola da carruagem e partiu. Meia hora mais tarde descia diante do portão do seu jardim. Depois de ter mandado embora a carruagem, apoiou-se durante um instante no portão, tanto para descansar como para refletir.

“Há seis meses saí por esta porta”, pensou. “Orgulhoso, irritado e desanimado. Voltei mais triste e com mais juízo. Bastante fraco, mas não quebrado. Todos os meus mesquinhos terrores perante dificuldades futuras se desvaneceram. Aconteça-me o pior e eu, ainda assim, poderei trabalhar, como o Joe Scott, para ganhar honradamente a vida. Outrora, aos meus olhos, a ruína material equivaleria à desonra. Hoje sei qual é a diferença. A ruína é um mal, mas é um mal para o qual estou preparado. Fiz os meus cálculos, posso postergá-la por mais seis meses. Se durante esse tempo as coisas mudarem, se os laços que têm entrevado o nosso comércio se afrouxarem, poderei, santo Deus! O que poderei eu?... Mas pensar em tal coisa é uma loucura! Vejamos as coisas com um olhar sereno. A ruína abaterá com o seu machado a minha fortuna. Salvarei um ramo dela, atravessarei o oceano e irei plantá-lo nas florestas da América. Louis irá comigo; somente o Louis? Não tenho o direito de o perguntar.”

Mr. Moore entrou em casa assustando sua irmã, que ralhou com ele, porém ele mal a escutava.

Era um entardecer, um crepúsculo que não prometia estrelas nem luar, pois, apesar de uma geada glacial, o céu de Hollow estava encoberto. A barragem da fábrica tinha congelado, mas a casa mostrava-se tranquila. No seu interior já era noite. Sarah acendera um bom fogo na sala de estar e preparava o chá na cozinha.

– Hortense – disse Mr. Moore, enquanto a irmã se precipitava para libertá-lo do seu casaco – sinto-me feliz em voltar para casa.

Sentou-se, mas não tardou a se colocar em pé. Aproximou-se da janela e depois voltou para junto do fogo.

– Esta salinha parece-me muito clara e agradável. Está mais aconchegante do que de costume. Minha irmã, para festejar o meu regresso, devia convidar alguns amigos para o chá. É preciso dizer a Harry Scott que vá ao presbitério levar a Caroline um convite para vir passar um tempo conosco.

Mr. Moore dirigiu-se à cozinha, pois Miss Hortense estava pasma. Recomendou a Sarah que atrasasse o chá por meia hora, depois a encarregou de mandar Harry ao presbitério com um bilhete que escreveu às pressas.

Sarah mal tivera tempo de se impacientar, no receio de que o lanche se estragasse; o mensageiro já estava de volta e com a convidada.

Miss Caroline entrou pela cozinha, subiu tranquilamente as escadas para tirar o chapéu e desceu na mesma tranquilidade com os seus belos caracóis delicadamente penteados, o seu gracioso vestido de merino, a sua linda gola e o seu lindo casaco de costura. Deteve-se para dizer algumas palavras amáveis a Sarah, para contemplar o novo gatinho e para falar ao canário. Depois entrou na sala.

Uma sutil sensação de prazer e calma aflorou como um perfume suave e espalhou-se pelo aposento. O candeeiro, que acabava de ser aceso, dava uma viva claridade; Sarah trouxe o chá.

– Sinto-me feliz por ter voltado para casa – disse Mr. Moore.

Reuniram-se em volta da mesa. Miss Hortense felicitou Miss Caroline pela evidente melhora de saúde, disse que seu rosto estava corado novamente e já tinha recuperado seu peso. Era certo. Uma mudança havia se processado em Miss Helstone e tudo nela parecia elástico. Já não estava mais atormentada, abatida, triste, parecia alguém cheia de paz e esperança.

Depois do chá, Miss Hortense subiu ao primeiro andar para cuidar de desfazer a mala de Mr. Moore e Miss Caroline ficou com Robert. A nova musicalidade daquela voz sempre doce admirou e cativou o seu interlocutor.

– Caroline, está parecendo uma pessoa que ouviu bons presságios – observou Mr. Moore, depois de tê-la contemplado durante alguns segundos.

– Na verdade?

– Está exuberante. Os seus movimentos estão cheios de leveza e a sua voz está harmoniosa.

– É agradável estar de volta aqui...

– Sim, é agradável. É bom vê-la com saúde e ver a esperança em seus olhos, Caroline. Mas conte-me: de onde vêm essa esperança e essa alegria?

– Em primeiro lugar: estou feliz por ter encontrado a minha mãe. Gosto tanto dela, Robert! E ela também gosta de mim. Você ia rir se soubesse o prazer que sinto em costurar para ela, lhe fazer vestidos. Não quero que ela continue a se vestir à moda antiga e, além disso, a conversa com ela é tão agradável! Tem uma solidez de caráter e tantos conhecimentos. A cada dia que passo com ela, mais lhe quero bem.

– A maneira como fala da sua mãe, Caroline, bastaria para tornar uma pessoa ciumenta; mas você disse que a afeição da sua mãe era uma das coisas que a faziam feliz. Vejamos, qual é a outra?

– Sinto-me feliz por vê-lo curado.

– Caroline, ainda vou falar alguma coisa sobre mim e lhe garanto, não me favorecerá.

– Ah! Não diga nada! Eu não poderia suportar a necessidade de pensar mal de você; mas acredito que sei de que “alguma coisa” você se refere, aliás, creio que sei de tudo.

– Não sabe.

– Creio que sei.

– Qual era a outra mulher além de você? – ela corou, hesitou e calou-se. – Fale, Caroline. Quem é então?

– Mas e se eu adivinhei mal?

– Eu lhe perdoarei. Diga-me em voz baixa, Caroline – Robert inclinou a cabeça.

Caroline, finalmente, decidiu.

– Miss Keeldar passou um dia no presbitério. Como o tempo mudou e uma tempestade precipitou, a obrigamos a passar a noite lá.

– E as duas ficaram arranjando os cabelos uma da outra, conversaram e ela lhe disse...

– Não foi enquanto arranjávamos os cabelos, afinal, você não é tão perspicaz como se julga. Ocupamos o mesmo quarto e a mesma cama; não dormimos muito, falamos quase toda a noite.

– Foi então que ela lhe contou tudo... paciência, preferiria ter sido eu próprio a lhe dizer.

– Está inteiramente enganado. Ela não me disse o que o senhor supõe. Ela não é esse tipo de pessoa, mas eu deduzi algo e depois ouvi rumores. No final, o meu instinto deduziu tudo.

– Mas, se ela não lhe disse que eu queria ter casado com ela por causa do seu dinheiro, que fui recusado com indignação e desprezo... não precisa se estremecer nem corar, Caroline. Muito menos se furar com a agulha. É a verdade pura, quer lhe agrade ou não! Se não foi esse o assunto da conversa de vocês, qual foi então? Você disse que tinham conversado durante toda a noite. Sobre o quê?

– Sobre coisas que nunca tínhamos falado, embora fôssemos muito amigas, mas não pense que lhe contarei.

– Sim, sim, Caroline. Deve me contar. Disse que éramos amigos e os amigos devem confiar uns aos outros seus segredos.

– Mas você tem certeza de que não vai repetir, nem sequer ao Louis?

– Nem sequer ao Louis! O que tem a ver o Louis com esses segredos?

– Robert, Shirley é uma estranha e generosa moça. Repugna-lhe deixar que vejam seus sentimentos, de quem gosta... Mas eles, às vezes, emergem como um vulcão, uma torrente.

– Foi-lhe dado ver esse espetáculo?

– Sim, na obscuridade da noite, quando tudo era silencioso e frio, eu vi o coração de Shirley.

– Ela lhe deixou ver o fundo do seu coração?

– Sim, eu o vi.

– E como era ele?

– Como um tabernáculo, porque era santo; como a neve, porque era puro; como a chama, porque era ardente; como a morte, porque era forte.

– Ela sabe amar? Ela não amou nenhum daqueles que a amaram, nem... nem...

Mr. Moore citou uma lista de pretendentes, acabando por Sir Philip Nunnely.

– Ela nunca amou nenhum deles, apesar de alguns deles serem dignos do amor de alguma mulher.

– De certas mulheres, mas não de Shirley, que seria perigoso tomar levianamente por mulher.

– Ela falou de você, mas não da maneira como o senhor calcula. Fiz que me dissesse o que ela pensava de você, ou antes, o que ela sentia por você. Era uma coisa que eu precisava saber e há muito eu queria saber.

– Ela despreza-me, certamente.

– Muito pelo contrário; ela tem por você a ideia mais elevada que uma mulher pode ter por um homem. Como sabe, ela pode ser eloquente. Pareço ouvir o brilho da linguagem com que ela exprimia a opinião que ela tem de você.

– Mais quais são os sentimentos dela?

– Até aquele momento em que a ofendeu, ela me disse que você a tinha ofendido, mas não me disse como, ela tinha por você os sentimentos de uma irmã que se orgulha do irmão que tem.

– Nunca mais a ofenderei, Caroline. A ofensa caiu sobre mim ao ponto de me fazer titubear; mas esta comparação de irmão e irmã não se encaixa. Ela é demasiado rica para ter sentimentos fraternais para comigo.

– Não a conhece, Robert. Outrora eu pensava de modo diferente, mas agora sei que não a conhece. Você e ela não foram feitos de modo a compreenderem um ao outro.

– É possível. Eu estimo-a, admiro-a e, contudo, a minha opinião a respeito dela é dura e, talvez, pouco generosa. Creio que ela é incapaz de sentir amor...

– A Shirley incapaz de sentir amor!

– Sim... ela nunca se casará! Vejo-a demasiado orgulhosa do seu poder, da sua fortuna...

– Ela feriu o seu amor próprio, não é, Robert?

– Feriu, embora eu não sentisse por ela nem uma ponta de ternura ou de paixão.

– Então, Robert, foi muito feio da sua parte lhe propor casamento.

– E muito vil, meu jovem pastor, minha boa sacerdotisa. Nunca desejei beijar Miss Keeldar, embora ela tenha belos lábios vermelhos como cerejas maduras. Se a desejei, era só desejo dos olhos. Creio que nunca fui realmente tentado por ela, e, sim, pelo dourado da isca. Caroline, veja como o seu Robert é impuro, nada nobre, nada desinteressado.

– Não é perfeito, cometeu erros, mas não falemos mais nisso.

– Mas poderemos não pensar nisso, Caroline? Não desprezaremos, no íntimo do nosso coração, o que fiz?

– Nunca! Seremos apenas afetuosos.

– O que não bastará, Caroline. Um dia vão pedir-lhe algo mais forte, diferente da afeição, mais doce, mais quente, poderá dá-lo?

Miss Helstone mostrava-se comovida, profundamente comovida.

– Acalme-se, Lina – pediu ternamente Mr. Moore. – Eu não quero, pois eu não tenho o menor direito de fazê-lo, perturbar agora o seu espírito. Não faça menção de me deixar, Lina. Não farei mais alusões, vamos retomar a nossa conversa. Não trema, olhe para mim. Veja que pobre e pálido fantasma eu sou, mais digno de despertar dó do que medo.

Ela o olhou timidamente.

– Por mais pálido que esteja, há em você algo impressionante – retorquiu Caroline, baixando os olhos ante os de Mr. Moore.

– Voltando a Miss Keeldar – continuou ele – parece-lhe que ela decidirá algum dia se casar?

– Ela ama alguém.

– Platonicamente, teoricamente... história.

– Ela ama o que eu chamo de amar sinceramente.

– Ela lhe disse?

– Não posso afirmar que ela o tenha dito. Sim, os seus lábios não declararam: “amo este ou aquele homem”. Não obstante...

– É o que eu pensava.

– Mas eu vi os seus sentimentos. Falou-me de um homem de modo que eu não tive dúvida. A voz dela era, por si só, testemunho desse amor. Quando perguntei sobre o seu caráter, a pessoa da qual eu suspeitava, ela tentou me ludibriar com suas ironias, mas a sacudi, ralhei com ela e, finalmente, o segredo saiu. A voz dela, pouco mais do que um murmúrio e, contudo, veemente na sua doçura, bastava, repito, para que eu adivinhasse. Não me fez qualquer confissão, qualquer confidência seria demais para ela. Mas, tenho a certeza de que a felicidade desse homem lhe é mais cara do que a própria vida.

– Quem é ele?

– Digo-lhe aquilo que eu adivinhei, porém, ela não negou nem confessou. Mas, olhou para mim. Vi seus olhos na meia claridade que a neve espalhava; foi o suficiente, como uma confissão; triunfei sobre ela sem piedade.

– Com que direito triunfou? Quer por acaso dizer...

– Shirley é uma escrava. Uma leoa que achou o seu domador. Pode ser a dona de tudo que a rodeia, mas não dela mesma.

– Então, você exultou por encontrar uma companheira de escravidão numa mulher tão bela, tão imperial? Confesse, uma companheira de escravidão?

– Não confesso nada, mas digo que a altivez de Shirley não é mais

livre do que foi Agar[15].

– É quem é o herói de Shirley?

– Está falando com desdém, cinismo e amargura. Vou fazê-lo mudar de tom.

– É o que veremos. Poderá ela se casar com esse cupido?

– Cupido? Ele se parece tanto com um cupido quanto você com um

ciclope[16].

– Gostaria de saber o nome dele, Caroline.

– Adivinhe.

– É alguém da vizinhança?

– Sim, da paróquia de Briarfield.

– Então é alguém indigno dela. Não conheço em Briarfield pessoa alguma que seja sua igual. Parece-me que ela vai fazer algum disparate.

Caroline sorriu.

– Você aprova a escolha dela?

– Inteiramente, inteiramente.

– Então, dou minha língua ao gato, porque a cabeça que possui estes caracóis cor de avelã é uma excelente maquinazinha de calcular, muito regular nas suas funções. Pode gabar-se de ser sensata, o que herdou da mamã, suponho eu.

– Eu aprovei inteiramente e a mamã ficou encantada.

– A mamã encantada! Mrs. Pryor? Então não é um amor romanesco?

– Sim, mas também é sensato.

– Conte logo este segredo, Caroline! Por piedade, diga-me o nome desse homem! Estou fraco demais para sofrer o suplício de Tântalo.

– Pois há de sofrer. Isso não lhe fará mal nenhum. O senhor não está tão fraco como pretende me fazer acreditar.

– Já por duas vezes nessa tarde julguei que cairia aos seus pés.

– Nem tente, pois eu não o levantarei.

– É para adorá-la. A minha mãe era católica. Você se parece com a mais encantadora das imagens da virgem que ela tinha.

– Robert, Robert, se continuar com extravagâncias, vou subir e ficar com Hortense.

– Fez-me perder a razão...

– Procure adivinhar o enigma, é tão simples...

– Vou adivinhar de uma vez por todas: é o velho Mr. Helstone. Ela será sua tia.

– Vou contar isso para meu tio e para Shirley! – exclamou Miss Caroline, divertidíssima. – Tente novamente, os seus enganos são deliciosos.

– É Mr. Hall.

– Isso é que não! Este é meu, se me dá licença.

– Seu? Sim, todas as mulheres de Briarfield parecem adorar esse pastor. Gostaria de saber o porquê. É careca, míope e velho.

– Fanny está quase chegando e você ainda não adivinhou.

– Não ouso mais tentar adivinhar. Estou fatigado. Além disso, sou indiferente. Que Miss Keeldar se case com o Grão-Turco se lhe apetecer.

– Devo lhe dizer em voz baixa?

– Sim. Aí vem a Hortense. Aproxime-se, minha pequena Lina. Prefiro os murmúrios às palavras.

Ela disse apenas uma palavra. Robert deu um salto na cadeira, brilharam-lhe os olhos e deu uma breve risada. A irmã entrou. Fanny também chegou, era hora de Miss Caroline ir embora.

Robert esperava por ela no patamar quando Miss Helstone, posto o xale, desceu.

– Devo perdoar agora a Shirley?

– Perdoar-lhe? Você está sendo mau! Quem andou se portando mal, ela ou você?

– Devo, enfim, amá-la verdadeiramente, Caroline?

Miss Helstone fez um gesto em que havia ao mesmo tempo ternura e petulância.

– Diga-me, Lina, e obedecerei.

– Não deve amá-la com o amor dos sentidos; só a ideia disso é perversa, Robert. Seja bom, apenas.

– Oh! Caroline! Eu não tenho mais amor para dar. O coração que bate neste peito não me pertence.

– Tanto melhor, pois a sua segurança assim estará mais garantida. Boa noite.

– Escute. Só duas palavras: Tome cuidado com o seu coração, ouviu? – disse Mr. Moore.

– Ele não corre nenhum perigo.

– Não estou certo disso. O platônico pastor, por exemplo.

– Quem? Mr. Malone?

– Cirino Hall. Mais de um espinho de ciúmes me tem vindo desse lado.

– Quanto ao senhor, flerta com Miss Mann. Ela me mostrou uma planta que ganhou de presente do senhor – e, dirigindo-se à criada, disse: – Fanny, estou pronta.

 

OceanofPDF.com