Shirley

Charlotte Brontë · Capítulo 19 de 38

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Shirley

Capítulo XIX

 

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Uma Noite de Verão

 

As estrelas brilhavam na atmosfera limpa e serena da noite.

– Há uma claridade. Estou avistando a minha casa daqui – disse Miss Keeldar quando se despedia de Miss Helstone à porta do jardim do presbitério.

– Não deve ir só, Shirley, Fanny pode acompanhá-la.

– É inútil. De quem eu poderia ter medo em minha própria paróquia? Faria de boa vontade o trajeto de Fieldhead à igreja numa bela noite sem chuva três horas mais tarde do que agora só pelo prazer de contemplar as estrelas e na esperança de encontrar uma fada.

– Mas espere ao menos que a multidão se disperse.

– Sim. De acordo. Aí vêm as cinco misses Armitage. Lá está a pequena carruagem de Mrs. Sykes, a de Mr. Wynne, o cabriolé de Mrs. Birthwhistle. Como não estou com a menor disposição de dizer adeus a toda essa gente, vamos entrar no seu jardim e nos esconder entre as árvores.

Os pastores, os vigários e seus sacristãos saíam neste momento do pórtico da igreja. Houve muitos apertos de mãos, cumprimentos sobre os discursos, recomendações de ter cuidado com o ar da noite e amenidades. Pouco a pouco a multidão foi dispersando-se e as carruagens partiram. Miss Keeldar acabava de deixar o seu refúgio florido quando Mr. Helstone entrou no jardim e deu de cara com ela.

– Oh! Andava à sua procura – disse ele. – Receava que já tivesse ido embora. Caroline, venha aqui.

Miss Helstone aproximou-se; como Miss Keeldar, ela esperava uma repreensão por não terem aparecido na igreja.

No entanto, outra coisa preocupava o reitor.

– Não vou dormir em casa esta noite – continuou ele. – Acabo de encontrar um velho amigo e prometi acompanhá-lo. Provavelmente estarei de volta amanhã por volta do meio-dia. O Tomaz também tem o que fazer esta noite e por isso também não dormirá em casa como é seu costume quando me ausento de noite, em consequência...

– Em consequência – interrompeu Miss Keeldar – o senhor precisa do capitão Keeldar para tomar o seu lugar, ser o senhor do presbitério, ser o guarda da sua sobrinha e das suas criadas durante sua ausência.

– Precisamente, capitão! Pensei que o posto lhe conviria. Quer fazer o favor de ser a hóspede de Caroline esta noite? Quer ficar aqui em vez de ir para Fieldhead?

– E o que fará Mrs. Pryor? Ela me espera em casa.

– Mande um recado a ela. Ande! Decida-se logo a ficar. Está tarde, o orvalho cai abundantemente e tenho a certeza de que a menina e Caroline vão ficar encantadas por passarem a noite juntas.

– Prometo tomar conta de Caroline – disse Miss Keeldar. – Como o senhor disse, teremos prazer em ficar juntas. Agora vá se encontrar com esse seu velho amigo e não tema nada por nós.

– Se houver qualquer perturbação de noite, capitão; se ouvir alguém tentando abrir a porta com uma chave falsa, tentando cortar um vidro, um deslizar de passos furtivos em qualquer parte da casa, e não temo dizer à menina, que tem um coração forte e bem temperado sob o seu corpete de cetim, que esses incidentes são muito possíveis nos tempos atuais, o que poderia fazer?

– Não sei. Talvez desmaiar. Cair para que me esquecessem em seguida. Mas, pastor, se me entrega o posto de honra, deve me dar armas. Quais armas existem nesta fortaleza?

– Não pode manejar uma espada?

– Não. Servir-me-ia melhor da faca de trinchar.

– Encontrará uma excelente no aparador da sala de jantar. Trata-se de uma faca de senhora, leve para manejar, cuja ponta vale um punhal.

– Caroline tratará disso, mas eu sei que tem pistolas – replicou Miss Keeldar.

– Tenho duas e deixo uma à sua disposição. Estão dependuradas no seu estojo por cima do pano da chaminé no meu gabinete de trabalho.

– Carregadas?

– Sim, mas não tirei o vácuo. Faça isso antes de se deitar. É uma grande honra que eu lhe faço, capitão. Confiando uma arma a uma dama.

– Terei cuidado. Agora pode ir, Mr. Helstone. Foi muito amável comigo emprestando-me uma pistola – disse Miss Keeldar quando o pastor fechava o portão do jardim.

Entrando na casa, as meninas se dirigiram à escura sala de jantar. O ar da tarde entrava pelas janelas abertas e trazia o perfume das flores do jardim. Ao longe, sons de passos que se afastavam na estrada, um vago e doce murmúrio, cuja causa Miss Helstone explicou: – Shirley, ouço o ribeiro de Hollow.

Em seguida Miss Helstone tocou a campainha e pediu velas, pão e leite, a refeição habitual de Miss Keeldar e a sua. Quando Fanny acabou de servi-las e ia começar a fechar as janelas e as portas, as moças pediram que não o fizesse ainda. O crepúsculo estava muito calmo e o ar tão perfumado que não se sentiam capazes de perder ambas as coisas. Tomaram a refeição em silêncio.

Miss Helstone ergueu-se para remover um vaso de flores que estava no aparador, cujo perfume era forte demais para aquela sala quente. Quando voltou, abriu uma gaveta e pegou em qualquer coisa que ali estava, e que brilhou na sua mão.

– Indicou isto para mim, Shirley, não é isso? É uma arma admiravelmente afiada. Nunca senti o impulso que poderia levar-me a dirigi-la contra o meu semelhante. É difícil imaginar as circunstâncias que pudessem dar ao meu braço a força de ferir alguém.

– Seria uma coisa que muito me repugnaria – replicou Miss Keeldar – mas creio que poderia se me visse constrangida a isso por certas circunstâncias que posso imaginar muito bem.

Acabada a ceia, mandaram as criadas se deitarem, o que elas fizeram de bom grado, pois o dia tinha sido cansativo para elas. Em breve as jovens escutaram as portas de seus quartos se fecharem. Miss Helstone pegou um castiçal e visitou toda a casa, assegurando-se de que todas as janelas estavam fechadas e todas as portas aferrolhadas. Não deixou sequer de ver a porta traseira da cozinha, ao pé do cemitério. Depois de feita essa minuciosa visita, voltou.

– Neste momento não há espírito nem carne que não devessem estar em casa – disse ela. – São quase onze horas e é uma boa hora para deitarmos e, contudo, eu gostaria de ficar acordada, caminhar, isto é, se você não fizer objeção. Aqui está a pistola que trouxe do gabinete de meu tio – pousou-a na mesa em frente à sua amiga.

– Por que deseja ficar acordada até mais tarde? – perguntou Miss Keeldar, pegando a pistola, examinando-a e colocando-a de volta na mesa.

– Porque me sinto nervosa e agitada. Pergunto-me se esse estado de insônia e de excitação será produzido por qualquer eletricidade do ar?

– Não. O céu está puro, há inumeráveis estrelas e a noite está magnífica.

– Mas muito calma. Ouço a água do ribeiro de Hollow sobre o seu leito de seixos, tão distintamente como se corresse sob o muro do cemitério.

– Estou contente por a noite estar tão calma. O vento e a chuva batendo iriam me atormentar neste momento, até me dar febre, pois tornariam inúteis os meus esforços para ouvir.

– Está ouvindo Hollow? – perguntou Miss Helstone.

– Estou. É o único ponto de onde, neste momento, se poderá ouvir qualquer coisa.

Ambas se sentaram junto da janela, apoiaram seus braços no peitoril e inclinaram suas cabeças para a gelosia aberta. Viraram reciprocamente seus rostos jovens à claridade das estrelas e do crepúsculo de junho, que só desaparece do poente quando a aurora começa a despontar.

– Mr. Helstone pensa que não fazemos ideia nenhuma do lugar para onde ele foi – murmurou Miss Keeldar – mas eu adivinho muitas coisas. E você, Caroline?

– Suspeito de qualquer coisa, sim.

– Todos aqueles senhores, inclusive seu primo, pensam que estamos dormindo tranquilamente nas nossas camas sem desconfiarmos de nada.

Ficaram caladas por um tempo. O silêncio da noite era completo, interrompido somente pelo relógio da igreja. Elas trocaram algumas palavras sobre o frescor da noite, envolveram-se mais estreitamente em seus xales, puseram os chapéus que tinham tirado e continuaram a velar a noite.

Perto da meia-noite, o provocante latir do cão da casa lhes perturbou a calma da vigília. Miss Helstone pôs-se de pé e dirigiu-se sem ruído para a cozinha, com a intenção de acalmar o animal com um bocado de pão. Conseguiu seu objetivo. Voltando para a sala de jantar, achou-a na obscuridade absoluta. Miss Keeldar tinha apagado a vela: via-se seu contorno próximo à janela aberta. Miss Helstone não fez nenhuma pergunta e deslizou-se até junto dela. O cão recomeçou a ladrar com furor. De repente, calou-se e parecia que escutava. Na sala de jantar, escutaram também. Não era o ruído do curso de água, ouvia-se outro mais próximo, um ruído surdo, na estrada abaixo do cemitério. Um som cadenciado, medido, produzido pelos passos de uma multidão em marcha.

O ruído tornou-se mais nítido. As que o escutavam foram se dando conta da sua importância. Não eram os passos de dois, de uma dúzia, de vinte homens. Eram os passos de centenas deles. Não podiam ver nada, os arbustos do jardim formavam um cortinado de folhagem entre elas e a estrada. Ouvir não era bastante, foi o que elas pensaram quando o bando passou perto do cemitério. Uma voz cobriu o silêncio da noite, gritando:

– Alto.

A marcha foi interrompida. Depois houve uma reunião em voz baixa, da qual nenhuma palavra chegou perceptível às moças.

– Precisamos saber do que falam, Caroline! 

Miss Keeldar voltou-se, pegou a pistola, passou sem fazer ruído pela janela do meio da sala de jantar e foi até o muro do jardim. Ali parou debaixo de uma árvore para escutar. Miss Helstone não deixaria a casa se estivesse só, mas aonde Miss Keeldar ia, ela não temia ir atrás. Olhou para o punhal em cima do aparador, mas deixou-o onde estava e foi se encontrar com sua amiga. Não se atreveram a espreitar por cima do muro como medo de que as vissem. Ficaram ajoelhadas atrás dele e ouviram as seguintes palavras:

– Isso tem o ar de um velho edifício abandonado. Quem mora aqui além do diabo do pastor?

– Apenas três mulheres: a sobrinha e duas criadas.

– Sabe onde elas dormem?

– As criadas atrás. A sobrinha num quarto à frente.

– E o velho Mr. Helstone?

– Ali, naquela direção, num quarto embaixo. Tem o costume de manter a luz acesa a noite toda, mas hoje está apagada.

– Por onde entraríamos?

– Se me ordenassem que lhe desse um trato na sua saúde, e ele merece, procuraria entrar pela grande janela, uma que sai na sala de jantar. Acharia o seu quarto apalpando. Conheço a casa.

– O que faria com as três mulheres?

– Deixá-las-ia em paz, a não ser que se pusessem a gritar. Nesse caso, eu depressa as acalmaria. Gostaria de surpreender o velhote dormindo, pois se ele acordasse, a missão seria perigosa.

– O pastor tem armas?

– Tem armas de fogo, com certeza. Algumas delas.

– Então você é doido nos fazendo parar aqui. Um tiro daria o alarme e estragaria tudo. Mr. Moore estaria sobre nós antes que pudéssemos surpreendê-lo. Falharíamos no nosso objetivo principal.

– Vá indo à frente. Eu sozinho me encarrego do velho Mr. Helstone.

Seguiu-se uma pausa. Um dos homens deixou cair uma arma, que ressoou sobre a laje do cemitério. A este barulho o cão do presbitério pôs-se a latir com frenesi.

– Aí está o que estraga tudo! – exclamou uma voz áspera. – Ele vai acordar. Semelhante barulho é capaz de acordar até um desses mortos. Você não nos disse que havia cachorro também. Que o diabo vos leve! Para frente!

Miss Keeldar ergueu-se lentamente e olhou para a estrada. A tropa havia se posto em marcha. As longas filas desdobraram-se lentamente na estrada, que ressoou com os passos cadenciados.

– Não há mais ninguém. Obrigada, meu Deus! – exclamou ela, e Miss Helstone repetiu a exclamação, mas como tremia, sua voz saiu vacilante. O seu coração batia depressa, sua face estava gelada e mesmo assim o suor escorria em sua fronte.

– O que se passará em Hollow? Eles nos deixaram apenas para surpreender Robert! – quase gritou Miss Helstone.

– Fizeram bem – disse Miss Keeldar, com calma. – Os outros se defenderão, se puderem, estão preparados para isso. Quanto a nós, o caso seria diferente. Eu tinha o dedo no gatilho da pistola. Estava pronta para dar àquele homem a saudação que ele não contaria, mas atrás dele viriam mais trezentos. Eu não poderia defendê-la eficazmente, nem a mim nem as duas pobres mulheres que dormem.

Depois de uma nova pausa ela continuou: – Qual é agora o meu dever? Com certeza ir a Hollow!

– Ir a Hollow, Shirley?

– Sim, a Hollow. Quer vir comigo?

– Mas e os homens?

– Eles tomaram a estrada principal. Mas, o caminho através dos campos está seguro. Vem ou não?

– Vou – respondeu Miss Helstone, decidida, pois sentia que não podia abandonar Miss Shirley e que Robert Moore estava em perigo.

– Mas devemos fechar solidamente a janela. Deixar tudo o mais seguro possível. Sabe o que vamos fazer, Caroline?

– Sim... não... vamos a Hollow porque você assim quer.

– Só isso? E é assim tão obediente a um simples capricho meu? Que dócil esposa seria para um homem severo! A face da lua não é menos branca do que a sua agora; e as folhas do álamo que estão perto da porta não tremem mais do que seus dedos neste momento. E mesmo assim você diz que vai comigo a Hollow correndo grande perigo. Escute-me: deixe eu lhe dar um motivo para tanta determinação. Nós vamos a Hollow por causa de Mr. Moore, para ver se lhe poderemos ser úteis. Vamos procurar avisá-lo do perigo que corre. Para isso temos que correr e chegar antes do bando.

– Certamente, Shirley. Sei que sou doida e fraca, e não ajuizada e prudente como você. Sinto-me feliz em acompanhá-la.

– Não duvido. Morreria cegamente e com resignação por mim; e morreria inteligentemente e com alegria por Mr. Moore, mas por esta noite não se trata de morte, pois vou fazer de tudo para não corrermos perigo. Prometo.

Miss Helstone correu e fechou a janela. – Segure a minha mão, Shirley. E vamos atravessar os campos em linha reta.

– Consegue pular os muros? – perguntou Miss Keeldar.

– Esta noite eu os saltarei.

– Tem medo das sebes e do ribeiro? Vamos ter que passar por eles.

– Passarei.

Partiram correndo. Vários muros atrasaram as duas, mas não as detiveram. Miss Keeldar tinha o pé seguro e ágil. Miss Helstone, mais medrosa e menos hábil, caiu uma ou duas vezes, mas se levantava logo, dizendo que não estava ferida. Uma sebe muito espessa dificultou a passagem pelo último campo, o que as fez perder tempo. Tiveram dificuldade de encontrar a abertura que, por fim, acharam: estreita, mas não hesitaram em entrar por ela. Os longos cabelos, a pele macia e os tecidos dos vestidos sofreram, mas não lastimaram, a não ser a demora que o último obstáculo causou. Do outro lado encontraram o ribeiro, cuja forma de atravessar era por uma tábua estreita. Miss Keeldar já o tinha atravessado diversas vezes, mas Miss Helstone jamais ousara.

– Levo-a no colo – disse Miss Keeldar. – É leve e eu sou forte. Deixe-me experimentar.

– Não. Eu vou. Se eu cair na água, apenas me pesque – disse Miss Helstone, apertando a mão de Miss Keeldar ternamente.

E sem hesitar, avançou pela pinguela afora. Miss Keeldar, que a seguiu, não atravessou com mais resolução e segurança. No estado de espírito em que se encontravam e com o objetivo que tinham em mente, uma corrente espumante e impetuosa não as teria detido. Contudo, um ruído as fez parar. Mal as duas tinham posto os pés às margens do outro lado, ouviu-se um tiro do lado Norte. Passou-se um instante, outro tiro do Sul. No espaço de três minutos, ouviram-se sinais idênticos de Leste a Oeste.

– Pensei que morreríamos à primeira explosão – comentou Miss Keeldar respirando fundo. – São sinais, o ataque não demorará. Seria preciso termos asas. Os nossos pés não nos trouxeram tão depressa. 

Era ainda preciso atravessar um grande pedaço de mato. Quando elas saíram dele, a fábrica achava-se precisamente abaixo delas. Viram os edifícios, o pátio e a estrada que levava até lá. Miss Keeldar pôde-se convencer de que havia, de fato, chegado muito tarde para dar o aviso. Tinham gasto mais tempo do que planejavam nos obstáculos. A estrada, que deveria ser branca, estava escura e coberta por uma massa movediça.

Os arruaceiros estavam reunidos em frente ao portão fechado da fábrica e apenas uma figura aparecia em pé do lado de dentro, dirigindo-se, aparentemente, para o grupo. A fábrica estava escura e tranquila. Não havia vida, nem luz e nem qualquer movimento.

– Ele está com certeza de vigia. Aquele não pode ser Mr. Moore a esperá-los sozinho! – murmurou Miss Keeldar.

– Mas é ele. É ele! Eu preciso ir. Eu quero ir – Miss Helstone precipitou-se colina abaixo.

– Não, Caroline! – Miss Keeldar a deteve.

– E, então? Para que eu vim? Eu vim por causa dele! Tenho que me juntar a ele!

– Infelizmente é coisa que está acima de seu poder. Não existe nenhuma estrada que a leve até ele sem ter que passar pelo bando.

– Há uma pequena entrada escondida pelo lado de trás. Abre-se por meio de um segredo que eu conheço. Vou entrar por lá.

– Mas não com a minha permissão – vociferou Miss Keeldar.

Miss Keeldar agarrou Miss Helstone pelo corpo e arrastou-a um pouco para trás.

– Não dará nem mais um passo – disse Miss Keeldar, com autoridade. – Mr. Moore ficaria incomodado e embaraçado se visse qualquer uma de nós. Os homens não gostam de mulheres aos seus pés nos momentos de real perigo.

– Eu não o embaraçaria. Ajudá-lo-ia – respondeu Miss Helstone, chorosa.

– E como? Inspirando-lhe heroísmo? Ora! Já não estamos mais no tempo da cavalaria

– É natural que eu esteja ao seu lado...

– Como rainha de seu coração? A fábrica é a única dama dos pensamentos de Mr. Moore, Caroline! Com os seus teares e as suas máquinas atrás de si, tem o aguilhão de que ele precisa e pode compreender. Não é pelo amor ou beleza, mas pelo seu livro de contabilidade e pelos seus tecidos que ele vai lutar. Não seja sentimental. Mr. Moore não é seu.

– Poderei ser-lhe útil. Vou descer.

– Vá. Desça. Permitirei. Vá procurar Mr. Moore e não o encontrará.

Miss Keeldar a deixou livre. Miss Helstone partiu como uma flecha. Mas enganara-se. A moça Helstone parou, hesitou, olhou. A figura em pé, de repente, tinha se afastado do portão e corria para a fábrica.

Miss Helstone voltou-se lentamente para trás. – Não é Robert – disse ela. – Não tem sua estatura, não tem sua aparência e nem o seu andar.

– Eu vi que não era Mr. Moore quando a deixei ir. Como pôde se enganar? Era o porte vulgar de um simples soldado. Tinham-no posto ali de sentinela. Mr. Moore está preparado. O nosso aviso seria supérfluo e agora estou até contente por ter chegado tarde para dá-lo. Isso nos poupou de uma cena. Que lindo seria nós duas entrando na fábrica, todas esbaforidas, e encontrarmos lá Mr. Armitage e Mr. Ramsden fumando; Mr. Malone fazendo-se de fanfarrão; seu tio zombando alguém, provavelmente de Mr. Sykes, e Mr. Moore frio como sempre. Estou contente por ter escapado disso!

– Eu queria saber se o grupo de dentro da fábrica é grande...

– O suficiente para que os defenda. Lembra-se dos soldados que avistamos hoje? Com certeza estão lá. E todo aquele grupo que vimos cercar Mr. Moore hoje também está lá – disse Miss Keeldar.

– O que estarão fazendo, Shirley? Que ruído é este?

– É o de machados e de barras de ferro contra as portas. Não tardarão a forçá-las. Você está com medo?

– Não. Mas o meu coração bate com muita força. As minhas pernas estão fracas também. Vou me sentar – disse Miss Helstone. – Shirley, você parece emocionada.

– Estou contente por ter vindo. Veremos com os nossos próprios olhos.

– Shirley, Shirley! Eles quebraram as portas e entraram. Veja! As portas parecem grandes árvores caindo e eles entram como monstros. Vão despedaçar as portas da fábrica como fizeram com a dos portões. O que vai fazer Robert contra uma multidão? Ah, se eu pudesse estar junto dele! Poder ouvi-lo e falar-lhe! Com o meu ardente desejo de ajudá-lo, eu poderia fazer qualquer coisa – Miss Helstone chorava com as mãos no rosto.

– Eles avançam! – exclamou Miss Keeldar. – Como a marcha deles é forte! Há disciplina em suas fileiras, não diria coragem, não é no marchar de cem contra dez que se mostra essa qualidade, contudo – baixou a voz – há muito desespero e sofrimento entre eles. São esses aguilhões que estão empurrando aquelas pessoas para a frente.

– Para a frente e contra Robert. Eles o odeiam, Shirley! Haverá muito perigo! Eles estão em grupo menor dentro da fábrica.

– Veremos. Mr. Moore e Mr. Helstone têm nas veias o melhor sangue da terra e eles não são desastrados nem tolos.

Um estrondo. Um barulho de janela partida, gritos, e uma chuva de pedras caiu sobre a fachada da fábrica quebrando todas as vidraças. Um rugido se seguiu a essa demonstração, um rugido de revoltados, os revoltados de Yorkshire.

Miss Helstone ergueu-se. Miss Keeldar imediatamente a segurou colocando seus braços em torno dela. Ambas permaneceram de pé, tão imóveis como dois troncos de enormes árvores. O rugido foi longo e, quando este cessou, o silêncio da noite continuou a ser perturbado pelos movimentos e os murmúrios da multidão.

– O que irá acontecer agora? – Misses Helstone e Keeldar falaram juntas. Não havia agitação dentro da fábrica. Continuava quieta como um túmulo.

– Ele não pode estar só – murmurou Miss Helstone.

– Aposto que não está só e nem um pouco alarmado – respondeu Miss Keeldar.

Tiros foram disparados pelos arruaceiros. Os defensores tinham esperado por esse sinal. Foi o que lhes pareceu mais provável. O edifício, ainda há pouco inerte e passivo, despertou e o fogo brilhou através da abertura das janelas. Uma descarga de espingardas retumbou pelo vale de Hollow.

– Mr. Moore fala, enfim – disse Miss Keeldar – e parece que possui o dom da palavra.

– Foi paciente. Ninguém pode acusá-lo de precipitado. Eles dispararam primeiro. Despedaçaram suas portas e janelas. Atiraram para matar e ele apenas os repeliu – disse Miss Helstone, defendendo seu primo Robert.

O que se passou, então? Na escuridão parecia difícil distinguir. Contudo, era evidente que qualquer coisa terrível iria acontecer em meio àquele tumulto incessante. A multidão furiosa atacava e encontrava uma resistência preparada. No pátio da fábrica o combate era dominado pelo ódio. Os tiros sucediam-se sem cessar, entremeados de corridas, lutas e gritos. O objetivo da multidão parecia ser o de tomar a sede da fábrica e o dos defensores o de impedir que isso ocorresse. Ouviu-se o chefe dos rebeldes gritando:

– Vamos por trás, camaradas!

Ouviram outra voz em resposta: – Vão! Encontraremos vocês lá, seus...

– Para o escritório – gritou o chefe do bando invasor.

– Serão bem-vindos! Lá estaremos! – foi a resposta.

E, num instante, uma luz como não vista ainda, muito viva, e um ruído, mais forte do que todos os outros anteriores, ribombou na fábrica, para onde a massa de amotinados se precipitara.

A voz que se tinha feito ouvir era a de Mr. Moore. Pelo som dessa voz elas puderam avaliar a excitação a que ele chegara. Puderam se convencer de que o instinto brutal da luta dominava cada um daqueles homens que combatiam uns contra os outros e sobrepujavam os sentimentos humanos e razoáveis. As duas sentiram aumentar o calor do rosto e suas pulsações aumentaram. Elas sabiam que não poderiam fazer nada intervindo naquela contenda. Não desejavam dar nem levar pancadas, mas por nada do mundo arredariam seus pés dali, desviariam os olhos daquela cena sombria e terrível, daquela massa de nuvens, de fumaça e detonações.

Como e quando tudo aquilo cessaria? Chegaria um momento em que poderiam ser úteis? Era o que elas esperavam.

Tal sorte não lhes foi concedida. Mr. Moore havia previsto aquele ataque e estava preparado. Fortificara a fábrica que antes já era um sólido edifício e tinha posto guarnição. Ele era um homem frio e valente, que se defendia com uma firmeza inquebrantável. Os que estavam com ele inspiravam da mesma atitude. Os amotinados não esperavam por aquilo e nunca tinham sido recebidos daquela forma. Nas outras fábricas atacadas não tinham encontrado resistência alguma. Uma defesa decidida e organizada era coisa com que não contavam. Quando seus chefes viram sair do edifício um tiroteio constante e a firme determinação do seu proprietário; quando se viram friamente desafiados e convidados à morte; quando viram seus homens começarem a cair, compreenderam que nada havia a fazer e reuniram às pressas sua tropa, afastando-se da fábrica. O ataque tinha durado horas, o dia estava próximo, a obscuridade reinava ainda no poente, mas o levante começava a clarear.

As duas moças aproximaram-se prudentemente do edifício e, quando uma multidão de soldados e homens apareceu na porta principal que dava para o pátio, refugiaram-se às pressas num barracão, de onde puderam observar o que se passava sem serem vistas.

Era um triste espetáculo: o pátio e o espaço que as cercavam formavam uma mancha de desolação na fresca aurora de um dia de estiagem. A mata de Hollow estava sombria e úmida de orvalho; o alto da colina estava verdejante, mas ali, no centro do vale suave, a luta tinha deixado vestígios. As janelas estavam todas partidas, algumas armas estavam caídas e mais de uma mancha vermelha se via no chão de pedra. Um cadáver estava caído junto à porta exterior com a face por terra e cinco ou seis feridos gemiam estendidos na poeira ensanguentada.

A este espetáculo o semblante de Miss Keeldar mudou. Era o reverso da batalha, a morte e a dor substituindo o movimento e a excitação.

– Olha aí o que eu queria evitar – lamentou ela, numa voz que traía a emoção do seu coração.

– Mas não tinha como evitar isso, Shirley. Fez em vão tudo o que poderia ser feito – disse-lhe Miss Helstone. – Não se entristeça, Shirley.

– A má sorte dessa pobre gente me aflige – respondeu ela, enquanto lágrimas escorriam dos olhos. – Será que há feridos na fábrica? Aquele é o seu tio?

– Sim. É ele. E lá está Mr. Malone! Oh! Shirley, olhe Robert!

– Está bem – não enterre suas unhas em minha mão. Vejo-o. Não é nada de extraordinário. Nós bem sabíamos que ele escaparia.

– Está vindo em nossa direção, Shirley.

– Quer dizer, da bomba, para lavar as mãos e o rosto. Acho que ele machucou o rosto... – disse Miss Keeldar.

– Ele está sangrando, Shirley! Não me prenda, quero ir lá.

– Não dará um passo!

– Ele está ferido, Shirley!

– É um arranhãozinho de nada.

– Mas é preciso que eu vá para junto dele.

– Para fazer o quê?

– Para lhe falar. Para lhe perguntar como está e o que posso fazer por ele.

– Para o deixar envergonhado e aborrecê-lo. Para dar um espetáculo na frente de todos esses soldados; de Mr. Malone, de seu tio e dos outros? Pensa que isso dará prazer a Mr. Moore? Gostaria de lembrá-la disso daqui a alguns dias.

– Estou quase destinada a ser sempre dominada e constrangida? – perguntou apaixonadamente Miss Helstone.

– No interesse dele, sim. Mais ainda do que do seu. Digo-lhe que, se você aparecesse para ele ali, iria lastimar dentro de uma hora e Robert também.

– Quero ir para junto dele simplesmente porque ele é meu primo, compreendeu?

– Compreendo muito bem. Mas olhe. Ele lavou a testa e o sangue já não escorre. O ferimento que ele recebeu foi leve. Ele está indo examinar os feridos.

Mr. Moore e Mr. Helstone deram uma volta no pátio examinando os homens que jaziam no chão. Deram ordem para levantarem os feridos e os levarem para dentro da fábrica. Em seguida Joe recebeu ordem para selar o cavalo do seu patrão e o pônei de Mr. Helstone e os dois homens se afastaram a galope para procurarem socorro cirúrgico em diferentes direções.

Miss Helstone, contudo, ainda não estava sossegada.

– Shirley, Shirley. Eu bem que queria dizer-lhe uma palavra antes de ele partir – murmurou a moça com os olhos cheios de lágrimas.

– Por que chora, Lina? – perguntou Miss Keeldar com ar sério. – Devia alegrar-se e não ficar triste. Mr. Moore escapou do perigo e venceu. Ele foi frio e valente no combate e é agora moderado no triunfo. Isso é motivo para chorar?

– Mal sabe o que eu sinto e a dor que sofro. Por isso, deixe-me só. Deixe-me chorar por alguns minutos. Isso me aliviará.

Miss Keeldar, vendo-a toda trêmula, deixou de constrangê-la. Saiu de perto e deixou que chorasse sossegada. Passados alguns minutos, Miss Helstone voltou para junto dela muito mais calma. Disse-lhe com a sua voz natural, meiga e amável:

– Venha, Shirley. Vamos voltar para casa. Prometo não tornar a procurar Robert. Nunca mais me colocarei no seu caminho. Agradeço por ter me impedido de fazê-lo ainda há pouco.

– Fiz com boa intenção – respondeu Miss Keeldar. – Agora, querida Lina, regressemos sem fazer ruído. Ninguém saberá onde fomos, nem o que vimos nessa noite. Mais tarde, ainda hoje, veremos Mr. Moore e lhe mostraremos bom humor. Mas, não lhe direi mais nada, pois terei receio de chorar também. Pareço dura, mas não sou.

 

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