Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 16 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 16 · Ela esperou no bangalô até ao meio-dia…

Ela esperou no bangalô até ao meio-dia e vinte e cinco, batendo com o pé na espessa alcatifa bege da sala, cheia de nervosismo. Deveria chegar a horas? Ou seria de bom tom atrasar-se? Deveria sair do quarto naquele momento? E se tivesse escolhido a roupa errada? Vestia um calça-casaco de linho branco que Felicia considerara adequado para Los Angeles, sandálias brancas e as únicas jóias eram a aliança de casamento e o relógio que Licia lhe dera. Tocou nele por um momento e fechou os olhos. Ainda sentia o cheiro das flores que lhe tinham entregado. Um grande arranjo de flores primaveris, com tulipas vermelhas e amarelas e todas as flores de que ela gostava. O arranjo viera do Case Show. E o hotel oferecera-lhe uma garrafa de bordéus Chateaux Margaux'59 e um cesto de fruta. «Com os nosso cumprimentos.» Ela preferia o vinho ao champanhe, parecia mais simples. Sorriu. Não havia nada simples num Margaux'59.

- Bom, é agora - disse ela em voz alta levantando-se com um suspiro e olhando em volta. Estava apavorada. Porém, tinha de ir. Era exatamente meio-dia e meia. E se o tipo fosse um idiota? Se não gostasse dela e não a quisesse no programa? E se a quisesse lá e os outros a tratassem mal? Oli, merda! -tornou a dizer em voz alta. Sorria quando saiu do quarto.

A caminhada de regresso ao edifício principal pareceu interminável. Kate tomou a ver a piscina e os courts de tênis e desejou estar lá. O fato era fresco e a brisa brincou com os cabelos que lhe emolduravam o rosto; tornou a perguntar a si mesma se devia ter escolhido um vestido ou talvez algo mais elegante. Felicia mandara-lhe também um vestido de alças azul-escuro, mas ela não tinha coragem de o levar ao programa. Sentia-se muito nua com ele. Não era capaz. Talvez à noite, se fosse à festa. A festa... tinha a sensação de que estava a andar no meio de uns carris, com um comboio a avançar rapidamente atrás de si.

- Minha senhora? - Já lá estava, a olhar para um fosso negro. O Polo Lounge era um poço escuro onde ela nada conseguia ver. Apenas se apercebeu das toalhas cor-de-rosa, de um pequeno bar e de vários bancos vermelhos. Depois do sol forte tinha dificuldade em ver quem ali estava e em perceber o que via. Mas ouvia tudo. Pareciam estar ali centenas de pessoas, a comer, a beber, a rir e a pedir um telefone. À entrada havia uma zona com cabinas. Era evidente que nunca eram utilizadas. Ninguém sonharia em sair quando podia pedir que lhe trouxessem um telefone à mesa e impressionar os transeuntes. «Quatrocentos mil? Está louco ... » Os telefones na mesa eram mais divertidos. - Minha senhora? - perguntou de novo o homem, observando-a. Ela era bonita, mas não estonteante. Estava habituado a mulheres lindíssimas, como as atrizes e as call girls que ela viu junto a um grupo no bar.

- Venho encontrar-me com Mister Weinberg, Stuart Weinberg. E...

Mas o empregado já estava a sorrir.

- Mistress Harper? - Ela assentiu com ar incrédulo. Os cavalheiros estão à sua espera lá fora no terraço. Mister Waterman já está com Mister Weinberg.

Foi à frente, seguido de Kate, que ainda não conseguia ver bem. Porém, não precisava ver as caras. Até as vozes soavam importantes. E parecia haver muito cabelo louro comprido, muitas pulseiras a tinir, camisas abertas e muito ouro ao pescoço. Kate não teve tempo de observar mais nada, pois o empregado levou-a rapidamente para o terraço com uma expressão de grande decoro. Era agradável encontrar-se de novo ao sol e tornar a ver um rosto conhecido, o de Stu Weinberg.

- Ora, ora, conseguiu! E está muito bonita!

Kate sentiu-se corar, e Stu levantou-se e envolveu-a num abraço fraternal. Olhou para o seu rosto com uma expressão aprovadora e trocaram um sorriso.

- Desculpem o atraso. - Olhou em volta, sem se permitir ver o outro homem, e depois para a cadeira que o empregado havia puxado para si. Sentou-se, e Stu indicou com a mão o homem sentado à sua direita.

- Não está atrasada. Kate, gostaria que conhecesse o Nick Waterman. Nick, Kate.

Kate sorriu com nervosismo e o seu olhar pousou no rosto de Nick enquanto lhe apertava a mão. Era uma mão grande e muito firme e os olhos eram de um azul tropical.

- Olá, Kate, estava ansioso por conhecê-la. O Stu deu-me um exemplar do seu livro. E magnífico. Melhor do que o anterior. - O seu olhar parecia ser luminoso e Kate começou a sentir-se mais descontraída.

- Leu o meu primeiro livro? - Ele assentiu e ela fitou-o, admirada. - Leu mesmo? - Ele tomou a assentir e soltou uma gargalhada, encostando-se à cadeira.

- Julgava que ninguém os lia? - perguntou com ar divertido.

- Julgava, por acaso.

Como é que ia explicar que nunca tentara descobrir que alguém a lia? Tillie lera-a, bem como Mr. Erhard, mas ela sempre julgara que fora porque lhes oferecera o livro. Era incrível conhecer um desconhecido que também lera o seu livro.

- Não diga isso rio programa - aconselhou Stu com um sorriso, fazendo sinal ao empregado. - O que vai querer?

- Gafanhotos - murmurou ela com um sorriso e Stu soltou uma gargalhada. Nick fez uma expressão intrigada enquanto o empregado tomava nota.

- Um grasshopper l para a senhora?

- Não, não! - exclamou ela a rir-se. - Não sei. Talvez um chá gelado.

- Chá gelado? - perguntou Stu, admirado. - Não bebe álcool?

- Quando estou nervosa, não. Acho que desmaiava. Stu olhou para Waterman com um sorriso e deu uma palmadinha na mão de Kate.

- Prometo que só o deixo atacá-la durante a sobremesa. Riram os três.

 

1

Grasshopper, para além de significar gafanhoto é também o nome de um cocktail. (N. do T.)

 

- Por acaso, acho que já estou um pouco embriagada. Oli, a propósito, as flores eram lindas. - Virou-se para Nick Waterman e sentiu-se de novo corar. Não sabia bem porquê, mas ele punha-a pouco à vontade. Havia nele um certo magnetismo que fazia uma pessoa querer fitá-lo nos olhos, querer tocar-lhe, mas isso assustava-a. Era aterrador sentir-se atraída por um homem ao fim de tantos anos, mesmo que fosse só pela sua conversa. E ele era tão grande, e parecia tão presente. Era impossível evitá-lo. E Kate também não tinha vontade de o fazer. Era isso que a assustava.

- O que acha de Hollywood, Kate? - Era uma pergunta banal; porém, ela sentiu-se de novo corar e detestou-se por isso.

- Ao fim de duas horas, já estou maravilhada. É mesmo assim? Ou será o hotel uma espécie de oásis louco no meio de um mundo mais são?

- De maneira nenhuma. Isto é o normal. Quanto mais nos afastamos, mais loucas as coisas se tomam.

Os dois homens trocaram um olhar de compreensão e Kate sorriu.

- Como é que agüenta?

- Eu nasci aqui - afirmou Stu com orgulho. - Está-me na massa do sangue.

- Que horror! Pode ser operado? - perguntou Kate muito séria. Nick soltou uma gargalhada e Kate virou-se para ele, cheia de coragem. - E você?

- Eu estou de boa saúde. Nasci em Cleveland.

- Credo! - exclamou Weinberg.

O empregado pousou o chá gelado em frente a Kate. Ela sorriu.

- Fui uma vez a Cleveland. É uma cidade muito bonita - disse, olhando para o copo.

- Kate, não me agrada nada dizer-lhe isto - interveio Nick numa voz grave de barítono que mais parecia uma carícia mas acho que não foi a Cleveland.

Fui, sim senhor - retorquiu ela olhando com um sorriso para os olhos azuis.

- Se a achou bonita, é porque não foi lá. -Está bem, digamos então que me diverti. -Assim é melhor. Já começo a acreditar. Encomendaram camarão e espargos com molho vinagreta, acompanhados de baguettes quentes e deliciosas.

- Bem, Kate, vamos falar do programa? - perguntou Nick com um sorriso meigo.

- Estou a tentar não o fazer.

- Foi isso que pensei. - O sorriso alargou-se. - Não tem de preocupar-se com nada. A sério. Só precisa de fazer o que acabou de fazer.

- Comer até rebentar? - perguntou ela, e Nick sentiu uma súbita vontade de lhe fazer uma festa no cabelo bem penteado. Porém, achou melhor não fazer nada que a surpreendesse, se não, ela correria de volta para a floresta como uma gazela assustada. Ouvira atentamente o que Weinberg lhe dissera. Quando falava, Kate não era nada tímida. Aliás, era um pouco agressiva, e ele gostava disso. Porém, os seus olhos diziam outra coisa. Revelavam medo, tristeza e uma idade superior à do seu corpo e do seu rosto. Não fora feliz no seu esconderijo. Nick sentiu vontade de a abraçar. Isso teria dado cabo de tudo, com certeza. Weinberg matá-lo-ia. Sorriu e obrigou-se a ouvir o que ela estava a dizer acerca do programa.

- Não, Kate, estou a falar a sério. Só tem de conversar, rir-se um pouco, dizer o que lhe vier à cabeça... mas nada de palavrões, por favor! - Na noite anterior um dos convidados, um cômico que Jasper estivera ansioso por entrevistar, dissera duas vezes «merda» e uma vez «foda-se». Nick já tinha problemas de sobra. - Só tem de ser você própria. Descontraia-se. Escute. O Jasper é um excelente entrevistador. Vai sentir-se em casa.

- Não me parece; vou passar o tempo todo preocupada para ver se não desmaio ou se não vomito.

- Não vai nada. Vai adorar e não vai querer que aquilo acabe.

- Tretas.

- Não pode dizer nada mais forte do que isso, se não quem a expulsa sou eu!

- É em direto? - perguntou ela, apavorada; porém, ele abanou a cabeça.

- Não. Só tem de se mostrar muito bonita e de se divertir. Há alguma coisa em especial de que queira falar? - perguntou ele com um ar sério que Kate adorou.

Pensou durante um minuto e abanou a cabeça.

- Pense bem, Kate. Há algum aspecto do livro que signifique muito para si? Algo que o tome mais real, que o aproxime dos espectadores? Algo que os faça acorrer às livrarias para o comprar? Talvez qualquer coisa que tenha acontecido enquanto o escrevia? Aliás, por que motivo o escreveu?

- Porque quis contar uma história. Acho que era uma coisa importante para mim, por isso quis contá-la às outras pessoas. Mas isso não é nada de extraordinário. O fim de um casamento e de um romance não é uma coisa muito escaldante.

- Corte isso! - interveio Weinberg. - Não diga nada que dissuada as pessoas de comprarem o seu livro!

- É sério, Kate.

Nick observava-a de novo. Os olhos, os olhos, havia alguma coisa nos olhos dela. O que raio seria? Medo? Não, era outra coisa, algo mais profundo. Sentiu uma enorme vontade de saber o que era. Aqueles sentimentos não ajudavam nada a conversa. Kate pôs-se a olhar para as mãos, como se pressentisse que ele já vira de mais.

- Muito bem, porque é que escreveu sobre futebol? Ela não levantou a cabeça.

- Porque achei que daria um bom pano de fundo e que os homens se identificariam com ele. Tem um bom valor comercial.

Nick não sabia por que motivo, mas não acreditava nela e, quando Kate o fitou, teve a certeza disso. Parecia que despertara alguma emoção.

- Fez algumas observações no livro bastante profundas, Kate. Foi isso que mais me entusiasmou. Você conhece bem o jogo. Conhece-o profundamente. Adorei isso.

- Jogou futebol na faculdade? - Kate tinha a sensação de que estavam os dois sozinhos. Stu Weinberg percebeu que fora esquecido, mas não se importou.

Nick assentiu em resposta à pergunta de Kate.

- Sim, durante a faculdade e depois um ano como profissional. Dei cabo dos joelhos na primeira época e tive de deixar de jogar.

- Teve sorte. É um desporto cruel.

- Acha mesmo? Não foi isso que me pareceu sentir no livro.

- Não sei. Creio que é uma forma selvagem de matar pessoas.

- Como sabe isso tudo, Kate?

A resposta dela foi rápida e fácil, dada com um sorriso à Hollywood.

- Fiz uma pesquisa cuidada.

- Deve ter sido divertido - retorquiu ele com um sorriso, continuando à procura, atento. Ela quis furtar-se de novo, mas não foi capaz. E o pior de tudo era que desejava não ter de furtar-se. Porém, não podia dar-se ao luxo de conhecer aquele homem. Ele conhecia o meio do futebol. Era perigoso. Nem sequer podia tê-lo como amigo. - Quer falar dessa pesquisa no programa?

Ela abanou a cabeça e depois encolheu os ombros.

- Acho que não teria interesse. Vi alguns jogos, falei com algumas pessoas, fiz entrevistas, li. Isso não vai ajudar em nada o livro.

- Talvez tenha razão. - Não ia insistir. - Bom, e a seu respeito? É casada? - Olhou para a aliança que ela tinha no dedo e recordou-se de Weinberg lhe ter dito que era viúva. No entanto, não queria dar a impressão de saber demasiado. Tanto quando se apercebia, sabia muito pouco.

- Não. Sou viúva. Mas, por amor de Deus, não diga isso no programa. Vai parecer melodramático.

- Bem visto. Filhos?

O rosto dela iluminou-se e ela assentiu, embora com hesitação.

- Sim. Um. Mas também não quero falar sobre isso.

- Porque não? - perguntou Nick, admirado. - Bolas, se eu tivesse um filho não falava de mais nada. -Talvez ela possuísse uma faceta cruel, embora ele não achasse.

- Presumo que não os tenha.

- Que dedução brilhante, minha senhora - comentou ele, brindando-a com o resto do seu Bloody Mary. - Sou puro e ainda não fui tocado. Não tenho filhos, nem mulher, nem nada.

- Não? - perguntou ela, surpresa. O que faria um homem daqueles à solta? Seria homossexual? Não podia ser. Talvez gostasse de ser vedeta. Parecia a única resposta possível. - Acho que vivendo aqui isso faz sentido. Há tanto por onde escolher. - Olhou em volta com um sorriso malicioso e ele inclinou a cabeça para trás e desatou a rir.

- Apanhou-me.

Weinberg sorriu a ambos e descontraiu-se. Kate estava a sair-se lindamente. Ele não precisava de intervir.

- Então por que motivo não quer falar do seu filho? A propósito, é rapaz ou rapariga?

- Rapaz. Tem seis anos. E estupendo. Um verdadeiro pequeno cowboy. - Dava a sensação de estar a partilhar o seu maior segredo e Nick tomou a sorrir, observando-a. Kate voltou a ficar séria. - Não quero expô-lo aquilo que faço. Ele leva uma vida agradável e simples no campo. Quero que as coisas continuem assim. Não se dê o caso... não se dê o caso...

- De a mãe dele vir a tomar-se uma celebridade, hum?

- Nick parecia divertido. - O que pensa ele de tudo isto?

- Pouca coisa. Mal me falava quando me vim embora.

Ele... não está habituado a que eu me ausente. Ficou furioso

- disse ela, levantando a cabeça e sorrindo.

- Tem de levar-lhe uma coisa de que ele goste. -Sim. Eu.

- Mima-o muito, não mima?

- Não. Uma pessoa amiga é que o mima. - Uma pessoa amiga. Então era isso. Havia mesmo alguém. Bolas! Porém, o rosto dela nada revelava.

- Então vamos a ver, como é que o pobre Jasper fica esta noite? Não vai falar de futebol nem da sua pesquisa, e não vai falar do seu filho. E quanto a um cão? - perguntou Nick com um sorriso.

Stu fez uma careta e meteu-se na conversa.

- Não devias ter dito isso. Estragaste tudo. - Ela tem um cão?

- Tenho um Bert - afirmou Kate, empertigada. - O Bert não é um cão, é uma pessoa. É preto e branco e tem orelhas compridas.

- E o que é? Um cocker spaniel?

- Claro que não! - exclamou ela com ar ofendido. É um basset hound.

- Bestial. Vou dizer ao Jasper. Muito bem, minha senhora, agora a sério, do que é que vai falar? Do casamento? Que tal do casamento? Tem alguma opinião a esse respeito?

- Gosto muito. É bastante agradável. - Então porque não casaria com a «pessoa amiga» que mimava o filho? Seria que ainda gostava do marido? Nick ainda não percebera. Mas haveria de perceber.

- E da vida a dois? O que pensa acerca disso? - Também é agradável. - Kate sorriu e acabou o chá gelado.

- De política?

- Não gosto de política. Mister Waterman - disse ela com uma expressão matreira -, devo dizer-lhe que sou uma pessoa muito aborrecida. Escrevo. Adoro o meu filho.

- E o seu cão. Não se esqueça do seu cão.

- E o meu cão. É tudo.

- E as aulas que dá? - interveio de novo Stu com uma expressão séria. - Não dá aulas a crianças deficientes ou algo parecido? - Falara com Tillie algumas vezes ao telefone quando Kate fora visitar Tom.

- Prometi à escola que não falava disso. - Era uma mentira que Kate ainda conseguia dizer facilmente.

Nick Waterman encostou-se à cadeira com um sorriso. - Já sei! O tempo! Pode falar com o Jasper sobre o tempo! -Gracejava, mas Kate pareceu um pouco abatida.

- E assim tão mau? Meu Deus, desculpem.

Logo a mão de Nick cobriu as dela e a sua expressão revelava quase amor. Aquilo sobressaltou-a, pois acontecera demasiado depressa.

- Estava só a brincar consigo. Vai correr tudo bem. Nunca sabemos o que vai acontecer. Podem vir ao de cima assuntos que você nem julgava que lhe interessavam. Pode ser que conduza o programa. Porém, independentemente de tudo o resto, você é suficientemente inteligente, bonita e divertida para fazer um ótimo programa. Descontraia-se. Eu estarei atrás das câmaras a acenar-lhe, a sorrir-lhe e a fazer caretas para você sorrir.

- Não vou ser capaz - declarou ela quase com um gemido.

- Acho melhor que seja, minha querida. Se não, dou-lhe uma sova - retorquiu Weinberg e riram os três.

Kate tinha de admitir que já se sentia melhor. Pelo menos sabia que existia um amigo no programa. Nick Waterman já era um amigo.

- O que vai fazer esta tarde? - perguntou Nick olhando para o relógio. Já eram três e dez e ele tinha coisas para fazer no estúdio.

- Pensei em ir dar um mergulho e descontrair um bocado. Tenho de lá estar a um quarto para as sete?

- É melhor às seis e um quarto ou às seis e meia. Começamos a gravar às sete. Pode retocar a pintura, conversar com os outros convidados na Sala Vermelha, e pôr-se à vontade. Oli, e antes que me esqueça, não pode levar roupa branca. Reflete demasiado a luz.

- Não posso? - perguntou ela, horrorizada. - E branco sujo?

Ele abanou a cabeça.

- Oli, meu Deus.

- Não trouxe mais nada? - perguntou ele tal como um marido pergunta à mulher enquanto ela se veste, e Kate sentiu-se pouco à vontade com aquela intimidade.

- Ia vestir um fato creme com uma blusa cor de pêssego.

- Acho muito bonito. Tenho de a convidar para jantar um dia destes para a ver com esse fato. Mas não no programa, Kate. Lamento.

Parecia de fato lamentar e Kate ficou aflita. Devia ter dado ouvidos a Licia e trazido mais coisas da loja, mas sentira-se demasiado segura acerca do fato. E a única peça de roupa que lhe restava era aquele vestido de chiffon azul-escuro provocante. Bolas, iriam julgá-la uma prostituta.

- Tem mais alguma coisa? Pode sempre ir às compras. -Acho melhor. Trouxe outra coisa, mas acho que é demasiado provocante. - Weinberg aproximou-se e Waterman fitou-o. Tinham ambos temido que ela vestisse uma roupa demasiado séria.

- O que é?

- Um vestido de alças azul-escuro. Mas acho que ficava com ar de prostituta.

Os dois homens sorriram.

- Acredite, Kate, que mesmo que quisesse nunca ficaria com ar de prostituta.

- Isso é um elogio? - Pressentia que não, mas Nick olhou em volta com uma expressão de tédio para as mulheres demasiado enfeitadas nas mesas à volta.

- Nesta cidade, Kate, é um elogio. O vestido é sexy?

- Mais ou menos. Eu considerá-lo-ia elegante.

- Encantador?

Ela tornou a assentir, atrapalhada, e ele pareceu ficar radiante.

- Leve-o.

- Está falando sério?

- Estou. - Os dois homens trocaram um sorriso e Nick Waterman pagou a conta.

CAPÍTULO 17

Kate olhou-se ao espelho quando se preparava para sair do bangalô. Tencionara chamar um táxi, para não se perder a conduzir sozinha nas ruas de Los Angeles. No entanto, a secretária de Nick telefonara a dizer que iam mandar alguém buscá-la. Às seis. E tinham acabado de telefonar da recepção a avisar que o carro já chegara. Kate telefonara duas vezes a Felicia, em pânico. Falara com Tygue. Fora à piscina, lavara a cabeça, pintara as unhas e mudara três vezes de brincos e de sapatos. Estava pronta. Continuava a sentir-se uma prostituta com aquele vestido. Mas uma prostituta cara.

O vestido mostrava os seus ombros estreitos e elegantes e o seu pescoço comprido. Tinha uma alça no pescoço e nas costas muito pouco tecido, mas ninguém veria isso Com ela sentada. O vestido estreitava na cintura e depois voltava a cair largo. Acabara por decidir levar as sandálias azul-escuras que Licia sugerira, brincos de pérolas e o cabelo apanhado. Era o mesmo penteado que a mãe tinha quando Kate a vira pela última vez, havia muitos anos, embora ela já não se lembrasse. Aquele penteado era o que mais a favorecia. E, para além dos brincos, a única jóia que levava era a aliança. Estava linda e o espelho confirmou-o. Kate esperava que Nick fosse da mesma opinião, e corou quando pensou nisso. Não Nick como homem, mas como produtor do programa. No entanto, na sua mente confundia as funções de Nick com as de mentor, conselheiro, amigo, homem. Era estranho experimentar todos aqueles sentimentos por alguém que acabara de conhecer. Sentia-se ansiosa por vê-lo e por saber se estava bonita para o programa. Se não estivesse, pior. Não fora às compras nessa tarde. Decidira apostar no único vestido decente que tinha. Se não gostassem dele para o programa, nada poderia fazer para remediar. Porém, Felicia dissera que todos iriam adorá-lo, e ela tinha normalmente razão.

Kate tapou os ombros com um xale azul de crochê muito fino, pegou na mala e abriu a porta. «É agora.» Não conseguia tirar as palavras da cabeça: «E agora.» Não se permitiu dar ouvidos ao receio enquanto se dirigia num passo rápido ao átrio do hotel e depois saía. Parou junto ao porteiro.

- Miss Harper?

Como diabo é que ele sabia? Havia dezenas de pessoas a passar. Era espantoso. Reparou num casaco de chinchila até aos pés numa mulher muito velha e feia, seguida por três homens de meia-idade, e obrigou-se a prestar atenção ao porteiro.

- Sim, sou Miss Harper.

- O carro está à sua espera. - Fez sinal a uma limusine estacionada, e um enorme Mercedes cor de chocolate parou à sua frente. «Para mim? Pareço a Cinderela!» Apeteceu-lhe rir, mas não teve coragem.

- Obrigada. - O motorista segurou-lhe a porta, pois saíra do carro antes de o porteiro ter tido tempo de lá chegar, e os dois homens fardados ficaram a vê-Ia entrar. De novo, Kate sentiu uma enorme vontade de beliscar alguém, de desmaiar, de rir. Mas não havia ninguém com quem se rir. Estava desejosa de voltar a ver Nick e de lhe falar. Depois percebeu que não podia fazê-lo. Para ele, aquilo acontecia todos os dias. Para ela, era uma vez na vida.

O carro atravessou zonas que Kate não conhecia, passou por mansões com palmeiras, estradas misteriosas onde ela se teria perdido, até que se aproximou de um edifício comprido e despretensioso cor de areia. O estúdio. O carro parou, o motorista abriu-lhe a porta e ela saiu. Era difícil não sair de forma imponente. Era difícil não exibir um ar imperial. Porém, Kate recordou a si própria que Cinderela perdera um sapato de cristal e quase partira as costas nas escadas.

- Obrigada. - Sorriu ao motorista e ficou satisfeita com o fato de a sua voz continuar a soar como a de Kate, não como a de «MiSs Harper». No entanto, começava a gostar do que rodeava «Miss Harper». Era extraordinário. Kaitlin Harper - A Escritora.

Junto à porta do edifício encontravam-se dois seguranças que lhe pediram a identificação, no momento de entrar. Mas antes de ela a poder mostrar, surgiu uma jovem loura que sorriu aos seguranças.

- Eu agora levo-a para cima, Miss Harper.

Os dois seguranças também sorriram e um deles olhou com uma expressão apreciativa para o rabo da rapariga. Ela envergava calças de ganga, um par de sapatos Gucci e um pequeno top branco transparente. Kate sentiu-se uma velha. A rapariga tinha provavelmente apenas vinte e dois anos e uma expressão que Kate há muitos anos não tinha, se é que alguma vez tivera. Talvez, no passado, há cerca de mil anos... era difícil recordar-se.

- Já está tudo pronto na Sala Vermelha. - A rapariga continuou a conversar durante a viagem de elevador para o primeiro andar. Podiam perfeitamente ter subido a pé, mas Kate pressentiu de imediato que não era isso que devia fazer. Estava numa cidade onde tudo o que uma pessoa fazia refletia o seu estatuto.

Saíram para um corredor, e Kate tentou olhar para as fotografias penduradas na parede. Eram de rostos que ela conhecia do cinema, dos jornais, dos noticiários, até alguns rostos das contracapas dos livros. Perguntou a si mesma se um dia o seu rosto estaria também ali e, num momento de loucura deliciosa, desejou que sim. Kaitlin Harper... Ali! Sou eu! Estão a ver? Sou eu! Sou a Kate! Mas a rapariga já segurava uma porta para ela passar. O santuário. Um grupo de seguranças protegia o seu exterior e o seu interior, e a porta só se abria com uma chave. Seguiu-se um longo corredor com alcatifa branca. Branca? Nada prático. Porém, era evidente que ninguém se ralava. Era linda. Mais fotografias. Estas eram mais pessoais, e Jasper Case estava em todas. Nas fotografias parecia ser um homem atraente, de cabelos grisalhos e muito alto. Havia nele uma certa elegância. E, como já vira alguns programas, Kate sabia que o seu sotaque britânico contribuía para dar essa imagem distinta. Jasper Case conseguia fazer as melhores entrevistas da televisão porque nunca era pretensioso, cruel, mas sim atencioso, interessado, conseguindo cativar os espectadores. Quem estava em casa a beber um Ovomaltine e a assistir ao programa antes de se ir deitar tinha a sensação de que os convidados de Jasper se encontravam na sua sala e o incluíam no grupo.

Kate continuava a olhar fascinada para as fotografias quando ouviu outra porta abrir-se com umas das chaves mágicas da rapariga e viu o que parecia ser a sala dos convidados. Era rosa-velho e muito elegante. Havia um sofá, várias poltronas, uma chaise-longue, um toucador, muitas orquídeas em vasos e outras plantas deslumbrantes pendentes do teto. Era o tipo de sala que Kate gostaria de ter como escritório, em vez do buraco escuro onde ela, como a maior parte dos escritores, trabalhava.

- Este é o seu camarim, Miss Harper. Pode mudar de roupa, ou deitar-se um pouco. O que lhe apetecer. Quando estiver pronta, toque à campainha e eu levo-a à Sala Vermelha.

«É sério? Promete? Mas tenho mesmo de fazer isso?» Kate gostava da sala cor-de-rosa. Quem precisava da vermelha?

- Obrigada. - Foi a única palavra de que conseguiu lembrar-se. Sentia-se deslumbrada com tudo aquilo. E quando entrou na sala e a porta se fechou, reparou num delicado bouquet de rosas e gipsófila, com um pequeno cartão. Aproximou-se, perguntando a si mesma se as flores seriam para outra pessoa. Com certeza alguém mais importante. Mas no sobrescrito estava escrito o seu nome. Abriu-o cheia de curiosidade e com dedos trêmulos. Seriam de Stu?

Não. Eram de Nick. «Não se esqueça do cão e do tempo. Nick.» Kate soltou uma gargalhada, sentou-se e olhou em volta. Não tinha mais nada para fazer, a não ser olhar. O xale escorregou-lhe dos ombros quando se sentou numa das confortáveis poltronas e se sentiu ser engolida por ela. Em seguida, nervosa, levantou-se de um pulo e viu-se no espelho de corpo inteiro. Estaria bonita? Seria o vestido horrível? Estaria... seria... deveria... Uma pancada na porta interrompeu os seus devaneios e ela quase entrou em pânico.

- Kate?

Era uma voz de homem, uma voz grave, e Kate sorriu. Afinal de contas não estava sozinha. Abriu a porta e ali estava ele, alto e sorridente. Nicholas Waterman. Era mais alto do que aquilo que ela recordava do almoço, mas o seu olhar continuava o mesmo, muito meigo, o olhar de um amigo.

- O que está a fazer?

- Estou um caco. - Convidou-o a entrar e fechou a porta com um ar de conspiração. Depois lembrou-se das rosas. - Obrigada pelas flores. Que tal estou? - As Palavras saíram-lhe a custo e só lhe apetecia deitar-se no chão de barriga para baixo e esconder-se. - Oli, não agüento! - Sentou-se na poltrona e quase gemeu.

Nick riu-se.

- Está linda. E vai sair-se lindamente. Lembre-se do cão e do tempo. Percebido?

- Ora, cale-se! - Depois reparou que a observava. - O que foi?

- Solte o cabelo.

- Agora? Depois não consigo penteá-lo como estava disse ela em pânico.

- A questão é precisamente essa, tontinha. Vá lá. Esse vestido requer cabelo comprido.

Sentou-se no sofá ao lado dela à espera, e Kate fitou-o, perplexa.

- Faz isto a todas as pessoas que vêm ao programa? Era um pensamento pouco animador. Esperava que não.

- Claro que não. Mas nem toda a gente vem ao programa falar do cão e do tempo.

- Importa-se de parar com isso? - pediu Kate com um sorriso. Tornou a pensar que adorava os olhos dele.

- Solte o cabelo. - Nick parecia um irmão mais velho a tentar ensinar-lhe um desporto novo.

Kate teve vontade de resistir, mas decidiu deixar-se convencer.

- Está bem. Mas vou ficar horrível.

- Mesmo que quisesse, não ficava.

-Você é louco.

Parecia conversa de casa de banho. Ele fazia a barba enquanto ela secava o cabelo. Ela penteava-se enquanto ele fazia o nó da gravata. Kate olhou para ele com um sorriso enquanto o seu cabelo caía em cascata até aos ombros em ondas suaves e macias. Nick sorriu. Tivera razão.

- Está linda. Veja-se ao espelho. Ela fê-lo, mas franziu o sobrolho.

- Parece que acabei de me levantar.

Nick sentiu vontade de lhe dizer uma coisa, mas não disse. Limitou-se a sorrir.

- Está perfeita. E acabou de vender o livro a metade dos homens americanos. A outra metade é demasiado velha ou demasiado nova. Porém, se ainda estiverem acordados quando o programa for para o ar, tê-los-á convencido.

- Gosta assim?

- Adoro. - E adorava o vestido. Estava linda. Alta e delicada, elegante e sensual. Possuía um certo encanto ingênuo. Não se apercebia disso, mas era o tipo de mulher que os homens fariam tudo para conquistar. Era a subtileza, a timidez que se vislumbrava no seu humor, a reserva à mistura com um ar matreiro. Sem pensar, ele pegou-lhe na mão. - Está pronta?

Kate tinha vontade de fazer xixi, mas não podia dizer-lhe isso. Limitou-se a assentir com um sorriso.

- Estou - disse ela, ofegante.

- Então, passemos à Sala Vermelha.

Lá havia champanhe e café, sanduíches, um prato com patê de foíe gras, revistas, aspirinas e vários outros medicamentos para males menores, incluindo alguns para combater ressacas. Kate viu alguns rostos que nunca esperara ver na mesma sala. Um jornalista de Nova Iorque, um comediante de que ouvira falar toda a vida e que acabara de chegar de Las Vegas para o programa, uma cantora, uma atriz e um homem que passara quatro anos em África a escrever um livro sobre zebras. Kate ouvira falar de todos, vira-os a todos. Ali não havia ninguém desconhecido. Depois sorriu para si própria. A desconhecida era ela.

Nick apresentou-a a toda a gente e estendeu-lhe a ginger ale que ela pedira. Precisamente às dezoito e quarenta e cinco saiu da sala. O homem das zebras estava sentado à frente de Kate com uma conversa de chacha no seu sotaque praticamente ininteligível de Eton, e a cantora observava Kate.

- Parece que o produtor gosta muito de si, querida. É uma paixão antiga ou recente? Foi assim que conseguiu vir ao programa? - perguntou ela exibindo unhas escarlates semelhantes a garras e sorrindo para a atriz, que era sua amiga. Havia um rosto novo na cidade e isso não lhes agradava. Kate sorriu-lhes, desejando desaparecer. O que raio se respondia àquilo? Vá-se lixar? Posso pedir-lhe um autógrafo? Continuou a sorrir e cruzou as pernas, perguntando a si mesma se as outras conseguiriam ver os seus joelhos a tremer. Depois o jornalista e o comediante salvaram-na, como se tivessem caído do céu só com esse propósito. O jornalista insistiu que precisava da ajuda dela para o patê e o comediante disse algumas piadas; ficaram os três a um canto na conversa enquanto que, no canto oposto, as outras duas mulheres ferviam. Porém, Kate não reparou. Estava demasiado nervosa e demasiado entretida a conversar. Nick tivera razão; todos os homens naquela sala teriam dado o braço direito para ir com ela para casa. Kate estava demasiado preocupada com o programa para reparar no efeito que lhes provocava.

- Que tal é?

- Como cair sobre uma cama de algodão doce - respondeu o comediante, olhando-a com um sorriso. -Gostaria de experimentar um dia destes?

Kate soltou uma gargalhada e bebeu um pouco de ginger ale. Bolas, e se aquilo a fizesse arrotar? Largou o copo e apertou o guardanapo de papel com as mãos úmidas.

- Não se preocupe, minha querida. Vai adorar - murmurou o comediante com um sorriso terno. Tinha idade suficiente para ser pai dela, mas Kate sentiu a mão dele no joelho. Não sabia se iria adorar ou detestar a experiência. E então, chegou a hora de começarem a gravar. A sala pareceu encher-se de eletricidade e todos se calaram.

A cantora foi em primeiro lugar. Interpretou duas canções e veio-se embora depois de falar com Jasper durante cinco minutos, que lhe disse estar «muito grato por ela lá ter podido ir, pois sabia que tinha um programa especial para gravar». Kate ficou bastante satisfeita quando ela se foi embora cinco minutos mais tarde. O jornalista foi entrevistado a seguir e teve imensa piada. Era já um habítué no programa. Depois a atriz. O comediante. E a seguir... «Oh meu Deus... não!» Restavam. apenas ela e o homens das zebras... e o homem que se encontrava à porta com auscultadores chamou Kate. «Eu? Agora? Não posso!» Mas teve de ir.

Teve a sensação de que enfrentava um vento forte, ou que se atirava de um penhasco. Sentia-se entorpecida. Não era capaz de ouvir o que ele estava a dizer. Pior ainda, não conseguia ouvir-se a si própria. Sentiu vontade de gritar, mas não o fez. Ouviu-se rir, conversar, admitiu vestir uma roupa horrível quando escrevia, falou do que sentia a viver no campo. A infância de Jasper fora passada num local que, segundo ele, era semelhante ao local que Kate descrevera. Falaram da escrita e da disciplina da profissão e até de como era engraçado vir a Los Angeles. Kate deu consigo a dizer piadas sobre as mulheres que vira junto à piscina, sobre os velhos flácidos com as suas calças de ganga e camisas justas e os fios de ouro ao pescoço. Quase fez um comentário escandaloso, mas controlou-se a tempo, o que tomou tudo ainda mais engraçado, porque o público percebeu a alusão sem ter sido necessário dizê-la. Foi fabulosa, foi Kate. E lá fora, atrás das luzes, dos fios, das câmaras, encontrava-se Nick, a fazer-lhe sinais de vitória e a sorrir cheio de orgulho. Ela conseguira! Depois foi a vez do homem das zebras e nessa altura Kate já estava completamente à vontade, a rir-se e a adorar tudo aquilo, participando nas piadas e na conversa. O jornalista e o comediante davam-lhe boas deixas e ela parecia já trabalhar com Jasper há muitos anos. Foi um daqueles programas animados do princípio ao fim, e Kate foi o diamante da tiara da noite. Ainda se sentia esfuziante quando a gravação terminou, e Jasper beijou-a na face.

- Foi maravilhosa, minha querida. Espero voltar a vê-la. -Obrigada! Oli, foi maravilhoso E tão fácil!- exclamou, corada e ofegante e a adorar. De súbito deu por si nos braços do comediante.

- Quer experimentar agora a tal cama de algodão doce, minha querida?

Kate, porém, respondeu-lhe com uma gargalhada. Adorava-os a todos. Nick aproximou-se, sorrindo-lhe, e Kate sentiu uma impressão estranha no ventre.

- Conseguiu. Foi magnífica. - A sua voz era muito meiga na agitação do estúdio.

- Esqueci-me de falar no cão e no tempo.

Trocaram um sorriso. Ela sentia-se bastante tímida junto dele. Era de novo Kate, não a mítica Miss Harper. -Então tem de vir cá novamente.

- Obrigada por me ter descontraído.

Ele deu uma gargalhada e pousou o braço nos ombros dela. Gostou de sentir a pele de Kate junto à sua.

- Quando quiser, Kate, quando quiser. A propósito, temos ainda cerca de dez minutos antes de irmos para a tal festa.

Kate já quase se havia esquecido completamente. E quanto a Stu? Não ficara de se encontrar com ele?

- Não sei... acho... acho que o Stu...

- Ele ligou antes de você chegar. Vai lá ter conosco. E o aniversário do Jasper, sabia? Todos vão estar presentes. Era como a Cinderela no baile. Mas porque não? Ela estava desejosa de comemorar.

- Parece-me bem.

- Quer ir numa daquelas bananas castanhas, ou vamos fugir à multidão? - Assinou um papel que alguém lhe estendia e olhou para o relógio.

- Bananas castanhas? - perguntou Kate confusa. -Foi o que mandei para buscá-la. A limusine castanha. Temos duas. Vão todos para a festa nas duas limusines, os convidados do programa e o Jasper. Mas nós podemos evitar a confusão e ir no meu carro.

Parecia mais simples, embora também perturbador. Kate deixaria de se sentir em segurança no meio de um grupo. Por outro lado, tinha a impressão de que o comediante arranjaria maneira de lhe voltar a meter a mão no joelho. Seria mais fácil ir com Nick.

- Posso levar as minhas flores?

Nick sorriu. Ela lembrara-se. Nunca ninguém se lembrava. Deixavam as flores no camarim e alguém as fazia chegar a casa. Porém, Kate lembrara-se. Era desse gênero.

- Claro que sim. Que importância tem molhar-me o carro?

Riram-se e levou-a de volta ao camarim. No estúdio, tudo começava a ficar mais calmo, por contraste com o ambiente de tensão que Kate sentira antes de o programa ser gravado. Que vida! Passar por aquilo todos os dias. No entanto, não deixava de ser excitante. Nunca se sentira tão bem. Ou pelo menos, há muito que não se sentia assim. Há mesmo muito tempo.

Pegou na jarra com as rosas e a gipsófila. Já guardara o cartão na mala. Era uma recordação da sua noite como Cinderela.

- Obrigada pelas flores, Nick. - Teve vontade de perguntar-lhe se ele era sempre tão atencioso, mas não foi capaz. Teria sido falta de educação.

Tudo acabara. A sua acuação chegara ao fim. Eram de novo pessoas reais. Ele deixara de ser o produtor e ela a vedeta. Kate sentiu-se constrangida enquanto se dirigiam ao carro dele e depois parou e assobiou. Aquele assobio contrastava bastante com o seu aspecto.

- É seu? - Estavam junto a um Ferrari azul-escuro com estofos de cabedal creme.

- Confesso que sim. Tive de deixar de comer quando o comprei.

- Espero que tenha valido a pena.

Porém, a julgar pela maneira como ele olhava para o carro, Kate soube que valera a pena. À sua maneira, Nick era também uma criança grande. Abriu a porta para ela entrar e Kate sentou-se no banco. Até o cheiro do carro era distinto, uma mistura de bom cabedal e água-de-colônia cara. Kate ficou satisfeita com o fato de o carro não tresandar a perfume. Isso tê-la-ia incomodado.

Sentiu-se bastante confortável ali no escuro. Nick entrou no trânsito e Kate recostou-se e começou a descontrair-se. -Porque ficou de repente tão calada?

Ele reparara.

- Acho que estou a libertar a tensão.

- Não faça isso já. Espere pela festa.

- Vai ser parecida com um manicômio?

- Sem dúvida. Acha que vai agüentar?

- Isto é um começo e peras para uma rapariga do campo, Mister Waterman. - No entanto, estava a adorar, e Nick percebeu.

- Algo me diz, Kate, que não foi sempre uma rapariga do campo. Nada disto é novidade para si, pois não?

- Pelo contrário, é tudo novidade. Nunca tive os projetores virados para mim.

- Mas já os viu virados para pessoas perto de si, não viu?

Kate quase deu um salto no banco, com o susto. O que dissera ele? Ela desviou o olhar e abanou a cabeça.

- Não. Tive uma vida bastante diferente desta.

Nick percebeu que quase a perdera. Kate voltara a recolher-se no casulo. Porém, de forma inesperada, ela fitou-o com um sorriso meigo e um brilho nos olhos.

- E nunca tinha andado num Ferrari.

- Onde é que viveu antes de ir para o campo?

- Em São Francisco - respondeu ela depois de hesitar uma fração de segundo.

- Gostou?

- Adorei. Estive muitos anos sem lá ir até que, há cerca de um mês, levei lá o meu filho, e ele também adorou. É uma bela cidade.

- Está a pensar em voltar a viver lá? - perguntou ele, interessado.

Kate encolheu os ombros.

- Nem por isso.

- E pena. Estamos a pensar em mudar o programa para lá. Ficou admirada.

- Vai sair de Hollywood? Porquê?

- O Jasper não gosta disto. Quer viver num sítio mais «civilizado». Sugerimos-lhe Nova Iorque. No entanto, ele também está farto da cidade. Viveu lá dez anos. Quer São Francisco. E desconfio -acrescentou ele com um sorriso pesaroso -, que se o desejar com muita força acabará por conseguir.

- E o que é que você acha?

- Por mim tudo bem. Já me diverti aqui o que tinha a divertir. Isto começa logo a cansar.

- Rápido, tragam as virgens vestais! - exclamou Kate com uma gargalhada e Nick fez-lhe uma festa no cabelo. - As vestais, hein? Deve julgar que tenho uma dúzia delas por dia.

- E não tem?

- Bolas, não. Já não! Embora tente, não sou capaz de despachar mais de oito ou nove mulheres por dia. Deve ser da idade.

- Pois deve.

Brincavam e tentavam conhecer-se. Quem és tu? O que queres? Do que é que precisas? Onde vais? Mas o que importava isso? Kate lembrou-se, com uma certa tristeza, que provavelmente não voltaria a vê-lo depois daquela noite. Talvez dali a cinco anos, se escrevesse outro best seller, e se ele ainda trabalhasse no programa, se houvesse ainda programa... se. -Está com medo?

- Hum?

- Tem um ar tão sério. Será que está nervosa por causa da festa?

- Acho que sim, um bocadinho. Mas não importa. Sou uma desconhecida. Posso ficar invisível.

- Duvido muito, minha querida. Acho que nunca seria capaz de ficar invisível.

- Tretas!

Riram e ele estacionou numa rua ladeada de palmeiras em Beverly Hills. Já há dez minutos que se encontravam numa zona de enormes vivendas.

- Deus do Céu! É esta a casa do Jasper?

Parecia tão grande como o Palácio de Buckingliam. Nick abanou a cabeça.

- E do Hilly Winters.

- O produtor de cinema?

- Sim, minha senhora. Vamos?

Três empregados de fato de treino branco aguardavam para arrumar os carros, e a porta da casa era aberta por um mordomo e por uma empregada. Puderam ver o vestíbulo brilhantemente iluminado antes de a porta voltar a fechar-se. Kate não sabia se havia de olhar lá para dentro se para o número interminável de Rolls Royces e de Bentleys que estavam a chegar. Era fácil perceber por que motivo Nick comprara o Ferrari. Vivia num mundo completamente diferente de todos os outros.

A porta voltou a abrir-se e foram imediatamente sugados para o centro da tempestade. Deviam estar ali cerca de trezentas Pessoas, e Kate viu uma mistura de candelabros, velas, lantejoulas, diamantes, rubis, peles e seda. Avistou vedetas de todos os filmes que vira, e outras de que apenas ouvira falar.

- As pessoas vivem mesmo assim? - murmurou Kate. A casa tinha um salão de baile completamente espelhado que fora trazido peça por peça de um dos castelos do Loire. Como podia aquilo ser real?

- Algumas pessoas vivem, Kate. Algumas durante algum tempo, outras para sempre. A maior parte não se agüenta muito. Ganha uma fortuna no cinema, gasta-a, desperdiça-a.

- Olhou para um grupo de estrelas de rock do outro lado do salão. Vestiam roupas de cetim muito justas e a mulher do vocalista envergava um vestido cor de carne bastante reduzido e um casaco de zibelina até ao chão, com capuz. Era um bocado quente para o local, mas ela parecia não se importar.

- Aquele tipo de pessoas vem e vai rapidamente. As pessoas como o Hilly hão-de ficar cá para sempre.

- Deve ser divertido. - Kate parecia uma criança a espreitar da balaustrada um baile de Carnaval.

- E isso que quer? - No entanto, já sabia a resposta.

- Não. Acho que não quero nada diferente daquilo que já tenho.

Pois. «A pessoa amiga que mima o seu filho.» Nick lembrou-se disso e sentiu-se amargurado. Ela possuía mais do que qualquer pessoa naquele salão. E muito mais do que aquilo que ele possuía. Cadela sortuda. Mas ela não era uma cadela. Era isso que o incomodava. Gostava de Kate. Demasiado. E ela era tão ingênua. Perguntou a si mesmo o que aconteceria se a agarrasse e a beijasse. Provavelmente ela dava-lhe um estalo. Que gesto tão maravilhosamente antiquado. O pensamento fê-lo rir-se quando pousou a flúte de champanhe vazia num tabuleiro. Então reparou que ela desaparecera. Fora levada pela corrente de pessoas, e Nick avistou-a a cerca de seis metros, a ser abordada por um tipo com um casaco de veludo castanho-avermelhado. Era um dos habitués. Cabeleireiro de alguém, namorado de alguém, filho de alguém. Havia muitos tipos como ele em Hollywood. Nick começou a avançar lentamente pela multidão, a fim de ir buscá-la. Não conseguia ouvir a conversa, mas percebeu que Kate não estava a gostar.

- Harper? Ali, sim. A escritora que foi hoje ao programa do Jasper. Vimo-la.

- Que simpático. - Esforçava-se por ser bem-educada, mas não era fácil. Para começar, o homem estava bêbedo.

Kate ainda não tinha percebido como pudera ter sido tão afastada de Nick; porém, havia multa gente e o salão de baile estava a tomar-se a atração principal. A banda começava a tocar música rock.

- Como é que uma rapariga como você escreveu um livro sobre futebol?

- E porque não? - Olhou para Nick. Era escusado tentar chegar junto dele. Ele já vinha a caminho. Talvez demorasse mais dois minutos.

- Sabe, houve um jogador de futebol aqui há uns anos que tinha o seu nome. Harper. Bill Harper. Joe Harper. Qualquer coisa do gênero. Enlouqueceu. Tentou matar uma pessoa mas acabou por dar um tiro nele. Loucos. São todos loucos. Assassinos. E da família dele? - perguntou, olhando para Kate e arrotando.

Teria tido piada, só que de repente o relógio deu as doze badaladas da meia-noite. Acabara. Acontecera. Alguém recordara. Alguém. Não era preciso mais nada.

Do local onde se encontrava, Nick viu o pânico assomar ao rosto de Kate.

- É da família dele? - O tipo era persistente e exibia um sorriso diabólico.

- Eu... o quê? Não. Claro que não!

- Foi o que pensei.

Porém, Kate já não escutou as suas últimas palavras. Dirigiu-se para Nick, que acabara de transpor a última barreira de corpos entre ambos e a alcançara finalmente.

- Você está bem? Aquele tipo disselhe alguma coisa desagradável?

- Eu... não... não, nada disso. - Nos seus olhos havia lágrimas e ela virou a cabeça noutra direção. -Desculpe Nick, não estou a sentir-me bem. Deve ser da excitação toda. Do champanhe. Vou... vou chamar um táxi. - Apertava a mala e olhava em volta enquanto falava.

- Uma ova é que vai. Tem a certeza de que aquele tipo não foi incorreto? - Era capaz de o matar se tivesse sido esse o caso. O que diabo lhe teria feito?

- Não, é sério. - Nick sabia que ela não iria contar-lhe a verdade e isso enfurecia-o ainda mais. - Só quero ir para casa - disse ela, tal como uma criança e, sem dizer palavra, Nick pôs um braço sobre os ombros dela e conduziu-a até ao vestíbulo e depois para a rua, após ter ido buscar o xale dela.

- Kate, por favor, conte-me o que aconteceu - pediu ele fitando-a, enquanto esperavam pelo carro.

- Não aconteceu nada, Nick. Nada. A sério.

Levantou a cabeça dela sem dizer palavra e viu duas lágrimas escorrerem pelo rosto de Kate.

- Assustei-me apenas, nada mais. Há muito tempo... há muito tempo que não estou ao pé de outra pessoa. -Desculpe, minha querida. - Abraçou-a e ficaram assim até o carro chegar. Kate manteve-se imóvel, sentindo o casaco dele na sua pele e o seu cheiro. Nick cheirava a especiarias e a limão e a sua presença era protetora. Quando o carro Chegou, ela afastou-se devagar, respirou fundo e sorriu. -Desculpe ter sido tão idiota.

- Não foi. E eu peço desculpa pelo que aconteceu. Esta devia ter sido a sua grande noite.

- E foi - afirmou Kate, fitando-o. Entrou no carro. Pelo menos fora ao programa. Fora à festa. Ninguém tinha culpa de alguém se ter recordado de Tom. No entanto, perturbava-a saber que ainda não o haviam esquecido. Por que motivo não se lembravam dos bons anos? Dos tempos felizes? Por que motivo se lembravam só do fim? Kate levantou a cabeça e apercebeu-se de que Nick a observava. Ainda não pusera o carro a trabalhar. Queria levá-la para sua casa, mas não podia, e tinha consciência disso.

- Quer parar nalgum lado para tomar qualquer coisa? Ela abanou a cabeça. Nick já estava à espera daquela resposta. Também não lhe apetecia ir beber nada. E não sabia o que havia de sugerir. Um passeio? Um mergulho? Não sabia. Queria fazer com ela algo simples, não algo à Hollywood. Por vezes, odiava aquela cidade, tal como naquele momento. - Então, quer ir para o hotel?

Ela assentiu, esboçando um sorriso de gratidão.

- Você foi maravilhoso, Nick.

Estava a correr com ele. Nick sentiu vontade de bater em alguém. Kate não percebeu o silêncio dele durante o caminho de regresso. Tinha medo de que ele estivesse zangado. No entanto, ele parecia apenas triste. Ou talvez magoado. Sentia-se impotente.

- De certeza que não consigo convencê-la a fazer alguma coisa agradável, como ir comer um gelado?

- As pessoas daqui têm esses prazeres simples?

- Não, mas por si eu haveria de descobrir uma geladaria.

- Tenho a certeza de que sim - disse ela com ternura, sentindo uma enorme vontade de tocar no rosto dele quando pararam junto ao hotel. - A Cinderela teve o seu grande baile. E, se eu fosse a si, ia-me embora antes que este carro se transforme numa abóbora. - Riram-se e ela pegou no bouquet de rosas. -Está a ver, não lhe molhei o carro. - Nick continuava a observá-la e ela obrigou-se a olhá-lo nos olhos.

- Obrigada, Nick. Por tudo.

Ele não se mexeu, e ela também não. Hesitava. Queria tocar-lhe. Na mão. No rosto. Estender os braços e deixar que ele a abraçasse. Mas agora era diferente. Kate sabia que não podia fazer isso. E sabia também que não voltaria a vê-lo.

- Obrigado eu, Kate - agradeceu ele. Parecia estar a falar a sério, embora Kate não percebesse por que haveria ele de lhe estar grato.

- Boa noite. - Tocou-lhe ao de leve na mão, abriu a porta do carro e saiu. O porteiro fechou a porta do Ferrari e Nick ficou a vê-Ia afastar-se. Não saiu, não a chamou, nem se moveu. Limitou-se a ficar ali sentado durante bastante tempo. E quando lhe telefonou na manhã seguinte, ela já se tinha ido embora. Serviu-se de todos os seus conhecimentos para saber pelo gerente que ela partira pouco depois da uma da manhã. Logo a seguir a ele a ter deixado no hotel. Não fazia grande diferença, mas mesmo assim ele quis saber. Fora aquela maldita festa. Raios! E nem sequer sabia onde ela vivia. Perguntou a si mesmo se Weinberg lhe diria.

CAPÍTULO 18

- Tygue, já disse que não!

- Dizes sempre que não. Não me interessa o que dizes! -Vai para o teu quarto! - Olharam um para o outro durante um momento e Tygue foi o primeiro a ceder. Ainda bem porque a mãe não estava com disposição para brincadeiras. Chegara a casa pouco depois das quatro da manhã. Tillie fora-se embora às seis e meia. Naquele momento, eram apenas sete. Kate dormira duas horas e meia. Tygue escolhera uma má altura para dar banho a Bert antes de ir para a escola, e ainda por cima com o melhor sabonete que Licia oferecera a Kate. Noutro dia qualquer, ela ter-se-ia rido. Porém, naquele dia não tinha a mínima vontade de o fazer. Ainda só conseguia pensar no que acontecera em Los Angeles. Voltou a chamar Tygue quando o pequeno-almoço ficou pronto. -Agora vais ter juízo? - perguntou.

O filho não disse nada e sentou-se, começando a comer os cereais. Kate bebeu o café em silêncio e, de repente, lembrou-se de algo. Estava na mala.

- Volto já.

Não era a melhor altura para ceder, mas talvez estivessem ambos a precisar disso. De um momento mais leve. Talvez ela precisasse de o mimar e ele precisasse de se sentir amado, Kate sentira-se tão sozinha durante a viagem. Invadira-a uma sensação de perda. Mas obrigara-se a não pensar. Ninguém a mandara embora. Aquilo era tudo uma parvoíce. Que mal tinha o homem ter-se recordado de um jogador chamado Harper? Por que motivo tivera ela se de vir embora? Sabia que Stu iria ficar aborrecido. Pedira ao hotel que lhe desse um recado na manhã seguinte. «Recebi um telefonema e tive de voltar para casa. Cancele a entrevista. Lamento. Obrigada por tudo. Beijos, Kate.» No entanto, ele ficaria zangado na mesma. Ela sabia-o. E estava zangada consigo própria. Suspirou de prazer ao recordar-se do toque da mão de Nick quando se despedira dele no carro.

- No que é que estás a pensar? Pareces uma tonta.

Tygue entrara no quarto e observava-a da porta, com a tigela dos cereais inclinada num ângulo perigoso.

- Não andes pela casa com o pequeno-almoço na mão. E o que queres dizer com isso de eu parecer uma tonta? Não é nada simpático dizeres uma coisa dessas - ralhou ela, parecendo magoada.

Tygue olhou para a tigela.

- Desculpa. - Ainda estava zangado por ela se ter ido embora.

- Vai pôr isso no lava-louça e depois anda cá.

Ele levantou a cabeça e em seguida desapareceu, batendo com os pés. Regressou passados alguns segundos com uma expressão expectante no rosto sardento.

- Espera só até veres o que eu te trouxe.

Era escandaloso. Kate vira aquilo na loja do hotel e não resistira. Pagara uma barbaridade, mas porque não? Não tinha mais nenhum filho e ele nunca mais teria roupa assim.

- O que é? - perguntou Tygue com uma expressão de desconfiança ao ver o embrulho, ficando desanimado ao ver a fita azul.

- Vá, isto não morde.

Kate sorriu ao pensar no fato de veludo azul-pálido que vira na loja. Ao imaginar o filho com aquela roupa desatara a rir-se, para horror da vendedora. Era de mais imaginar uma criança de seis anos com veludo azul. Nem com dois anos Tygue teria vestido uma coisa daquelas. Viu-o puxar a fita a medo, depois olhar para a caixa antes de a abrir, desviar o papel de seda e ficar sem fôlego ao ver o conteúdo.

- Oli, mãe! Oh... mãe!

Não havia palavras para descrever o que ele sentia, e Kate sentiu lágrimas nos olhos. Eram lágrimas de cansaço e de excitação, mas também de alegria. Ele tirou o fato da caixa e levantou-o. Um fato à cowboy em miniatura, de cabedal e camurça. Tinha um colete com franjas e meias calças de couro. Uma camisa à cowboy, um cinto e um casaco. E quando se despiu e o experimentou, servia-lhe às mil maravilhas.

- Então, borracho? Estás lindo! - exclamou Kate, sentada na cama.

- Oli, mamã! - Ela já não ouvia aquela palavra há algum tempo. Só «mãe». Agora o «mamã» estava reservado para ocasiões especiais, quando ninguém se encontrava por perto para ouvir. Tygue correu para ela no seu fatinho de cowboy, abraçando-a e dando-lhe um beijo molhado.

- Estou perdoada? - perguntou ela abraçando-o. -Pelo quê?

- Por me ter ido embora. - Não lhe agradava o precedente que estava a abrir, mas o filho foi mais esperto.

- Não - disse ele com um ar muito natural e um grande sorriso. - Mas adoro o fato. E adoro-te ainda mais.

- Eu também te adoro. - Tygue sentou-se ao seu colo. - Devias tirar isso. E muito chique para a escola, não achas?

- Oli, mãe... por favor...

- Okay, okay. - Kate estava demasiado cansada para discutir.

Inesperadamente, ele fitou-a.

- Divertiste-te?

- Sim, diverti. Apareci na televisão, fiquei num grande hotel, almocei com umas pessoas e fui a uma festa com outras pessoas.

- Que horror.

Ela riu-se e olhou para Tygue. Talvez ele tivesse razão. Talvez tivesse sido um horror. Porém, não conseguia obrigar-se a pensar isso.

- Quando é que voltamos a São Francisco?

- Em breve. Havemos de ver. Queres que a Tillie te leve hoje ao rancho dos Adams, para poderes andar a cavalo com o teu fato novo? - Ele assentiu com veemência, olhando deliciado para o colete. - Vou deixar um bilhete à Tillie. A criança fitou-a com uma expressão horrorizada.

- Vais-te embora outra vez?

- Oli, Tygue... - Abraçou-o. - Não, querido. Vou só ver... dar aulas. - Bolas, quase dissera que ia ver Tom. Estava exausta. Demasiado cansada, aliás, para ir a conduzir até lá. No entanto, sentia-se na obrigação de ir. Já tinham passado muitos dias. - Vou tentar voltar para casa mais cedo para preparar o nosso jantar. Só para nós os dois. Combinado? Ele assentiu, contrariado, mas o pânico já desaparecera do seu olhar. - Já te tinha dito, tontinho, que não vou fugir e abandonar-te. Só porque tive de viajar por um dia, ou por vários dias, não quer dizer que vá abandonar-te. Percebido?

- Ele tomou a assentir em silêncio, de olhos muito abertos.

- Ótimo.

Então a buzina do carro da mãe do colega que vinha buscar Tygue fê-los meter rapidamente mãos à obra. Almoço. Livros, chapéu, beijo, abraço, adeus, até logo. Kate sentou-se na cozinha durante um momento, tentando reunir forças para pegar no casaco e arrancar. Era uma loucura fazer a viagem tendo dormido apenas duas horas. Porém, estava sempre a arranjar desculpas para não ir a Carmel. Havia sempre outra coisa para fazer. Pegou na mala e no casaco, deixou um bilhete a Tillie e saiu de casa quando começou a chover.

Choveu durante toda a viagem e as gotas de água batiam suavemente no telhado da vivenda onde Tom se encontrava. Era o gênero de chuva de Verão que a fazia ter vontade de virar o rosto para o céu e correr descalça sobre a relva, sentindo as folhas a fazer-lhe cócegas nos pés. No entanto, não quis fazer isso. Estava demasiado cansada, pelo que se limitou a sentar-se. Tinha pouca coisa a dizer a Tom. Não podia falar-lhe de Los Angeles, pois ele não iria perceber. Tom estava bem-disposto. A chuva parecia acalmá-lo e sentaram-se de mão dada, lado a lado, ele na cadeira de rodas, ela noutra de balouço, a contar-lhe histórias. Eram histórias que aprendera na infância, as mesmas que contara a Tygue durante vários anos. Tom também gostava de as ouvir. E, pouco depois do almoço, adormeceu. O barulho ritmado da chuva provocava uma grande sonolência, e Kate só a custo se impediu de dormir. Assim que Tom adormeceu, ela ficou sentada durante um momento a observar o seu rosto tranqüilo, deixando-se invadir pelas recordações... as muitas vezes que vira aquele rosto adormecido noutros locais, noutros dias. Fê-la pensar em Cleveland, havia tanto tempo, e também de forma inesperada, em Nick Waterman. Não queria pensar nele ali. Aquele local não lhe pertencia, pertencia a Tom. Deu-lhe um beijo na testa, fez-lhe uma festa no cabelo, encostou um dedo aos lábios ao olhar para Mr. Erhard e saiu da sala em bicos de pés.

A viagem de regresso pareceu muito longa. Havia pouco trânsito e estava ansiosa por chegar a casa, mas não teve coragem de conduzir tão depressa como das outras vezes. Viu-se obrigada a abrir as janelas, ligar o rádio e parar duas vezes para não adormecer. Estava a correr um grande risco e tinha consciência disso. Sentiu-se tentada a passar pelas brasas, mas sabia que Tillie queria ir para casa. Era sexta-feira e às sextas vinha sempre alguém da família jantar ou passar o fim-de-semana. Só lhe faltavam mais oitenta quilômetros, pelo que Kate decidiu continuar viagem no meio da trovoada. A chuva entrava pela janela e salpicava-lhe o rosto. Ela sorriu. Era agradável estar de novo no seu canto. O seu lugar não era Los Angeles, mas sentira-se lá bem. Contudo, não tencionava voltar. As pessoas eram completamente loucas. Tomou a pensar no camarim cor-de-rosa, na tensão da Sala Vermelha, e na opulência da festa em Beverly Hills... e no que sentira quando Nick Waterman a abraçara enquanto esperavam pelo carro. Afastou esse pensamento e aumentou o volume do rádio. Los Angeles era o mundo dos outros, não o seu.

Virou para a saída habitual e aproximou-se de casa. Sobre as colinas havia um arco-íris e junto à sua porta encontrava-se estacionado um carro. Ao vê-lo, Kate travou a fundo. Como... não era possível... era um Ferrari azul-escuro e Nick Waterman encontrava-se junto dele com Tygue. Tillie acenou-lhe da porta. Com o coração aos pulos, Kate parou o carro. Só nessa altura Nick e Tygue se aperceberam da sua chegada. Tygue correu para o carro da mãe, a acenar, com um grande sorriso de excitação, e Nick não se mexeu, limitando-se a observá-la com um sorriso. Kate desligou o carro e ficou a olhar para ele. O que poderia dizer? Como é que ele a tinha encontrado? Devia ter sido por intermédio de Weinberg, claro. Devia zangar-se com Stu, e normalmente seria essa a sua reação, mas daquela vez não foi. Só lhe apetecia rir. Estava tão cansada que só era capaz de rir. Tygue aproximou-se da janela a falar pelos cotovelos.

- Ei, menino, tem calma. Espera até eu sair do carro.

O filho parecia radiante.

- Sabias que o Nick foi um grande jogador de futebol? E que trabalhou num rodeo?

- Ai sim? - O que lhe teria acontecido? Quando Weinberg ali estivera, Tygue detestara-o de imediato. Porém, Nick fora um grande jogador de futebol e uma estrela dos rodeos. Parecia ter jeito para crianças. Ela baixou-se para beijar Tygue e olhou para Nick. Ele não se mexera. Kate aproximou-se dele com um sorriso. Notava-se que estava cansada, mas parecia feliz e o sorriso era de novo travesso, como ele recordava.

- Como correram as aulas?

- Bem. Posso perguntar-lhe o que veio cá fazer? -Se o desejar. Vim vê-Ia. E ao Tygue.

Estavam frente a frente e Nick baixou o olhar na direção dela, como se a quisesse beijar, mas Tygue e Bert andavam de volta deles.

- Saiu-me um grande detetive.

- Você não é difícil de encontrar. Ficou zangada? perguntou ele, preocupado.

- Acho que devia ter ficado. Com o Stu, não consigo. Porém - acrescentou ela encolhendo os ombros-, estou tão cansada que não seria capaz de zangar-me com ninguém, mesmo que a minha sobrevivência dependesse disso.

Pousou um braço nos ombros dela e puxou-a para si.

- Não deve ter dormido muito, Mistress Harper. A que horas chegou a casa?

- Por volta das quatro. - Kate adorou sentir o braço dele nos seus ombros quando caminharam para casa. Ficou preocupada com a reação de Tygue, mas ele pareceu não reparar. Kate não percebia como é que Nick conseguira por o seu filho tão à vontade.

- Porque se foi embora daquela maneira?

- Queria vir para casa.

- Tinha assim tanta vontade? - perguntou ele com ar incrédulo.

- A festa tinha terminado. A Cinderela já havia ido ao baile. E que valia passar a noite num hotel estranho, se podia vir para casa?

Ele olhou em volta e assentiu.

- Percebo onde quer chegar. Mas não o percebi quando lhe liguei esta manhã e me disseram que se tinha ido embora. Tive um medo horrível... de não voltar a vê-la – salientou ele, muito sério. - O Weinberg é muito discreto a seu resPeito.

- O que fez ele mudar de idéias? - Perguntou Kate tirando a gabardina. Vestia calças de ganga e uma camisa azul de algodão. Nada tinha a ver com a mulher do vestido comprido azul-escuro da noite anterior. Cinderela voltara a ser apenas a Gata Borralheira.

- Mudou de idéias porque ameacei nunca mais voltar a jogar tênis com ele.

- Agora já sei a quem é que ele é leal e quais as suas prioridades - retorquiu Kate com uma gargalhada. Aquilo era de loucos. Conhecera aquele homem na véspera e ele já estava ali? Na sua casa? Com Tygue a saltar-lhe aos pés? Parecia ridículo. Kate sentou-se e riu-se até às lágrimas.

- Onde está a piada? - perguntou Nick, sem perceber.

- Em tudo. Em si, no Weinberg, em mim, naquela maldita festa a que me levou ontem à noite. Não consigo perceber o que é real e o que não é.

Nick riu-se também, mas foi buscar a sua pasta com uma expressão matreira. Esperava não se ter enganado.

- O que veio cá fazer, Waterman?

- Bem, Kate - disse ele de costas voltadas para ela, mas com humor na voz, enquanto Tillie sorria ao assistir à cena -, percebo perfeitamente quando diz que não consegue perceber o que é real e o que não é, por isso... para clarificar as coisas--- - Kate sorria ao ouvi-lo. - Bom, achei que devia vir aqui tentar descobrir se você é mesmo a Cinderela ou apenas uma das meias-irmãs dela.

Virou-se, tendo na mão um sapato de cristal sobre uma almofada de veludo vermelho com um rebordo dourado. O sapato era de tamanho real e a sua secretária demorara três horas a descobri-lo no departamento de adereços da Paramount. Kate desatou a rir.

- Então, Cinderela, vamos experimentar? - perguntou Nick aproximando-se, e só nessa altura Kate viu que o sapato era bicudo e de salto alto, com uma roseta de vidro. Ele ajoelhou-se à sua frente enquanto ela continuava a dar gargalhadas e descalçava a «delicada» bota de borracha vermelha.

- Nick Waterman, você é louco!

Porém, os outros estavam a adorar. Tillie não conseguia parar de rir, Tygue andava aos saltos como uma pulga e até Bert corria e ladrava como se percebesse o que estava a passar-se. A bota foi descalçada, o sapato calçado e Nick inclinou-se para trás com um sorriso.

- Presumo que seja a Cinderela - afirmou com ar vitorioso. Acertara no número dela.

Kate levantou-se e tornou a rir.

- Como é que adivinhou o meu número? - Devia ser da prática, claro. No entanto, não devia fazer aquilo todos os dias. - E onde é que o foi descobrir? - Tornou a sentar-se e olhou para os mágicos olhos azuis dele.

- Deus abençoe Hollywood, Kate. Mas demoramos algum tempo.

- A que horas cá chegou?

- Por volta das três. Porquê? Cheguei atrasado? - perguntou ele a rir, sentando-se no chão, por pouco não atingindo Bert, que lhe saltou para o colo, deixando duas marcas enlameadas nas suas calças de linho bege. No entanto, Nick pareceu não se importar. Estava mais interessado em Kate, que o olhava com uma expressão de perplexidade.

- Chegou aqui às três? E o que esteve a fazer durante todo este tempo? - Já passava das cinco.

- O Tygue levou-me a ver os cavalos. Com a Tillie, claro. - Sorriu na direção de Tillie e ela corou. Nick era tão aberto, tão direto; não era possível fugir-lhe. - Depois demos um passeio junto ao rio. jogamos às cartas. E então você chegou.

- Como a Cinderela. - Kate tornou a olhar para o pé, perguntando a si mesma se poderia ficar com o sapato. Veio cá só por causa disto? - Não era capaz de perceber, porém Nick desviou o olhar.

-Por acaso, tinha de vir para estes lados. De vez em quando alugo uma casa em Santa Barbara. Tenho-a para este fim-de-semana. - Algo fez Kate duvidar daquelas palavras, embora não tivesse a certeza do quê. Porque haveria ele de lhe mentir? - Posso convidar-vos para irem visitar-me amanhã? -perguntou com ar esperançado, mas Tygue interveio de imediato com um forte acenar de cabeça.

- Não!

- Tygue! - O que seria agora? O homem viera de Los Angeles com um sapato de cristal e Tygue tencionava impedi-la de vê-lo? Ela queria ir vê-lo! Tygue que se lixasse.

- A mãe do Joey convidou-me para ir lá passar o fim-de-semana! Eles têm duas cabras novas e o pai dele disse que se calhar amanhã iam comprar um pônei!

Foram as melhores notícias que Kate podia ter recebido naquele dia.

- Ei, isso parece bestial! - exclamou Nick com ar impressionado, e Tygue olhou para ele com uma expressão que parecia dizer que eram as únicas pessoas com juízo naquela sala.

- Posso ir? - suplicou ele à mãe.

- Porque não? Está bem. E diz ao Joey para cá vir passar o próximo fim-de-semana. Posso vir a arrepender-me, mas decidi arriscar.

- Posso telefonar ao Joey a dizer-lhe isso?

- Força.

Tillie foi-se embora e Tygue correu para a cozinha, a fim de utilizar o telefone. Kate estendeu uma mão a Nick e ele tomou-a na sua, enquanto se sentava junto dela.

- Gostaria de saber como é que conseguiu conquistá-lo. Se calhar custou-lhe uma fortuna.

- Não. Pelo menos ainda não.

- O que quer dizer com isso? Nicholas Waterman, o que é que tem andado a tramar? Um homem que aparece aqui com um sapato de cristal, e ainda por cima do tamanho correto, é um homem de peso.

- Tomo isso como um elogio. Não, a sério, não fiz nada. Só prometi levar-vos os dois à Disneylândia.

- A sério? - perguntou ela, admirada.

Nick descalçou-lhe o sapato com cuidado e ela mexeu os dedos dos pés.

- Sim. E o seu filho aceitou. Achou uma ótima idéia. E ele convidou-me a ir a São Francisco conhecer a tia Licia. Espero que não se importe.

- De maneira nenhuma. A «tia Licia» vai adorá-lo. A propósito, quer um Martini?

- Ai ele é isso? Um Martini? - disse ele com uma gargalhada. - É tudo ou nada, hein?

- Pode beber café. Mas o único álcool que tenho em casa é o que a Licia traz.

- A sua irmã? - Nick ainda estava um pouco confuso, mas gostava da cena familiar caótica que via. E adorava o rapaz. - A Felicia é a minha melhor amiga, a minha consciência e o meu alter ego. E mima muito o Tygue. - Aquilo soou familiar a Nick, embora ele não tenha percebido porquê. Bom, quer então um Martini?

- Acho que prefiro o café. A propósito, vim perturbar a sua vida?

- Sim.

- Ótimo. - O seu rosto ficou sisudo. - Estou a falar a sério. Perguntei ao Weinberg se ele achava que eu ia ser esmurrado por um lutador de sumo com dois metros de altura quando aqui chegasse, e ele disseme que achava que não, mas que não sabia. Sugeriu que eu arriscasse e viesse por minha conta e risco. Foi o que fiz. Agora a sério, não lhe causo problemas por ter vindo? - Ela parecera tão triste na festa da véspera que ele não queria vê-Ia assim novamente. No entanto, sentira que tinha de voltar a vê-Ia, nem que fosse só mais uma vez.

- Claro que não me causa problemas! Porque haveria de causar? O Tygue parece gostar de si. Ele é o único lutador de sumo por estas bandas. - Kate percebera a intenção de Nick e ficou satisfeita pelo interesse mostrado por ele. Quando se levantou para lhe preparar o café, tinha um pé descalço e o cabelo solto, tal como ele gostava. Nick achou-a ainda mais bonita do que durante o programa.

- Deixe-me só esclarecer isto. O Tygue é a única pessoa que pode objetar? - perguntou ele devagar, como se ela pudesse não perceber.

- Exato.

- Parece-me que disse qualquer coisa a respeito de uma pessoa amiga. - Ela fitou-o com ar interrogador e encolheu os ombros. - Alguém que mimava o seu filho. Disse-o ontem durante o almoço.

Depois sorriram.

- A tia Licia - proferiram ao mesmo tempo,

Ele sorriu e seguiu-a até à cozinha, onde Tygue acabara de desligar o telefone.

- Okay, mãe. Está tudo combinado. O pai dele vem buscar-me amanhã de manhã e traz-me no domingo à tarde.

- Olhou para ambos com um ar descontraído, como se conhecesse Nick há muito. - O que é o jantar? Sabias que o Nick nos vai levar à Disneylândia? Não vai, Bert? - Bert abanou a cauda e Tygue saiu da cozinha, para ir à procura de Willie, sem esperar para ouvir a resposta da mãe.

- Ele é terrível.

- Às vezes - disse Kate com um sorriso, olhando para Nick. - Mas é um ótimo miúdo. E eu adoro-o.

- Você é uma boa mãe. A propósito, o que é o jantar?

- Isso quer dizer que quer ficar para jantar?

- Se não for muita maçada.

Era espantoso. Mal o conhecia, e ali estava ele na sua cozinha a perguntar se podia ficar para jantar. Era uma sensação agradável. As suas defesas não estavam como de costume; sentia-se demasiado cansada.

- Não é maçada nenhuma. E chegou a tempo de provar o prato preferido de Tygue.

- O quê?

- Tacos.

- Também é o meu preferido.

Kate estendeu-lhe a caneca do café e sentou-se à mesa da cozinha. Naquele momento estava muito longe de Carmel. Muito longe de Tom.

- No que é que estava a pensar?

- Quando?

- Ainda agora. - Em nada.

- Está a mentir. - Fitou-a com uma expressão muito intensa e pegou-lhe na mão. - É feliz aqui, Kate?

Ela fitou-o e assentiu. - Sim. Muito.

Então o que era aquela sombra no seu olhar? Aquela dor fugaz?

- Há pessoas boas na sua vida? - perguntou Nick. Era importante sabê-lo.

- Sim. Muitas. Já as conheceu todas, menos a Licia. - É isso? - perguntou ele com ar chocado. - Só o rapaz?

- E a Tillie, a senhora que estava aqui com o Tygue quando você chegou. E o Bert, claro - acrescentou ela com um sorriso, lembrando-se de que quisera falar dele no programa.

- Claro. Mas está a falar a sério? E só isso?

- Já lhe disse que sou uma eremita. - Não admirava, portanto, que tivesse entrado em pânico na festa.

- Gosto assim.

- Era assim quando estava casada?

Ela abanou a cabeça, mas o seu olhar nada disse.

- Não, era diferente.

- O Tygue lembra-se do pai? - perguntou ele com ternura.

Ela tornou a abanar a cabeça.

- Não pode. O pai morreu antes de ele nascer.

- Deus do Céu, deve ter sido terrível para si, Kate! exclamou ele com uma expressão que indicava que percebia perfeitamente. Kate não pensava naquilo havia séculos. -Foi há muito tempo.

- E esteve sozinha?

- Não. Tive a Licia, ela veio para aqui comigo.

Talvez fosse isso, toda aquela incrível solidão. Talvez fosse essa a dor que ele via.

- Não tem família, Kate?

- Só a que já conhece. É tudo. É mais do que muitas pessoas têm.

E mais do que ele tinha. Kate quase acertara no seu ponto fraco, embora de forma inconsciente. Todas aquelas raparigas de seios grandes com quem ele tinha saído durante vinte anos de nada lhe tinham servido. Tinha trinta e sete anos, e mais nada.

- Tem razão. Kate?

- Sim.

- Vai amanhã a Santa Barbara passar o dia comigo?

Kate era o tipo de mulher a quem ele tinha de dizer aquilo. «Passar o dia.» Se sugerisse mais, ela poderia não ir.

Kate assentiu devagar, observando-o, como se estivesse a pesar algo, a considerar.

- Okay.