Tempo para Amar
Capítulo 29 · - Ele está bem? - perguntou Nick…
- Ele está bem? - perguntou Nick a Kate quando ela saiu do quarto de Tygue. Eram seis e meia, e aquela hora havia custado bastante a passar. Tygue escondera-se deles no jardim e estava ensopado quando o levaram para dentro, agarrado a um Willie igualmente ensopado. Kate pusera-o na banheira cheia de água quente enquanto Nick preparara leite com chocolate, e depois ela ficara bastante tempo no quarto do filho.
- Acho que ele está bem. É difícil. dizer. Já adormeceu - respondeu Kate com ar exausto.
- O que lhe disseste?
- A verdade. Que alternativa tinha? Ele já ouvira a maior parte. Não creio que tivesse querido bisbilhotar. Disseme que subiu as escadas para me dizer que já estava em casa e ouviu-nos falar do Tom.- Kate indicou a porta do quarto de ambos, e Nick assentiu, seguindo-a. Fecharam a porta e Kate sentou-se pesadamente na cama. Ele estendeu-lhe um cigarro, embora ela parecesse precisar mais de um brande e de um banho bem quente.
- Fui mexer num ninho de vespas quando te obriguei a falar-me do Tom. - Fora este o seu único pensamento enquanto a esperara nas escadas.
Porém, Kate abanou a cabeça no meio de uma nuvem de fumo.
- Não digas isso. Embora custe, acho que foi benéfico, Sinto-me aliviada. E o Tygue há-de sobreviver. Assim posso também contar-lhe as coisas boas. O Tom Harper era um ser humano maravilhoso. O Tygue tem o direito de saber isso, e não o poderia saber se não conhecesse o resto da história. Parece-me justo. - Hesitou, soltando um suspiro. - Já tinha perguntado a mim própria se teria agido corretamente ao fazer o papel de Deus, Escondi do Tygue uma parte bastante importante dele próprio. Impedi-o de saber aquilo que o pai foi, pensando que assim seria mais fácil para ele. - Sentou-se devagar e olhou para Nick. - Mas houve também outras razões.
- Não devem ter sido razões más.
- Talvez tenham sido. Queria que ele fosse meu. Queria que ele estivesse livre de tudo aquilo. Não queria que ele fosse como... o Tom. - Nick esperou em silêncio que ela continuasse. - Não quis que ele se apaixonasse pela imagem do Tom Harper, pela glória dos álbuns, dos recortes e da adulação. O Tom adorava essas coisas. Que homem não adoraria? Creio que sempre receei que o Tygue também quisesse isso, nem que fosse para provar alguma coisa ao pai. Para limpar o nome Harper. Só Deus sabe que idéias malucas podiam ter-lhe passado pela cabeça... Tive medo de todas essas possibilidades. Assim era muito mais fácil. - Então, tornando a lembrar-se de Nick, sorriu. - Mas não era justo, Nick. É bom que ele saiba a verdade. Um dia também vou ter de lhe falar dos meus pais. Deixei que ele pensasse que a família morrera toda e que só sobrara eu. Mas a verdade não é essa. Acho que toda a gente tem o direito de saber a verdade. - Nick também. Durante um momento, Kate teve a sensação de que os tinha traído, e sentiu-se exausta. - Bem, querido, as coisas resolveram-se pelo melhor. - Estendeu a mão para Nick, mas ele não a agarrou, e ela ficou magoada.
- Será que o Tygue é dessa opinião? - perguntou Nick com amargura, olhando para ela e depois para a baía. Não devia ter-se metido onde não era chamado.
- Está confuso. Não sabe o que pensar. A única coisa de que tem a certeza é que quer ver o pai. Eu disselhe que não podia. - Suspirou. - Neste momento, detesta-me porque lhe disse que não, mas há-de ultrapassar a situação. Tem-te a ti. - Sorriu para as costas de Nick, depois aproximou-se e abraçou-o pela cintura.
- Mas eu não sou pai dele, Kate.
- Não faz mal. Dás-lhe mais do que a maioria dos pais... a nível emocional e não só. E não sei, Nick, a nossa realidade é esta. O Tom era o que era e fez o que fez, fosse por que razões fossem. Talvez tenha chegado a altura de encararmos a verdade. Isso não vai matar-nos. Por isso livra-te dessa cara de enterro.
Nick virou-se e tentou sorrir, embora sem grande êxito. Parecia que o mundo tinha desabado nas suas costas e não sabia o que fazer para ajudá-los.
- A propósito, não vais trabalhar esta noite? - perguntou Kate, olhando admirada para o relógio.
- Telefonei a dizer que não me sentia bem quando estavas no quarto com o Tygue.
- Ainda bem. - Kate sorriu e estendeu-se na cama. Estou tão cansada!
- Não percebo porquê, Cinderela. - Nick sentou-se e começou a massagear-lhe os pés e depois as pernas. - Quero dizer, afinal só fizeste quinhentos quilômetros, depois tiveste de me enfrentar e revelar todos os teus segredos e, em seguida, o teu filho ficou destroçado e tiveste de o salvar do dilúvio, dar-lhe banho e consolá-lo. Por que raio estás cansada? Kate sorriu.
- Será que vou receber uma medalha? Parece ser muita coisa.
- Devias mesmo. E eu devia receber um pontapé no traseiro.
- Contentavas-te com outra coisa? - inquiriu ela endireitando-se e pondo os braços à volta do pescoço dele.
- Não mereço - respondeu Nick baixando a cabeça. Ela soltou uma gargalhada.
- Cala a boca e descontrai-te. - Assim fizeram e eram já nove horas quando Kate decidiu encher a banheira para tomar um banho de imersão. - Ficas de olho aqui na água? Quero ir ver como está o Tygue.
- Claro - anuiu Nick dando-lhe um longo beijo. Naquela noite, Kate dera-lhe tudo: o seu corpo, a sua alma, o seu coração. Dera-lhe tudo o que tinha para dar, como se para diminuir a sua dor por causa do que fizera. - Amo-te, Cinderela, mais do que possas imaginar. A propósito... - Olhou-a com ternura e tirou-lhe uma madeixa da cara. - Longe de mim querer meter-me na tua vida ou pôr em causa os teus motivos, mas parece-me que te esqueceste de qualquer coisa.
Kate sorriu, um pouco confusa. Sabia que Nick estava a brincar e não percebia onde ele queria chegar.
- Esqueci? - Depois fez-se luz. - Ora bolas! O jantar. Oli, querido, desculpa! Deves estar cheio de fome.
- Nem por isso. Acho que não seria capaz de comer. Estava a referir-me a outra coisa. - Puxou-a para si e sentiu o seu corpo ganhar vida em contato com o dela. Sorriam e beijaram-se. - Esqueceste-te do disco voador... do apanhador de bebês. - Olhou-a com um sorriso. Também ele se esquecera. Até ser tarde de mais. Naquela noite tudo fora bastante confuso.
Kate exibia uma expressão irritada, mas não de pânico.
- Gaita, o meu diafragma! - Deixara-o em cima da cômoda.
- É uma catástrofe? - Nick sentiu-se na obrigação de perguntar, embora para ele fosse tudo menos uma catástrofe. Continuava a querer um filho dela. Já tinha Tygue, mas queria também um seu. - Entravas em parafuso?
- Não. Mas não vou engravidar. Estamos na altura errada do mês.
- Como é que sabes? - Ele não percebia nada daquelas coisas.
- Fui ontem ao cabeleireiro.
- Hum? És maluca. Não respondeste à minha pergunta.
- Qual pergunta? - insistiu ela a provocá-lo.
- A pergunta foi... Oli, vai-te lixar! Engravida a ver se me importo. Abandono-te no lar para mães solteiras e vou para o Taiti com o Tygue.
- Não te esqueças de me mandar um postal. E não é preciso veres se a banheira já está cheia. - Sorriu, fechou a torneira e embrulhou-se no roupão branco. - Volto já.
- Não te esqueças - disse ele com um sorriso.
Ela assim fez, mas voltou logo de seguida, com o roupão a esvoaçar, revelando o seu corpo nu. Estava pálida de morte.
- O Tygue desapareceu.
Nick sentiu o chão a fugir-lhe. Kate estendeu-lhe um bilhete em silêncio e, enquanto ele o lia, ela dobrou-se sobre o vaso sanitário e vomitou.