Tempo para Amar
Capítulo 28 · Chovia a cântaros quando regressou a São…
Chovia a cântaros quando regressou a São Francisco. Onde estava o maravilhoso clima de Outubro de que Felicia andava sempre a falar? Bolas, chovia sem parar já há alguns dias. Chovera nas últimas três vezes em que fora a Carmel. Até chovera em Carmel. E Tom não gostava de chuva. Estava muito pálido e comia pouco. Parecia uma criança a chocar uma doença grave. Agarrava na mão dela durante horas e implorava-lhe que lhe contasse histórias, fitando-a com aqueles olhos que pareciam vê-Ia, vê-Ia realmente, mas que nunca viam, Aqueles olhos continuavam sem lembrar-se de nada. E os seus braços continuavam a estender-se para ela quando lhe chamava «Katie» tal como Tygue lhe chamava «mãe». Ultimamente parecia tão debilitado! Há muito que estava assim, mas parecia piorar a olhos vistos. Deixara de brincar. Deixara de rir. Mr. Erhard também andava preocupado. Porém, o diretor de Mead disse que era «normal». Normal... o que raio era normal num homem que pensava como uma criança? Um homem que outrora tivera tanta energia e agora vivia numa cadeira de rodas e brincava com aviões de papel como se tivesse sete anos? O médico insistia que as pessoas na situação de Tom pareciam «apagar-se» de tempos a tempos, até que um dia... Porém, esse dia poderia ainda encontrar-se muito longe. Entretanto, ele podia ter aquelas «crises» e continuar a lutar desde que uma pessoa cativasse a sua atenção e o «desafiasse». Contudo, admitia o diretor, isso muitas vezes não alterava nada. Admitia também que as crises poderiam ser cada vez mais freqüentes até terminarem por completo. Era uma coisa neurológica, inevitável, mas um pouco grave. Kate não percebia, tal como não percebia o que acontecera durante os últimos sete anos. Fosse o que fosse, Tom andava estranho há quase um mês. E pressentia que Nick desejava que ela deixasse de ir a Carmel. «Bolas!», pensou Kate com um suspiro enquanto saía da via rápida e entrava na Rua Franklin. Ia saber-lhe bem chegar a casa. Estava tão cansada. Ainda bem que Nick não estivera a pé quando ela partira naquela manhã.
Kate levantara-se mais cedo nas últimas duas semanas para não ter de falar com ele e fazia tudo para que ele não pensasse nas suas visitas a Carmel.
Virou à esquerda na Rua Green, seguiu para oeste quase até chegar a Presidio e virou subitamente para um caminho estreito e curvo pavimentado a tijolo. Ali, escondida entre a vegetação, pelas sebes, árvores e arbustos, encontrava-se a sua casa. Embora vivesse ali há pouco mais de um mês, gostava mais dela do que de todas as outras casas onde vivera; talvez porque ali fosse tão feliz.
Entrou em casa com um suspiro de alívio. Eram apenas quatro e vinte. Tygue encontrava-se na aula de Arte e chegaria a casa às cinco menos um quarto. Chegara mesmo a tempo. E o Ferrari não estava à vista. Ótimo. Assim não eram necessárias explicações, desculpas, conversas que encobrissem a sua preocupação e o seu sofrimento. Era sempre tão difícil enfrentar Nick depois da viagem! Ele também não gostava; via sempre demasiado. Kate descalçou os sapatos molhados e deixou-os no tapete do vestíbulo. Pendurou o chapéu-de-chuva na cozinha e, com outro suspiro, sentou-se à mesa e pousou a cabeça nos braços.
- Olá, Kate. - A voz encontrava-se apenas a alguns centímetros, e ela deu um salto com uma expressão de terror no olhar. - Oli, querida, desculpa! - exclamou Nick, abraçando-a ao vê-la tremer. Kate não disse nada; não lhe apetecia entrar no jogo habitual. julgara que ele não estava em casa. Contudo, Nick estivera ali sentado, a observá-la do canto, e ela nem sequer reparara.
- Pregaste-me um grande susto - disse Kate com um sorriso trêmulo. - Não sabia que estavas em casa. Que tal correu o teu dia? - O seu esforço foi em vão, porque Nick não se deixou distrair. Parecia estranhamente sério e foi até ao fogão sem se incomodar a responder-lhe.
- Queres chá?
- Boa idéia. Há algum problema? - perguntou Kate. Detestava vê-lo assim. Fazia-lhe lembrar a forma como o pai a olhava quando chegava o boletim da escola com as notas.
O seu coração bateu com força, tal como havia batido durante a última discussão sobre Carmel. Mas desta vez era pior. Kate não sabia porquê, mas pressentia que era.
- Há algum problema? - insistiu.
- Não, não há - respondeu Nick. Senti a tua falta - acrescentou, virando-se para ela já com a xícara de chá na mão. A água já estava a ferver quando Kate entrara na cozinha e ela nem reparara no vapor, de tão cansada que estava. Agora sentia-se apavorada e continuava sem saber porque.
- Eu também senti a tua falta.
Ele assentiu e pegou noutra xícara. -Vamos lá para cima.
- Está bem. - O sorriso de Kate não foi correspondido. Pegou na xícara e seguiu-o até ao escritório no segundo andar. Nick instalou-se na sua poltrona preferida, de cabedal vermelho, macio como cetim e muito confortável, que exalava o cheiro do bom cabedal. Tinha uma otomana a condizer, mas ele desviou-a para o lado com o pé. Não se sentara ali para descontrair. Depois, fez uma coisa inesperada: pousou a xícara e estendeu os braços para Kate. Ela aproximou-se e ajoelhou-se no chão. - Amo-te, Nick.
- Eu sei. também te amo, mais do que alguma vez amei alguém. - Olhou para ela, esboçando um sorriso cansado, e suspirou. - Precisamos de ter uma conversa. Tenho muito para te dizer. Não sei por onde começar, mas talvez tenhamos começado bem. Amo-te, Kate, já há muito que estou à espera que sejas franca comigo, mas ainda não foste. Por isso acho que chegou a altura de termos uma conversa. O que mais me incomoda é o fato de não confiares em mim.
- Isso não é verdade - retorquiu ela, parecendo magoada, embora por dentro estivesse em pânico. O que queria ele dizer? Saberia? Como? Quem lhe contara?
- É verdade. Se confiasses em mim, ter-me-ias falado de Carmel. E do Tom.
Fez-se um silêncio interminável e Kate olhou para ele.
- O que tem o Tom? - perguntou ela, tentando empatar a conversa e pousando a xícara no chão com uma mão trêmula.
- Sei pouca coisa, Kate. Desde o início que desconfiei. No teu livro revelavas saber muito de futebol, do que se passava nos bastidores. Investiguei. Não muito, mas foi o suficiente para descobrir que tinhas sido casada com Tom Harper, o famoso Tom Harper, que ele dera um tiro nele próprio, ficara paralisado, e que mentalmente... bem, não sei o termo exato. Sei que ele foi transferido para uma casa de saúde em Carmel depois de ter estado bastante tempo internado num hospital, mas não consegui saber o nome dela. Fiquei a saber que ele não morrera, e creio que ainda deve ser vivo. Acho que é isso que vais fazer a Carmel. Visitá-lo e não ensinar crianças deficientes. Eu posso entender isso, Kate, posso até aceitá-lo, posso entender uma série de coisas. O que não entendo é por que motivo não me contaste, por que motivo não me disseste a verdade. Isso é que me magoa. - Tinha lágrimas nos olhos e, quando se calou, Kate soltou um suspiro trêmulo.
- Porque não me disseste que sabias? Tenho andado a fazer papel de parva, não tenho?
- E isso que te incomoda? Que tenhas feito figura de parva? - perguntou ele, irritado.
Ela abanou a cabeça e desviou o olhar. -Não. Só que... não sei o que dizer.
- Diz-me a verdade, Kate. Diz-me como é. Em que estado é que ele está, se o amas, se gostas de viver assim, como é que fica a nossa relação... Não sei se posso ter esperança, ou se ele vai recuperar. Tenho direito a saber... tinha esse direito logo de início. Não te disse nada porque esperava que tu confiasses em mim o suficiente para me contares. Mas não chegaste a contar, tive de ser eu a intervir.
- Acho que queria proteger-vos aos dois.
- E talvez a ti própria - retorquiu ele, olhando para a baía.
- Sim - anuiu ela baixinho. - E talvez a mim própria. Amo-te, Nick. Não quero perder-te. Nunca tive com ninguém aquilo que tenho contigo. O Tom conheceu-me quando eu era criança. E fui uma criança até... até ao acidente. Agora a criança é ele. Parece um rapazinho, Nick. Brinca, faz desenhos, é menos desenvolvido do que o Tygue. Farta-se de chorar... e precisa de mim. E há-de ter-me até querer. Não posso tirar-lhe isso, não posso abandoná-lo!
- Ninguém te pede que o faças, Kate. Eu nunca te pediria uma coisa dessas. Mas só queria saber. Queria ouvi-lo da tua boca. Ele ficará assim durante muito mais tempo?
- Até ao fim, venha ele quando vier. Poderá levar dias, meses ou anos. Ninguém sabe. E entretanto eu vou indo lá visitá-lo.
- Como é que agüentas? - perguntou Nick virando-se para ela, e nos seus olhos havia dor e compaixão.
Kate esboçou um sorriso triste.
- Devo-lhe isso, Nick. Ele já foi tudo para mim. Era tudo o que eu tinha quando os meus pais me fecharam a porta. Ele deu-me tudo. Agora só posso dar-lhe algumas horas por semana. Tenho de lhas dar- acrescentou em tom de desafio.
- Compreendo - disse Nick, aproximando-se e abraçando-a com um suspiro. - É uma coisa que tens de fazer. Respeito isso. Mas gostava que não fosse tão difícil para ti.
- Já não é tão difícil como dantes. Habituei-me há muito, muito tempo, se é que é possível habituarmo-nos a uma coisa destas. Pelo menos já não me choco... nem fico tão destroçada como dantes.
- A Felicia ajudou-te na altura, querida? - perguntou ele, apertando-a nos braços.
Kate sorriu. Era um alívio contar-lhe, e detestou-se por não o ter feito antes.
- Sim, ajudou-me sempre. Foi maravilhosa. Até esteve na sala de parto quando o Tygue nasceu.
- Quem me dera ter lá estado.
Kate esboçou um sorriso cansado. Sentia-se em paz como já não se sentia há anos. Agora Nick sabia tudo, já não havia mais segredos. Não precisava de temer que ele descobrisse. - Tive tanto medo da tua reação.
- Porquê?
- Porque sou casada. Porque não sou livre. Isso não é justo para ti.
- Não faz diferença nenhuma. Um dia hás-de deixar de ser casada. Temos tempo, Kate. Temos a vida toda à nossa frente.
- És um homem incrível, Nicholas Waterman.
- Tretas. No meu lugar farias o mesmo. Kate?
- Hum?
- Os teus pais nunca te contataram depois de ele... depois do acidente? - Já percebera que era o eufemismo que ela usava para se referir ao tiroteio.
- Nunca. Tomaram uma decisão quando fui viver com o Tom, e ponto final. O que o Tom fez depois veio confirmar aquilo que eles pensavam a seu respeito, e creio que não me consideravam melhor do que ele. Havia pessoas aceitáveis e pessoas inaceitáveis... Eu deixara de ser aceitável por causa do Tom, pelo que eles se sentiram justificados ao expulsar-me das suas vidas.
- Não sei como é que puderam estar bem consigo próprios.
- Eu também não, mas o problema já não é meu. Deixou de o ser há bastante tempo. Passou-se tudo há uma eternidade. Ainda bem. Acabou. A única coisa que ainda continua, e que continuará, é a minha obrigação em relação ao Tom.
- O Tygue não sabe, pois não? - Nick tinha quase a certeza, mas havia sempre a possibilidade de a criança lho ter escondido.
- Não. A Felicia diz que um dia vou ter de lhe contar, mas ainda não fui capaz. E ainda é demasiado cedo.
Nick assentiu e depois olhou para ela com uma expressão estranha.
- Posso fazer-te uma pergunta pessoal?
- Claro.
- Ainda... ainda amas o Tom? - obrigou-se a perguntar. Tinha de saber.
- Achas que podia amá-lo como te amo, que podia viver contigo e ser tua se o amasse? - retorquiu Kate espantada. - Sim, amo-o, mas como a uma criança, tal como amo o Tygue. Ele não é um homem, Nick. É o meu passado... apenas um fantasma... o fantasma de uma criança.
- Desculpa ter perguntado.
- Não peças desculpa. Tens direito a todas as respostas. E creio que é difícil perceber. Ali não existe nenhum homem que eu possa amar. Oli, antes de tu apareceres, eu fingia de vez em quando que ainda restava qualquer coisa. Mas era mentira. Deixou de haver há já sete anos. Vou vê-lo porque lho devo. Porque ele já foi bom para mim, porque há muito tempo o amei mais do que a qualquer outra pessoa e porque o Tygue é filho dele. - Começou a chorar e as lágrimas deslizaram-lhe pelo rosto. - Mas amo-te, Nick, amo-te... como... nunca o amei. Esperei tanto tempo por ti!
Nick puxou-a para si e apertou-a com tanta força que ficaram ambos admirados com a intensidade desse abraço. Ele também precisava desesperadamente de Kate. Precisava dela há muito tempo.
- Oli, querida, lamento imenso. Ela afastou-se com um suspiro.
- Desde que o livro se transformou num êxito, tenho muito medo que alguém descubra. Que alguém desenterre toda aquela porcaria e ma atire à cara. - Nick compreendia perfeitamente o que ela sentira e aquilo por que passara. Era de admirar que tivesse ido a Los Angeles. - E quando disseste que tinhas jogado futebol, pensei que morria! - exclamou com uma gargalhada.
Nick estava muito pálido.
- O mais engraçado é que o conheci, embora não muito bem. Não joguei durante muito tempo, e quando entrei no mundo do futebol ele já estava no topo. Mas pareceu-me ser um tipo porreiro.
- Era. - Kate pareceu triste ao dizer aquela palavra. «Era.»
- Porque é que ele fez aquilo? - Os jornais não haviam esclarecido nada. E os jornalistas tinham ignorado, pura e simplesmente os motivos de Tom.
- Por causa da pressão. Do medo. Começara a ser posto de parte e isso estava a dar cabo dele. Não tinha mais nada na vida, só o futebol. Não sabia fazer mais nada. Para além disso, investira muito mal o dinheiro e queria tudo para o Tygue. Era só nele que conseguia pensar. «O seu filho.» Queria jogar mais uma época para poder amealhar uma fortuna para o Tygue. E correram com ele. Leste os jornais, sabes o resto. Nick assentiu.
- Ele sabe que o Tygue existe?
- Não iria perceber. Visitei-o durante a gravidez. Não mostrou nem curiosidade nem interesse na minha barriga, tal como as crianças daquela idade. Acho que pensou apenas que eu estava gorda.
- Houve alguma mudança ao longo dos anos? - perguntou ele com um certo embaraço.
Ela abanou a cabeça.
- Não, salvo nas últimas semanas. Ele está estranho, mas o médico diz que é normal.
- O sítio é bom?
- Sim, bastante. - Estendeu a mão para Nick e ele sentou-se no chão ao lado dela. - Amo-te, Nick, embora me tenhas pregado um grande susto. Pensei que ias dizer-me que estava tudo acabado entre nós.
- O que queres dizer com isso, sua maluca? Achas mesmo que eu iria deixar-te partir?
- Sou uma mulher casada, Nick - salientou Kate num tom de desespero. Sabia o quanto Nick queria casar, e isso era impossível, pelo menos enquanto Tom fosse vivo.
- E depois? Incomoda-te o fato de seres casada, Kate? Ela abanou a cabeça.
- Pensei muito nisso antes de ir ter contigo este Verão a Santa Barbara. No meu coração, já não sou casada.
- Isso é que importa. O resto só diz respeito a nós. Foi apenas por causa disso que não quiseste contar-me, Kate?
- Não... bem... em parte, sim. E também por covardia. Ocultara a história durante tanto tempo que não me imaginava a contar a verdade. E quando pensei contar-lhe, parecia impossível começar pelo princípio e admitir que mentira. Como é que podemos dizer a alguém: «Ah, lembras-te quando te disse que era viúva? Bem, estava a mentir. O meu mando encontra-se numa casa de saúde em Carmel e eu vou visitá-lo algumas vezes por semana.» Não sei, Nick, pareceu-me uma coisa de loucos e o fato de ter de admitir o que aconteceu, de ter de falar no assunto é quase o mesmo que reviVer tudo. Que sentir tudo outra vez.
- Lamento - disse ele, apertando-a contra si.
- Eu se calhar não lamento. Talvez tivesse já chegado a altura de dizer a verdade. Mas sabes do que também tive medo? De que assim que soubesses me quisesses impedir de ir visitar o Tom. Eu não podia fazer isso, Nick, ele significa muito para mim. Devo-lhe isso.
- E só por isso que o visitas? Porque estás em dívida para com ele?
Kate abanou a cabeça.
- Não. É por várias razões. Porque o amei, por causa da força que ele me deu em certas alturas, por causa daquilo que partilhamos... por causa do Tygue... Nunca seria capaz de deixar de lá ir, e achei que ninguém poderia compreender a situação. Nem sequer tu. Faz sentido?
- Muito, Kate, mas não tenho o direito de te tirar isso. Ninguém tem.
- E consegues viver assim?
- Agora que já tudo se esclareceu entre nós, consigo. Respeito o que estás a fazer, Kate. Meu Deus, se algum dia me acontecesse uma coisa parecida... Seria incrível perceber que havia alguém que se importava o suficiente para continuar a visitar-me até ao fim da vida.
Ela suspirou.
- Não é assim tão nobre como queres dar a entender. Às vezes é até muito difícil. E extenuante e detesto.
- Mas o importante é que não desistes.
- Talvez seja. E não posso desistir, Nick.
- Compreendo. - Aquele momento de sobriedade e de paz selou entre ambos um pato de compreensão. Nick bebeu um gole de chá e voltou a olhar para ela. - Mas o que vais fazer se alguém descobrir? Se alguém desenterrar o passado? Calculo que tenhas pensado na possibilidade.
- Sim e não. Só consigo exporme publicamente se pensar que isso nunca vai acontecer. Se achasse que podia acontecer, não voltava a sair de casa.
- Isso seria muito agradável. - Trocaram o primeiro sorriso sentido da última hora. - Mas agora a sério.
- Não sei, querido - disse Kate com um suspiro, deitando-se no tapete. - Não sei o que faria. Talvez fugir, entrar em pânico, sei lá. Mas já não faz tanta diferença agora que sabes tudo. Claro que ainda há o Tygue. - Suspirou e depois acudiu-lhe uma recordação. - Recordas-te da festa a que me levaste em Los Angeles, depois de eu ter ido ao programa do Jasper?
Ele assentiu.
- Aquele tipo que disse uma coisa que te perturbou? Ele sabia? - Caramba, não admirava que ela se tivesse assustado. -Nem por isso. Lembrou-se de pegar no meu nome.
Harper. E contou-me tudo acerca de um jogador de futebol chamado «Joe, ou Jim, ou qualquer coisa do gênero» que enlouqueceu e, bem... ele conhecia mais ou menos a história. Perguntou-me se eu era da família do jogador como se estivesse a dizer uma coisa muito engraçada. E é claro que eu entrei em pânico.
- Pobre querida. Não admira. Mas por que motivo não mudaste o apelido depois de aquilo acontecer?
- Achei que não era justo para o Tygue. O Tygue era filho dele, tinha de se chamar Harper. Mudar o meu nome parecia-me uma grande desfeita para o Tom. Não que ele tivesse dado por isso. Mas não sei. Decidi manter-me fiel aos meus princípios.
- E em relação ao Tygue, agora? Não podes esconder isto dele para sempre. E se alguém um dia lhe disser que o pai quase matou dois homens e arruinou a própria vida? Não vai ser muito agradável. Deves-lhe a verdade, Kate. Pelo menos uma parte que ele possa compreender nesta idade. Vais levá-lo a ver o pai?
- Nunca. Isso seria impossível. O Tom não perceberia e o Tygue ficaria tristíssimo. O Tom não é um pai. E uma criança indefesa no corpo arruinado de um homem. O Tygue teria que ser adulto para agüentar a situação. E porque terá isso de acontecer? Não o conhece. É melhor assim. E quando o Tygue for suficientemente crescido para compreender... Hesitou com um soluço. Olhou para Nick, mas o seu rosto ostentava uma expressão grave. - O que foi aquilo? - perguntou ela, imóvel.
Nick inclinou a cabeça. - Nada. Porquê?
- Ouvi... Oli, meu Deus... - Só então percebeu. Tinham-se ambos esquecido de que já eram horas de Tygue estar em casa. O relógio atrás de Nick marcava cinco e um quarto. Ele já estava em casa há meia hora. Há tempo suficiente para ... Então, sem pensar, Kate virou-se e viu-o ali, em silêncio, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara. Tygue. Avançaram para ele ao mesmo tempo e ele desceu as escadas a correr, a soluçar, enquanto lhes gritava:
- Deixem-me em paz... deixem-me em paz...