Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 27 de 32

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Tempo para Amar

CAPíTULO 30 · - Não, não sabemos para onde é…

- Não, não sabemos para onde é que ele foi. Sabemos apenas o que ele nos diz neste bilhete -informou Nick olhando para Kate. Tinham discutido o assunto antes de a Polícia chegar. Não iriam dizer uma palavra a respeito de Tom, pois de nada serviria,

- Deixe-me ver de novo esse bilhete.

O bilhete era dolorosamente simples.

«Vou procurar o meu pai.» O agente à paisana olhou para Nick e Kate.

- O senhor não é pai dele, Mister... hum... Waterman?

- Não. O Tygue é filho de Mistress Harper. Mas somos muito chegados. - Sentiu-se um idiota a dizer aquilo. Mas quem é que conseguia raciocinar numa situação daquelas? Kate começava a ficar estranhamente pálida. Mal falara com os polícias, e Nick receava que ela estivesse em choque.

- Sabe onde está o pai dele? Não custava nada telefonarmos-lhe.

Kate pareceu ir desfalecer e Nick abanou a cabeça.

- Custava. O pai de Tygue morreu antes de ele nascer.

- Então ele zangou-se consigo? - perguntou rapidamente o polícia, e Kate interveio.

- Não. Creio que, quando muito, estava zangado comigo. O Tygue está sujeito a várias pressões novas. Acabamos de nos mudar para São Francisco, freqüenta uma escola nova e...

- Teve de se calar e Nick apertou-lhe a mão.

- Ele tem algum dinheiro? Kate abanou a cabeça. -Acho que não. - Levou alguma coisa?

- Sim. O urso de pelúcia - respondeu ela com os olhos cheios de lágrimas. - É grande, castanho e tem uma gravata vermelha. - Olhou para Bert, que abanou a cauda e se aproximou, o que serviu para ela chorar ainda mais.

- O que é que o menino tinha vestido?

Kate não sabia. Porém, foi ao armário do vestíbulo e reparou que o impermeável dele desaparecera.

- Um impermeável amarelo. E talvez calças de ganga e botas à cowboy.

- Ele poderia ir ter com alguém aqui na cidade?

- Com a Felicia! - Correu para o telefone, mas ninguém atendeu. Com ar pesaroso, deu ao agente o número de Licia. O de Tillie também, bem como o de Joey. - E... acho que ele pode ter tentado ir para Carmel - acrescentou, olhando para Nick.

- Ele conhece lá alguém? - inquiriu o agente.

- Não, mas gosta muito de lá ir. - Raios! O que poderia dizer-lhe? Que ele tinha ido à procura do pai, um homem outrora famoso e que agora era atrasado e aleijado? Que só naquela tarde soubera que ele estava vivo? - O que vão fazer? - Apertou a mão de Nick enquanto os agentes fechavam os seus caderninhos castanhos.

- Passar a área a pente fino até o encontrarmos. Agora precisamos de algumas fotografias.

Deram-lhes dezenas. A cores, retratos, ao longe, com todas as roupas possíveis, no pônei, com o cão, na Disneylândia, num elétrico com Licia.

- Só precisamos de uma ou duas.

Kate assentiu quando eles saíram para a chuva. -Vamos ligar-vos de hora a hora.

- Obrigada.

- Tenham calma. - Olharam encorajadoramente para Nick quando partiram. Era uma casa cara e a criança parecia feliz nas fotografias. Era evidente que não o tratavam mal. Talvez ele fosse apenas um daqueles miúdos estranhos que precisava de fugir. Já haviam encontrado alguns. As raparigas tinham a tendência para parar dramaticamente à porta, dando aos pais a oportunidade de lhes implorar que ficassem em casa. Os rapazes faziam as malas e arrancavam.

- Credo, Nick, o que vamos fazer?

- O que eles disseram, querida. Ter calma.

- Não sou capaz... meu Deus... Nick, não sou capaz. Ele pode ser raptado. Atropelado. Pode...

- Pára com isso! - Nick agarrou-a pelos ombros e puxou-a para si, abraçando-a. - Pára com isso, Kate. Não podemos ficar assim. Temos de acreditar que ele está bem. - Kate assentiu, continuando a chorar, e depois agarrou-se a Nick. A expressão do olhar de Kate deixou-o angustiado e quando ela começou a soluçar, ele compreendeu. Não era apenas medo e preocupação.

- A culpa é minha, Nick... a culpa é toda minha. - Já disse para parares com isso, Kate. A culpa não é tua.

- Queria dizer-lhe que era sua por ter puxado a conversa nessa tarde, mas isso não adiantaria nada. Precisavam era de o ter de novo em casa para lhe poderem falar do pai, do passado e fazê-lo compreender por que razão a mãe não lhe contara antes. E amá-lo-iam ainda mais do que antes. Ele sentia-se carente, como se podia ver. Porém, não valia a pela estarem a autoflagelar-se. Nick abraçou Kate e levantou-lhe o queixo, até os olhos lacrimejantes dela fitarem os seus. A culpa não é de ninguém, querida. Podemos atormentar-nos com isso durante os próximos cem anos, mas talvez o destino quisesse assim. Talvez ele devesse mesmo saber.

- Eu sei que sim. Se lhe tivesse contado há mais tempo, isto nunca teria acontecido.

- Mas não contaste e agora não podes saber se isso teria feito alguma diferença. Talvez só agora é que ele possa entender. Só tens é de enterrar o passado. Não lhe contaste. Agora ele já sabe. Nada mais.

- E se lhe acontece alguma coisa horrível? - perguntou ela a chorar.

- Não vai acontecer nada. Temos de acreditar nisso, Kate.

- Quem me dera poder - retorquiu Kate, assoando-se e fechando os olhos.

Os agentes ligaram de hora a hora, tal como haviam prometido, embora não tivessem novidades. Já passava da meia-noite quando Kate e Nick conseguiram apanhar Felicia.

- Deus do Céu! - exclamou Felicia sentando-se enquanto Nick a punha ao corrente pelo telefone. Kate não se encontrava em condições de falar. Deixara de chorar, mas parecia apática e passava o tempo a olhar para as fotografias. Nick já desistira de lhas querer tirar. - Queres que eu vá para aí?

- É capaz de ser boa idéia. Já a ajudaste em situações piores.

- E verdade. E, Nick... - Felicia hesitou, depois decidiu-se - Ainda bem que sabes. Ela tem de libertar-se daquilo tudo. Não pode continuar a esconder-se.

- Eu sei. Mas não vai ser fácil.

- Talvez não haja alternativa.

Desligaram. Felicia foi imediatamente para junto deles, e ficaram os três sentados, a beber café e a enlouquecer. Às cinco e meia da manhã, os agentes ligaram de novo. Nick preparou-se para ouvir más notícias.

- Já o temos.

- Onde?

- Aqui mesmo - respondeu o agente, sorrindo para a criança.

Nick fechou os olhos e gritou para a sala: - Encontraram-no! - Depois acrescentou para o bocal:

- Ele está bem?

- Sim. Cansado, mas bem. O Willie é que não está lá muito bem.

A criança estava muito calada. A experiência não devia ter sido muito agradável.

- Onde é que o encontraram?

- Num terminal de autocarros, a tentar convencer alguém a levá-lo para Carmel. A mãe dele estava certa, como aliás é costume acontecer com as mães. Levamo-lo já aí.

- Espere. Posso falar com ele?

Queria pôr Kate ao telefone. Ela encontrava-se ao seu lado, a soluçar, a rir e a apertar-lhe o braço. Felicia observava-os por entre as lágrimas.

O agente voltou pouco depois.

- Ele diz que está demasiado cansado para falar. - Que maroto! Mas o problema era dos pais. O agente tinha feito o relatório, dera um sermão à criança acerca dos perigos de fugir de casa e dos perigos dos terminais de autocarros, e levou-o a casa.

- O que queres dizer com isso de ele estar demasiado cansado? - perguntou Kate, perplexa, depois de Nick desligar. Depois percebeu. - Ele continua zangado.

Nick assentiu.

- Creio que sim.

E acertou. Quando Tygue chegou a casa vinha muito calmo, e esperou que o agente se fosse embora para falar com eles. Como era seu dever, abraçara a mãe ao chegar a casa, mas esse abraço não era sentido. Ainda por cima, Willie estava encharcado e ela ficara com a blusa molhada. Tygue secara no terminal de autocarros. Era de admirar que tivesse conseguido lá chegar. Disselhes que tinha cinco centavos e que apanhara um autocarro. Os motoristas haviam-lhe explicado como lá chegar.

- Fazes idéia do que te podia ter acontecido? - perguntou Kate aos gritos, aliviada.

Ele baixou a cabeça, mas não pareceu arrependido. Depois falou.

- Vou voltar a fugir.

- O quê? - gritou Kate, e Nick tentou acalmá-la. -Vou procurar o meu pai. Quero vê-lo.

Ela sentou-se com um suspiro e olhou para o filho. Como poderia dizer-lhe que não havia nenhum pai para ver sem lhe despedaçar o coração? Havia um homem que já fora seu pai, mas que agora desaparecera. E Tygue não podia vê-lo.

- Não podes fazer isso - retorquiu ela baixinho.

- Posso, sim senhora - disse ele com determinação.

- Havemos de falar do assunto.

Foi deitá-lo, e daquela vez ele não fugiu. A noite fora comprida; quando se foi embora às seis e meia da manhã, Felicia tinha o pressentimento de que a história ainda não acabara. Talvez por agora houvesse terminado, mas Tygue parecera muito decidido. Tencionava mesmo ver o pai. Ela esperava que Kate percebesse isso.

Naquele momento, Kate já dormia profundamente nos braços de Nick. Acordou às nove e meia, três horas depois, com um telefonema de Stu Weinberg.

- Hum? - fez ela, atordoada, sem perceber quem era. Nick prometera deixar um bilhete na porta para a mãe do colega de Tygue, e tencionavam todos dormir até tarde. Ela queria dormir o dia todo, se possível. Nick prometera tratar de Tygue até ela se levantar.

- Acordei-a?

- Hum? O quê?... Não... - Mas já estava quase a dormir outra vez. Nick entrou no quarto e abanou-a.

- Acorda, estás ao telefone.

- Hum? Quem fala?

- É o Stu. Weinberg, por amor de Deus! O que raio se , passa aí? Foram a alguma festa ontem à noite?

- Sim. - Kate sentou-se, semicerrando os olhos, sentindo-se enjoada. Parecia que estava com a pior ressaca da sua vida, mas pelo menos conseguia funcionar. - Que tal vai o livro?

- Está a tornar-nos ricos aos dois. Aliás, é por isso que estou a ligar. Tem outra viagem promocional,

- Oli, não! Também foi o Nick que programou esta? Tentou sorrir, mas o rosto recusou-se. O que andaria Nick a tramar agora? Contudo, Weinberg insistiu que Nick nada tinha a ver com a viagem. Parecia sincero. - Então, o que é?

- Uma semana em Nova Iorque. O seu editor quere-a lá para ajudar o livro a continuar no topo da tabela de vendas. Tem de ir, menina, especialmente se tenciona publicar em breve esse livro que anda a escrever. É melhor estar nas boas graças dele.

- Neste momento, não posso. - Tinha o suficiente com que se preocupar em casa.

- Tretas, Kate. Tem de ir. Está em dívida para com os seus editores. Estão a tratar da sua carreira. -Olhou para a lista de programas a que ela teria de ir, Talvez fossem demasiados. Ia ser uma semana incrível.

- Já lhe disse que não posso.

- Vai ter de poder. Eu disselhes que sim.

- Como pôde fazer uma coisa dessas? - perguntou quase a chorar. Estava ainda exausta da noite anterior.

- Fi-lo porque não tive alternativa. Pergunte ao Nick. Ele sabe como são estas coisas.

- Isso não interessa. Está bem, vou pensar. Para quando é?

- Parte daqui a três dias e fica fora uma semana. - Farei o que puder.

- Terá de fazer melhor do que isso - insistiu ele implacável. - Ligo-lhe mais tarde a confirmar.

- Muito bem. - Kate estava demasiado fraca para discutir. Pousou a cabeça na almofada e tentou pensar.

- Quem era?

- O Weinberg.

- Algum problema? Ela assentiu.

- Ligou a dizer que o meu editor quer que eu faça uma viagem promocional a Nova Iorque. Durante uma semana.

- Quando? - perguntou Nick, perplexo.

- Parto daqui a três dias.

- Filho da mãe! - exclamou Nick. - Eu dou cabo dele. - Sentou-se e passou a mão pelo cabelo. - Não podes ir.

- Ele diz que tenho de ir. E que a idéia não foi dele, foi do meu editor. - E para além disso, Nick não devia dizer-lhe o que ela podia ou não fazer.

- Não me interessa quem teve a idéia. Sabes muito bem que não podes ir, Disseste-lhe isso, não disseste?

Porém, ela não dissera. Mesmo com tudo o que estava a acontecer, não dissera. Stu dera a entender que a sua carreira estava em jogo,

- O que raio lhe disseste? - perguntou Nick, chocado.

- Que ia ver o que podia fazer.

- Queres dizer que vais?

- Não sei, Não sei, bolas! Nem sequer sou capaz de pensar. Como é que posso saber o que vou fazer daqui a três dias

- Se tiveres juízo, daqui a três dias estás a tentar resolver esta embrulhada com o teu filho. Isso devia ser a tua primeira prioridade.

- E é, mas... gaita, deixa-me em paz! - Porque não deixavam de a pressionar? Nick com a sua indignação e as suas idéias de paternidade, Tygue com as suas exigências e necessidades. Caramba, ela também tinha direito a viver, Merecia o êxito que começava a ter.

- Estás a ficar muito egocêntrica, não estás, Kate? - Ela teve de se controlar para não lhe dar uma bofetada. - Agora já não é tão engraçado ser mãe, pois não?

- Importas-te de me deixar em paz? - gritou Kate com uma voz que não parecia a sua. - O que queres de mim? Sangue?

- Não, que sejas realista. Tens um filho que está a atravessar uma grande crise. Só lhe faltava agora é que fosses fazer uma viagem promocional.

- E o que é que me faz falta a mim? E a minha carreira? Não lhe dei tudo durante todos estes anos? Isso não conta? Não mereço uma folga por bom comportamento?

- E isso que achas? E isso que pensas a respeito dele? A meu respeito?

Durante um momento de loucura, Kate quis dizer que sim, mas não teve coragem.

- Só preciso de tempo para pensar - insistiu ela. Mais nada. Deixa-me resolver isto sozinha. -Endireitou-se e passou a mão pelo cabelo.

- Acho que não tens alternativa.

- Nunca tive alternativa. Talvez agora precise de poder escolher, de tomar as minhas decisões.

- Tomaste as tuas decisões antes, Kate.

Porque estaria ele a pressioná-la? Porque não a deixava em paz? Contudo, Kate não lhe disse o que estava a pensar. Ficou mergulhada nos seus pensamentos.

- Sim, já tomei as minhas decisões. - Como a decisão de não falar de Tom a Tygue. Fora uma decisão muito acertada.

- Qual é o teu problema, Kate? Estás de novo a sentir-te culpada? É isso?

- Bolas, Nick, é! - gritou de novo levantando-se de um pulo e olhando para ele, furiosa. - Sim, sinto-me culpada. Está bem? Sentes-te melhor ao ouvir-me dizer isso? Sim, acho que este problema do Tygue surgiu por minha culpa. E sabes que mais? Não o amo mais por isso. Só me apetece fugir. Com ele chateado e a recusar-se a perceber as minhas razões, e contigo a atirar-mo à cara, só me apetece fugir dos dois! O que achas?

- Lindo. - Nick voltou-lhe costas e saiu do quarto. Kate foi para a casa de banho e saiu dez minutos mais tarde, já vestida, mas com um ar exausto. Tygue continuava a dormir, mas Nick encontrava-se à mesa da cozinha a beber café. Ela encheu uma caneca e olhou para ele. Não o achou com boa cara.

- Desculpa ter-te gritado.

- Não tem importância. - Acalmara-se, mas olhou para ela como se estivesse a olhar para um visitante de outro planeta. - Sempre vais?

- Não sei.

- Está a acontecer-te, Kate,

- O quê? - perguntou ela, sabendo ao que ele se referia.

- A mania das grandezas, a síndrome do «Eu sou a maior». Tens de fazer o que puderes pela tua carreira. Tens idéia do que está neste momento a acontecer àquela criança?

- Tens idéia do que está a acontecer-me, a mim? E como estou a ser forçada?

- Lamento. Mas tu és adulta. Podes lidar com o problema. Ele não. Sei que passaste maus bocados, mas não podes culpá-lo por isso. O Tygue está muito confuso em relação ao pai.

- E eu não posso alterar isso. Não posso brandir a varinha mágica e transformar o Tom naquilo que ele já foi.

O Tygue não pode vê-lo. Seria terrível para ambos! - Kate estava de novo aos gritos.

- Compreendo isso. - Fez um esforço para baixar a voz. - Mas o Tygue não. Não posso acreditar que vás para Nova Iorque agora.

- Eu não disse que ia. - Pois não, mas vais.

- Como raio é que sabes? - Teve vontade de lhe atirar com o café, ao vê-lo fitá-la muito zangado. Detestou-o naquele momento.

- Sei que vais porque já foste sugada por aquele jogo do êxito. Os programas, as entrevistas, o dinheiro, os best sellers, tudo. Está a acontecer-te, Kate. E digo-te uma coisa: lamento muito ter estado metido nisso. Lamento que tenhas ido ao nosso programa.

- O que tem isso a ver com o resto? Olha para o dinheiro que ganhei nos últimos quatro meses. Mais de duzentos e cinqüenta mil dólares. Fui eu sozinha que os ganhei, com um livro, com ou sem o teu maldito programa. O Tygue vai poder ir para a faculdade por causa disso, e freqüentará escolas boas antes disso. Vai ter tudo aquilo de que precisa.

- Exceto a mãe.

- Vai-te lixar!

- Sabes uma coisa? Estou-me nas tintas para o que fazes. Só não quero ficar aqui a ver-te dizeres-lhe que vais para Nova Iorque.

- Então, não fiques. Eu digo-lhe quando saíres. - Vais mesmo fazer essa viagem, não vais? - tornou Nick a insistir.

- Sim! - O seu grito pareceu ecoar por toda a casa. Ficaram perplexos, em especial Kate. Nem sequer tinha ainda decidido se ia ou não. Pelo menos, era isso que gostava de pensar, embora percebesse que já há muito tomara a decisão. Assim que Weinberg lhe dissera como a viagem seria importante para o livro seguinte. Kate queria que ele vendesse ainda mais do que o outro. Percebeu uma coisa a seu respeito ali sentada à mesa da cozinha, depois de Nick ter saído. Talvez ele tivesse razão. Talvez ela estivesse com a mania das grandezas. Mas não sacrificando Tygue... não, não o seu filho.

Tentou explicar-lhe tudo isso à tarde, mas ele não quis falar. Tentou fazê-lo perceber o que se passara com Tom, o que se passava com os seus livros, com o seu trabalho... mas ele tinha apenas sete anos, não percebia multa coisa. Só pensava no pai. Kate deu-lhe o álbum de recortes de Tom, da altura em que ele era uma estrela. Tygue ficou a devorá-lo no quarto e Kate foi ligar a Tillie.

Ela viria ali passar a semana em que Kate iria a Nova Iorque. Isso facilitaria a vida a Nick. Mal o viu antes de partir. Ele chegou tarde a casa nas duas noites seguintes, quando ela já estava a dormir. E passou os dias fora de casa. Kate tentou explicar a Felicia o que estava a sentir, mas a amiga também não percebeu. Ninguém percebia. Até Tillie se mostrou distante quando chegou, mas talvez estivesse apenas intimidada com a cidade. Kate ficou grata por ela ter acorrido e Tygue pareceu radiante ao vê-Ia. Aliás, Kate sentiu-se posta de parte: Tygue ficara mais feliz ao ver Tillie do que ao estar consigo.

- Queres que te leve ao aeroporto? - perguntou Nick com frieza.

- Posso apanhar um táxi. Quero deixar o carro aqui em casa, para o caso de a Tillie precisar dele.

- Não te atines em mártir. Eu levo-te.

- Não agüento mais sermões. - A atmosfera entre os dois era de cortar à faca, e Kate estava apavorada, embora não o mostrasse.

- Já fiz os sermões que tinha a fazer. Falta apenas um. Estás com um ar cansado, Kate. Não exageres lá em Nova Iorque.

- Foram uns dias difíceis. Para todos - acrescentou olhando para ele, e Nick sorriu.

- Não te esqueças de que te amo, Cinderela. Era a primeira vez que ela o via sorrir nos últimos dias. A que horas parte o teu avião? - Ela disselhe. Olharam um para o outro com pesar. - Bolas!

Kate enfiou o vestido, ele subiu-lhe o fecho em vez de o descer e, cinco minutos mais tarde, partiam. A viagem até ao aeroporto foi calma, e Kate sentiu pena de não terem podido fazer amor. Teria sido benéfico para ambos. Um reavivar da relação antes de ela ser lançada na loucura de Nova Iorque. Porém, quando Nick a beijou, Kate soube o quanto ele a amava. Acenou-lhe quando subiu para o avião e sentiu-se mais sozinha do que nunca. Bebeu muito vinho antes de chegar a Nova Iorque e dormiu nas últimas duas horas de viagem. Que bela maneira de chegar a Nova Iorque. Cansada, amarrotada e de ressaca. Aquilo não era um sonho, era a realidade. Estava sozinha na grande cidade. Sentiu isso na pele quando se viu no passeio a tentar arranjar um táxi-A limusine da editora não aparecera e uma das suas malas também não. Que belo começo. Contudo, depois disso as coisas melhoraram. Desesperada, partilhou um táxi com um homem muito atraente e bem vestido, um arquiteto de Chicago que devia andar perto dos cinqüenta anos e que também ia ficar hospedado no Regency.

- Que coincidência! Costuma ficar lá hospedada? Não tentou saber quem ela era e fez uma conversa agradável até à cidade.

Kate lançou-lhe uma mirada. Tinha cabelos grisalhos, o rosto finamente esculpido e de feições agradáveis, mas já com algumas rugas. Contudo, o seu corpo parecia em grande forma. Era atraente, embora de forma discreta. Não era nada parecido com os homens atléticos da Califórnia. Possuía um ar cosmopolita e ligeiramente pálido, mas muito interessante.

- Fiquei lá da última vez que vim a Nova Iorque. - Eu venho cá uma vez por mês - disse ele, olhando para ela com um sorriso.

Falaram sobre os edifícios, a vista, São Francisco e, sem querer, Kate deixou escapar que era escritora,

- Que bela profissão! Deve adorar - observou ele com inveja.

Kate riu-se.

- Gosto bastante.

Ele puxou por Kate e ela deu por si a falar-lhe do seu próximo livro.

- Sabe, isso faz-me lembrar um livro maravilhoso que acabei de ler, A última Época, não em termos de enredo, mas sim de atmosfera. - Kate desatou a rir. - Também o leu? perguntou ele, divertido.

E porque não? Porque não havia de admitir?

- Bem, não nos últimos tempos, Mas... fui eu que o escrevi.

Ele levou um momento a assimilar o que ela lhe dissera e depois fitou-a espantado.

- Escreveu? Mas é um livro extraordinário!

- Então mando-lhe um exemplar do próximo - retorquiu ela na brincadeira, mas o homem puxou imediatamente do seu cartão e estendeu-lho com um sorriso.

- Espero que cumpra a promessa, Miss Harper.

Agora sabia o nome dela. Kate guardou o cartão quando chegaram ao hotel.

CAPÍTULO 31

Aquela viagem foi muito diferente da que fizera com Nick. Longe estavam as limusines, os passeios de fiacre, as aventuras secretas, os almoços no Lutèce e os jantares no Caravelle. A proteção dele. Desta vez Kate foi confrontada com uma Nova Iorque em toda a sua crua realidade, empurrando, acotovelando, lutando por um táxi, lutando contra o vento que redemoinhava aos seus pés, atirando-lhes jornais e lixo, E o programa que o editor lhe arranjara era quase desumano. Teve de ir a três programas de rádio no primeiro dia, não teve tempo para almoçar e, às quatro da tarde, gravou um talk-show televisivo, onde o apresentador a sentara ao lado de um jornalista desportivo que a tratou de forma bastante condescendente. Kate estava exausta e furiosa quando, às seis, chegou ao hotel-Não era boa hora para telefonar a Nick ou a Tygue. Nick devia estar a preparar o programa e Tygue ainda nas aulas. Pediu que lhe levassem ao quarto um copo de vinho branco e ficou calmamente sentada a fazer tempo para serem horas de ligar a Nick. Até o quarto era menos bonito desta vez. Era mais elegante, em branco e dourado, mas mais pequeno e frio, e a cama tinha um aspecto triste e vazio. Kate sorriu ao lembrar-se das cenas apaixonadas com Nick da última vez.

Sentou-se no sofá com um copo na mão e as pernas debaixo do rabo. Estava a cinco mil quilômetros de casa, sozinha num hotel desconhecido, e não podia falar com nenhuma das pessoas que conhecia. Sentiu-se pouco amada e subitamente assustada e com uma vontade louca de ir para casa. Era aquela a fabulosa trip da fama. Parecia ser uma coisa muito solitária. Kate desejou estar de volta à casa oculta pelas sebes na Rua Green. Nick também queria que ela voltasse, Talvez estivesse quase tudo acabado. No entanto, parecia que ainda há pouco tudo começara, ela e Tygue tinham-se mudado para São Francisco havia meia dúzia de dias, mas talvez tudo fosse demasiado para Nick. Talvez a carreira de Kate fosse um grande conflito para ele, que já tinha tanto que fazer, ou talvez ele não pudesse aceitá-la. Kate pegou no telefone para pedir outro copo de vinho mas, franzindo o sobrolho, voltou a pousá-lo. Aquilo era ridículo. Estava em Nova Iorque. Era uma vedeta. Sorriu ao pensar na palavra. Está bem, não era uma vedeta, mas era bem sucedida. E podia ir jantar onde bem lhe apetecesse, não tinha de ficar no quarto. Era um absurdo. Pegou na mala e tirou de lá a lista de restaurantes que Felicia lhe dera. O primeiro da lista chamava-se Gino's. Licia dissera-lhe que podia lá ir sozinha e que estava cheio de modelos e escritores, vários europeus elegantes e «pessoas bonitas». «Vale a pena ver. Vais adorar.» E ficava apenas a dois quarteirões do hotel. Poderia ir a pé.

Penteou-se, lavou a cara e maquiou-se. Estava pronta.

O vestido preto que usara durante o dia serviria perfeitamente. Felicia dissera-lhe que o sítio não era demasiado elegante. Pelos padrões de Nova Iorque, isso significava calas de ganga, sapatos Gucci, um vison, ou o último Dior. Ao pegar no casaco vermelho de lã que atirara para uma cadeira recordou-se do calor abrasador de apenas há dois meses. Olhou para os sapatos pretos de pele de lagarto e depois para o quarto... tão vazio. Iria saber-lhe bem sair do quarto. Nem a vista a alegrou daquela vez. A cidade parecia muito alta, assustadora e sombria. Quando abandonou o hotel, estava ainda mais frio e mais vento. Virou a gola do casaco e seguiu na direção da Avenida Lexington. Disse que não ao porteiro, quando ele sugeriu chamar-lhe um táxi, e afastou-se rapidamente. Já aprendera o passo rápido dos nova-iorquinos. Correr, voar, dar um encontrão em alguém, murmurar qualquer coisa e continuar a correr. Sorriu ao pensar nisso. Só estava há um dia na cidade e sentia-se já corroída. Pensou em Nick enquanto caminhava, e sentiu-se aborrecida consigo própria e com ele. Que direito tinha Nick de a fazer sentir-se culpada pelo êxito? Trabalhara bastante para o conseguir e merecia-o. E não devia nada a Tygue nem a Nick. Está bem, talvez não tivesse sido a melhor altura para viajar, mas caramba!, só estaria fora uma semana. Tinha direito àquilo... tinha... As palavras ecoaram na sua cabeça quando virou para sul na Avenida Lexington, os saltos batendo ritmadamente na grelha do metropolitano enquanto tentava evitar os outros peões. Estava quase a fazer trinta anos e tinha direito àquilo... direito àquilo... Quase passava pelo restaurante sem dar por isso e levantou os olhos admirada quando dois homens, acabados de sair do Gino's, chocaram consigo. Não pediram desculpa, limitaram-se a mirá-la, pareceram aprovar e afastaram-se, roubando de seguida o táxi a outros dois homens. Isso era típico de Nova Iorque. Na Califórnia, as pessoas andavam ao murro por causa de uma coisa daquelas. Em Nova Iorque, os dois homens que tinham ficado sem táxi limitaram-se a chamar outro e entraram antes da mulher que realmente o chamara. Kate sorriu ao transpor as portas de vaivém amarelas. Talvez demorasse anos a desenvolver aquele estilo nas ruas de Nova Iorque, ou talvez fosse muito rápido. Talvez se ficasse assim inconscientemente. Kate achava aquilo muito divertido.

- Signora? - Um italiano com um fato cinzento às riscas aproximou-se com um sorriso. - Mesa para um?

- Sim - assentiu ela, retribuindo o sorriso.

Mal o ouvira por causa do barulho, e olhou em volta admirada. As paredes estavam pintadas de uma horrível cor de coral, coberta com zebras a correr umas atrás das outras na diagonal. Viam-se plantas de plástico em vários sítios e a luz era pouca, O bar estava apinhado e as mesas cobertas com toalhas brancas e cheias de gente elegante. Tal como Felicia prometera. Modelos que conservavam a maquiagem do dia e vestiam os últimos modelos Calvin Klein, homens de ar agradável, casado e infiel, atrizes e matronas da sociedade. Havia dois tipos de homens: os europeus e os americanos. Estes vestiam fatos às riscas, óculos com armações de osso, camisas brancas e gravatas. Os europeus levavam-lhes a melhor -melhores alfaiates, melhores camisas, cores mais suaves, olhos mais escandalosos e calças com o comprimento certo.

O riso das mulheres sobrepunha-se às conversas dos homens como ferrinhos numa orquestra, e o barulho de fundo era constituído pelo tagarelar dos empregados. Faziam o máximo barulho possível com os tabuleiros, quase partiam a louça ao passá-la aos colegas e gritavam com quanta força tinham o mais longe que podiam. A própria cozinha também devia ser um caos, com os tachos de metal. Tudo aquilo se combinava e resultava no Cino's, uma mistura rica de sons, coisas agradáveiS à vista e os aromas divinos da cozinha italiana.

- Vamos já arranjar-lhe mesa. - O chefe de mesa, cora um fato cinzento às riscas, mirou-a com ar apreciativo e apontou graciosamente para o bar. - Quer tomar alguma coisa enquanto espera? - O seu sotaque era delicioso, o seu olhar uma carícia. Kate teve de fazer um grande esforço para não se rir. O restaurante era inebriante. Fê-la de imediato esquecer a tristeza de há pouco e animar-se.

Após uma ligeira hesitação, Kate dirigiu-se ao bar, pediu um gim tônico e ouviu o homem à sua frente Pedir um Campari. Era italiano, percebeu Kate pelo sotaque, e depois ouviu-o trocar algumas frases em italiano com o empregado. Kate estava mesmo atrás dele, Sentiu o cheiro a água-de-colônia cara... francesa... não se lembrava do nome, mas conhecia-a. Experimentara-a uma vez no Magnin, e pensara comprá-la para Nick. Depois achara que o aroma nada tinha a ver com Nick, era demasiado forte, sofisticado. A água-de-colônia de Nick, a cheirar a limão e a especiarias, combinava mais com ele. O homem. diante de si era completamente diferente. Tinha uma camisa azul sob o blazer, e um ar elegante, cabelo grisalho, algumas rugas no pescoço. Devia rondar os quarenta e cinco ou os quarenta e oito... e, de repente, ele virou-se e ela ficou boquiaberta. Corou.

- Oi, é você! - Era o homem com quem partilhara o táxi do aeroporto. O arquiteto de Chicago. -Pensei que era um italiano. - Ficou ainda mais atrapalhada por admitir uma coisa daquelas e soltou uma gargalhada.

Ele sorriu.

- Vivi sete anos em Roma. Sou viciado em comida italiana, Campari e em tudo o mais que seja italiano.

Visto de frente era ainda mais impressionante do que visto de trás, e Kate apercebeu-se de que ele era muito mais atraente do que supusera. Não lhe prestara muita atenção durante a viagem de táxi.

- E como está Nova Iorque a tratá-la, Miss Harper? perguntou com um sorriso, arranjando espaço para ela no bar.

- Não muito mal, Para Nova Iorque. Trabalhei que me fartei.

- A escrever?

- Nada assim tão simples, Andei a fazer publicidade.

- Estou impressionado. - No entanto, parecia mais divertido do que impressionado, e o olhar dele fê-la corar. Parecia ver de mais através do vestido preto, embora não tivesse dito nada de indecoroso. Era apenas um pressentimento que Kate tinha. Sob as roupas de bom corte e os modos profissionais parecia haver uma grande sensualidade. - Irei vê-la na televisão?

- Não, a menos que fique no hotel durante o dia a ver televisão - respondeu ela a sorrir.

- Infelizmente, não posso fazer isso. Também me fartei de trabalhar. Começamos logo com reuniões às sete da manhã, ao pequeno-almoço. Nesta cidade trabalham como loucos. - Olharam ambos em volta. -Aqui fazem tudo como loucos. Até comer.

Kate soltou uma gargalhada e, durante alguns minutos, estiveram a admirar a cena. Depois Kate sentiu o olhar dele pousado em si e virou-se na sua direção, Não disse nada. Limitaram-se a olhar um para o outro. Ele sorriu e ergueu o copo.

- À sua, Miss Harper, ao livro que tanto significou para mim. Como é que ficou a perceber tanto acerca daquilo que faz vibrar os homens? A ânsia do êxito, a tristeza se se fica a pouca distância do cume... ou se se lá chega e se cai.

Olhou para o copo e depois para Kate, que ficou admirada com a seriedade que viu no rosto dele. O livro significara mesmo alguma coisa para ele, e isso deixou-a contente. Ele compreendia. Era como se compreendesse Tom.

- Tratou o assunto de forma magistral. Parecia até ser a perspectiva de homem. Pensava que para uma mulher era difícil perceber os disparates machistas dos homens que querem alcançar o êxito, e depois a sua tristeza ao serem incapazes de fazer.

- Não sei se para as mulheres é diferente, mas sei que vi meu marido passar por tudo isso - disse ela olhando para a bebida. A voz do homem era meiga, semelhante a uma brisa de verão na tempestade de Inverno que era o ruído que os rodeava.

- Ele deve estar muito orgulhoso de si. Kate olhou para ele e abanou a cabeça.

- Não. Ele já morreu. - Não disse aquilo para o chocar. Disse-o por dizer, mas ainda assim ele ficou atordoado. E depois foi Kate quem acabou por pedir desculpa. - Não era minha intenção dizer isto de forma tão abrupta.

- Lamento muito. Agora compreendo melhor o livro. Isso faz muito mais sentido. Ele conseguiu vencer antes de morrer?

Parecia importante para ele saber. Kate decidiu ser franca. Ele era um desconhecido e ela já tinha tomado duas bebidas.

O Vinho no hotel e agora o gim. Sentia necessidade de ser franca e também de distanciar-se das pessoas que conhecia. Ali, ninguém a conhecia. Podia dizer tudo o que lhe vinha à cabeça.

- Sim, conseguiu. E depois estragou tudo. Foi isso que deu cabo dele. Precisava de ter outra oportunidade, se não... E só conseguiu o «se não».

- Um ataque cardíaco? - Era o que ele mais temia.

- Mais ou menos. - Depois percebeu o que isso implicava para o homem e acrescentou: - Não, não foi um ataque cardíaco. Foi outra coisa. A alma dele morreu. O resto acabou por ir também. Mas não foi um ataque cardíaco. Ele fitou-a, ligeiramente aliviado.

- Pergunto a mim mesmo qual será a melhor solução? Recusarmo-nos a entrar no jogo? Recusarmo-nos a correr pelo êxito? Mas ele é tão tentador, não é? - perguntou com um sorriso caloroso e sensual que ela retribuiu.

- Pois é. Agora começo a compreender isso um pouco melhor. Acabamos sempre por ter de escolher, por ter de decidir o que é mais importante e por ter de magoar alguém. Acho que não devíamos ter de escolher.

- Ali, Miss Harper, mas temos! - retorquiu ele com um sorriso triste.

- Você teve? - Kate ficou admirada com a sua pergunta, mas estava a gostar de falar com ele. Era um homem vivido, inteligente e bem-parecido, com vontade de falar sobre as coisas que a atormentavam naquele momento.

- Sim, tive de fazer algumas escolhas. A minha mulher diz que precisa de mim em Chicago. Para a ajudar a organizar jantares, ou qualquer coisa parecida. O meu filho acha que eu sou um capitalista estúpido e a minha filha tem paralisia cerebral. Eles precisam de mim. Se calhar bastante. Mas se eu não corro atrás do todo-poderoso dólar, a minha mulher não pode dar os seus jantares, o meu filho não pode passar o dia a defender as suas causas sagradas e a minha filha... bem, ela é quem mais precisa de mim. -Calou-se e olhou para o copo. Depois tomou a enfrentar Kate. - As minhas razoes para andar a correr atrás do dinheiro são muito pertinentes e corretas, mas a verdade é que não é por elas que eu continuo a fazer isto.

- Eu sei. - Kate percebia muito bem. - Fá-lo, porque gosta. Porque tem de fazer. Porque isso faz parte de si e... porque tem direito a isso - terminou ela baixinho, como se estivesse a falar para si própria. -Tem direito às coisas boas. À excitação, ao êxito...

Ele susteve o olhar dela com um pequeno sorriso cheio de ironia.

- Foi por isso que adorei o seu livro. Porque você sabe. Ela sorriu também.

- O mais engraçado é que quando escrevi o livro, sabia tudo. Ou pensava que sabia. Mas sabia-c, só de ver, não de o sentir. Sabia-o como espectadora, tal como a sua mulher. Agora tenho outra perspectiva. Agora eu própria sou confrontada com as mesmas coisas.

- Bem-vinda à terra dos malogros bem sucedidos, Miss Harper.

- Você considera-se um malogro?

- Depende da perspectiva. Desconfio que para eles, para a minha família, devo ser. Não sei. Para as pessoas com quem lido no trabalho, não sou com certeza. - Longe disso. Ganhara vários prêmios internacionais nos últimos cinco anos. Mas não disse isso a Kate, limitou-se a esboçar um sorriso irônico. - Paga-se um preço demasiado elevado.

- E vale a pena?

- Pergunte ao seu marido. - Bolas! Kate quase se encolheu ao ouvir aquelas palavras. - Você deve saber a resposta. - Acho que sim, mas agora vejo as coisas de forma diferente. Gosto do que estou a fazer. Não vejo por que motivo não podemos ter as duas coisas. Uma verdadeira vida, uma vida familiar, uma vida com algum significado e integridade, e uma carreira de sucesso.

- Sou da mesma opinião. - Fez sinal ao empregado para que lhes voltasse a encher os copos e Kate não objetou.

- Mas depende daquilo a que chamamos sucesso e daquilo a que chamamos carreira. Presumo que tenha uma carreira de sucesso. De certa forma, é uma celebridade. Isso não deve ser fácil.

- E você? - Kate queria saber mais. Gostava dele.

- Não sou uma celebridade. Sou apenas um arquiteto. Mas jogo na primeira divisão.

- É feliz?

- Não - respondeu com grande simplicidade, como se fosse algo que aceitasse e não lamentasse. -Acho que nos sentimos todos muito sozinhos - acrescentou, observando-a.

- E a sua mulher?

- Acho que também é infeliz.

- Ela não diz nada?

- Não. É uma mulher muito bem-comportada e... Hesitou. - Eu nunca lhe perguntei. Conhecemo-nos em crianças e casamos muito cedo, mal acabamos de estudar. Eu tencionava ser artista. Ela queria dedicar-se às belas-artes. Em vez disso, o meu pai sugeriu que eu fosse tirar um curso em Yale. Assim fiz, escolhi arquitetura, formei-me e foi o começo. Esquecemo-nos ambos dos nossos sonhos. Pelo menos dos mais pequenos. Os maiores foram alcançados, mas com demasiada facilidade. - Olhou para Kate com um sorriso que desmentia o que acabara de dizer. - Agora já sabe a história da minha vida, Miss Harper. Do princípio ao fim. O meu casamento falhado, o meu sofrimento, até o meu medo de um ataque cardíaco. Pode usar tudo no seu próximo romance. - Acabou a bebida e dirigiu-lhe um olhar irônico e divertido. - E aposto que já nem sequer se recorda do meu nome.

Kate ainda tinha o cartão-de-visita, mas nem sequer olhara para ele. Sorriu, atrapalhada.

- Detesto ter de admiti-lo, mas é verdade. Para além disso, sou péssima com nomes.

- Eu também. Só fixei o seu porque gostei muito do seu livro. Kaitlin, não é?

Ela gostou da forma como ele o pronunciou.

- Kate.

- Eu sou o Philip, Philip Wells. - Estendeu-lhe a mão e ela apertou-a com ar solene.

O chefe de mesa aproximou-se discretamente.

- Signore, signora, as vossas mesas estão prontas. - Indicou o meio da sala e Philip olhou para Kate.

- Podíamos juntá-las? Ou estarei a intrometer-me na sua privacidade? - Nem lhe ocorreu que ela podia estar à espera de alguém.

A idéia agradou a Kate. Não lhe apetecia comer sozinha. - Ora essa! Claro que podemos.

O chefe de mesa assentiu, Philip pagou as bebidas no bar e dirigiram-se para o centro da sala, entre as zebras. Kate levantou a cabeça e olhou para elas com uma expressão dúbia, e fez uma careta. Philip puxou-lhe a cadeira e riu-se ao ver a expressão dela.

- Eu sei. São horríveis, não são? O mais engraçado é que de cada vez que renovam a decoração, voltam sempre a pôr a mesma, até ao pormenor das plantas de plástico e das zebras. E se calhar têm razão. As pessoas estão à espera de as encontrar.

- Vem cá assim tantas vezes

- Venho com freqüência a Nova Iorque, e dou sempre cá um salto. Já lhe disse, sou fanático por coisas italianas. «Especialmente pelas mulheres», pensou, abstendo-se de o dizer. Mas Kate desconfiou. Ele não parecia ser fiel à mulher e já lhe contara o suficiente para dar a entender que era infeliz. Esse era o prelúdio habitual. No entanto, Kate não se importou. Gostava dele mesmo assim. E tinha uma conversa agradável. Era melhor do que ficar no quarto a ver televisão. Muito melhor. E, para além disso, Nick não estava em casa... Recordou os seus problemas ao pensar em Nick.

- Quando é que viveu em Roma? - perguntou, obrigando-se a pensar em Philip, pelo menos enquanto durava o jantar.

- Voltamos há dez anos. Vivemos lá quando as crianças eram pequenas. A minha filha nasceu lá. É uma cidade maravilhosa.

- Vai lá muitas vezes?

- Uma ou duas vezes por ano. Tenho mais assuntos a tratar em Paris e em Londres do que em Roma.

Ela começava a perceber ao que ele se referia quando falava em ser bem sucedido. Paris, Londres, Roma, Nova Iorque. Perguntou a si mesma se teria de ir à Europa promover o livro. Nick daria cabo dela, se ainda estivessem juntos...

A conversa decorreu com naturalidade. Deixaram de revelar segredos e de abrir a alma, Ela contou-lhe história-s engraçadas de São Francisco e ele algumas das suas aventuras no estrangeiro. Riram bastante. Terminaram o jantar com uma sobremesa deliciosa: zabaglione.

- Devia ir a São Francisco. Temos lá um restaurante onde servem um zabaglione que faz este corar de vergonha.

O resto da refeição fora excelente, mas na sobremesa ela sentira a falta da especialidade do Vanessi's.

- Talvez lhe faça uma surpresa.

Kate riu-se. Seria mesmo uma grande surpresa. No entanto, sabia que ele estava na brincadeira.

- Por acaso, há vinte anos que lá não vou. A maior parte dos meus negócios situa-se na costa este ou na Europa. Fazemos muito poucas coisas na costa oeste e, quando fazemos...

- Olhou-a, embaraçado. - Bom... mando um dos meus ajudantes.

- Que bonito. Acha que a Califórnia não o merece? perguntou Kate na brincadeira.

Ele soltou uma gargalhada.

- Confesso que nunca achei. Lá os negócios nunca são tão grandes.

- Talvez isso seja uma virtude.

- Nunca achei isso. Mas talvez você tenha razão - disse, sorrindo e estendendo a mão para a conta.

Kate franziu o sobrolho.

- Acho que não devíamos fazer as coisas assim, Philip. Deixe-me Pagar a minha metade.

- Que moderna! Não seja tonta - retorquiu ele, sorrindo com benevolência e pondo várias notas no prato.

- Por favor, não faça isso. Afinal de contas - acrescentou Kate -, eu tenho despesas de representação.

- Nesse caso, deixo-a pagar as bebidas. Será que consigo convencê-la a ir comigo ao Carlyle ouvir o Bobby Short?

Era um convite tentador, mas Kate olhou para o relógio.

- Contentava-se com uma bebida rápida no nosso hotel? Amanhã, tenho de me levantar de madrugada; devo estar no estúdio às sete e um quarto.

- E eu tenho um pequeno-almoço de trabalho em Wall Street às sete e meia, O hotel parece-me bem.

E foi melhor do que isso. Foi ótimo. Estava um pianista a tocar, e o bar encontrava-se quase vazio e possuía uma atmosfera surpreendentemente romântica.

- Não me lembrava que o bar era tão agradável - disse Kate, olhando em volta com admiração.

Ele riu-se.

- Foi por isso que sugeriu que viéssemos para cá? Julgava que a música era alta e que havia luzes fluorescentes?

- É uma pena que não tenha - retorquiu ela com uma gargalhada. - Tinha piada ver isso no Regency.

Riram e beberam um gole dos seus brandes. Kate já bebera bastante; porém, não se sentia embriagada. Haviam partilhado uma garrafa de vinho ao jantar, mas tinham comido bem. Só o brande é que a fez sentir-se um pouco alegre e apreciar a música e a companhia de Philip.

- O que é que vai fazer amanhã no estúdio?

- Uma visita guiada - respondeu ela muito séria.

- Vá lá, não brinque comigo. Tenho um grande fascínio pela vida das vedetas.

- Não tenha. É muito cansativa e, na maior parte das vezes, bastante aborrecida. Já comecei a perceber isso. Estive aqui em Agosto e achei tudo encantador. Dois meses depois, acho que é uma seca e que requer muito trabalho.

- Tem de se preparar para os programas?

- Nem por isso. Costumam perguntar-me antes sobre aquilo de que quero falar. E temos sempre uma idéia do que é que cada programa quer. Mas mais nada. Depois é só preciso saber improvisar, ser encantadora e muito perspicaz. Fez uma careta igual às que Tygue costumava fazer, e Philip sorriu.

- Estou vendo que leva isso muito a sério. A propósito, Kate, posso convidá-la para almoçar amanhã? O almoço que eu tinha programado foi cancelado e estou livre.

- Quem me dera estar também - respondeu ela. Tenho um almoço «literário» com outras mulheres. Imagina coisa pior?

- Não pode escapar-se?

- Se quiser publicar o meu próximo livro, não.

Ele sorriu com pesar. Também não podia convidá-la para jantar. Tinha de ir a um importante jantar de negócios e Kate ia jantar com o editor e com um representante do seu agente em Nova Iorque.

- Até quando vai cá ficar? -Até ao fim da semana.

- Ótimo. Então fica para outro dia. Depois de amanhã? Almoço? - Também estava livre para o jantar, mas só iria sugerir isso no próprio dia. Um almoço era sempre uma boa forma de começar as coisas.

- Gostaria muito. Onde é que nos encontramos? - Kate começava a sentir-se um pouco embriagada e só lhe apetecia ir para a cama. Olhou para o relógio e ficou horrorizada ao verificar que já passava da uma. Haviam passado juntos bastante tempo. Só iria conseguir dormir quatro horas, o que era típico em Nova Iorque.

Ele fitou-a com um sorriso e pousou o copo vazio.

- Deixe-me ver... onde é que seria divertido almoçarmos? No Quo Vadis?

- Onde é isso?

- Ao cimo da rua. É muito agradável. - Também tinha a vantagem de ficar apenas a um quarteirão do hotel, para o caso de o almoço correr inesperadamente bem.

Deu-lhe o braço quando se dirigiram ao elevador e observou-a com um olhar faminto quando ela saiu. Não havia mais ninguém no elevador.

- Boa noite, Kate - disse Philip. A sua voz era uma carícia e Kate quase estremeceu. - Vou ter saudades suas amanhã.

- Obrigada.

A porta fechou-se e ela sentiu-se uma idiota. «Obrigada.» Que falta de charme. Que pouco elegante. Que estupidez.

Philip era demasiado sofisticado para ela. Nunca conhecera um homem assim. Parecia mais europeu do que americano e era muito, muito sedutor. Soltou uma gargalhada quando entrou no quarto, De certa forma, ele era bastante parecido com o seu pai. E muito diferente de Nick. Isso era um alívio. Estava farta de Nick, de Tygue, de Tom e do quanto eles lhe exigiam. Farta das viagens a Carmel, da confusão e dos conflitos. Deitou-se por momentos na cama, prometendo a si própria que se levantaria dali a pouco para tirar a roupa. Mas não chegou a fazê-lo.

O telefone tocou às seis e Kate teve de correr para se despachar a tempo. Queriam-na num programa às sete e meia da manhã para se enganarem no seu nome e citarem mal o seu livro.