Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 31 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 36 · - Já cheguei!

Eram quatro horas da tarde. Estavam todos em casa, até Bert, que abanava a cauda no jardim quando ela saiu do pequeno e feio carro alugado. Tygue andava a experimentar os patins novos e Nick estava a tirar uns papéis do carro. Aproximaram-se todos, a falar e a rir, e abraçaram-se e beijaram-se. Nick apertou-a com tanta força que ela teve dificuldade em respirar.

- Mulher, se fores a algum lado nos próximos seis meses, eu enlouqueço c... pego fogo ao teu novo livro! - acrescentou com um sorriso.

- Não te atrevas! - exclamou Kate, horrorizada. Sentia-se ansiosa por voltar a pegar no livro. Há semanas que não lhe tocava. - Se o fizeres, pego fogo às tuas cuecas e...

- Pegas fogo às cuecas! - exclamou Tygue aos gritos, e os dois adultos riram. Riram o resto da tarde. Nick sugeriu a Kate que fossem «dormir a sesta» e Tillie acompanhou Tygue até ao fim do quarteirão, para ele poder acelerar nos patins. Quando regressou, encontrou-os de roupão, a fazer chá.

- Queres ir esta noite ao programa, Kate? Ela olhou para ele, admirada.

- Assim?

- Não, achava melhor que te vestisses - retorquiu ele com um ar afetado.

Ela fez uma careta.

- Queres que eu vá sem ter ido ao cabeleireiro? - perguntou com uma expressão horrorizada.

Ele riu.

- Escuta, sua vaidosa, acontece que vives com o produtor do programa. Queria saber se gostarias de me fazer companhia durante as gravações.

- E não ser uma das convidadas do programa? - perguntou ela, fingindo-se chocada.

- Quem julgas que és, alguma vedeta?

- Ora, sim, Mister Waterman. Sou uma escritora que vende muitos livros!

- Ai sim? - Nick enfiou a mão dentro do roupão dela e inclinou-se para a beijar.

- Es de todo. Mas já que me convidaste... – Olhou-o com um sorriso. - Bem, gostaria muito de te fazer companhia. Achas que alguém se vai sentir incomodado?

- Não tenho nada a ver com isso. Quem manda ali sou eu, lembras-te?

- Ah, é verdade, pois mandas.

- Parece-me que está na altura de voltares para casa e de acalmares. Já te esqueceste de como são as coisas cá em casa. Ela fez-lhe uma festa no braço que lhe provocou arrepios.

- Se continuares a fazer isso, não respondo pelos meus atos - ameaçou ele.

- Na cozinha? - perguntou ela a rir. Era tal como no início. Estavam de novo em lua-de-mel.

- Sim, na cozinha, Cinderela. Hei-de fazer amor contigo quando me apetecer, onde me apetecer, de que forma me apetecer, durante o resto da vida. Amo-te.

Beijou-o e fizeram amor rapidamente, na cozinha, antes de Tygue chegar a casa. Desataram a rir como duas crianças travessas quando vestiram os roupões e tentaram aparentar o ar de quem estivera a beber chá.

- Tens o roupão do avesso - murmurou Kate a rir. Nick olhou para ela. Kate tinha o cinto a sair pela manga. - E tu também estás muito jeitosa.

O ambiente continuou assim durante semanas. Houve encontros clandestinos na sala a que Kate apelidara de «sótão», fizeram amor no escritório do segundo andar, tomaram longos pequenos-almoços na cozinha, levaram Tygue ao jardim zoológico. Kate acompanhava-o quase todos os dias ao estúdio para assistir à gravação do programa, e Nick sentava-se calmamente na sua poltrona de cabedal preferida enquanto ela trabalhava no novo livro. Era uma existência semelhante à dos gêmeos siameses, mas que agradava a ambos. Sabiam que a vida não poderia continuar assim para sempre - ela teria de preparar muita coisa para o livro novo, ele de introduzir algumas alterações no programa. Contudo, naquele momento precisavam daquela vida, e um do outro.

- Não te cansas de estar aí sentado enquanto eu escrevo este livro idiota?

- Querida, uma mulher que ganha o que tu ganhas não escreve livros idiotas.

- A que se deve esse respeito recente pelo meu talento?

- Ao último dinheiro que recebeste dos direitos pelas vendas. Vi o cheque esta manhã na tua secretária. O que vais fazer com todo esse dinheiro? - Sentia-se feliz por ela estar a sair-se tão bem. Sabia que isso significava muito para Kate. Segurança para Tygue, coisas para ela, presentes que gostaria de lhe oferecer. E também significava que ela se sentia independente, e Nick sabia que isso era importante.

Kate encostou-se à cadeira, olhou para ele e perguntou a si mesma o que iria oferecer-lhe pelo Natal. Só faltava um mês.

- A propósito, que presente quer no Natal? - Acendeu um cigarro e bebeu um gole de chá frio.

Nick baixou o jornal. - Sabes o que eu queria?

- O quê? - perguntou ela a sorrir, julgando ter adivinhado.

- Não faças essa cara, mulher perversa! O que eu queria era ver um pouco de cor nesse teu rosto pálido. Queres ir a Acapulco ou a outro sítio qualquer nas férias?

Ela ficou admirada.

- Nunca lá estive. Se calhar era divertido. - Não disse mais nada e ficou a refletir no assunto enquanto ele a observava. Porém, Nick não retribuiu o seu sorriso.

- Kate?

- Hum?

- Estás a sentir-te bem? - inquiriu, preocupado.

- Claro. Porquê?

Sabiam bem porquê. Ela andava sempre cansada e tinha pouco apetite. As olheiras eram constantes. Fartava-se de trabalhar no livro e culpava-o disso.

- Queres ir ao médico? - Era a primeira vez que lho sugeria, e ela ficou assustada com a preocupação dele. - Estás a falar a sério?

- Sim, estou.

- Está bem, vou pensar. Quando acabar o livro. - O que iria o médico dizer-lhe que ela não soubesse já? Que andava sob uma enorme pressão? Que toda a sua vida se modificara e que o filho fugira duas vezes de casa? Que estava prestes a concluir um livro de quinhentas páginas? Nada disso era novidade para Kate. Valeria a pena ir ao médico? - Ele não vai dizer-me nada de novo. Apenas que ando a trabalhar de mais, ou outra treta do gênero. Por que motivo hei-de gastar dinheiro para ouvir isso?

- Faz-me um favor, e poupa o dinheiro noutras coisas - disse ele num tom grave, levantando-se. -Estou a falar a sério, Kate. Promete-me que vais. E já, não daqui a seis meses.

- Sim, querido - respondeu ela numa voz muito doce, e ele franziu o sobrolho.

- Prometes?

- Prometo, mas só se prometeres não te preocupares com o assunto.

- Claro. - As duas promessas não eram para cumprir. Kate não gostava de médicos e ele andava sempre preocupado, Pelo menos com ela. No entanto, nada disso alterava o aspecto de Kate. Felicia também reparara e Kate ignorara-a. -A propósito, o que vais fazer hoje?

- Vou almoçar com a Felicia. Queres vir?

- Não. Tenho um almoço com uns tipos no Clube de Imprensa e depois uma reunião no estúdio. -Olhou para o relógio e parou para dar um beijo em Kate. - Aliás, daqui a pouco estou atrasado para o almoço. Vou tentar cá estar por volta das três.

- Eu também. - Tentou, mas só conseguiu chegar às cinco.

Foi fazer compras depois do almoço no Trader Vic's, e em seguida passou pelo Saks. Apenas «por um minuto», para ver o que havia de novo. A loja estava cheia e ela fartou-se.

O elevador demorou uma eternidade a aparecer e depois vinha cheio. Quando chegaram ao terceiro andar, as outras pessoas viram-na caída no chão do elevador. Desmaiara. Quiseram telefonar para sua casa, mas ela não permitiu. Ficara sentada no Saks durante uma hora, sentindo-se uma idiota, a cheirar sais, e apanhou um táxi para casa. Não quisera guiar. Teria de dizer a Nick que tivera um problema com o carro.

- Bolas! Quando chegou a casa, ainda estava um pouco tonta. Preparara-se para parecer bem-disposta, e tencionava subir ao primeiro andar o mais depressa possível, para se enfiar na cama. Nick havia de querer que ela o acompanhasse ao estúdio, e Kate iria esquivar-se.

Meteu a chave na porta e rodou-a. A porta abriu-se com facilidade e Kate rezou para que Nick não estivesse em casa. Mas estava. Encontrava-se sentado na sala, à espera dela, o rosto lívido e irado.

- Almoçaste bem?

- Muito bem. E o teu... - Calou-se ao ver a expressão dele. - O que aconteceu?

- Quem é o Philip?

- O quê?

- Ouviste perfeitamente - respondeu ele, fitando-a. Kate sentiu-se de novo tonta. Sentou-se numa cadeira. Quem raio é o Philip?

- Como é que posso saber? Isto é algum jogo? - Sentia-se muito fraca, mas ele parecia furioso. Isso assustou-a. Philip? O Philip de Nova Iorque?

- Por acaso, começo a pensar o mesmo. Isto é algum jogo? Todos os meses sei coisas novas a teu respeito.

- O que quer isso dizer?

- Isto. - Nick atravessou a sala e atirou-lhe um papel.

- Estava dentro de um sobrescrito debaixo da porta. Pensei que me tinhas deixado um bilhete. Enganei-me. - O papel era bege, a tinta castanha, e a letra muito elegante. Então Kate viu o monograma no canto. PAW. Philip Anthony Wells. Sentiu o coração cair-lhe aos pés. Deus do Céu! A carta também não ajudava nada. «Lamento que tivesse de vir-se embora abruptamente. O almoço foi muito agradável, bem como a noite anterior. A música não voltou a ser a mesma depois de se ter vindo embora. Finalmente vim à costa oeste, e pretendo ver cumpridas duas promessas. A sua e a do zabaglione no Vanessi's. Faz-me companhia esta noite? Ligue-me. Estou no Stanford Court. Com amor, P.» Kate ficou sem fôlego.

- Meu Deus! - Olhou para ele com os olhos cheios de lágrimas,

- Foi isso que eu disse.

- É uma carta e peras.

- Está descansada, minha querida, que não te impeço de ires jantar com ele - proferiu Nick numa voz magoada e irritada. Parecia que levara um murro no estômago, quando lera o bilhete. - O que se passou em Nova Iorque?

- Nada, jantei com ele, por acaso, no Gino's.

- Por acaso? - perguntou ele com ironia. Kate levantou-se de um pulo e despiu o casaco.

- Por amor de Deus! Eu estava com dificuldades em arranjar um táxi no aeroporto, por isso partilhamos um. Por acaso estávamos hospedados no mesmo hotel. Nessa noite fui jantar ao Ginos, sozinha, e encontrei-o lá. Conversamos junto ao bar, e depois decidimos... - A história parecia-lhe cada vez mais terrível, e Nick não ficara minimamente tranqüilizado. Mas ela decidiu continuar. - Decidimos partilhar uma mesa. Grande coisa!

- E depois?

- O que queres dizer com «e depois»?

- Para que quarto foste?

- Para o meu, caramba! E ele foi para o seu. O que julgas que eu sou, uma puta?

- Se bem me lembro, nessa semana quase não nos falávamos,

- E depois? Achas que cada vez que discutimos eu saio de casa a correr e me vou enfiar na cama com um desconhecido?

- Não, mas parece que jantaste com um.

- Raios te partam! - Kate voltou a pegar no casaco e olhou para ele. Estava furiosa. Nick que se lixasse. Ia contar-lhe a história toda e, se ele não gostasse, podia ir para o inferno. - Sim, fui jantar com ele. E depois fomos beber um copo. E dois dias mais tarde almoçamos juntos. E se o Tygue não tivesse fugido de casa naquele dia, eu teria jantado com ele. Mas não fiz mais nada. Não, pensando melhor, beijei-o. Iupi! Tenho vinte e nove anos e beijei-o. Mas não fiz mais nada, seu filho da mãe, e não preciso que te armes em cão de guarda. Sei muito bem afastar-me sozinha das camas dos outros homens. E por acaso, espertinho, sentime bastante grata pelo fato de o Tygue ter fugido. Sentia-me tão infeliz e insegura a nosso respeito que talvez tivesse ido para a cama com ele. Mas não fui. E fiquei contente por não ter ido. Porque não quis. Porque te amo, seu estúpido, e a mais ninguém. Estava já aos gritos e a tremer, e os soluços faziam vacilar a sua voz, mas fez-lhe frente, abanando a carta na mão e avançando na direção dele. Nick começava a arrepender-se de a ter feito reagir assim. Nunca a vira daquela maneira. Nunca. Parecia prestes a ter um ataque e a cair redonda no chão. Nick sentiu-se um idiota por ter armado aquele escândalo. Sabia que ela estava a dizer a verdade, mas ficara tão transtornado ao encontrar o bilhete... Sabia que Kate lhe era fiel, embora se sentisse incomodado com a história do beijo. Porém, podia viver com um beijo e também ficara contente por ela não ter feito mais nada, embora fosse demasiado tarde para ficar satisfeito. Kate estava muito perto de si, com o bilhete na mão. - E sabes o que podes fazer com isto? Podes levá-lo ao Philip Wells e enfiar-lho pela goela. E depois podem ir os dois ao Vanessi's comer a merda do zabaglione! Sai é da minha vida! - Depois, a soluçar, deu meia volta, atirou o sobrescrito ao chão, pegou na mala e no casaco e saiu. Deteve-se um momento à porta, com medo de desmaiar novamente. Nick observava-a.

- Estás bem?

- Mete-te na tua vida! - exclamou, batendo com a porta. Tygue estava em casa de um amigo, por isso ela não precisava de ficar ali, e naquele momento não lhe apetecia estar com Nick. Maldito Philip Wells! Detestava-os. De repente, lembrou-se que deixara o carro na baixa. Dirigiu-se a pé à baía, a chorar como uma criança. Porque é que Philip lhe fizera aquilo? E porque é que Nick tinha lido o bilhete? E porque o teria ela beijado em Nova Iorque? Sentou-se num jardim não muito longe de casa e ficou ali durante algum tempo, a chorar e a desejar estar morta.

Em casa, Nick continuava sentado na sala, a olhar para o sobrescrito e a desejar ter conduzido as coisas de maneira diferente, Nunca vira Kate tão emotiva. E depois ela parara à porta muitíssimo pálida. Tinha de a levar ao médico. Talvez fossem nervos. O telefone interrompeu os seus pensamentos e, quando se levantou para o atender, Nick pegou no sobrescrito. Amarrotou-o e atirou-o para o cesto dos papéis ao lado do telefone.

- Mistress Harper? Não, ela saiu. O quê? O que quer dizer com isso, se ela está bem? Ela o quê?... Oli, meu Deus! Não, não há Problema. Eu trato do assunto.

Desligou e ficou imóvel durante algum tempo. Depois telefonou a Felicia. Ainda conseguiu apanhá-la, embora já fossem quase seis horas, Ela concordou em ir para lá de imediato. Percebeu pela voz dele que se passava qualquer coisa.

- Onde está o Tygue? - perguntou ela assim que chegou, olhando em volta. A casa estava completamente às escuras.

- Ficou a dormir em casa de um amigo. Desta vez não é o Tygue, Licia. É a Kate. Acho que ela está com algum problema. - Voltou a sentar-se na sala e tapou a cara com as mãos.

Felicia sentou-se à frente dele e observou-o.

- Tu também não estás com boa cara. O que aconteceu?

- Portei-me como um idiota. - Foi ao cesto dos papéis, tirou de lá o sobrescrito e estendeu-lho. -Encontrei isto quando cheguei a casa. Pensei que era para mim.

- Uops! - exclamou Licia com um sorriso, mas Nick não sorriu.

- Perguntei à Kate o que era isto quando ela chegou, feito parvo. E ela contou-me a história. Não é nada de especial. Mas o que me preocupa é a forma como ela reagiu. Credo, Licia, nunca a vi assim. Fartou-se de gritar e quase desmaiou. Ela não tem andado muito bem e não quer ir ao médico. Tem trabalhado de mais, dorme pouco, está sempre cansada e chora quando julga que eu não dou por isso. Acho que ela está doente. Não sei o que se passa, - Olhou para Licia. - Acabaram de ligar do Saks. Ela desmaiou no elevador esta tarde. Estou muito preocupado.

- Presumo que ela não esteja em casa - disse Felicia com ar preocupado.

Ele abanou a cabeça.

- Pois não. Saiu daqui disparada... por causa disto... Agitou o sobrescrito e voltou a amachucá-lo.

Felicia não gostava de fazer perguntas, mas sabia que Kate não era pessoa de intrigas, embora não lhe tivesse contado nada do que se passara em Nova Iorque. Então recordou-se de que os olhos da amiga tinham brilhado quando lhe perguntara se fora ao Gino's. No entanto, isso não explicava a histeria e o desmaio.

-Será possível... que ela esteja com esse tipo? Nick voltou a abanar a cabeça.

- Não no estado em que saiu daqui. E... não, sei que não está.

- Eu também sei. Ela já é grandinha, vai ter de ganhar juízo e ir ao médico. Não comeu nada ao almoço. Mas também não a vejo perder peso. - Endireitou-se e semicerrou os olhos.

- O que foi? - perguntou ele, cada vez mais nervoso. Haveria mais alguma coisa que ele desconhecia?

- Isto faz-me lembrar algo - respondeu Licia, fitando-o. - Eu não tenho experiência nenhuma, mas acho que já vi a Kate assim, Na altura, pensei que era por causa do que estava a acontecer... por causa do Tom - acrescentou Felicia, franzindo o sobrolho. Seria um grande alívio.

- Os nervos?

- Não propriamente. - Esboçou um pequeno sorriso. - Não quero ser bisbilhoteira, mas há alguma possibilidade de ela estar grávida?

- A Kate? - perguntou ele, atordoado.

- Não, a Tillie. Claro que me refiro à Kate!

- Não sei. Não tinha pensado nisso. Sempre achei que se isso acontecesse ela daria por isso, e...

- Não te fies na virgem. Metade das mulheres só percebe que está grávida lá para o terceiro mês. Ela deve achar que a viagem a Nova Iorque a cansou, ou que é da comida, ou dos problemas que vocês estão a ter. Seja por que razões forem, hoje em dia as pessoas não dão por nada. - Essa possibilidade assustava-a, mas sabia que a amiga não era pessoa para não dar por nada. - Há alguma possibilidade de ser uma gravidez? Ela tinha grandes birras quando estava grávida do Tygue. Normalmente eram causadas pelos jornalistas, por isso pareciam-me justificadas, Mas, ao pensar nisso, acho que ela exagerava sempre. E durante os primeiros meses andou sempre com má cara. No entanto - concluiu, olhando-o muito séria -, ela tinha na altura muitos problemas.

- Nos últimos dois meses também passou por muito, retorquiu Nick. Encostou-se e refletiu. Continuava a querer não pensar que ela estava com um esgotamento ou com um cancro. Grávida? Não pensara nisso. De repente, lembrou-se de uma coisa.

- Credo, tinha-me esquecido. Na noite em que o Tygue fugiu pela primeira vez... nós até brincamos sobre o assunto... ela esqueceu-se do diafragma. - Olhou para Felicia um pouco atrapalhado. - Por isso, é bem possível. Aconteceu tanta coisa depois disso que acho que nos esquecemos. Pelo menos, eu esqueci. Achas mesmo que ela não saberia se estivesse grávida? - perguntou com ar feliz.

- Talvez não. Mas não fiques já todo animado. Posso estar enganada. A propósito, tens alguma coisa que se beba? Acendeu outro cigarro e levantou-se. - Que dia horrível!

- Tenho - respondeu ele, dirigindo-se ao bar. Tinha sempre o Martini e o gim à mão, não fosse ela aparecer. - O que é que eu faço agora?

- Espera que ela volte para casa e pergunta-lhe.

- E se ela não vier para casa? E se foi ter com o outro tipo? - Empalideceu e depois corou enquanto mexia o Martini com toda a força.

- Não te vingues na minha bebida, Nick. Ela há-de vir para casa. Sabes se levou o carro? - Mas era uma pergunta estúpida. Claro que levara.

Contudo, Nick olhava para ela com uma expressão estranha.

- É isso. Ela chegou a casa num táxi. Deve ter deixado o carro na baixa.

Felicia não gostou do que ouviu. Kate devia estar mesmo muito mal para ter feito isso.

- Acho que vais ter de esperar e de lhe perguntar. Já agora, faz-me um favor - pediu, acabando a bebida e pousando o copo. - Contas-me o que se passa? Se ela estiver doente, quero saber. - Ele assentiu com um ar muito infeliz. Felicia levantou-se. - Desculpa, mas vou ter de me ir embora. Vão buscar-me às oito e ainda tenho de me arranjar. - Ia à ópera. Com um namorado novo.

- Está bem, eu telefono-te. - Nick olhou para o relógio. - Gaita, e eu também vou ter de sair já. O programa...

- Talvez ela já cá esteja quando voltares - disse Felicia, dando-lhe palmadinhas no ombro enquanto se dirigiam ao seu carro e perguntando a si mesma como seria ele na cama. Belo e forte. Kate era uma mulher de sorte. Licia sorriu. Ela há-de ficar bem. Anima-te, se calhar vais ser pai!

- Adorava, Felicia!

- Faz-me um favor: não desapareças. Não me apetece nada ir com ela outra vez para a sala de partos.

Nick percebeu pela sua voz que ela estava a mentir. Pela amiga, voltaria a fazer o mesmo.

- Não te preocupes, rapariga, desta vez não vai ser preciso. Só espero é que seja isso.

Regressou a casa, pensativo, e então teve a certeza. Teria ido comemorar para o emprego se soubesse que Kate estava bem. Ela podia ter feito uma loucura no estado em que saíra.

Porém, tudo o que Kate fez foi ficar sentada no banco a chorar. Por fim, as lágrimas acabaram por secar e ela começou a tremer. Queria ir para casa, mas só depois de ele ter saído. Às sete e vinte, voltou para trás, foi para o quarto, despiu-se e enfiou-se na cama. Estava exausta. Só acordou quando Nick lhe tocou no ombro de mansinho.