Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 15 de 32

Páginas do PDF

Tempo para Amar

Capítulo 15 · O carro abrandou e estacionou em frente…

O carro abrandou e estacionou em frente à entrada do hotel. O porteiro e três carregadores aproximaram-se, de imediato. Três? Para uma carrinha? Kate olhou em volta, nervosa. Trouxera apenas uma mala pequena. Sorriu, pouco à vontade, a um dos carregadores, mas a expressão dele manteve-se inalterada enquanto ela saía do carro. O homem sentou-se ao volante enquanto um dos outros carregadores lhe pegava na mala. O terceiro desapareceu e o porteiro tinha um ar imponente. Atrás do carro de Kate pararam um Rolls Royce vermelho e um Jaguar preto. Do hotel saiu um grande grupo de carregadores. A atividade era grande. Malas, tacos de golfe, casacos de peles, carros anônimos que chegavam e partiam e um constante tocar de mãos com o porteiro. Enquanto Kate remexia na mala, levantou os olhos para ver quanto é que o homem mais perto dela dava ao porteiro e ficou sem fôlego ao ver uma nota de dez dólares trocar de mãos. Dez dólares? Deus do Céu, esperou que não tivesse dito aquilo em voz alta. Outra olhadela à esquerda e viu uma nota de cinco. Era uma loucura. Já tinham passado dez anos desde que se ocupara daquele gênero de coisas quando viajava com Tom. Mas dar cinco e dez dólares ao porteiro? As coisas não podiam ter mudado tanto em sete anos. Porém, estava em Hollywood. As próprias indumentárias o indicavam. As pessoas que saíam dos carros vestiam calças de ganga colantes, camisas igualmente justas, abertas até à cintura, enormes quantidades de ouro e muita seda de cores vivas que pendia de corpos esculturais e de homens de meia-idade. E, aqui e ali, um fato escuro entrava à pressa no hotel, presumivelmente para se metamorfosear e emergir em calças de ganga.

- Tem reserva, minha senhora?

- Hum? - perguntou Kate, sobressaltada. Apercebeu-se de que parecia deslocada. Escolhera um vestido branco de algodão do lote de «possibilidades» que Felicia lhe mandara da loja. Tinha um decote em V que ela achara muito descido, mas que ali nem sequer se notava, sandálias brancas e o cabelo apanhado na nuca. Estava bronzeada e tinha um ar descontraído, como se fosse almoçar junto aos courts de tênis em Palm Springs e não competir com os símbolos sexuais de Hollywood. O pensamento fê-la sorrir. - Desculpe. Ali, sim. Sim, tenho reserva.

O porteiro entrou rapidamente no hotel e ela seguiu-o pela entrada ladeada de pilares. Entre os Pilares, viam-se vasos de plantas exóticas postos ali nos anos 30, quando as mulheres entravam vestindo casacos de arminho e enfeitadas com diamantes, em vez de trazerem calças de ganga e visons.

Kate atravessou quilômetros de alcatifa verde que contrastava fortemente com a fachada cor de flamingo do edifício. As pessoas passavam por ela apressadas, indo para encontros, para descobrir ou ser descobertas, discutir ou zombar, destruir uma carreira, a delas ou a de outrem. Pressentia-se que em Hollywood as decisões eram tomadas ali perto. Isso era quase palpável; o edifício pulsava de poder.

- Sim? - O concièrge fitou-a com um sorriso. Havia sete homens atrás do balcão.

- Sou Mistress Harper. Creio...

- Mas com certeza - interrompeu ele com um sorriso, desaparecendo algures. «Mas com certeza»? Como é que ele sabia quem ela era? Tomou a aparecer, fazendo sinal ao carregador e entregando-lhe uma chave. - Esperamos vê-la cá com freqüência.

- Ai esperavam? Kate sentiu-se como uma criança num sonho. Quem eram eles? Quem era ela? E onde estava o Chapeleiro Louco no meio daquilo tudo? De certeza que o seu lugar era ali. Porém, Kate seguia já atrás do carregador por um corredor largo cheio de lojas. Jades, esmeraldas, diamantes, roupões enfeitados com penas raras, camisas de noite em cetim, um pequeno bolero, de marta, malas Vuitton, malas de camurça, uma pasta de pele de lagarto. Apetecia-lhe parar e ficar a olhar para aquilo tudo, mas tinha de parecer pouco impressionada, uma adulta. E, acima de tudo, sentia vontade de tocar no braço de alguém e de murmurar «Olhe... ali!... e ali!» Viu três rostos conhecidos do cinema. Até ela sabia quem eram. Virou a cabeça quando os ouviu rir e quase chocou com outra pessoa, um rosto da televisão. Era fantástico!

Sorriu enquanto continuava a avançar, perguntando a si mesma se a vida de Tom teria sido assim, no meio de vedetas. Não, não podia ter sido. Aquilo era fabuloso! E único.

Passaram por uma piscina rodeada de mesas e empregados de casaco branco. Viu mulheres de biquíni com peles perfeitamente bronzeadas e penteados que pareciam não ter sido afetados pela água. Kate observou-as, fascinada, até as perder de vista, e encontrou-se de súbito junto a uma pequena vivenda bem cuidada. Por breves momentos, sentiu uma enorme vontade de rir, mas não o fez, nem o podia fazer com o carregador ali junto de si, à espera de quê? De uma nota de cinqüenta dólares? Se o outro ganhara dez só por abrir a porta, este podia esperar cinqüenta depois de ter percorrido todos aqueles corredores com ela. Abriu a porta do bangalô, como lhe chamou, e Kate entregou-lhe uma nota de cinco e entrou, sentindo-se ridícula por lhe ter dado tanto dinheiro. A porta fechou-se suavemente atrás de si e ela olhou em volta. Era tudo realmente muito bonito. Quadros de flores, chaises-longues que pareciam convidar ao repouso numa das camisas de noite de cetim que ela vira nas lojas. Sem dúvida com uma boquilha a acompanhar. Havia um quarto de vestir com as paredes cobertas de espelhos e um toucador onde valia a pena perder duas horas a fazer a maquiagem. A casa de banho era de mármore cor-de-rosa e tinha uma banheira de canto. Kate sorriu de novo. E então o telefone tocou, sobressaltando-a. Encontrou-o na mesa-de-cabeceira ao lado da enorme cama. Notou que havia outro na salinha. E havia outra entrada para o bangalô. Duas entradas? Porquê? Para permitir uma fuga rápida? Soltou uma gargalhada e pegou no auscultador.

- Estou?

- Bem-vinda a Hollywood, Kate. Que tal vai isso? Era Stu, soando calmo como sempre, com um sorriso na voz.

- Acabei de chegar. Este sítio é espantoso.

- É, não é? - Stu soltou uma gargalhada. Sentiu-se aliviado por ela não ter entrado em pânico e partido de imediato. Quando lhe tinham feito a reserva no Hotel Beverly Hills, ele ficara um pouco preocupado. Para uma novata, não era dose fácil. - Que tal é o seu bangalô?

- Dá-me a sensação de que devo vestir-me como a Jean Harlow. No mínimo.

Stu riu com mais vontade. Talvez devesse vestir-se como Katherine Hepburn, mas como Harlow? Riu de novo.

- Havia de surpreender as pessoas do Case Show. Elas estão à espera de outra coisa.

- Ai estão? Do quê? - perguntou ela com nervosismo. -De si. Tal como é.

- Essa é boa, Stu, pois eu não tenho mais nada. Bolas, apetecia-me mesmo dar um mergulho antes do almoço, mas imagino que ninguém tome banho aqui.

- Claro que tomam. Porque diz isso?

- Por causa dos penteados - respondeu ela com um sorriso travesso, recordando-se do aspecto das mulheres que vira junto à piscina.

Porém, Stu estava de novo a rir.

- Minha querida, quem me dera ter estado aí quando chegou.

- Quem me dera que tivesse estado. Faz idéia das gorjetas que se dão aqui? - Riram-se. - Porque será?

- Para serem lembrados.

- E são? - perguntou ela, fascinada.

- Não por esse motivo. Se são lembrados, é porque já são alguém. Se não são, ninguém se lembrará deles, independentemente das gorjetas que derem. A propósito, sabia que as suas preferências serão anotadas e da próxima vez que cá vier encontrará tudo ao seu gosto, mesmo sem ter de pedir nada?

- O que raio quer dizer com isso? - Kate sentiu-se subitamente pouco à vontade, como se as pessoas a observassem às escondidas.

- Quero dizer que se tivesse trazido aquele seu cão ridículo e ele só comesse gafanhotos e bebesse limonada, da próxima vez que cá viesse eles teriam um prato cheio de gafanhotos e limonada à disposição dele. Ou toalhas especiais para si, ou Martinis secos, ou lençóis de cetim, ou nove almofadas na cama, ou apenas gim e scotch, ou... Basta dizer, querida, que pode ter tudo.

- Deus do Céu! As pessoas conseguem mesmo tudo isso aqui?

- Não só conseguem como estão à espera que lho dêem. Faz tudo parte de ser-se uma vedeta.

- E eu não sou - comentou ela, aliviada, e Stu tornou a sorrir.

- Ai isso é que é.

- Isso significa que tenho de encomendar gafanhotos e limonada?

- O que lhe apetecer, princesa. O palácio é seu.

Kate sentiu um aperto no coração. Princesa. Era assim que Tom lhe chamara. No seu olhar havia lágrimas que Stu não pôde ver.

- Sinto-me mais a rainha da festa.

- Limite-se a saborear. A propósito, vamos encontrar-nos com o Nick Waterman no Polo Loxinge ao meio-dia e meia. No seu hotel.

- Quem é o Nick Waterman?

- O produtor do Case Show. O próprio, minha querida. Nada de assistentes. Veio encontrar-se consigo e falar-lhe do programa.

- Vai ser assustador?

Kate parecia uma criança com medo de ir ao dentista e Stu sorriu. Queria que ela se descontraísse e apreciasse tudo. A seu tempo.

- Não, não vai ser assustador. E logo depois do programa vai haver uma festa. Querem que vá.

- Tenho de ir?

- Porque não espera para ver como se sente depois do programa?

- Está bem. A propósito, o que é que devo vestir no Polo Lounge? As pessoas por aqui parecem usar calças de ganga e visons.

- Logo de manhã?

- Bem, trazem a ganga vestida e o vison na mão. -É isso que traz vestido?

- Eu trago um vestido de algodão.

- Parece agradável. Ao almoço pode vestir-se com mais formalidade, mas é consigo. Esteja confortável, seja você mesma. O Waterman é um tipo muito agradável.

- Conhece-o?

- Já jogamos tênis algumas vezes. É uma pessoa simpática. Descontraia-se e confie em mim. -Apercebia-se do nervosismo de Kate perante tudo aquilo.

- Está bem. Acho que vou encomendar os gafanhotos e a limonada e que vou até à piscina descontrair-me.

- Força.

Pouco depois, desligaram. Stu sentiu um certo alívio ao perceber que Kate estava relativamente calma. O Case Show era importante, bastante mais do que Kate se apercebera. Estava prestes a ser lançada ao público e iria ser adorada ou detestada - ou apenas ignorada. Mas se o público decidisse que gostava dela, que ela era alguém que o fazia rir e chorar e que era humana, todos os livros que escrevesse estariam vendidos. Kate possuía talento, mas isso não bastava. O público tinha de a amar. E Stu Weinberg sabia que, se ela estivesse à vontade, isso acabaria por acontecer. Era a grande incógnita. Correra um grande risco ao combinar o encontro com Waterman. Talvez fosse louco por confiar no homem. Porém, tinha um pressentimento e esperava não se enganar. Raramente se enganava. Haviam jogado tênis na véspera e a seguir bebido alguns copos. Dissera a Waterman que por vezes Kate parecia uma eremita, muito bonita, mas mesmo assim uma eremita. E desconfiava que ela era assim desde a morte do marido. Era importante que ninguém a ferisse naquele momento, ou a assustasse ao ponto de a fazer regressar ao esconderijo. Stu não queria que Jasper Case brincasse com ela no programa, ou a sentasse ao lado de uma megera de Hollywood. A entrevista tinha de ser conduzida com cuidado, se não mais valia não ser feita. A carreira de Kate dependia disso. Waterman dissera que iria encarregar-se de tudo. Até concordara em vir pessoalmente ao almoço em vez de mandar a colega que normalmente se ocupava dessas coisas. E houvera alguma agitação quanto aos convidados para o programa. A grande vedeta cancelara e assim Kate tinha a sua oportunidade. Stu rezava para que tudo corresse bem, e contava com Waterman. Ia ser um almoço interessante, a ver Kate entrar de mansinho no mundo.