Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 28 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 32 · Kate só conseguiu voltar ao quarto depois…

Kate só conseguiu voltar ao quarto depois das onze da noite. Não dispusera de um momento de paz. Aquele maldito almoço literário de mulheres, os programas, o jantar com as pessoas da agência e os editores--- haviam parecido infindáveis. Um carrossel cheio de espargos, salmão fumado e azia, e Kate estava saturada. Voltara a perder a oportunidade de falar com Tygue, pois de cada vez que estivera perto de um telefone nunca eram horas de lhe ligar devido à diferença horária. Naquele momento, já passava das oito em São Francisco e ele devia estar a dormir. E nem sequer podia falar com Nick. Estava a gravar o programa e, quando o terminasse, ela estaria a dormir. Ele não lhe telefonara nem deixara recado, e isso só por si já era recado suficiente. Kate sabia que ele ainda estava zangado. jurou a si própria antes de adormecer que, no dia seguinte, iria arranjar tempo para lhe ligar, e a Tygue também. Desse por onde desse. Tinha de falar com eles, se não, nunca lhe perdoariam.

Contudo, saiu do hotel logo de manhã e não parou até chegar ao restaurante Quo Vadis ao meio-dia. Philip já se encontrava à sua espera e, quando se sentou à mesa depois de sair do táxi, Kate estava ofegante. Lá fora fazia um frio de rachar e as suas faces estavam coradas. Ficava linda com as calças vermelhas e o casaco de vison, e os seus olhos pareciam esmeraldas. Era a primeira vez que vestia o casaco desde que o arrumara quando fora viver para o campo. Era o casaco que Tom lhe dissera para levar vestido quando fosse para a maternidade. Um casaco lindíssimo. Comprido, macio, com um pêlo cor de chocolate. As suas linhas clássicas continuavam na moda. Estava deslumbrante e Philip mal podia esperar para lhe deitar as mãos.

- Estou atrasada?

- Não, senhora. Acabei de chegar. - Ajudou-a a tirar o casaco e sentou-se envolvido no perfume dela. Teve vontade de lhe beijar o pescoço, mas não iria fazê-lo naquele momento... só mais tarde.

O olhar de ambos cruzou-se e Kate desviou-o, corada.

- Então que tal está Nova Iorque? Não cheguei a vê-la ontem no hotel.

O empregado levou-os para uma mesa recatada e Philip pegou na mão de Kate. O gesto surpreendeu-a um pouco; porém, a sua reação surpreendeu-a ainda mais. Aquele homem era bastante excitante e ela sentiu-se muito ingênua ao responder-lhe.

- Durante o dia não fui ao hotel. Andei sempre a correr. E quando lá cheguei fui-me logo deitar.

- Que ótima idéia - disse ele com um sorriso matreiro, e ela riu-se.

Philip pegou na lista dos vinhos e encomendou um bordéus branco seco delicioso, Kate nunca bebera nada assim. Ajuntar ao resto, Philip era ainda um conhecedor de vinhos.

Comeram lagosta, mousse de chocolate e dois caCes. Depois surpreendeu-a pedindo uma coisa chamada «poíre». - O que é?

Parecia água, mas ao primeiro gole Kate sentiu um gosto forte a álcool e a pêra.

Philip sorriu ao ver a expressão dela.

- E aguardente de pêra. E estou a ver, Mademoiselle Harper, que precisa de passar mais tempo na Europa. Quando é que lá esteve pela última vez?

Ela sorriu ao recordar. Fora a última viagem que fizera com Tom.

- Há muito tempo. Ia lá muito com os meus pais. Mas isso faz parte de outra vida. Já lá não vou há... -Pensou por um momento. - Há mais de sete anos. E quando lá estive era muito nova. Ninguém me ofereceu aguardente de pêra.

- E Tom não devia conhecê-la. Contentava-se com cerveja alemã. Ela nem conseguira convencê-lo a provar kir, nem Cinzano, nem sequer nenhum dos vinhos, quando viajaram por França e Itália. Ele só queria cerveja.

- Beba com cuidado, a propósito. E muito forte - avisou ele num tom conspiratório, aproximando-se dela.

- De que outra forma poderia beber? Isto queima-me a boca toda. - Bebeu outro gole e fez uma careta; porém, Philip bebia a aguardente sem a mínima dificuldade. Sorriu a Kate e acendeu um Dunhíll Monte Cristo. Philip Wells era um homem de gostos refinados. Kate encostou-se ao banco, observando-o a acender a ponta do charuto, depois o seu olhar vagueou para lá dele e... ficou boquiaberta. Não podia ser... mas era. Já não o via há doze anos, mas reconheceu-o. O seu pai.

- Passa-se alguma coisa? - perguntou Philip através da nuvem de fumo azul. - Kate?

Ela assentiu, mas não olhou para ele.

- Desculpe. Vi uma pessoa conhecida.

Não achou que o pai mudara muito. Tinha o cabelo mais branco e parecia mais magro. Estava sentado muito perto de uma mulher da idade dela. Onde estaria a sua mãe? Quem seria aquela rapariga? E por que raio haveria de se importar com isso ao fim de todos aqueles anos? Esqueceu-se de Philip; contudo, ele ficou preocupado ao ver a cor fugir das faces de Kate.

- Kate, quer ir-se embora? - Pediu a conta ao empregado sem esperar resposta.

Kate abanou a cabeça e levantou-se.

- Volto já.

Era de loucos. Não devia lá ir. Ele iria rir-se dela. Mandara-a bugiar. Mas ela tinha de lá ir... tinha... Sentiu os seus pés moverem-se sozinhos e parou junto dele.

- Pai?

Kate tinha lágrimas nos olhos.

O pai olhou para ela, espantado, e levantou-se devagar, ignorando a mulher ao lado dele. Continuava com o mesmo ar distinto. Observou a filha; ela transformara-se numa bela mulher. Porém, não estendeu os braços na direção dela. Ficaram assim, separados pela mesa e por uma vida inteira.

- Kate. - Ela assentiu em silêncio enquanto as lágrimas lhe corriam pela cara. Contudo, sorria. Nos olhos do pai também havia lágrimas. Ele não sabia o que dizer. - Li o teu livro.

- Leste?

Lera o livro mas não lhe telefonara, nem escrevera, nem tentara contatá-la. Porquê?

- É muito bom. - Outro admirador. Só que não devia ser. Devia ser o seu pai. - Kate, eu... lamento tudo o que se passou. Achamos... achamos que era melhor não... interferir - terminou a custo. - Julgamos que isso só iria dificultar as coisas. Teria sido embaraçoso.

Embaraçoso? Caramba! Haviam passado tantos anos e ele ainda tentava desculpar-se. Tinham lido os jornais, sabiam o que lhe acontecera e nunca a tinham procurado. As lágrimas de Kate deixaram de correr. Percebeu que o pai queria dizer mais qualquer coisa. Estava com bom aspecto. Envelhecera, mas com graciosidade. Estava parecido com Philip Wells. Por um momento, pensou que o pai era um malogro bem sucedido. Quem seria a rapariga ao seu lado e o que estaria ele a fazer em Nova Iorque?

- Agora vivo em Nova Iorque. - Olhou para a rapariga e depois para Kate. - E tu? - Estava bastante pouco à vontade e, dentro de si, Kate sentiu uma coisa muito antiga desprender-se e afastar-se. Finalmente. Desaparecera.

- Não. Vim cá em trabalho. Só por uns dias. - Isso poupar-lhe-ia o embaraço de ter de voltar a vê-la ou de arranjar uma desculpa para não o fazer. Era bastante desagradável ter uma filha famosa que se lembrara de aparecer. Olhou para a mulher que estava a almoçar com o pai e viu que ela tinha um rosto jovem e cheio. - Desculpe ter interrompido o seu almoço, só que já não via o meu pai há muitos anos.

- Eu sei - disse a rapariga, parecendo compreender. Queria dizer a Kate que lamentava, mas o problema não era seu. Era deles.

O pai tomou a olhar para ela pouco à vontade; sentia-se o centro do drama entre aquelas duas mulheres tão mais novas. A que estava sentada à mesa tinha menos três anos do que Kate.

- Kate... quero apresentar-te a minha mulher. Ames, esta é a Kaitlin. - Kaitlin... continuava a chamar-lhe isso. Mas tinha um som oco. Kaitlin. Era um nome escrito num livro. Nada mais, Mas aquela mulher... aquela mulher era casada com ele? Conseguiu finalmente falar.

- Tua mulher? - Olhou para ele, perplexa. - Tu e a mãe separaram-se? - Tinham vivido as suas vidas quase em continentes diferentes.

Ele abanou a cabeça devagar.

- Não, Kate, ela morreu - disse tão baixinho que ela mal conseguiu ouvi-lo. Fechou os olhos por um instante, mas quando os abriu não estava a chorar.

- Estou a ver.

- Tentei encontrar-te para te dizer, mas não fazia a mínima idéia do teu paradeiro. - Depois não resistiu a perguntar. - O Tom já...?

Ela abanou a cabeça. - Não. Ainda está vivo.

- Lamento. Não deve ser fácil. Ou será que... - Ainda se lembrava de tudo o que lera nos jornais. Mas não podia... Haviam dito... Haviam combinado manter-se... Porém, ter-se-iam enganado? Sentiu a reprovação da sua jovem mulher. Ele e Ames tinham falado bastante ao assunto, especialmente depois de ela ter lido o livro.

- Sim, ainda continuo a visitá-lo, pai. Ele é meu marido.

- «E tu foste o meu pai», pensou em silêncio. Olhou para Ames com um pequeno sorriso. - Desculpe ter-lhe estragado o almoço.

Ames abanou a cabeça, Queria ser amiga de Kate. Os pais tinham sido muito cruéis. Nunca conseguira compreender por muito que o marido tentasse explicar-lhe. Se ele alguma vez fizesse isso ao filho deles, ela matá-lo-ia. No entanto, ele nunca mais o faria, Também percebera. Aquele filho seria seu para sempre.

- Eu... tu tiveste... - Era difícil estarem ali, a fazer perguntas; pareciam fazer parte de uma tragédia grega, e os empregados eram o coro. - Tiveste um filho?

- Um rapazinho. Tem seis anos - informou ela, sorrindo pela primeira vez. Depois fitou o pai. Parecia ter adivinhado. - E tu?

- Nós temos... também temos um filho. Com dois anos. Coitadinho. Quase odiou o pai, mas ao olhar para Ames, sentiu que não o podia fazer.

- Queres... queres sentar-te e fazer-nos companhia? perguntou ele, apontando para a cadeira vazia.

Kate abanou a cabeça.

- Não, mas obrigada. Tenho... tenho mesmo de ir.

Ficou imóvel, sem saber se deveria abraçar o pai ou ir-se embora assim, até que ele lhe estendeu a mão. Parecia uma cena de um filme de segunda categoria. Doze anos haviam decorrido, mas ele só lhe estendeu a mão. Não houve abraços, nem beijos, nem ternura, nem. afeto. Contudo, era o mais indicado. Tinham-se tomado dois estranhos.

- Adeus - murmurou Kate, olhando para o pai uma última vez antes de se afastar. Ainda olhou para trás e viu que a mulher do pai estava a chorar. Queria dizer-lhe que não se preocupasse... mas o problema era dele, não seu. Regressou para junto de Philip, que a observava preocupado. Já pagara a conta há dez minutos, mas pressentira a tensão e não quisera aproximar-se. Desconfiava que o homem alto e de aspecto distinto devia ser um antigo namorado, e era evidente que o reencontro não havia sido agradável. A mulher sentada à mesa estava visivelmente perturbada. Seria mulher dele? Admirava-o o fato de Kate ter tido coragem de ir lá falar com ele, se fosse esse o caso. Esperava que não fosse e lembrou-se da sua mulher, Margaret, que estava em Chicago.

- Está bem?

- Sim. Podemos ir embora?

Ele assentiu e pegou-lhe no braço. Foi um alívio saírem para o frio. O vento gelado açoitou-lhe o cabelo e fê-la chorar. Mas eram lágrimas limpas, devidas ao frio, não lágrimas rançosas que haviam esperado anos para serem derramadas.

- Kate?

- Sim - disse ela com uma voz áspera e grave. - Quem era aquele homem, se me é permitido saber?

- O meu pai. Não o via há doze anos.

- E foi dar de caras com ele? Num restaurante? Caramba! O que é que ele disse?

- Disseme que a minha mãe morreu e que tem um filho de dois anos. Voltou a casar.

Philip olhou-a, horrorizado. Era uma história incrível. - Aquela mulher que estava a chorar era sua irmã?

- Não, era a mulher dele.

- Meu Deus!

Olhou para Kate e abraçou-a. Afastaram-se alguns passos do restaurante e ela começou a soluçar. Não tinha nada para dizer, mas precisava de libertar o que havia dentro de si. Só vinte minutos mais tarde é que ele a conduziu de volta para o hotel. O pior de tudo é que tinha uma reunião às três. Ia chegar atrasado. O almoço demorara mais do que o previsto.

- Ele nem sequer disse que queria voltar a ver-me - lamuriou-se Kate, parecendo uma criança. Contudo, quando olhou para ela, Philip sentiu outra coisa. Estava perante uma mulher que compreendia.

- Você queria que ele fizesse isso?

Ela sorriu-lhe por entre as lágrimas.

- Pelo menos podia ter sugerido.

- Mulheres! Queria que ele tivesse sugerido isso para poder mandá-lo dar uma volta, não é? - Ela assentiu e limpou os olhos com o lenço que ele lhe estendera. Era de linho com o monograma PAW. Philip Anthony Wells. - Olhe, detesto dizer-lhe isto. - Detestava até mais do que ela imaginava. Fizera tantos planos para depois do almoço! - Tenho uma reunião às três e... - Olhou para o relógio. - Já passam cinco minutos. Fica bem sozinha? Podemos continuar a falar ao jantar - disse, abraçando-a de novo.

Kate sorriu. Já não queria voltar a falar do assunto. Encerrara-o havia muitos anos. Com a ajuda de Tom, Estava a derramar as últimas lágrimas. Para si, os país há muito que haviam morrido. Talvez Tom tivesse razão. O velho era um hipócrita. Ali estava ele casado com uma miúda que ainda nem trinta anos tinha, e com um filho.

- Pode ir jantar comigo?

Ela tinha-se esquecido de Philip e olhou-o, surpreendida.

- Claro. Gostaria muito. - Precisava de alguém com quem falar e ele era uma companhia agradável. -Desculpe tê-lo envolvido nisto. Não costumo revelar a minha vida a pessoas estranhas.

- Lamento ouvir isso.

- Porquê? Gosta de ver lavar roupa suja? - perguntou Kate com um sorriso enquanto se dirigiam ao hotel. - Não, mas pensei que já não éramos estranhos. Achei que me considerava um amigo - respondeu ele, pondo-lhe um braço sobre os ombros.

- E considero - afirmou ela com um suspiro.

Então, ele surpreendeu-a e parou ali no passeio. Olhou para ela, tomou-a nos braços e beijou-a. Kate começou a repeli-lo, mas o que mais a surpreendeu foi não ter vontade de o fazer. Deu consigo a retribuir-lhe o beijo e a abraçá-lo. Philip encostou o corpo dele ao seu. Kate queria senti-lo mais, mas infelizmente os casacos não o permitiam. Teve pena quando o beijo terminou.

- Jantamos às sete?

Estavam praticamente à porta do hotel. Kate assentiu com uma expressão séria no olhar. Estava chocada com o que acabara de fazer. Philip Wells era um homem com grande magnetismo. Perguntou a si mesma se ele costumava fazer aquilo muitas vezes. Calculou que sim.

- Às sete,

- Então, vou deixá-la. - Beijou-a no rosto e afastou-se na direção de um táxi que parara na esquina da Avenida Park. Olhou uma vez para trás, sorrindo e acenando. - Ciao, bella.

O táxi afastou-se com ele e Kate ficou ali parada, demasiado espantada para sentir sequer remorsos. Depois entrou no hotel. Quando estava à espera do elevador, ouviu alguém chamá-la. A recepcionista acenou-lhe muito agitado quando ela se virou.

-Mistress Harper! Mistress Harper!

Kate dirigiu-se a ele, confusa. O homem estava quase ofegante.

- Temos andado à sua procura. Mister Waterman fez-nos telefonar para todos os restaurantes de Nova Iorque!

- Mister Waterman? - Porquê? Porque se calhar ela já não lhe telefonava havia três dias. Leu o recado que ele deixara. «Ligue imediatamente a Mr. Waterman. É urgente.» A seguir tinha o telefone de casa dela.

Kate esperou até chegar ao quarto para telefonar. Nick atendeu do outro lado.

- Olá. Recebi o teu recado, O que é que se passa? Nick achou que ela parecia muito despreocupada; não sabia que isso se devia ao choque, Kate passara por muita coisa em duas horas. O pai, Philip e agora aquele telefonema urgente de São Francisco. Tudo isso, e ainda um programa televisivo. Era de mais para ela. E o vinho que bebera ao almoço também não ajudava. Porém, estava sóbria. E muito.

- Por onde raio tens andado?

- Na rua, onde é que havia de ser? Fui a talk-shows, dei entrevistas, almocei, jantei.

- Com quem? Ninguém sabia onde é que te tinhas metido. - Ligara para o editor dela e para a agência.- Desculpa. Estava a almoçar. - Sentia-se como uma criança que faltara às aulas e tentava explicar-se ao pai, Notou a tensão na voz dele e endireitou-se na cadeira. - Há algum problema?

- Sim. - Nick respirou fundo e fechou os olhos. Sim. Há um problema. O Tygue voltou a fugir.

- Meu Deus! Quando?

- Não sei. Talvez ontem à noite. Talvez esta manhã. A Tillie meteu-o na cama ontem e eu fui vê-lo ao quarto quando cheguei. Ele estava bem, mas esta manhã tinha desaparecido. Pode ter-se ido embora durante a noite.

- Deixou algum bilhete?

Contudo, sabiam bem para onde ele tinha ido.

- Não. Desta vez não deixou nada. Podes vir para casa? Kate ficou admirada e comovida com a pergunta. Nick parecia apavorado e exausto, e a única coisa que ela queria fazer era ir para casa e voltar a vê-lo. Já estava farta de Nova Iorque.

- Vou apanhar o primeiro avião. Telefonaste à Polícia? Já era quase uma rotina,

- Sim. Fiz tudo como da outra vez. Sei que o vão encontrar algures a caminho de Carmel.

- Pois é,

- Eu vou para lá de carro.

- Agora?

- Vou dar mais algumas horas aos agentes e espero por ti. Podemos ir juntos.

Kate sorriu ao escutar a voz dele. Nick, Era como se ouvisse toda uma família naquela voz. Sabia que iriam encontrar Tygue. Tinham de o encontrar. E ele estaria bem.

- O que tencionas fazer quando o encontrarmos? Não podemos passar por tudo isto dia sim dia não.

- Vou pensar no assunto durante a viagem, - Claro que Nick tinha razão. Tivera sempre, mesmo quando não quisera que ela fosse para Nova Iorque. Não devia ter ido. Não fora o mais...

- Olha, Kate... - Ela aguardou enquanto começava a chorar. Fora um dia difícil. - Desculpa ter-te feito passar um mau bocado antes de viajares, querida. Sei que estás a atravessar um momento difícil. - Kate começou a soluçar. Tudo estava, a acontecer ao mesmo tempo, a girar à volta dela como um pesadelo. -Vá lá, querida, está tudo bem. Havemos de encontrá-lo, prometo.

- Eu sei. Mas eu não devia ter vindo.

- Foi assim tão difícil? - Ela assentiu e depois fechou os olhos, pensando em Philip. E se Nick descobrisse? Esperava que isso nunca acontecesse. Afinal, só lhe dera um beijo. Mas... pensou no jantar que tinham combinado para a noite. Pelo menos ela não poderia estar presente. O destino interviera. Obrigou-se a pensar em Nick.

- Sim, foi difícil. E... acabei de ver o meu pai.

- Agora? Foste almoçar com ele? - perguntou Nick, espantado.

- Não, ele estava no mesmo restaurante. Com a mulher.

- Os teus pais divorciaram-se? - Nick parecia tão atordoado como ela ficara, e nem sequer os conhecia.

-Não, a minha mãe morreu. Ele voltou a casar com uma rapariga muito nova e têm um filho de dois anos.

- Filho da mãe - Nick sentiu vontade de o estrangular,

Kate conseguiu controlar a voz e limpou os olhos. - Já não interessa, Nick. Acabou tudo.

- Falamos quando chegares a casa. Liga assim que souberes a que horas parte o avião.

Ela assim fez, e deixou o recado com Tillie. Nick estava ocupado a falar com a Polícia. Não havia novidades. Tillie estava bastante agitada, mas Kate sentia-se estranhamente calma. Sabia que Tygue se encontrava bem. Tinha de ser.

Deixou um recado para Philip Wells na recepção, dentro de um sobrescrito. «Desculpe fazer-lhe isto, mas surgiu uma emergência e tive de voltar a S.F. Mando-lhe um exemplar do novo livro assim que for publicado. Lamento imenso os acontecimentos dramáticos de hoje. Foi azar. Um abraço e muito obrigada, Cumprimentos, Kate.» Era um bilhete perfeitamente inócuo.