Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 21 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 23 · - Kate?

- Hum?

Estava a dormir no avião, no banco ao lado do dele. Já há vários dias que andava numa grande agitação. Insistira em «dar aulas» na sexta; porém, a viagem a Carmel dera-lhe a oportunidade de fazer compras. Haviam passado o fim-de-semana na casa de Santa Barbara, Joey também, e no domingo à noite ela e Nick tinham seguido para Los Angeles, a fim de poderem arrancar juntos na segunda de manhã. Era a primeira vez que ele não fazia a viagem com Jasper. Queria estar sozinho com Kate. Uma olhadela ao relógio informou-o de que iriam aterrar em Nova Iorque dali a uma hora. Beijou-a ao de leve na cabeça e prendeu a mão dela nas suas.

- Miss Harper, amo-a. - Nick disse as palavras mais para si próprio do que para Kate, mas ela surpreendeu-o abrindo um olho e esboçando um bocejo que se transformou num sorriso.

- Também te amo. Que horas são?

- Na nossa hora são duas da tarde. Aqui são cinco. Aterramos às seis.

- E depois? - Kate ainda nem se lembrara de lhe perguntar. Esticou as pernas sob o banco da frente e olhou para o seu fato creme. Já o vestira mais vezes do que esperara quando o comprara, - Oli, meu Deus!

- O que foi?

Kate olhava para ele com o terror estampado nos olhos verdes que ele adorava.

- E o Tygue? Esqueceste-te de alguma coisa?

- Não. E a Licia. Esqueci-me de lhe dizer que ia viajar. Se ela telefonar e a Tillie lhe disser que fui para Nova Iorque, ela tem um ataque.

- Achas que não vai gostar? - Nick tinha curiosidade em conhecer esta pessoa que era tão importante na vida de Kate. Talvez ela o detestasse, talvez tivesse ciúmes do papel dele na vida de Kate. Fitou-a com curiosidade.

- A Licia? Não gostar? - Kate encostou-se a ele com uma gargalhada. - Ela era capaz de te dar uma medalha por me teres tirado do meu buraco.

- Já lhe falaste de mim?

Kate abanou a cabeça. Ainda não. E não sabia bem porquê. Talvez tivesse medo que a magia desaparecesse e depois de contar a Licia seria mais difícil suportar a perda de Nick se ele se afastasse.

- Não, ainda não,

- Gostava de a conhecer. Deve ser uma grande mulher. Achas que iria simpatizar com ela?

- Acho que sim. - E se não simpatizasse? Ela adorava Felicia, sempre adoraria. Porém, já se sentia cada vez mais pertença do mundo de Nick. Este ocupava um lugar especial na sua vida.

Nick reparou na expressão séria do seu olhar e puxou-a para si.

- As vezes ficas tão pensativa, querida. Um dia vais deixar de ficar. - Quando Kate se punha assim, Nick sabia que ela estava a pensar em Tom.

- Vou deixar de ficar como?

- Como se o teu único amigo te fosse abandonar. - Tens a certeza de que não vai?

- A certeza absoluta.

Kate percebeu que ele falava verdade e sentiu-se em paz quando fechou os olhos. Era tão feliz com ele. Porém, isso não podia durar para sempre. Nada durava, independentemente do que ele pudesse dizer. Tom também fizera promessas, mas na altura ela não tinha as mesmas preocupações. Não percebera ainda que as coisas podiam chegar ao m muito depressa.

- Estás com medo de Nova Iorque?

Nick obrigou-a a voltar de novo ao presente, erguendo o rosto dela na direção do seu. Sorria-lhe e ela retribuiu o sorriso.

- Às vezes. De vez em quando entro em pânico e apetecer-me esconder na casa de banho das senhoras, mas depois esqueço-me e fico cheia de curiosidade. Já passou tanto tempo que mal me lembro.

- Ótimo. Quero que encares tudo como se fosse a primeira vez - respondeu Nick com ar satisfeito. Iam ficar instalados no Regency, a três quarteirões do hotel de Jasper. Este era fã do Pierre. Nick desejava ficar noutro lado para que Kate não se sentisse pouco à vontade. - A propósito, reservei quartos separados.

- Reservaste? - perguntou ela, desapontada, e Nick soltou uma gargalhada.

- Não faças essa cara, tontinha. Ficam ao lado um do outro, e podemos usar um como escritório. Achei que era melhor, não fosse um jornalista metediço descobrir que estamos juntos. Assim, encontramo-nos apenas no mesmo hotel. Uma coincidência agradável.

- Como é que consegues pensar em tudo? - perguntou ela mais animada. - Em sapatos de cristal, em quartos separados para proteger a minha boa reputação... Há alguma coisa em que não penses?

- É por isso que sou o produtor do programa do Jasper já há tantos anos, querida. Faz tudo parte do meu trabalho.

- Porém, Kate sabia que fazia parte da natureza dele. Trocaram outro sorriso e olharam para a cidade. Lá fora o dia ainda estava claro, e estaria ainda durante várias horas, embora já se notasse que a tarde ia adiantada. - A propósito, vai estar um calor terrível. Trouxeste muita roupa reduzida?

Kate soltou uma gargalhada ao aceitar o copo de champanhe que ele lhe estendia. Era maravilhoso viajar em primeira classe e beber champanhe de costa a costa.

- Fiz o que pude. Não tive muito tempo para fazer compras. - E Carmel não era São Francisco, mas mesmo assim ela não se saíra mal. Quando abandonaram o avião em Nova Iorque percebeu o que Nick queria dizer em relação ao calor. Nunca ali tinha ido no pino do Verão e a temperatura era elevadíssima, mesmo às seis da tarde.

Nick providenciara para que o atendimento a clientes especiais da companhia aérea se ocupasse deles à chegada, e foram ambos imediatamente conduzidos à porta do terminal. As malas seriam separadas das dos outros passageiros e levadas para o carro. O pequeno carro elétrico zumbia, abrindo caminho entre a multidão. Toda a gente parecia estar cheia de calor, de cansaço e muito pálida, contrariamente ao aspecto bronzeado e saudável dos californianos. Já há muito que Kate não via pessoas assim, e ainda por cima em tão grande número. Sentiu-se sem fôlego enquanto abriam caminho por entre a multidão no terminal gelado. O ar condicionado estava a trabalhar no máximo, refrescando as pessoas quentes, cansadas e transpiradas.

- Admira-me que não morram de pneumonia - observou Kate apertando com força a mão de Nick no carro elétrico e olhando em volta. Em seu redor havia muito movimento e barulho. Era simultaneamente medonho e fascinante. Como visitar outro planeta.

- Admira é que não morram com falta de ar, queres tu dizer. Já tinhas visto tanta gente?

Kate abanou a cabeça. Nick tratara de tudo com muito cuidado, para que ela não se sentisse intimidada logo à chegada. Já se encontravam na porta do terminal e o motorista aguardava-os na berma.

Passaram pela porta giratória e Kate sentiu a multidão empurrá-la para o exterior, para o que parecia ser o vácuo.

O tempo estava tórrido e úmido e não corria uma aragem.

- Meu Deus! - Assemelhava-se a ter entrado no estômago de um elefante.

- Muito agradável, não é? - perguntou Nick com um sorriso e Kate fez uma careta. O motorista abriu a porta do carro, que estava fresco devido ao ar condicionado, e Nick incitou-a a entrar. Cinco minutos depois, o motorista tinha as malas deles e iam a caminho da cidade. Kate olhou por cima do ombro através do vidro fumado da limusine e viu a fila de pessoas que aguardava táxi. Reparou num taxista baixo e gordo que abanava um charuto junto à cara de outro homem, e quando a limusine se afastou ela soltou uma gargalhada. - Não é de loucos?

- Parece um circo. - Não se recordava de que a cidade fosse tão intensa. Tudo parecera mais calmo na altura em que ali estivera nas férias da Páscoa com os pais, quando tinha dezessete anos. Haviam ficado instalados no Plaza e lanchado no Palm Court e num sítio chamado Rose-Marie. Tudo isso parecia já ter acontecido há mil anos. Tom nunca a deixara ir a Nova Iorque consigo. Odiava a cidade e normalmente ficava instalado nos arredores em casa de amigos. Kate percebia agora porquê. Aquele lugar não era para Tom, nem para Nick, embora este parecesse sentir-se completamente à vontade. Protegera-a de todas as coisas desagradáveis, até do calor.

Kate observou o tráfego intenso enquanto iam a caminho do hotel. Mesmo em Park Avenue os carros avançavam como se estivessem zangados. Solavanco, paragem, travadela, buzinadela, grito e novo solavanco. O barulho era ensurdecedor, mesmo no habitáculo da limusine.

- Como é que as pessoas agüentam? -Não sei. Ou não reparam, ou adoram.

Mas o mais louco era que Kate também adorava. Adorava a vivacidade de tudo aquilo. A agitação e o brilho, o crepitar das coisas à medida que tudo se movia a grande velocidade. Apeteceu-lhe sair do carro protetor e caminhar. Mas teve receio que Nick pensasse que era doida. E ingrata. Ele que fizera o possível e o impossível para a proteger dos seus medos. Contudo, ali estava ela, desejosa de abrir caminho entre a multidão.

Chegaram ao Regency e o motorista entregou-a nas mãos protetoras do porteiro, de onde Nick a tirou, conduzindo-a lá para dentro. Era conhecido no hotel. Assinou o impresso na recepção e foram de imediato conduzidos aos quartos.

O de Kate era uma suíte, o dele um enorme quarto com uma porta que dava para a sala dela. Decidiram usar o quarto dele como escritório e o dela como «lar». As malas foram postas em prateleiras douradas e brancas, e Kate olhou em volta enquanto os seus pés se afundavam na alcatifa espessa; depois, com um suspiro, sentou-se no sofá de seda cor-de-rosa. Tudo era muito discreto e bonito. Parecia uma aquarela inglesa e tinham uma bonita vista da cidade da janela voltada para sul. Kate tomou a olhar em volta e depois para Nick, com um sorriso e um suspiro. Sentia-se como a pobre menina rica, protegida de tudo o que era divertido como a terra e o barulho e todas as pessoas loucas que ela desejava ver e de quem desejava correr ao lado. Nick tivera as melhores intenções quando a protegera de tudo isso, mas ela tinha a sensação de que assim as coisas mais divertidas ficavam fora do seu alcance. Talvez fosse uma parvoíce sentir-se assim, mas o certo é que sentia. De súbito, apeteceu-lhe libertar-se da carapaça, e até de Nick... do passado... de Tom... de Tygue... de todos eles. Apeteceu-lhe ser livre.

- Queres beber alguma coisa? - perguntou ele alargando o nó da gravata e sorrindo. Reservara mesa no Caravelle. Pedira à secretária que o fizesse de Los Angeles nessa manhã. A reserva era para as nove, pois Nick achava que não iriam ter fome até essa hora. Assim ficariam com tempo para beber qualquer coisa e descansar, se calhar de ir ainda até ao bar do hotel e depois para um jantar calmo.

Kate abanou a cabeça em resposta.

- O que se passa, Cinderela? Pareces nervosa. Queres telefonar agora à Licia?

- Não - respondeu Kate. E também não queria telefonar a Tygue. Ainda não.

- Então o que te apetece fazer? - Nick sentou-se ao lado dela no sofá e pôs um braço por cima dos seus ombros. Kate soltou uma gargalhada. Gostou de ver o brilho nos olhos dela. Nova Iorque já estava a fazer-lhe bem. Parecia que ela ganhara vida. - Os teus desejos são ordens.

- É sério?

- Claro que é a sério.

- Está bem. Quero ir dar uma volta.

- Agora? - perguntou Nick, perplexo. As sete da tarde ainda estavam trinta e cinco graus e a umidade era quase de cem por cento. - Com este calor? - Ela assentiu alegremente e ele riu-se. Compreendia. Kate, que vivera escondida durante anos, quase desde que saíra da adolescência, era de novo jovem e tinha fome de viver. - Okay, Cinderela, tu mandas. Queres mudar de roupa primeiro? - Ela abanou a cabeça com um sorriso igual ao do filho. - Nesse caso disse Nick, dando-lhe o braço quando se levantaram -, vamos andando.

Era mesmo aquilo que ela queria. Subiram Madison Avenue e viram todas as montras, depois foram ao Central Park, onde ainda havia pessoas a brincar na relva. Atiravam-se bolas, ouviam-se rádios, os autocarros passavam e os fiacres rodavam atrás de cavalos cansados e cobertos de flores. Parecia que alguém pegara em todas as partes, em todos os rostos, em todos os carros, em todos os cheiros, em todas as cores e os tivesse reunido numa cidade, dando-lhe o nome de Nova Iorque.

- Caramba, adoro isto! - exclamou Kate, inspirando profundamente o ar poluído e suspirando de prazer. -Acho que criei um monstro - observou Nick a rir.

Adorava vê-la tão animada. Parecia tão viva. Devia ter tido aquilo já há muitos anos. O fogo, a animação e o êxito. Estava satisfeito por poder partilhá-los com ela, Nick olhou para o relógio. Já passava das oito e encontravam-se perto da Rua 61 e da Quinta Avenida, a dois quarteirões do hotel. Já tinham andado pelo menos vinte, absorvendo tudo: Kate a admirar a cidade com paixão e ele a observá-la, deliciado. Queres ir agora mudar de roupa?

- Onde é que vamos?

- Ao melhor restaurante da cidade. Tudo por ti, Cinderela - proferiu, abarcando com uma mão a cidade.

Kate foi a sorrir até ao hotel e quando Nick fechou a porta do quarto, avançou para ele com um brilho nos olhos.

- Isso quer dizer aquilo que eu penso? - perguntou ele a sorrir da porta da casa de banho.

Kate estendeu as mãos e abriu-lhe o fecho das calças.

- Quer sim senhor.

- Minha senhora, não sei o que é que esta cidade está a fazer consigo, mas agrada-me.

Não chegaram ao quarto; fizeram amor na alcatifa da sala. A língua de Kate e as suas mãos delicadas fizeram Nick gemer de prazer. Desta vez foi ela quem tomou as iniciativas. No fim, Kate esboçou um sorriso de vitória na penumbra da sala, feliz com a sua vida.