Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 6 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 6 · - Kate? Kate!

Kate deu um salto, surpreendida por ouvir o seu nome. Encontrava-se descalça sentada à secretária envergando uma camisa velha e calças de ganga desbotadas.

- Então, minha senhora, também está a ficar surda?

- Licia! - A amiga encontrava-se à porta, com o habitual aspecto elegante e moderno, e vestia um fato de camurça cor de vinho. - Porque não me avisaste que vinhas cá?

- Vim dar uma espreitadela à nossa loja em Santa Barbara e lembrei-me de passar por cá. Que linda indumentária. As coisas estão assim tão más?

Kate corou de vergonha e fechou a braguilha das calças.

- Desculpa. Estava a trabalhar. Não contava com visitas. -Como e que isso vai andando?

- Acho que bem. É difícil dizer. - Encolheu os ombros e seguiu Felicia até à sala de estar. A amiga não a visitava desde o Natal, havia dois meses, quando ali passara uma semana a mimar Tygue.

- Não sejas tão dura para contigo. Se vendeste um, podes vender também o outro.

- Diz isso ao meu editor, Licia.

- Com muito gosto. Queres um Martini?

Kate sorriu, mas abanou a cabeça. Felicia nunca mudava. A sua roupa seguia a última moda, os homens entravam e saíam da sua vida e de tantos em tantos anos alugava um apartamento um pouco maior e mais caro; porem, no essencial, não mudara nada. Isso era tranqüilizador. Os Martinis, a voz rouca, o estilo, a lealdade, a sensatez, as pernas bonitas... nada disso se alterara,

- Não sei, Licia. Estou a falar a sério. O primeiro livro não prestava, embora tenha sido publicado. E não querem o último. Começo a ficar nervosa.

- Não é preciso. Três é o número mágico. E para além disso, não podes dizer que o primeiro livro «não prestava». Tanto quanto me lembro, vendeu muito bem.

- Tretas! - ripostou Kate carrancuda.

- Não sejas tão insegura. Quantas mulheres da tua idade já escreveram dois livros?

- Provavelmente centenas. - No entanto, sabia-lhe bem ouvir aquilo; não tinha mais ninguém que a elogiasse, nem sequer ninguém com quem falar. Tinha o cuidado de não passar da fase do «Olá, como está?» com as pessoas da vila. Restava-lhe Tygue, Felicia, o seu trabalho e as visitas a Tom. E não tinha tempo para mais nada. - Começo e a perguntar a mim mesma se serei capaz de escrever um romance de sucesso.

- Talvez não queiras escrevê-lo - observou Felicia por cima do ombro enquanto vertia com destreza para o copo um Martini do jarro que tinha no armário de Kate. Sempre que ali chegava, tinham ambas a sensação de que ela ainda ali estivera na véspera. Isso era uma das coisas que Kate mais gostava naquela relação. - Talvez não queiras a agitação do êxito. Isso não iria obrigar-te a fazer opções indesejadas? Era uma pergunta que Felicia há muito se fazia.

- Que opções? Se o Tygue vai ou não para a faculdade?

- Isso é um benefício, querida, não uma opção. Estou a falar do que te aconteceria se o teu livro fosse um êxito. Poderias continuar a viver aqui? Irias exporte à publicidade? Concordarias em «ir à cidade» para dar entrevistas? As opções são estas, minha amiga.

- Preocupar-me-ei com elas na devida altura.

- Talvez isso seja em breve. - Felicia fez-lhe um brinde e Kate sorriu.

- Não desistes.

- Claro que não. - Tinham passado três anos e meio e ela continuava a querer que Kate regressasse. Concordava que Tygue era saudável e feliz, que era uma criança linda com faces rosadas e os enormes olhos azuis do pai. Ainda não sofria por causa da reclusão que a mãe escolhera, mas acabaria por sofrer. Fora esse o último argumento de Felicia, embora houvesse tido o mesmo resultado que os outros. - És a mulher mais teimosa que conheço.

- Obrigada - respondeu Kate.

- Onde está meu afilhado? Trouxe um presente.

- Se não fosses tu, Licia, o meu filho não teria nada com ,que brincar. Mas, graças a ti - acrescentou com um sorriso -, ele tem mais coisas do que todos os miúdos da vila. O comboio chegou cá na semana passada.

- Sim? - disse Felicia com um ar inocente. Talvez Tygue fosse demasiado novo, mas ela achava que ele devia ter um comboio. - Afinal de contas, a viver neste fim de mundo a criança precisa de se entreter com alguma coisa. Onde está ele?

- Na creche.

- Já? Mas ainda é tão novo!

- Foi para lá logo a seguir ao Natal e está a adorar. - Há-de apanhar os germes dos outros miúdos.

Kate botou-se a rir e Felicia acabou o Martini. Estavam no final de Fevereiro, numa soalheira tarde de sexta-feira e ali, onde Kate vivia, já cheirava a Primavera.

- Ele deve chegar dentro de meia hora. Vai para lá das duas às cinco, depois da sesta. Queres dar uma olhadela ao novo manuscrito enquanto esperas? - Felicia assentiu com um sorriso feliz. - Para onde estás a olhar?

- Estava a tentar lembrar-me se tive tão bom aspecto aos vinte e seis anos. Mas não tive.

- Isso é porque vivo aqui, e não numa cidade.

- Tretas. - Porém, talvez correspondesse à verdade. Fosse como fosse, Kate tinha um ótimo aspecto. Nem as visitas a Tom pareciam cansá-la tanto como dantes. Nada mudara ali, ela apenas se adaptara.

Tom continuava em Mead, e Mr. Erhard continuava a olhar muito bem por ele. Tom ainda brincava às mesmas coisas, lia os mesmos livros, fazia os mesmos quebra-cabeças era como se nunca passasse da primeira classe. Agora que Kate podia compará-lo com Tygue, a estagnação de Tom era ainda mais notória; contudo, Tom continuava a ser meigo e terno. Kate ainda ia visitá-lo duas vezes por semana. Tygue pensava que ela ia trabalhar. Era apenas mais uma coisa que a sua mãe fazia.

Kate olhou para o relógio quando entregou o manuscrito a Felicia. Ainda dispunha de algum tempo antes de Tygue chegar a casa e estava ansiosa por saber o que a amiga pensava do novo livro. Passaram quase vinte minutos até Felicia interromper a leitura e levantar a cabeça com uma expressão de surpresa.

- Como é que conseguiste a cena de sexo?

- O que queres dizer com isso?

- Tens andado a divertir-te mais do que eu pensava? perguntou Felicia com um sorriso travesso.

Kate ficou aborrecida.

- Não sejas parva. Limitei-me a escrevê-la, nada mais. É ficção.

- Espantoso. - Felicia parecia impressionada, mas o seu olhar era travesso.

- Porquê, é mau?

- Pelo contrário. É surpreendentemente bom. Admira-me que tenhas conseguido recordar tantas coisas. Com a vida bela, normal e saudável que levas, os homens que vês...

- Felicia Norman, vai-te lixar! - exclamou Kate, embora sorrisse.

Felicia continuou a ler. Kate ficara preocupada. A amiga estava sempre a gozar com ela por causa da sua vida sexual, ou da falta dela. Felicia podia nunca ter tido uma paixão avassaladora na vida, mas havia sempre alguém perto dela para lhe fazer companhia. Havia quatro anos que Kate não fazia amor. Nem sequer se permitia pensar nisso. Essas coisas já não faziam parte da sua vida. Concentrava todas as suas energias em Tygue e nos livros. Talvez isso contribuísse para que os livros fossem tão bons. Por vezes, perguntava a si mesma se seria mesmo assim. Os livros eram os seus amantes. E Tom e Tygue os seus filhos. Uma hora mais tarde, Felicia pousou o manuscrito com uma expressão séria. Kate estremeceu.

- Odiaste.

Felicia abanou a cabeça.

- Não. Adorei. No entanto, parece-me que estás a meter-te numa coisa que ignoras.

- No quê? - Devia ser o enredo. Caramba, e ela que tivera tanto cuidado.

- Podes ir a caminho do êxito, tal como eu te tinha prevenido - respondeu Felicia com uma expressão séria. Kate sorriu.

- Estás a falar a sério?

- Sim. E tu estás decidida?

- Ora, não te preocupes tanto. Lidarei com isso quando chegar a altura.

- Espero que sim.

Então a conversa terminou abruptamente quando o autocarro da escola trouxe Tygue a casa. Entrou a correr em casa, envergando calças de ganga, uma camisa de flanela vermelha, botinhas à cowboy e uma parka amarela.

- Tia Licia! Tia Licia! - Saltou para o colo dela, com botas e tudo, e Kate fez uma careta ao pensar no que poderia acontecer ao fato de camurça; porém, Felicia pareceu não se importar.

- Espera só até veres o que eu te trouxe!

- Outro comboio? - perguntou ele com um ar muito feliz.

As duas mulheres soltaram uma gargalhada.

- Não. Vai ver. No carro está uma caixa grande. Consegues trazê-la sozinho?

- Claro, tia Licia. - Saiu de novo a correr e Kate observou-o. Estava a crescer tão depressa... e foi então, que se apercebeu da expressão da amiga.

- Okay, é melhor avisares-me... O que é que lhe trouxeste? Uma cobra viva? Hamsters? Diz-me a verdade.

- Nada disso, Kate. É sério.

Porém, já ouviam os gritinhos de alegria lá fora. Felicia estivera nervosa por causa do presente desde que chegara. Até levara às escondidas Para o carro uma tigela com água. Mas ele estava a dormir. Contudo, naquele momento não dormia e estava a ser apaixonadamente abraçado pelo seu dono, Tygue.

- É verdadeiro!

- Claro que é verdadeiro! - exclamou Felicia com um sorriso, ao ver a expressão de Tygue.

Kate franziu o sobrolho, e depois sorriu também.

- É teu, tia Licia?

O cão era um basset com os olhos mais tristes que Kate já vira, e teve de se rir só de olhar para ele. Tygue pousou-o no chão e as pernas do cão pareceram deslizar para o lado. As suas orelhas abriram-se em leque e olhou com um ar triste para o rapazinho, abanando a cauda.

- Gostas dele, Tygue?

Tygue assentiu com vigor e sentou-se ao lado do cachorrinho preto e branco.

- Tens tanta sorte. Eu também queria ter um. Quero um, mamã.

- Mas já tens, Tygue. - A tia Licia estava de joelhos no chão ao lado do afilhado, abraçando o rapaz e o cão. - Já tenho um? - perguntou Tygue, confuso.

- Este cão é para ti. Só para ti - disse, beijando a cabeça loura de Tygue.

- Para mim?

- Para ti.

- Oli! Oli! - Não conseguiu dizer mais nada durante algum tempo. Depois atirou-se para,cima do cão, radiante. Como é que ele se chama?

- Tu é que escolhes!

- Vou perguntar ao Willie. - O urso de pelúcia era o seu melhor amigo. Tom ainda tinha o dele, e era difícil perceber qual era o mais amado e o mais usado, se o de Tygue se o do pai. Tygue saiu a correr da sala e Kate baixou-se para fazer uma festa ao cachorrinho.

- Estás zangada, Kate? - perguntou Felicia, não muito preocupada.

- Como é que eu podia estar zangada, sua tonta? Só te peço que não tragas um carro à criança da próxima vez que cá vieres. Espera até ele fazer seis anos.

O cão era irresistível e ela pô-lo no colo. Tygue regressou pouco depois com Willie.

- O Willie diz que ele se chama Bert.

- Então fica Bert.

Tygue abraçou-o de novo e Bert abanou a cauda. A família estava completa. E Felicia até gostara do começo do seu novo livro. Kate teve a sensação de que a esperavam coisas boas. A amiga estava a ser tola com aqueles disparates do êxito. Caramba, bastava que o editor aceitasse o livro. Não precisava de ser um best seller. A probabilidade de isso acontecer era uma num milhão e Kate sabia que não tinha tanta sorte. Pressentia-o. A sua vida era aquela.