Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 1 de 32

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Tempo para Amar

Parte 1 · Capítulo 1

 

 

O alarme tocou pouco depois das seis. Ela agitou-se, estendeu um braço para fora dos cobertores e desligou-o. Podia fingir que não o tinha ouvido. Podia voltar a dormir. Não precisava levantar-se... não era preciso... e então o telefone tocou.

- Raios!

Kaitlin Harper sentou-se na cama. As tranças do seu cabelo castanho comprido tocavam-lhe nos ombros, pois não as desfizera quando se deitara, e o seu rosto estava bronzeado.

O telefone voltou a tocar e, com um suspiro, atendeu, reprimindo o bocejo. Tinha uma boca delicada, que sorria muito quando ela estava feliz, mas naquele dia os seus olhos verdes tinham uma expressão demasiado séria. Já se encontrava desperta. Seria muito mais fácil voltar a dormir e esquecer.

- Olá, Kate.

Sorriu ao ouvir a voz familiar. Já esperava que fosse Felicia. Mais ninguém sabia onde se encontrava.

- O que estás a fazer levantada a esta hora?

- Ora, o costume.

Kate esboçou um sorriso.

- Às seis da manhã? Que lindo costume.

Conhecia bem a amiga. Felicia Norman levantava-se a custo às oito da manhã e no escritório a sua secretária tinha ordens para evitar passar-lhe chamadas até às dez. As seis da manhã eram uma hora estranha para já se encontrar levantada. Mas não por Kate. Por Kate, até ela era capaz de acordar àquela hora matutina.

- Não tens nada melhor para fazer do que ver como é que eu estou, Licia?

- Parece que não. Então, novidades?

Kate quase conseguia ouvir Felicia a esforçar-se por se manter acordada. O cabelo louro bem cortado, que caía liso sobre os ombros, estava naquele momento espalhado sobre a almofada enquanto uma mão de unhas bem tratadas cobria os olhos azul-gelo do seu rosto bem esculpido. Como Kate, tinha o rosto de um modelo, mas era doze anos mais velha.

- Não há novidades, tonta. Mas estou bem. juro.

- Ótimo. Lembrei-me apenas que talvez gostasses que eu fosse aí hoje ter contigo.

Aí. Uma palavra anônima para um local anônimo. E Felicia estava disposta a conduzir durante duas horas só para se encontrar com a amiga «aí». E para quê? Kate tinha de fazer as coisas sozinha. Sabia-o bem. Não podia continuar a depender das pessoas. Já o fizera durante demasiado tempo.

- Não, Licia, eu estou bem. Para além disso, a tua empresa manda-te à fava se continuas a desaparecer a meio da semana para vir tomar conta de mim.

Felicia Norman era diretora de moda de uma das lojas mais elegantes de São Francisco, e Kate conhecera-a quando passara modelos.

- Não sejas tonta. Nem sequer dão pela minha falta. Contudo, sabiam bem que isso era mentira. E o que Kate não sabia era que Felicia tinha de supervisionar nessa tarde o desfile de Norell Toda a coleção de Inverno. E dali a três dias o de Halston. Na semana seguinte seria Blass. Era difícil imaginar tudo aquilo. Até para Felicia. Mas Kate já se afastara daquele mundo. Já não pensava na estação nem nas roupas. Há meses que não o fazia.

- Como está a minha amiguinha? - perguntou Felicia numa voz meiga, provocando um ligeiro sorriso em Kate. Desta vez era a sério, e ela passou a mão pela barriga enorme. Mais três semanas... três semanas... e Tom...

- Ele está bem.

- Como podes ter a certeza de que é um rapaz? Até eu já estou convencida. - Felicia sorriu ao lembrar-se do monte de roupa de bebê que encomendara no sétimo piso da loja, a semana anterior. - E é melhor que seja!

Riram-se ambas.

- Vai ser. O Tom disse... - E depois o silêncio. As palavras tinham escapado. - Bom, querida, hoje não preciso de uma ama. Prometo. Podes ficar em São Francisco, dormir mais duas horas e ir trabalhar descansada. Se precisar de ti, telefono. Podes ficar tranqüila.

- Onde é que eu já ouvi isso? - Felicia soltou uma gargalhada grave. - Se estivesse à espera que me ligasses, morria de velhice. Posso ir aí visitar-te no fim-de-semana?

- Outra vez? Será que agüentas? - Nos últimos quatro meses, a amiga fora visitá-la quase todos os fins-de-semana. Mas agora era Kate quem já a esperava; a pergunta de Felicia e a resposta de Kate eram apenas uma formalidade.

- O que queres que te leve?

- Nada! Felicia Norman, se me trouxeres mais umas daquelas roupas para grávidas, eu grito! Onde é que julgas que eu as uso? Para ir ao supermercado? Menina, eu vivo numa estrebaria! Os homens usam camisolas interiores e as mulheres batas. É isso. - Kate parecia divertida.

Porém, Felicia não.

- A culpa é tua. Eu avisei-te...

- Ora, cala-te. Sou feliz aqui - afirmou Kate com um sorriso.

- És maluca. Isso é apenas a vontade de acalmar que as mulheres têm quando engravidam. Espera só até o bebê nascer. Aí voltas ao normal.

Felicia contava que isso acontecesse. Até andava a procura de um apartamento vago. Já vira dois muito bons perto de Telegraph Hill. Kate seria louca se ficasse ali. Porém, contava que isso lhe passasse. O furor inicial começara já a desvanecer-se. Mais uns meses e ela regressaria em paz.

- Escuta, Licia... - Kate olhou para o despertador. É melhor eu ir andando. Tenho uma viagem de três horas para fazer ainda hoje. - Espreguiçou-se com cuidado, esperando não sentir nas pernas aquelas cãibras que a faziam saltar da cama - embora não conseguisse propriamente «saltar» muito.

- E isso é outra das coisas. Podias deixar de lá ir no próximo mês, pelo menos até o bebê nascer. Não há necessidade...

- Licia, gosto muito de ti. Adeus. - Kate desligou sem bater com o auscultador. Já ouvira aquela conversa antes. E sabia o que estava a fazer. Era o que tinha de fazer. E o que queria fazer. Para além disso, que alternativa lhe restava? Como podia deixar de lá ir agora?

Rolou devagar até ficar sentada na ponta da cama e respirou fundo enquanto olhava para as montanhas lá fora. Os seus pensamentos encontravam-se a anos e a muitos quilômetros dali. À distância de uma vida.

- Tom - disse ela baixinho. Apenas aquela palavra.

Nem se apercebera de que a dissera. Tom... Como podia ele não estar ali? Porque não se encontrava a preparar o banho, ou a cantar no chuveiro, a provocá-la da cozinha... Teria ele desaparecido mesmo? Ainda há tão pouco tempo podia chamá-lo e ouvir a sua voz. Estivera junto de si. Sempre. Alto, louro e bonito, cheio de gargalhadas e de abraços e com o dom de proporcionar momentos maravilhosos. Tom, que ela conhecera no primeiro ano da faculdade, quando a equipe fora a São Francisco e ela por acaso assistira ao jogo... e a seguir, também por acaso, fora a uma festa, onde havia alguém que conhecia alguém da equipe... Loucura. E sorte. Nunca tinha feito nada parecido antes. Apaixonara-se por ele de imediato, com dezoito anos. Por uma vedeta do futebol? A princípio, a idéia parecera-lhe divertida. Um jogador de futebol. Mas ele não era apenas isso. Era especial. Era Tom Harper. Meigo, temo, muito atencioso. Tom, cujo pai trabalhara nas minas de carvão da Pensilvânia, e cuja mãe trabalhara num restaurante para o ajudar a pagar os estudos. Tom, que trabalhara noite e dia durante o Verão para poder ir para a faculdade, e que acabara por consegui-lo e ganhar uma bolsa de estudos para jogar futebol. Tomara-se uma vedeta. E depois um profissional. Uma espécie de herói nacional. Tom Harper. E fora nessa altura que o conhecera. Quando era uma vedeta. Tom...

- Olá, princesa. - O olhar dele percorrera-a como uma gota de chuva estival.

- Olá. - Sentira-se tão idiota. «Olá»... não lhe ocorrera dizer mais nada. Também não tinha nada para lhe dizer, embora sentisse na barriga um pequeno nó. Tivera de desviar o olhar. Os olhos azuis dele eram demasiado intensos para os fitar, bem como a forma como ele observava o seu rosto, a forma como sorria. Enfrentar aquele olhar era como tentar fitar o Sol.

- És de São Francisco? - perguntara ele com um sorriso, lá de cima da sua enorme estatura. Era um homem grande, muito bem constituído, com o porte clássico exigido para a sua profissão. Kate perguntara a si mesma o que estaria Tom a pensar a seu respeito. Provavelmente achava-a ridícula. Uma oferecida, ou apenas uma miúda.

- Sim, sou de São Francisco. Tu também? - Depois haviam desatado a rir, porque ela sabia que Tom não era dali. Toda a gente sabia de onde ele era. E a equipe era de Chicago. - Porque és tão tímida?

- Eu... hum... raios! - Haviam voltado a rir e depois disso as coisas melhoraram. Saíram da festa e foram comer hambúrgueres.

- Os teus amigos vão ficar chateados?

- Talvez.

Sentou-se ao balcão num banco ao lado do dele, abanando uma perna comprida e sorrindo alegremente sobre o hambúrguer que pingava gordura. Fora à festa com um rapaz. Mas não tencionava voltar a vê-lo. Estava ali com Tom Harper. Era difícil habituar-se à idéia. Mas ele não parecia corresponder à lenda de que Kate ouvira falar. Era apenas um homem. Gostava dele. Não por ele ser quem era, mas porque era simpático. Não... Era mais do que isso... porém, não sabia bem o quê. Sabia apenas que sentia uma impressão agradável na barriga e isso acontecia de cada vez que olhava para ele. Perguntou a si mesma se ele se aperceberia desse fato.

- Fazes isto muitas vezes, princesa? Quero dizer, abandonar os rapazes nas festas? – Fitou-a com um ar seno, e em seguida tomaram a rir.

- Nunca. Prometo.

- É melhor que não mo faças. -Com certeza.

Havia sido uma noite de brincadeiras e gargalhadas, e Kate sentira-se próxima dele, mas ao mesmo tempo muito pequena. Tom fazia-a sentir-se uma rapariguinha, mas também lhe proporcionava segurança, como se tivesse esperado toda a vida que ele a protegesse. Era uma sensação estranha, mas agradava-lhe. Depois dos hambúrgueres tinham ido de carro até Carmel e passeado junto à beira-mar, mas Tom não tentara fazer amor com ela. Apenas haviam caminhado, de mãos dadas, e falado até o Sol nascer, trocando segredos da infância e da adolescência... «E espera só até ouvires esta ...»

- És uma rapariga muito bonita, Kate. O que queres ser quando fores grande?

Ela rira-se com a pergunta e enfiara-lhe uma mancheia de areia dentro da camisa. Ele retaliara da mesma forma e Kate imaginou que iria beijá-la. Mas não o fez. E ela queria desesperadamente beijá-lo.

- Pára com isso. Estou a falar a sério. O que é que queres fazer?

Ela sentara-se e encolhera os ombros.

- Não sei. Ainda agora comecei a estudar. Talvez me especialize em ciências políticas, ou literatura. Ou noutra coisa igualmente útil. Quem sabe? Se calhar depois da licenciatura vou vender cosméticos para um dos grandes armazéns. «Ou fujo, ou passo a vida na praia, ou dou aulas, ou sou enfermeira ou bombeira ou ...» Caramba, como é que podia saber? Ele estava a ser tonto.

Tom sorria-lhe de novo, aquele sorriso que a fazia derreter-se toda.

- Que idade tens, Kate?

Tinha muitas perguntas e fitava-a insistentemente como se já a conhecesse há muitos anos. As perguntas pareciam ser apenas uma formalidade. Kate teve a sensação de que ele já sabia as respostas.

- Fiz dezoito o mês passado. E tu?

- Vinte e oito, minha querida. Tenho mais dez anos do que tu. Estou a chegar ao fim, pelo menos nesta profissão.

O seu rosto ficou muito sério.

- E quando te retirares?

- Vou contigo vender cosméticos para o tal armazém. Kate riu-se ao imaginar a cena. Tom devia ter pelo menos um metro e noventa. A idéia de o ver a vender algo mais pequeno do que um navio de guerra era absurda.

- O que fazem os antigos jogadores de futebol?

- Casam. Têm filhos. Bebem cerveja. Engordam. Vendem seguros. As boas coisas da vida. - Parecia meio irônico, meio assustado e muito sério.

- Que excitante - observou Kate com um sorriso meigo, olhando para o mar.

Tom pousou um braço nos ombros dela.

- Nem por isso. - Estava a pensar na parte de vender seguros. Depois, olhou para ela. - O casamento e os filhos parecem-te excitantes, Kate?

Ela encolheu os ombros.

- Acho que sim. Mas isso ainda está muito longe.

- És nova. - Disse-o com um ar tão sério que ela desatou a rir.

- Sim, avô.

- O que queres mesmo fazer depois de acabares o curso?

- O que quero mesmo? Ir para a Europa. Quero passar lá uns anos. A curtir. A trabalhar. A fazer o que calhar. Calculo que na altura Já deva estar farta da disciplina da escola.

- Tudo isso, porém, ainda se encontrava muito longe.

- Então é isso que lhe chamas. Disciplina. - Sorriu, pensando no grupo rebelde de miúdos ricos com que a vira chegar à festa. Todos freqüentavam Stanford. Todos possuíam dinheiro e roupas bonitas, e estacionados à porta vira um Morgan e um Corvette novinho em folha. - Onde na Europa?

- Viena ou Milão. Talvez Bolonha. Talvez Munique. Ainda não decidi, mas quero uma cidade pequena.

- Hum.

- Ora, cala-te! - A vontade que tinha de o beijar era de novo avassaladora. Isso fê-la sorrir. Ali estava sentada, praticamente nos braços de Tom Harper. Metade das mulheres do país ter-se-ia babado só de pensar nisso. E ali estavam ambos, como dois miúdos, ele com o braço nos seus ombros, a falarem calmamente. Os pais dela não teriam gostado muito da idéia. Kate quase soltou uma gargalhada ao pensar nisso.

- Como é que são os teus pais? Parecia que ele lhe lera o pensamento.

- Enfadonhos. Mas simpáticos, acho. Sou filha única e tiveram-me já tarde. Esperam muito de mim.

- E tens correspondido?

- Na maior parte das vezes. Mas não devia. Habituei-os mal. Agora esperam que eu seja sempre certinha. É em parte por isso que quero afastar-me durante uns anos. Até posso terminar o curso lá fora. Ou ir já para o ano.

- Com tudo pago pelo paizinho, calculo - salientou Tom num tom presumido, e Kate virou-se para ele, revelando fúria nos olhos verdes.

- Não necessariamente. Eu também ganho dinheiro. Por acaso, até preferia pagar a viagem. Isto se conseguir arranjar trabalho lá.

- Desculpa, princesa. Estava só a pensar. Não sei...

O grupo com que chegaste à festa parecia ser constituído por pessoas bem instaladas na vida. Conheci gente parecida quando estava em Michigan. Eram todos de Grosse Pointe, ou de Scottsdale, ou de sítios parecidos. Vai tudo dar ao mesmo.

Kate assentiu. Não discordava, só não gostava de ser metida no mesmo saco com os outros miúdos. Mas percebia o que ele queria dizer. Embora nunca se tivesse rebelado, aquele tipo de vida também não a encantava muito. Toda a gente parecia possuir tudo em abundância. E nenhuma consistência, nenhuma dor, nenhumas perguntas, nenhuns receios. Tinham todos tanto. E Kate também. Mas pelo menos reconhecia-o.

- O que queres dizer com isso de ganhar o teu dinheiro? - perguntou Tom, de novo divertido.

- Faço passagens de modelos - respondeu Kate com ar aborrecido.

- A sério? Para revistas? - Aquilo era uma grande surpresa. Kate tinha corpo para isso, mas Tom julgara que ela não trabalhava. Contudo, passar modelos era uma coisa interessante. Ficou impressionado. Virou-se para ela e notou que a flária começava a desaparecer do seu rosto.

- Para todo o tipo de coisas. Fiz um anúncio no Verão passado. A maior parte das vezes chamam-me para desfilar no Magnin, no Saks e em armazéns do gênero. Custa-me ir à cidade só por causa disso, mas pagam bem e dá para ter a minha independência. E por vezes também é divertido.

Tom imaginou-a a avançar pela passarela, com um andar bamboleante, alta e magra, num vestido de quinhentos dólares. Ou talvez ela não passasse essas coisas. Porém, tinha estilo para isso. E embora Tom percebesse pouco de moda, adivinhara corretamente.

- E isso que vais fazer na Europa quando terminares os estudos? Passar modelos? - perguntou, intrigado, continuando com o braço nos ombros de Kate.

Ela estava a gostar da sensação.

- Só se a alternativa for morrer à fome. Do que eu gostava mesmo era de fazer outras coisas.

- O quê? - tornou ele a insistir, aproximando-se. Parecia mais velho, mas ao mesmo tempo não. E pela primeira vez na vida, Kate quis fazer amor. Tratava-se de uma loucura. Ainda era virgem e nem sequer o conhecia bem. Pelo menos por enquanto. Todavia, Tom era o tipo de homem com quem apetecia estar. Só conseguia imaginá-lo meigo e temo. - Vá lá, Kate, que outras coisas queres fazer na Europa?

Parecia estar a provocá-la, e Kate sorriu. Sempre desejara ter um irmão mais velho parecido com Tom.

- Não sei. Talvez trabalhar para um jornal. Ou para uma revista. Ser jornalista. Talvez em Paris ou Roma. - O seu rosto iluminou-se e Tom despenteou-a.

- Ouve, miúda, porque não te contentas em passar modelos e vives como uma dama? Para que queres andar atrás de incêndios e de homicídios? Caramba, podes fazer isso aqui. Em inglês.

- O meu pai tinha um colapso - comentou ela com uma risada.

- Eu também. - Apertou-a mais um pouco, como se quisesse protegê-la de um mal invisível.

- Saíste-me cá um conservador, Tom Harper! Eu escrevo muito bem. Daria uma boa jornalista.

- Quem é que diz que escreves bem? -Eu. E um dia tenciono escrever um livro. Raios! Já o dissera. Desviou o olhar e calou-se. -Estás mesmo a falar a sério, não estás, Kate?

A voz de Tom era suave como a manhã e ela assentiu em silêncio.

- Então talvez um dia o faças. - Falava com cuidado, não querendo destruir os sonhos de Kate. - Eu dantes também queria escrever um livro. Mas desisti.

- Porquê? - Kate parecia horrorizada, e Tom tentou não se rir, Adorava a força dela.

- Desisti da idéia porque não sei escrever. Talvez um dia escrevas um para mim.

Continuavam sentados, a olhar para o mar, saboreando a brisa da noite no rosto. Tom emprestara a Kate uma parka. Passou algum tempo até voltarem a falar.

- O que é que os teus pais querem que faças? - inquiriu ele.

- Mais tarde? - Ele assentiu a confirmar. - Oh, qualquer coisa «agradável». Que arranje trabalho num museu, numa universidade, ou num colégio. Ou melhor ainda, que arranje um marido. Coisas chatas. E tu? O que tencionas fazer quando os jornais deixarem de nos dizer que és um excelente jogador? - Parecia uma miúda ali sentada na areia, mas o seu olhar era o de uma mulher, e Tom percebeu.

- Já te disse. Reformo-me e vamos escrever o tal livro. Ela permaneceu em silêncio, e assim ficaram a ver o Sol nascer. Depois regressaram a São Francisco.

- Queres ir tomar o pequeno-almoço antes de eu te deixar em casa?

Encontravam-se em Palo Alto perto da rua onde ela morava e seguiam no carro desportivo inglês que Tom alugara durante a sua estada na cidade.

- Acho melhor ir para casa.

Se a mãe ligasse e soubesse que ela não fora dormir a casa, teria de arranjar uma boa explicação, embora as colegas de quarto devessem encobri-Ia. Kate fazia o mesmo em relação a elas. Duas, das quatro, já não eram virgens. E a terceira andava a fazer tudo para mudar a situação. Kate não se importava com isso - ou pelo menos não se importara, até conhecer Tom.

- E logo à noite? Sentiu-se consternada.

- Não posso. Prometi ir jantar com os meus pais. Compraram bilhetes para um concerto. Que tal depois? - Raios, raios, raios! Depois ele ir-se-ia embora e nunca mais tomaria a vê-lo.

No seu rosto surgiu uma expressão de tristeza e Tom sentiu vontade de a beijar. Não como a uma miúda, mas sim como a uma mulher. Apetecia-lhe abraçá-la, e sentir o seu coração a bater junto do seu. Apetecia-lhe... Obrigou-se a não pensar nisso. Ela era demasiado nova.

- Depois não posso, princesa. Amanhã temos jogo. Tenho de me deitar por volta das dez. Não te preocupes. Talvez possamos encontrar-nos amanhã. Queres ir comigo ao aeroporto?

- Claro. - O desespero começou a desaparecer.

- Queres assistir ao jogo? - Soltou uma gargalhada ao ver a expressão dela. - Oli, querida, diz-me a verdade. Detestas futebol, não é?

- Claro que não - respondeu ela, mas a rir. Ele adivinhara. - Não detesto.

- Só não gostas muito, pois não? - Tom sorriu e abanou a cabeça. Era perfeito. Uma miúda, estudante, de uma família rica. Era uma loucura. Uma perfeita loucura.

- Muito bem, Mister Harper. E depois? Faz diferença se eu não for a maior fã de futebol do mundo?

Fitou-a com um grande sorriso nos lábios e abanou a cabeça.

- Não. Nenhuma. - Aliás, a idéia divertia-o. Estava farto das mulheres que andavam sempre atrás dele. Subitamente, encontravam-se em frente à casa dela, e o momento desapareceu.

- Pronto, miúda, logo telefono-te.

Kate queria obrigá-lo a prometer, queria perguntar-lhe se ele tinha mesmo a certeza de que iria telefonar, dizer-lhe que cancelaria o jantar com os pais. Mas, caramba, ele era Tom Harper, e ela apenas mais uma miúda. Tom nunca iria ligar-lhe. Kate tentou fazer um ar de indiferença, assentiu, sorriu e começou a sair do carro. Foi detida antes de os seus pés tocarem no chão. Tom segurava-lhe o braço com força.

- Então, Kate. Não te vás embora assim. Eu disse que te telefonava, e estava a falar a sério.

Ele percebera. Aliás, percebia tudo. Kate virou-se para ele com um sorriso de alívio.

- Está bem. Só pensei que... - O aperto no seu braço abrandou e ele tocou-lhe no rosto com a mão.

- Sei bem o que estavas a pensar, mas enganaste-te.

- A sério? - O olhar de ambos cruzou-se.

- Sim.

Foi a palavra mais meiga que ela já ouvira.

- Agora vai dormir. Eu ligo-te mais tarde.

E ligara. Ligara duas vezes de manhã e outra vez à noite, depois de ela ter chegado a casa. Tom deitara-se, mas não conseguira dormir. Haviam combinado encontrar-se no dia seguinte, depois do jogo. Porém, o encontro foi diferente.

Demasiado rápido, tenso. Tinham ganho o jogo, Tom estava todo excitado, Kate bastante nervosa. Não era a praia em Carmel, nem era de madrugada. Era o remoinho da carreira de Tom Harper, e o bar do aeroporto repleto de pessoas antes de ele seguir para Dallas, para mais um jogo. Viram outros colegas da equipe, que lhes acenaram, duas mulheres foram pedir-lhe o autógrafo, o barman passara todo tempo a olhar e a piscar o olho, e houve um constante virar de cabeças, murmúrios, acenos... Além... o Tom Harper?... Sim?... Raios, sim!... Tom Harper! Era perturbador.

- Queres vir até Dallas?

- Hum? - Ela pareceu admirada. - Quando?

- Agora.

- Agora?

Tom sorriu ao ver a expressão no rosto de Kate.

- Porque não?

Es maluco. Tenho de... tenho exames... - O seu olhar era o de uma rapariguinha assustada e Tom percebera outra coisa. O fato de ela ter ido com ele a Carmel fora um ato de coragem, de desafio. Disso, ela fora capaz. Mas ir a Dallas era completamente diferente. «Okay», pensou Tom. Tinha de avançar com cuidado. Aquela rapariga era especial.

- Descontrai-te, princesa. Estava só a brincar. E se nos encontrássemos noutro lado, depois dos teus exames? - perguntou, rezando para que ninguém aparecesse a pedir-lhe um autógrafo ou a felicitá-lo pelo jogo. Susteve a respiração.

- Sim - respondeu Kate fitando-o. - Pode ser. Sentia-se toda a tremer, mas era uma sensação agradável. - Está bem. Depois falamos.

Não insistiu. Gracejaram e riram até ao portão de embarque. Detiveram-se um momento e Kate perguntou a si mesma se ele iria beijá-la. Então, com um sorriso meigo, ele inclinou-se e beijou-a, primeiro com suavidade, e depois, quando ela o abraçou, Tom tomou-a nos braços e beijou-a com ardor. Kate ficou sem fôlego e sentiu a cabeça a andar à roda. Em seguida, tudo terminou; ele foi-se embora, e ela ficou sozinha junto ao portão de embarque.

Tom telefonou nessa noite. E todas as noites, durante um mês. Convidou-a a ir ter com ele às cidades onde se encontrava a jogar, mas Kate não pôde ir; ou ele não tinha tempo, ou ela tinha de passar modelos, ou os pais queriam que os acompanhasse a qualquer lado, ou... Para além disso, Kate não sabia se queria «fazer aquilo» já. Achava que sim, mas... Nunca dissera nada a Tom; porém, ele entendia.

- O que estás para aí a dizer, princesa? Que não vou voltar a ver-te?

- Claro que não. Só que ainda não tive oportunidade. É tudo.

- Tretas! Vê mas é se te metes num avião para Cleveland este fim-de-semana, se não, vou aí buscar-te. - Na voz de Tom havia sempre um sorriso, sempre aquela ternura que levava Kate a sentir-se em segurança. Era o homem mais meigo que já conhecera. E começava a parecer também muito mimado. Fartava-se de insistir para ela ir ter com ele. E havia uma razão. Tom queria afastá-la do seu terreno. Afastá-la das colegas de quarto, dos pais e do sentimento de culpa. Não queria dar-lhe apenas uma noite, mas sim uma lua-de-mel.

- Para Cleveland, este fim-de-semana? - perguntou ela numa voz trêmula.

- Sim, querida, Cleveland. Desculpa não ser Milão.

- Acho bem que peças desculpa.

E ela fora. Cleveland era horrível, mas Tom parecera tirado de um sonho. Estava à espera de Kate quando ela desembarcara e tinha nos lábios o sorriso mais feliz que ela já vira. Ficou imóvel, a vê-Ia avançar na sua direção, tendo nas mãos uma rosa. Pedira emprestada uma casa ao primo de um colega de equipe. Não se tratava de uma casa luxuosa, mas era acolhedora. Tom também era assim, despretensioso, meigo, carinhoso. E fora assim que a tratara. Desflorou-a com tanta ternura que havia sido ela a desejar a segunda vez. Fora isso que ele quisera: que ela o desejasse. E a partir desse momento, Kate foi sua. Perceberam-no ambos.

- Amo-te, princesa.

- Também te amo. - Fitara-o com uma expressão envergonhada, o cabelo castanho úmido e macio sobre um ombro. Estava admirada por se sentir tão à vontade, desde o primeiro momento.

- Queres casar comigo, Kate?

- Estás a brincar? - Os olhos dela abriram-se muito. Encontravam-se nus, na cama, a olhar para a lareira. Eram quase três da manhã e ele tinha um jogo no dia seguinte. No entanto, era a primeira vez que para si havia algo mais importante do que um jogo.

- Não, Kate, estou a falar a sério.

- Não sei - respondeu ela, embora os seus olhos revelassem um certo interesse. Não muito, mas o suficiente. Nunca pensei nisso. Sempre achei que o casamento ainda vinha muito longe. Só tenho dezoito anos e... - Fitou-o com uma expressão grave e maliciosa. - Os meus pais iriam ficar furiosos.

- Por causa de mim ou da tua idade? - Já adivinhava a resposta. Kate hesitava, à procura das palavras certas. - Okay, já adivinhei - disse com um sorriso, embora parecesse ter ficado magoado.

Kate abraçou-o.

- Amo-te, Tom. E se nos casássemos, seria porque te amo. Amo quem és e aquilo que és... És o Tom, não as outras coisas todas a que estás ligado. Além disso, estou-me nas tintas para o que as, pessoas pensam. Só que... bem, nunca pensei no assunto. Acho que sempre pensei que iria andar à deriva durante algum tempo.

- Isso são tretas, querida. Não és nenhum barco. Tinham ambos razão, mas tudo aquilo parecia uma loucura. Deveria ser Kate a querer casar, porém ali estava ele, a declarar-se. Durante um breve momento, sentiu-se cheia de poder. Já era uma mulher. E mais do que isso, era a mulher de Tom Harper.

- Sabes uma coisa? Es maravilhoso! - exclamou Kate, encostando as costas ao peito dele, sorrindo de olhos fechados.

- Tu também és maravilhosa, Miss Kaitlin – respondeu ele sorrindo ao contemplar o rosto delicadamente esculpido de Kate.

Ela fez uma careta. -Detesto esse nome.

Tom beijou-a e ela esqueceu tudo. Depois ele levantou--se e foi à cozinha buscar uma cerveja. Kate olhou para os seus ombros largos, as coxas estreitas e as pernas compridas, quando ele atravessou o quarto em todo o seu esplendor. Era um homem muito bonito. Kate sentiu-se corar quando ele regressou e olhou para ela. Desviou o olhar para a lareira, mas o rubor não desapareceu.

Ele sentou-se na cama e beijou-a.

- Não precisas de ter medo de olhar para mim, princesa. Não há problema.

Kate assentiu e bebeu um gole da cerveja. -És lindo - disse baixinho.

Tom acariciou-lhe o ombro e olhou para os seus seios.

- E tu és louca. Olha, acabei de ter uma idéia estupenda. Como não queres casar-te já, que tal vivermos juntos durante algum tempo? - Parecia agradado com a idéia e Kate, a princípio admirada, sorriu.

- Sabes uma coisa? És espantoso. Tenho a sensação de que estás a oferecer-me a Lua enfeitada com um laço de cetim azul - declarou Kate, fitando-o.

- Preferes antes veludo vermelho? Ela abanou a cabeça.

- Então, o quê?

- Não podemos esperar um pouco mais?

- Porquê? Kate, temos uma coisa muito rara, e sabemo-lo bem. Conhecemo-nos melhor do que conhecemos outras pessoas. Passamos o último mês ao telefone, a partilhar todos os pensamentos, todos os sonhos, todas as esperanças, todos os medos. Sabemos tudo o que há a saber a respeito um do outro. Não é verdade?

Ela assentiu, sentindo lágrimas nos olhos. -E se as coisas mudarem? E se... Então ele percebeu o que a incomodava. -Os teus pais?

Kate assentiu. Ele acabaria por descobrir.

- Havemos de tratar disso, princesa. Não te preocupes. E se não quiseres pensar já no assunto, não penses. Porque não esperamos que acabes este semestre?

Era uma espera fácil. Só faltavam seis semanas para ela terminar o primeiro ano da faculdade. Depois vinha o Verão.

Tom sabia que estava tudo combinado. E, no seu íntimo, Kate também. Então, devagar, os lábios de Tom foram da sua boca até ao pescoço, e brincaram com os seus mamilos. A sua língua lambeu-os, provocando-lhe um enorme prazer. Tom teve medo de fazer amor com ela uma terceira vez nessa noite -não queria magoá-la. Com a ternura que mostrava em todas as coisas, passou a língua pelo interior das coxas de Kate até a ouvir gemer baixinho. Foi uma noite que ela sempre recordou com ternura.

Kate chorou durante o vôo de regresso a São Francisco. Sentia que fora arrancada dos braços de Tom, das suas raízes. Precisava dele, sentia-se sua. Quando chegou a casa, em Palo Alto, tinha um ramo de rosas à espera, enviado por Tom. Ele tomava conta de si como os seus pais nunca o haviam feito. Eram tão distantes, tão frios, tão insensíveis aos seus sentimentos. Tom era o oposto. Telefonava-lhe duas ou três vezes por dia, e falavam durante horas. Parecia estar constantemente com ela. Foi a São Francisco no fim-de-semana a seguir a Cleveland, e pediu um apartamento emprestado a outro colega de equipe. Era sempre cuidadoso e discreto. Queria proteger Kate dos jornalistas.

E quando as aulas terminaram, soube que tinha de estar com ele. Andaram pelo país durante seis semanas, mas essa forma de vida era bastante cansativa. Na semana a seguir ao fim das aulas, ele foi jogar para o clube de São Francisco. Era perfeito. Agora podia alugar um apartamento, e Kate podia acompanhá-lo sempre nas viagens. Estariam sempre juntos, ela tinha a certeza. Tom era a coisa mais importante na sua vida. Podia sempre terminar os estudos mais tarde - caramba, talvez até dali a um ano ou dois. Aquilo era apenas um interregno. Talvez até Tom deixar de jogar. A escola não era problema.

No entanto, não foi assim que os seus pais viram as coisas.

- Perdeste a cabeça, Kaitlin? - perguntou o pai, fitando-a com uma expressão de incredulidade do seu habitual pouso junto à lareira. Andara de um lado para o outro e acabara por se deter ali, desesperado. -Deixar a escola e fazer o quê? Viver com esse homem? Ter um filho sem serem casados? Ou talvez um filho de outro tipo... Tenho a certeza de que os colegas da equipe dele não se importariam de dar uma ajuda. - Os olhos do pai brilhavam de fúria, e Kate sentiu Tom ficar tenso.

- Pai, não é isso que estamos a dizer. Eu não vou ter filhos - retorquiu com voz trêmula.

- Não? Como é que podes ter a certeza? Tens alguma idéia do tipo de vida que levarás com este homem? Que tipo de vida reles e dissoluta levam os atletas? O que desejas? Ficar sentada em bares a ver o jogo na televisão e ir ao bowling terça à noite?

- Por amor de Deus, pai, já te disse que vou interromper as aulas durante um semestre e que estou apaixonada pelo Tom. Como é que podes...

- É fácil. Porque não sabes o que estás a fazer - declarou num tom de condenação. A mãe de Kate assentiu, sentada muito direita no sofá.

- Dá-me licença que fale? - Era a primeira vez que Tom abria a boca desde que a discussão começara. Só fora com Kate para lhe dar apoio moral: sabia que o assunto tinha de ser tratado entre ela e os pais. Quisera incutir-lhe coragem sem interferir, mas naquele momento não podia deixar de participar na discussão. O pai de Kate começava a ficar descontrolado e a saborear a situação. Isso era visível no seu olhar.

Tom virou-se para o pai de Kate com uma expressão preocupada.

- Acho que faz uma idéia errada do que é a minha vida. É verdade que não sou advogado nem corretor, e que jogar futebol não é uma atividade muito intelectual, mas é assim. É um trabalho duro, que requer um grande empenho e esforço físico. E as pessoas que o fazem são exatamente como as outras; há pessoas boas e más, estúpidas e inteligentes. Mas a vida 'da Kate não vai ser passada com a equipe. Levo uma vida reservada e ficaria muito admirado se o senhor se opusesse...

O pai de Kate interrompeu-o com um, olhar irado. -Eu oponho-me a si, Mister Harper. E tão simples como isso. Quanto a ti, Kaitlin, se fores avante, se deixares a escola, se ousares desgraçar-nos dessa forma, estás acabada. Não quero voltar a ver-te nesta casa. Podes levar as tuas coisas agora e ir-te embora. Não quero ter mais nada a ver contigo, nem a tua mãe. Proíbo-o.

Os olhos de Kate encheram-se de lágrimas de dor e raiva. -Estás a perceber? - insistiu o pai.

Ela assentiu, sem deixar de o fitar. -E não mudas de idéias?

- Não, não mudo - respondeu Kate, respirando fundo.

- Acho que estás errado. Acho que estás a ser... muito injusto - proferiu com um soluço.

- Não. Tenho é razão. E se julgas que esperei dezoito anos para expulsar a minha própria filha de casa, para deixar de ver a minha única filha, então estás muito enganada. Eu e a tua mãe fizemos tudo o que podíamos por ti. Desejamos que tivesses tudo, demos-te tudo, ensinamos-te tudo aquilo que sabíamos e aquilo em que acreditávamos. E agora vens-nos trair. Isso quer dizer apenas que tivemos entre nós uma traidora durante dezoito anos. É como se descobríssemos que não és nossa filha, mas filha de outras pessoas.

Tom escutava-o com um horror crescente, mas concordava com o pai de Kate naquele aspecto. Ela era agora sua. E tencionava amá-la e acarinhá-la ainda mais depois daquele dia. Que pais indecentes!

- Já não és nossa filha, Kaitlin. Não podíamos ter uma filha que fizesse essas coisas - proferiu ele com grande solenidade, e Kate soltou uma gargalhada quase histérica.

- Que coisas? Deixar a escola? Tens idéia da quantidade de alunos que faz isso todos os anos? O problema é só esse?

- Acho que sabemos os dois qual é o problema. -

Olhou para Tom. - Quando te tiveres manchado, como tencionas, não interessa que continues ou não a ir às aulas. As aulas são apenas uma parte do problema. A questão é a tua atitude, os teus objetivos, as tuas ambições. Aquilo que vais fazer com a tua vida... e isso parece nada ter a ver conosco, Kaitlin. Acabou-se tudo. E agora - terminou, olhando para a filha e para a mulher -, se quiseres ir buscar as tuas coisas, fá-lo depressa. A tua mãe já sofreu o suficiente.

A mãe não parecia nem cansada nem abalada: olhava para a filha com uma expressão de indiferença. Tom perguntou a si mesmo se ela estaria em choque. Depois a mulher levantou-se com um ar gelado e abriu a porta da sala, que fora fechada para que a empregada não pudesse ouvir a conversa. Parou e olhou para Kate, que se levantava devagar e a custo da cadeira.

- Eu espero até teres feito as malas, Kate. Quero ver o que tencionas levar.

- Porquê? Tens medo que te roube as pratas? - retorquiu Kate, olhando estupefata para a mãe.

- Isso seria muito difícil porque elas estão bem guardadas. Saiu da sala e Kate começou a segui-Ia. Depois parou. Olhou para Tom e em seguida para o pai com uma expressão de nojo.

- Esquece.

- Esqueço o quê? - Pela primeira vez, o pai parecia ter ficado perplexo.

- Não quero nada vosso. Vou-me embora. Podem ficar com o que está no meu quarto.

- Que simpático da tua Parte.

Sem uma palavra, Kate abandonou lentamente a sala. A mãe esperava-a no vestíbulo, o rosto uma máscara de ira.

- Vens?

- Não, mãe, não vou. Acho que já me chega. - Ninguém proferiu palavra durante um longo momento. Kate deteve-se junto à porta, virou-se para olhar para os pais e disse apenas uma única palavra: - Adeus.

Saiu porta fora assim que falou, com Tom ao lado, o braço dele sobre os seus ombros. Tom tinha vontade de voltar para trás, matar o pai dela e esbofetear a mãe com tanta força até lhe partir os dentes. Bolas, o que se passava com aquelas pessoas? Seriam feitas de quê? Como podiam ter agido daquela maneira com a própria filha? Ao recordar-se do amor da mãe, as lágrimas vieram-lhe aos olhos e pensou de nov o naquilo por que Kate acabara de passar. Puxou-a mais para junto de si quando chegaram ao carro e abraçou-a durante bastante tempo, com quanta força pôde, deixando que os seus braços, o seu coração e o calor do seu corpo lhe dissessem aquilo para que ele não encontrava palavras. Nunca mais permitiria que ela passasse por algo parecido.

- Está tudo bem, querida. Tudo bem. És linda e eu amo-te.

Kate, porém, não estava a chorar. Tremia apenas ligeiramente nos braços de Tom e, ao levantar a cabeça, os seus olhos exibiam uma expressão muito séria. Apesar disso, tentou sorrir.

- Lamento que tivesses de assistir a isto, Tom. - E eu lamento que tivesses de o suportar.

Kate assentiu em silêncio e afastou-se ligeiramente. Tom abriu a porta do carro e ela entrou.

- Bem, acho que isto significa que a partir de agora estamos sozinhos - concluiu ela numa voz a medo quando Tom se sentou ao volante. - O meu pai disse que não queria voltar a ver-me. Disse que eu os traí.- Respirou fundo. Traíra-os. Por amar Tom? Por ter deixado a escola? Stanford era uma tradição na família. Bem como o casamento. «Viver junta», como o pai dissera, era uma desgraça. Tal como amar um «zé-ninguém». O filho de um mineiro. Estava a esquecer-se de quem era, de quem os pais eram, de quem os avós tinham sido... todas as escolas certas, os clubes certos, os maridos certos e as mulheres certas. A mãe era presidente da associação cívica feminina local e o pai sócio majoritário da sua firma de advogados. Kate parecia atordoada.

Tom fitou-a com um ar preocupado.

- Ele há-de mudar de idéias - declarou, fazendo-lhe uma festa na mão e pondo o carro a funcionar.

- Talvez. E talvez eu não mude. Tom beijou-a e acariciou-lhe o cabelo.

- Vamos, querida. Vamos para casa.

A casa deles nessa semana foi o apartamento de outro jogador da sua nova equipe. Mas Tom fez uma surpresa a Kate no dia seguinte. Andara ocupado durante toda a semana. Alugara um apartamento numa bela casa vitoriana com vista para a baía. Parou o carro à porta, meteu-lhe a chave na mão, levou-a ao colo os três lanços de escadas e entrou com ela em casa. Kate ria e chorava ao mesmo tempo. Era como brincar às casinhas. Só que melhor.

E ele foi bom para ela, mais ainda depois de ter percebido que Kate não voltaria a falar com os pais. Tom não era capaz de compreender a atitude deles nem o motivo. Para ele, a família era a família; isso significava amor e raízes que não podiam ser destruídas, laços que não podiam ser cortados, pessoas que nunca nos abandonavam, independentemente de estarem ou não zangadas conosco. Mas Kate entendia. Os pais tinham esperado que ela fosse tudo o que eles eram, e mais ainda, que fosse como eles. Cometera o erro imperdoável de se apaixonar por uma pessoa diferente, e de ousar ser também ela diferente: de ousar infringir as regras, de ousar não se guiar pelas suas restrições e pelas suas pequenas esperanças. Magoara-os, por isso eles estavam a magoá-la. Isso justificava e dignificava as suas ações até estarem convencidos de que os pecados dela não mereciam perdão, até que não tivessem de admitir um ao outro o quanto a perda da filha os magoara. E se estivessem com dúvidas, a mãe podia falar com as amigas com quem jogava bridge, ou o pai com os sócios, e ficariam imediatamente reconfortados: «É a única maneira... fizeram a única coisa que podiam fazer.» Kate sabia. Agora Tom era tudo para si - mãe, pai, irmão, amigo - e ela desabrochou nos seus braços.

Viajava com ele, Passava modelos, escrevia poemas. Tornava conta do apartamento, estava de vez em quando com os velhos amigos, embora isso acontecesse cada vez com menor freqüência, e começou a simpatizar com alguns jogadores da equipe de Tom. No entanto, ela e Tom estavam sozinhos a maior parte do tempo, e a vida de Kate centrava-se cada vez mais nele. Cerca de um ano depois de terem ido viver juntos, casaram. Dois acontecimentos insignificantes ameaçaram arruinar a ocasião. O primeiro foi o fato de os pais de Kate se recusarem a ir ao casamento, embora isso não tivesse sido surpresa. E o segundo foi devido a Tom ter-se envolvido numa discussão acesa no seu bar preferido e de ter posto um tipo a dormir. Na altura andava sob pressão constante. A equipe de São Francisco era bastante diferente da outra, e ele era um dos «velhos». O incidente do bar não teve conseqüências, mas os jornais pintaram o caso muito feio. Kate achava tudo aquilo uma parvoíce. Mas o casamento era mais importante do que tudo o resto.

Um dos colegas da equipe foi padrinho, e uma das antigas companheiras de quarto a dama de honra. O casamento teve lugar na Câmara e foi coberto pelo Sports Mustrated. Agora Kate pertencia a Tom, completamente e para sempre. E ia linda no vestido de organdi branco bordado, de decote subido e enormes mangas tufadas, à moda antiga. Fora um presente de Felicia, que gostava cada vez mais daquela modelo semelhante a uma gazela, ao lado de um dos heróis nacionais. Escolhera para Kate o melhor da coleção de Primavera da loja.

Kate parecia uma criança encantadora no casamento, com o cabelo comprido apanhado ao estilo vitoriano e enfeitado com lírios. Levava um bouquet também de lírios. Ela e Tom tinham lágrimas nos olhos quando puseram as alianças e o juiz os declarou marido e mulher.

Passaram a lua-de-mel na Europa, e ela mostrou-lhe os locais de que mais gostava. Era a primeira vez que Tom ia ao estrangeiro e a viagem foi bastante educativa para ambos. Ele estava cada vez mais sofisticado e Kate cada vez mais adulta.

O primeiro ano de casamento foi idílico. Kate acompanhava Tom a todo o lado, fazia o mesmo que ele e passava o tempo livre a escrever poemas e um diário. O único problema é que não gostava de depender financeiramente do marido. Graças a Felicia, conseguia arranjar todo o trabalho que queria, mas as suas constantes viagens não lhe permitiam passar muitos modelos. Recebia ainda algum dinheiro de um fideiconiÍsso que a avó lhe deixara, mas isso mal lhe chegava para os alfinetes; era impossível retribuir os presentes caros que Tom estava sempre a dar-lhe. No primeiro aniversário de casamento, Kate anunciou que tomara uma decisão. Deixaria de viajar com ele e ficaria em São Francisco a passar modelos. Isso fazia sentido para ela, mas não para Tom. Já assim lhe custava ter de viajar com a equipe, quanto mais sozinho. Precisava de Kate junto de si. Porém, ela era de opinião que ele precisava de uma mulher financeiramente independente. Tom levantou objeções, mas acabou por perder. Kate manteve-se inabalável. E três meses mais tarde, ele partiu a perna durante um jogo.

- Bem, princesa, parece que cheguei ao fim da época.

- Estava de bom humor quando chegou a casa vindo do aeroporto. No entanto, tinham consciência de que aquilo podia ser o fim da sua carreira. Já ultrapassara os trinta anos, o perigoso numero mágico. E a fratura era grave; a perna estava em muito mau estado. Contudo, Tom começava a estar farto de jogar, ou pelo menos foi o que lhe disse. Desejava outras coisas, como filhos, estabilidade, um futuro. A transferência para a equipe de São Francisco deixara-o profissionalmente inseguro; tinha a ver com a química da equipe, ou talvez com as constantes ameaças veladas do manager, que lhe chamava «velho». A atitude do homem enfurecia Tom, mas aprendera a viver com ela e a continuar a odiar o manager.

Também não lhe agradava deixar Kate sozinha quando tinha de viajar. Ela tinha vinte anos; precisava de ter o marido em casa mais vezes do que as que ele lá podia estar. No entanto, agora ficaria em casa com ela por causa da perna, pensou. Ou pensou que ficaria. De fato, ele estava em casa, ela é que não. Passava bastantes modelos e tinha começado a freqüentar uma cadeira sobre mulheres na literatura duas vezes por semana.

- E no próximo período vou ter aulas de escrita criativa.

- Bestial.

Assemelhava-se a uma colegial quando falava nas aulas. E Tom considerava-se aquilo que lhe chamavam na equipe: velho. Um velho muito aborrecido, nervoso e solitário. Sentia saudades do jogo. Sentia saudades de Kate. Achava que estava a perder a vida. Um mês depois, tinha esmurrado um tipo num bar, ido parar à prisão, e a história apareceu em todos os jornais. Tom falava constantemente daquilo, tinha pesadelos. E se o suspendessem? Porém, isso não aconteceu. A queixa foi retirada e ele mandou ao tipo um cheque chorudo. A perna ainda não sarara e Kate continuava a passar a maior parte do tempo fora de casa. Nada mudara. E um mês mais tarde, ele tomou a bater noutra pessoa, desta vez partindo-lhe o maxilar. A queixa não foi retirada e Tom viu-se obrigado a pagar uma multa elevadíssima. O manager mantinha-se assustadoramente silencioso.

- Talvez devas mudar para o boxe, hein, querido? Kate continuava a achar que os ataques de fúria de Tom eram divertidos.

- Raios, podes achar que isto é divertido, miúda, mas eu não acho. Estou a dar em doido para aqui sentado à espera que esta maldita perna sare.

Kate percebeu. Ele estava desesperado. Talvez por causa de várias coisas, não apenas da perna. No dia seguinte, ela chegou a casa com um presente. Afinal de contas, era por isso que passava modelos -para poder dar-lhe presentes. Comprara dois bilhetes para Paris.

A viagem fez bastante bem a Tom. Passaram duas semanas em Paris, uma semana em Cannes, cinco dias em Dacar e um fim-de-semana em Londres. Tom mimou-a muito e Kate ficou radiante por lhe ter oferecido aquela viagem. Regressaram a casa cheios de energia e com a perna dele já sarada. A vida foi ainda melhor do que antes. As brigas nos bares pararam e voltou a treinar com a equipe. Kate fez vinte e um anos e o presente de Tom foi um carro. Um Mercedes,

No segundo aniversário do casamento, Tom levou-a a Honolulu. E acabou preso. Uma rixa no bar do Kahala Hilton resultou num artigo condenatório na Time e noutro ainda na Newsweek. E em notícias em todos os jornais do país. Jackpot. Só o artigo da Time explicou a Kate o motivo da briga: parece que corria o boato de que o contrato de Tom não voltaria a ser renovado. Ele tinha trinta e dois anos. jogava como profissional há dez.

- Porque não me disseste? - perguntou Kate, magoada.

- Foi por causa das brigas?

Tom limitou-se a abanar a cabeça e a desviar o olhar.

- Não. Aquele palhaço que gere a equipe tem a fixação da idade. É pior do que os outros todos. As brigas não são nada de especial. Toda a gente briga. O Rasmussen dá mais pontapés lá fora do que dá no campo. O Jonas foi apanhado com droga o ano passado. O Hilbert é maricas. Toda a gente tem qualquer coisa. Mas o meu problema é a idade. Sou demasiado velho, Kate. Tenho trinta e dois anos e ainda não descobri o que vou fazer quando deixar de jogar. Caramba, não sei mais nada! - Tinha lágrimas nos olhos,

- Porque não consegues uma transferência para outra equipe?

Fitou-a por fim com uma expressão carrancuda.

- Porque sou demasiado velho, Kate. Cheguei ao fim. E eles sabem-no e é por isso que passam a vida a chatear-me.

Sabem como me magoar.

- Então, sal. Podes fazer muitas outras coisas. Podes ser comentador desportivo, treinador, manager... Ele abanou a cabeça.

- Tenho afastado muitos olheiros. E estou a pagar por isso.

- Okay. Então hás-de acabar por encontrar outra coisa. Não precisas de arranjar trabalho já. Podemos ir estudar os dois.

Kate tentava mostrar-se animada. Queria que ele fosse feliz, queria partilhar a sua juventude com ele, mas os esforços dela faziam Tom sorrir, pesaroso.

- Oli, querida, amo-te! - exclamou, abraçando-a. Talvez não importasse. Talvez a única coisa que importasse fosse aquilo que tinham juntos. E o apoio dela ajudou durante algum tempo. Cerca de um ano. Porém, depois do terceiro aniversário, as coisas pioraram. O contrato de Tom estava a ser negociado e ele começou a envolver-se em brigas. Duas seguidas; daquela vez passou duas semanas na prisão e pagou uma multa de mil dólares. E cinco mil dólares ao clube. Tom processou-o por injustiça, mas perdeu, tendo sido suspenso. Kate abortou. Nem sequer soubera que estava grávida. Tom ficou como louco. No hospital chorou mais do que ela. Sentia que tinha sido o responsável pela morte do filho. Kate ficara atordoada com a seqüência dos acontecimentos. A suspensão duraria um ano, e já sabia o que a esperava- rixas, multas e muito tempo na prisão. Contudo, Tom era tão bom para ela. Tão doce e meigo. Era tudo o que ela desejara num homem. Porém, Kate só vislumbrava problemas no horizonte.

- Porque não passamos este ano na Europa?

Ele encolheu os ombros com um ar desinteressado. Andou abatido durante semanas, a pensar no filho que quase havia nascido. Porém, o que realmente o assustava era o que estava a acontecer à sua carreira. Quando a suspensão chegasse ao fim, o mesmo sucederia à carreira. Tom era demasiado velho para poder recuperar.

- Então montamos um negócio - propôs Kate. Ainda era muito nova e o seu otimismo deprimia-o ainda mais. Kate não podia imaginar o que aquilo era para ele o pânico de ser um zé-ninguém, de ter de conduzir uma camioneta ou até de trabalhar nas minas como o pai. Não investira bem o dinheiro e não podia contar com rendimentos.

O que diabo iria fazer? Anúncios de roupa interior? Viver à custa de Kate? Pedir-lhe que o ajudasse a escrever as suas memórias? Enforcar-se? Só o amor que sentia por ela o impedia de considerar essa possibilidade. O pior de tudo era que só desejava jogar futebol. E nenhuma das universidades pensava nele como treinador. Adquirira uma péssima reputação por causa das suas rixas nos bares.

Por isso foram para a Europa. Ficaram uma semana. Tom detestou. Em seguida foram ao México. Ele também não gostou. Permaneceram em casa. A mesma coisa. E acima de tudo, odiava-se a si próprio. Começou a beber, e as rixas continuaram. Os jornalistas seguiam-no por todo o lado. Mas o que tinha ele a perder? Já fora suspenso e provavelmente o seu contrato não seria renovado. A única coisa de que tinha a certeza era de que queria um filho. E que daria tudo ao filho.

Pouco antes do Natal, Kate ficou de novo grávida. Daquela vez tiveram cuidado. Interromperam tudo: a carreira de Kate, a bebida dele, as rixas nos bares. Ficaram em casa. Entre eles só havia ternura e paz, tirando algumas explosões de mau humor e alguns ataques de choro por parte de Kate. Porém, nem um nem outro os levavam muito a sério; parecia fazer parte da gravidez, e divertiam Tom. Ele deixara de se importar com a suspensão. Que se lixassem todos. Falaria com eles e obrigá-los-ia a renovarem-lhe o contrato. Implorar-lhes-ia. Queria apenas mais um bom ano a jogar, para poder pôr o dinheiro de parte e tomar conta do filho. jogaria apenas pelo filho. Comprou a Kate um casaco de vison pelo Natal.

- Tom, és maluco! Onde é que eu vou usar isto? - perguntou ela com um grande sorriso, experimentando-o sobre a camisa de dormir. Contudo, perguntava a si mesma o que estaria Tom a tentar esconder. O que não queria ele enfrentar?

O que desconheceria ela?

- Usa-lo quando fores para a maternidade ter o meu filho.

E comprara-lhe também um berço antigo de quatrocentos dólares e um anel de safiras. Era louco, estava perdidamente apaixonado por Kate, e ela sentia o mesmo por ele. No entanto, no seu íntimo sentia-se apavorada. Passaram o Natal sozinhos em São Francisco, e Tom falou em comprarem uma vivenda. Não muito grande. Uma casa boa com tamanho suficiente para poderem criar o bebê. Kate concordou, mas perguntou a si mesma se teria dinheiro para isso. Quando o fim do ano se aproximou, teve uma idéia. Iriam passar esses dias em Carmel. Faria bem a ambos.

- O fim do ano? Porque queres ir para lá, querida? Está nevoeiro e frio. Bom, poderás encomendar pizzas, tacos também, e até morangos. Mas ir para Carmel em Dezembro? Sorriu e pousou a mão no ventre ainda liso da mulher. Em breve ele cresceria... e esse pensamento inundou-o de felicidade. O bebê de ambos... o seu filho.

- Quero ir para Carmel porque foi o primeiro local onde fomos juntos. Podemos ir?

Kate parecia de novo uma rapariguinha, embora estivesse quase a fazer vinte e três anos. Conheciam-se já há cinco. E claro que ele lhe fez a vontade.

- Se a menina quer ir para Carmel, vamos para Carmel. E assim foi. Ficaram no melhor quarto do melhor hotel e até o tempo esteve bonito durante aqueles três dias. A única coisa que afligiu Kate foi Tom comprar tudo o que via para ela e para o bebê sempre que passeavam pelas lojas. No entanto, passaram bastante tempo no quarto, beberam muito champanhe e a preocupação dela foi diminuindo.

- Já lhe disse o quanto o amava, Mister Harper? -Adoro ouvi-lo, princesa. Oli, Kate... - murmurou Tom, envolvendo-a num enorme abraço e apertando-a contra si. - Desculpa ter-te feito passar um mau bocado. Prometo que daqui em diante tudo vai ser melhor. Acabaram todos os problemas.

- Desde que te sintas feliz - retorquiu Kate. Tinha um ar muito calmo ali nos braços dele, e Tom achou-a mais bonita do que nunca.

- Nunca me senti tão feliz - disse ele, parecendo-o Mesmo.

- Então talvez seja a altura de acabar com tudo.

- O que queres dizer? - perguntou ele com um ar chocado.

- Estou a referir-me ao futebol, amor. Se calhar agora devíamos pegar no dinheiro e fugir. Chega da conversa de já estares «velho». Só nós e o bebê.

- E morremos à fome.

- Vá lá, querido. Ainda falta muito para morrermos à fome.

Kate, porém, ficou perturbada. Se ele estava tão preocupado com o dinheiro, porque lhe comprara o casaco de peles e o anel?

- Pois falta, mas ainda não temos um bom pecúlio. Não chega para os próximos cinco ou dez anos. Outro ano a jogar fará a diferença.

- Podemos investir o dinheiro que ganhei a passar modelos.

- Esse dinheiro é teu - declarou ele com frieza. Quiseste fazer isso, e mereces esse dinheiro. Eu olho por ti e pelo bebê. E ponto final. Não quero falar mais no assunto. - Está bem.

A expressão no rosto de Tom suavizara-se e tinham feito amor à luz do crepúsculo. Kate recordou a primeira «lua-de-mel» que passaram em Cleveland. Porém, daquela vez foi Tom quem adormeceu primeiro, nos braços de Kate; ficou a contemplá-lo durante horas, a pensar, esperando que aquele ano fosse diferente, que a equipe o tratasse bem, que a pressão não fosse tão grande. Era apenas isso que desejava naquele momento. Estava a crescer.

Um dia depois de terem regressado a São Francisco, saiu nos jornais uma notícia a dizer que Tom Harper estava «acabado». A notícia foi publicada por todos os jornais do país. Tom ficou desvairado quando a leu e depois de investigar um pouco ficou a saber que fora a sua equipe que encomendara a notícia... a equipe... o velho... E saíra de casa, batendo com a porta, sem dizer palavra a Kate, e ela só o viu às seis da tarde. Na televisão.

Tom fora a casa do dono da equipe e ameaçara-o de morte, depois envolvera-se numa briga com o manager que entretanto aparecera. Os dois homens aperceberam-se de que ele estava embriagado, e declarando o dono da equipe que Tom parecia um louco, a repetir que não podiam fazer aquilo ao seu filho. O apresentador do noticiário informou que Tom Harper não tinha filhos; não precisou de acrescentar que o jogador devia estar mesmo louco. E continuou, explicando que os dois homens haviam tentado «dominar Harper quando ele tentava agredi-los. No entanto, para surpresa de todos, Harper retirou uma atina do bolso, apontou para o dono da equipe, depois desviou-a para o manager e disparou. Por milagre, falhou, mas apontou em seguida a arma para si próprio e disparou. Desta vez não falhou. O manager e o dono da equipe ficaram ilesos, mas Harper encontra-se internado em estado grave». O apresentador olhou muito sério para a câmara e acrescentou num tom grave:

- Uma tragédia para o futebol americano.

Durante um momento, Kate julgou que, se se levantasse e mudasse de canal, poderia fazer com que nada daquilo tivesse acontecido; tinha apenas de mudar de canal e ouviria alguém a dizer que aquilo não era verdade. Não podia ser verdade.

- Não o Tom... por favor, o Tom não... por favor... murmurou ela quando se virou e olhou para a sala, perguntando a si mesma o que poderia fazer. Não tinham dito em que hospital estava Tom. O que devia fazer? Ligar para a Polícia? Para a equipe? Para a estação de televisão? Por que motivo ainda não lhe teriam dito nada? E depois lembrou-se... Tirara o telefone do descanso durante duas horas quando fora dormir a sesta. «Meu Deus... e se ele... e se ele já está morto?» A soluçar, Kate desligou a televisão e correu para o telefone. Felicia... Felicia devia saber... iria ajudá-la. Sem pensar, marcou o número direto da amiga na loja. Ela ainda lá estava.

Felicia ficou perplexa com as notícias e ordenou a Kate que se mantivesse quieta. Pediu à assistente que lhe chamasse um táxi e ligou para a Polícia, a pedir informações. Tom encontrava-se no São Francisco General. Ainda estava vivo mas em estado grave. Felicia saiu do escritório a correr, perguntando-se porque lhe teria ligado Kate. Com certeza devia haver outras pessoas. A mãe, uma amiga, outra pessoa? Ela e Kate tinham uma boa relação de trabalho, mas fora disso não se encontravam multo. Kate andava sempre muito entretida com Tom. A vida daquela rapariga era o homem que estava a morrer no São Francisco General.

Quando Felicia chegou a casa de Kate, esta estava bastante transtornada, mas já se vestira. O táxi aguardava-as lá em baixo.

- Vá lá, calça os sapatos.

- Os meus sapatos. - Kate tinha uma expressão vazia.

- Os meus sapatos. - Os seus olhos encheram-se de lágrimas e o rosto exibia uma cor péssima. Felicia foi à procura do roupeiro e tirou de lá uns sapatos pretos rasos.

- Aqui estão.

Kate enfiou-os e saiu de casa sem casaco e sem mala; Felicia cobriu-a com o seu casaco. Kate não iria precisar da mala, pois não se encontrava em condições de ir a mais lado nenhum. E não precisou de o fazer. Felicia ficou consigo durante quatro dias, e ao fim desse tempo Tom continuava vivo. Mantinha-se em coma, e o prognóstico era pessimista. No entanto, continuava vivo, embora tivesse provocado muitos estragos quando disparara contra si próprio. Não voltaria a poder andar, e ainda desconheciam a extensão dos danos provocados no cérebro.

Quando Felicia voltou ao trabalho, Kate agiu como um autômato, movendo-se entre a cabeceira de Tom e o corredor, onde chorava. Felicia fazia-lhe companhia sempre que podia, mas não conseguia tirar Kate do hospital. Ela chorava por Tom. Ficava ali sentada a olhar para o vazio ou a chorar, embora a sua mente se encontrasse noutro lado. O médico teve medo de lhe receitar alguma coisa, por causa do bebê. Felicia ficou muito admirada ao ver que ela ainda não tinha perdido a criança.

Enquanto os jornais criticavam Tom, Kate criticava-se a si própria. Por que motivo não se teria apercebido do que iria acontecer? Porque não adivinhara? Poderia ter ajudado? Teria levado as preocupações dele - seguidas daqueles desperdícios de dinheiro - suficientemente a sério? A culpa era toda sua. Tinha de ser. Com o egotismo da dor, Kate atormentou-se dia após dia. O futebol. Havia sido a vida dele e acabara por matá-lo. Pensar que ele quase liquidara dois homens era ainda mais assustador, embora Kate não acreditasse que ele tivesse sido capaz de o fazer. Não o Tom que ela conhecia. Porém, aquilo que ele fizera fora suficientemente mau. Destruíra-se. pobre e meigo Tom, levado à loucura pela possibilidade de perder o último ano de segurança que quisera dar ao filho. Kate não se permitiu pensar no bebê. Só em Tom. Foi um pesadelo que durou sete semanas, enquanto ela andava de um lado para o outro a chorar, constantemente atormentada pelos jornalistas. E então Tom acordou.

Estava fraco, triste e cansado, mas aos poucos foi recuperando as energias. Iria sobreviver - aquilo que restava dele -, tinham a certeza. Nunca voltaria a andar, mas podia mexer-se. E falar. E pensar. Tal como uma criança. As longas semanas passadas em coma tinham-no feito recuar no tempo e haviam-no deixado no passado, mantendo intactos o seu amor e a sua ternura. Voltara a ser um rapazinho. Não se lembrava do tiroteio, mas reconhecera Kate. Chorou nos seus braços enquanto ela reprimia os soluços que sacudiam o seu corpo assustadoramente magro. A única coisa que Tom entendia era que lhe pertencia. Mas não sabia bem como. Por vezes pensava que ela era sua mãe, às vezes sua amiga. Chamava-lhe Katie. Nunca mais voltaria a chamar-lhe princesa... Katie... era quem ela era agora.

- Vais abandonar-me?

Ela abanou a cabeça com uma expressão grave.

- Não, Tom.

- Nunca?

- Nunca. Amo-te de mais para te abandonar.

Os olhos de Kate encheram-se novamente de lágrimas e ela teve de obrigar o espírito a concentrar-se em coisas vulgares. Não podia permitir-se pensar nele quando dizia aquelas coisas, ou a dor acabaria por destruí-la. Não podia permitir-se chorar. Não podia fazer isso a Tom.

- Também te amo. E és bonita. - Tom fitou-a com os olhos brilhantes de uma criança de sete anos e com o rosto magro, cansado e por barbear de um homem gravemente doente.

Passadas algumas semanas, voltou a parecer melhor, mais saudável, Era estranho ver aquele simulacro de Tom. Parecia que o verdadeiro Tom se tinha ido embora e que mandara no seu lugar um rapazinho parecido com ele. Seria assim para sempre. Porém, o seu estado de saúde decidiu o problema legal. Não havia caso contra ele. Tom Harper deixara de existir.

Três meses depois do que Kate e Felicia apelidavam de «acidente», Tom foi transferido para uma casa de saúde em Carmel. Os fotógrafos rodearam a ambulância quando foi levado na maca para o seu interior. Tom quisera acenar-lhes, e Kate tentara distraí-lo enquanto lhe segurava na mão. Já estava habituada aos jornalistas. Alguns rostos haviam-se tomado familiares. Durante três meses tinham-na destruído nas suas notícias, feito brilhar os flashes no seu rosto, ou subido Para o telhado da sua casa a fim de conseguir ter uma melhor vista do seu apartamento. Kate não tinha ninguém para quem se virar, ninguém que a defendesse. Nem família, nem marido. E os jornalistas sabiam isso. Até publicaram histórias sobre o fato de a família a ter abandonado alguns anos antes por causa de Tom e como a consideravam morta. E Kate deitara-se na cama à noite, a soluçar, a rezar para que a imprensa se fosse embora e a deixasse em paz. Porém, as suas preces não foram ouvidas. Nem um único dia. Até ele ser transferido para Carmel. Então, como que por magia, pareceram esquecê-la. Era como se Tom tivesse deixado de existir, bem como Kate, a sua mulher. Tinham deixado ambos o círculo mágico. Finalmente.

Quando Tom saiu de São Francisco, Kate foi com ele. Já tinha uma casa à espera. Felicia vira o anúncio e a casa era perfeita. O proprietário vivia na costa este; a mãe morrera, deixando-lhe uma casa de que ele não precisava e que não queria vender. Um dia, quando se reformasse, iria para lá; no entanto, serviria de refúgio a Kate, nas montanhas a norte de Santa Barbara. Levava três horas de carro até à casa de saúde em Carmel, mas Felicia calculava que Kate regressaria a São Francisco assim que as coisas ficassem mais calmas e depois de o bebê nascer. Era uma casa bonita, rodeada de árvores e de um enorme terreno, com um pequeno riacho a pouca distância. Seria um bom lugar para recuperar. Teria sido um bom local para partilhar com Tom. Kate tentou não pensar nisso quando assinou o contrato de arrendamento.

Após quatro meses, já se habituara a viver ali; era o seu lar. Acordava de madrugada quando o bebê se agitava e dava pontapés no ventre, ávido de mais espaço. Kate ficava deitada, sentindo-o agitar-se dentro de si, perguntando a si mesma o que havia de dizer-lhe. Pensara em mudar o seu nome, mas decidiu não o fazer. Era Kate Harper. Mais ninguém. Não queria o nome do seu pai. E o filho de Tom seria um Harper. Tom não percebia o que significava a barriga grande, ou talvez não se importasse com isso. As crianças não se importavam, pensou Kate, desde que para elas tudo continuasse na mesma. Nada mudara. Continuou a visitá-lo, tantas vezes como no início, só diminuindo a freqüência das suas visitas à medida que a gravidez foi avançando. Ia lá duas vezes por semana. Estaria sempre junto de Tom, tal como ele estivera sempre junto dela. A sua vida era essa. Já a aceitara. Entendia-a, se é que tal era possível. «Sempre», o que quer que isso significasse. De cada vez que visse Tom, ele estaria na mesma. Até um dia, em que morreria calmamente. Não podia prever esse momento. O médico dissera que poderia viver até «uma idade avançada», embora não até à idade normalmente considerada avançada. Ou poderia morrer dali a um ano, ou até menos. O seu corpo acabaria por definhar e morreria. E ele permitiria que isso acontecesse, embora de forma inconsciente. Kate manter-se-ia a seu lado, a dar-lhe o seu amor. Continuava a parecer-se com o velho Tom e de vez em quando os seus olhos iluminavam-se com aquele brilho mágico. Kate fingia que estava tudo como dantes... embora fosse um jogo fútil. Embalava-o, nos braços como ele a embalara outrora. Já nem sequer chorava.

Kate levantou-se depois de ter falado com Felicia ao telefone, abriu a janela e inspirou profundamente o ar do Verão. Sorriu. Havia flores novas no jardim. Levaria algumas a Tom. Ainda podia amá-lo. Sempre o amaria. Nada mudaria esse fato.

O relógio na mesa-de-cabeceira indicava que eram seis e vinte e cinco. Tinha de despachar-se em meia hora se queria chegar à casa de saúde antes das dez. Era uma viagem cansativa. Uma estranha maneira de se tornar adulta - mas era o seu destino. O bebê agitou-se no seu ventre quando ela despiu a camisa de dormir e entrou no chuveiro. Tinha um longo dia pela frente.