Tempo para Amar
Capítulo 25 · - Tillie, pode ficar umas horas com o Tygue?
- Com certeza. Vou já para aí.
Kate sorriu ao desligar. Nick estava quase a chegar de Nova Iorque. Passara apenas uma semana, mas pareciam ter passado anos. O gesso dava muita comichão a Tygue e não parava quieto. Kate fora visitar Tom duas vezes e encontrara-o em baixo de forma. Parecia cansado e pálido e ela notou que ele perdera peso. Tom chorara na segunda visita, quando ela se fora embora. Todos estavam a pressioná-la, tal como sempre haviam feito. Só que ela era uma pessoa diferente. A semana anterior fizera-a recordar o que havia sido a sua vida antes de Nick. Mas agora ele ia regressar a casa. Ela tinha dois capítulos de um novo livro para lhe mostrar.
- Onde é que vais? - perguntou Tygue, preocupado quando a viu vestir o vestido cor de coral que ela usara em Nova Iorque.
- Buscar o Nick e fazer-lhe uma surpresa. - Sabia que não lhe devia ter dito, pois ele haveria de querer ir com ela.
O rosto de Tygue iluminou-se.
- Posso ir contigo? Ela hesitou e suspirou.
- Está bem, matulão, ganhaste.
O que custava às vezes ser mãe! Apetecia-lhe tanto estar sozinha! Contudo, sabia que Nick iria ficar satisfeito por vê-lo. Ligou a Tillie a dizer-lhe que já não era preciso vir e disse ao filho para mudar de roupa. Ele já se habituara a mexer o braço engessado.
Meia hora depois estavam no carro. Tygue calçara as botas à cowboy novas e pusera o seu chapéu preferido. Kate sentia-se bonita com o vestido coral. Era agradável vestir roupas boas. Estava farta das calças de ganga e das camisas velhas.
Dispunham de três horas e meia para chegar ao aeroporto, e conseguiram mesmo à tangente. Correram para a porta de desembarque no preciso momento em que Nick ia a sair do avião. Tygue chamou-o e Kate ficou calada, ofegante. Tinham corrido que nem uns loucos.
- Olá, Tigre! - exclamou Nick, olhando admirado para o rapaz e depois para a mãe. Há anos que ninguém ia esperá-lo ao avião. Abraçou Tygue com ar radiante e depois Kate.
- Trouxemos um presente! - exclamou Tygue. Estavam os três contentes, e nem repararam que se encontravam no meio do caminho.
- Sim?
- Sim. Uma fotografia onde eu estou a montar o Brownie. A mãe mandou-a emoldurar e é para pores na tua secretária.
- Que boa idéia. - Nick colocou um braço sobre os ombros de Kate e começaram a andar devagar. -Olá, querida - disse baixinho; e ela voltou a beijá-lo.
- Tive multas saudades tuas.
Ele revirou os olhos em resposta, puxou-a mais para si e voltou a sua atenção para Tygue.
- Eu também tive saudades tuas, Nick. E posso montar o Brownie mesmo com o gesso!
- Será boa idéia? - perguntou Nick olhando para Kate.
- O médico disse que não lhe fazia mal, desde que ele não andasse a galope. Andam sempre a passo.
- Okay.
Foram buscar as malas e em seguida dirigiram-se ao carro. Conversaram durante toda a viagem, e até Bert parecia contente por voltar a ver Nick.
- Agora a família está outra vez toda junta! - exclamou Tygue com um fervor que fez Kate esboçar um sorriso. O filho estava a ficar tão apegado a Nick! Porém, os seus sentimentos eram retribuídos; Nick estava ansioso por brincar com Tygue. Experimentaram todos os brinquedos novos antes de jantar.
- E espera só até veres o barco a funcionar! A tua mãe e eu experimentamo-lo em Nova Iorque. - Os adultos trocaram um sorriso.
- Há lá algum lago?
- Sim, para os barcos. E um jardim zoológico. E passeios de pônei. Havemos de te levar lá um destes dias. Aliás, meu menino, estou a pensar em levar-te a viajar.
- Ai estás? - perguntou Tygue de olhos muito abertos.
Nick tinha sempre muitas surpresas, e Kate estava à espera que ele sugerisse um fim-de-semana em Santa Barbara. Contudo, desta vez ela também foi surpreendida.
- Sabes o que vamos fazer amanhã? Tygue abanou a cabeça.
- Vamos à Disneylândia!
- Vamos? - perguntou Tygue, muito espantado, e Kate e Nick desataram a rir.
- Sim. Nós os três.
- Como é que conseguiste isso? - inquiriu Kate, aproximando-se e abraçando-o.
- O Jasper foi passar uma semana ao Sul da França. Por isso sou todo vosso, se conseguirem agüentar-me. - Depois de uma semana em Nova Iorque a trabalhar que nem um mouro ainda tinha energia para os levar à Disneylândia. Kate estava espantada.
- Mister Waterman, devo ser a mulher mais feliz do mundo.
- E eu o homem mais feliz.
A viagem à Disneylândia correu às mil maravilhas. Regressaram a casa três dias mais tarde, cansados e felizes, ficaram um dia em casa de Kate e depois foram passar o fim-de-semana a Santa Barbara. Há já uma semana que ela não ia a Carmel, mas não se importava. Sentia-se feliz onde estava. E Tom podia contar com Mr. Erhard. Por agora isso tinha de bastar. Ela precisava de viver a sua vida.
Tygue ficou muito triste quando o fim-de-semana chegou ao fim.
- Vemo-nos no próximo fim-de-semana, Tigre. -Eu gostava de te ver antes disso.
Nick iria lá dormir todas as noites, mas Tygue não sabia.
- Talvez vejas.
Nick só soube que conseguiria cumprir o prometido no dia seguinte. Arrancou às quatro da tarde e chegou a casa de Kate às sete. A princípio, ela ficou admirada ao vê-lo, e depois a admiração deu lugar à preocupação. Ele parecia muito triste, mas só quis falar depois de Tygue ter ido para a cama.
- Então, conta lá. Não agüento mais.
Tinham acabado de fechar a porta do quarto de Tygue.
- Falei hoje com o Jasper, Kate. E... ele tomou uma decisão.
Tê-lo-ia despedido? Ele estava com um péssimo aspecto. Kate pegou-lhe na mão.
- Acerca do quê?
- O programa vai passar a ser feito em São Francisco.
- Quando?
- Daqui a seis semanas.
- E isso é mau? - perguntou ela sem perceber. -Eu acho que sim. Tu não? São cinco horas de viagem, na melhor das hipóteses. Às vezes seis. Não posso ir e vir todos os dias. Nem sequer por ti.
Que tempo iriam ter juntos agora? Os fins-de-semana? No entanto, Kate sorria ao abraçá-lo.
- É só por causa disso que estás chateado? Pensei que tinhas sido despedido.
- E quase a mesma coisa. - Durante todo o dia pensara em despedir-se. Qualquer um dos programas feitos em Los Angeles gostaria de poder contar com ele.
Kate fitava-o, espantada.
- Estás maluco? Qual é o problema?
- Vou ver-te muito pouco. Isso não te incomoda? perguntou ele quase a chorar.
Kate sorriu.
- Eu mudo-me para São Francisco. Há algum problema? - retorquiu ela como se ele estivesse a dizer disparates. Nick fechou os olhos e abriu-os com um sorriso cansado.
- Fazias isso por mim, Kate?
- Claro. Ou achas que isso iria dificultar-te a vida? Talvez ele não desejasse isso. Talvez continuasse a querer a sua liberdade. Tal como ela. Porém, continuariam a tê-la mesmo juntos.
- Dificultar? Kate, és espantosa! - Depois lembrou-se de uma coisa. - E o que vais fazer à casa?
- Posso cá vir aos fins-de-semana. E agora é a altura ideal por causa do ano letivo. Podemos inscrever o Tygue numa escola e daqui a um mês as aulas começam e não haverá problema.
Tinha pensado no assunto quando ele falara na possibilidade da mudança para São Francisco, mas não lhe dissera nada e ele ralara-se em vão.
- Tens a certeza de que queres fazer isso, Kate? - perguntou incrédulo. Não sabia se havia de rir, chorar ou dançar.
- Claro que tenho a certeza, Príncipe Encantado.
- Oli, Kate ...
Teve-a nos braços durante horas. Escusava de se ter preocupado. Iriam começar uma nova vida. Juntos.
CAPÍTULO 26
Os saltos dela ecoaram na sala vazia. Era uma sala enorme que tinha portas de vidro com vista para a baía. O chão era de madeira escura e nas paredes havia castiçais de bronze. A esquerda viam a Ponte Golden Gate, à direita Alcatraz e Angel Island mesmo em frente.
- A vista é lindíssima.
Kate assentiu, mas não disse nada. A vista era bonita... linda... mas fazia-lhe recordar a casa que partilhara com Tom. No entanto, isso era uma parvoíce. Essa casa não passara de um apartamento. Esta era uma vivenda encantadora. Nick quisera uma vivenda.
Kate foi até à sala de jantar, que tinha a mesma vista da baía, e pôs-se de costas para a lareira. A sala tinha vigas de madeira no teto e janelas de sacada. Semicerrou os olhos, imaginando cortinas de organdi brancas e flores, almofadas convidativas nos bancos das janelas, um tapete branco macio e uma enorme mesa de madeira escura... Sorriu ao imaginar tudo aquilo.
- Vou voltar a ver o andar de cima.
A agente imobiliária assentiu em silêncio. Estava cansada. Há três dias que andava a mostrar-lhe casas, e já não tinha mais nenhuma. Kate vira de tudo. Salas pequenas, vistas arrebatadoras, casas com sete quartos, outras só com três, painéis de madeira, chão de mármore, vivendas vitorianas a precisar de obras. Vira de tudo, desde o mais decrépito ao mais espetacular. No entanto, parecia saber exatamente aquilo que queria e aparentemente ainda não o encontrara. Aquelas clientes eram as mais difíceis. Kate não iria comprar uma casa que não fosse idêntica à que tinha na cabeça. A agente sentou-se pesadamente no banco da janela e folheou o livro pela trigésima vez em três dias. Não tinha mais nenhuma casa daquelas para alugar. Ouviu os passos de Kate no primeiro andar e depois notou que eles se tinham detido.
Lá em cima, Kate olhava para a vista do quarto maior. De novo a baía, os mesmos bancos acolhedores junto à janela, uma pequena lareira com a comija em mármore e um quarto de vestir minúsculo. No entanto, a casa era acolhedora. Imaginou Nick a cruzar-se consigo no vestíbulo, a roçar nela no quarto de vestir e a beliscá-la quando se dirigia ao seu roupeiro. Imaginou-se sentada à janela com Tygue, a olhar para a baía ao pôr do Sol e a conversar sobre um assunto importante, como basebol ou cobras. Até imaginou Bert ali, a passear por toda a casa. Havia mais dois quartos no primeiro andar. Um deles era bastante grande e a janela de alto a baixo dava para o jardim à frente da casa; era muito soalheiro. Esse quarto seria o de Tygue. O outro, que era igualmente bonito, seria para os hóspedes. Não precisavam de um, mas era sempre bom terem um quarto livre. Havia ainda um quartinho para a empregada ao pé da cozinha, que ela podia transformar em escritório. Não era bonito, mas pelo menos teria um local onde escrever.
A cozinha que vira lá em baixo era grande e com um balcão que dava para uma salinha onde poderiam comer quando não tivessem visitas. Duas das paredes eram de tijolo, com um churrasco encastrado, e a outra amarela; os mosaicos do chão também eram amarelos. Os azulejos tinham sido trazidos de Portugal pelos últimos inquilinos. A cozinha era perfeita... só precisava de vasos e de um gancho de ferro foado para pendurar chouriços e pimentões secos... frascos de vidro com especiarias... cortinas e a tábua de açougueiro que Nick tinha na sua cozinha. Kate tencionava levar pouca coisa da sua casa, só aquilo de que mais gostava. Nick dissera que comprariam as coisas mais funcionais. Era estranho estar a montar casa com ele sem serem casados. Quem ficaria com o quê? E quem é que decidia o que se comprava? No entanto, Nick parecia não se preocupar com isso e dera-lhe carta branca.
Kate tomou a olhar em volta para o quarto que seria de Tygue, e depois para o jardim bem tratado. Tinha à volta uma sebe alta, para que pudessem ter privacidade, e um portão; assim Bert não se perderia. A casa parecia ter tudo aquilo de que precisavam. Nick considerava indispensáveis a vista bonita, as lareiras e os tetos altos, a escadaria para o primeiro andar e os três quartos. Ela achava os quartos um pouco pequenos, mas o resto parecia ser exatamente o que haviam sonhado. Sentou-se no último degrau e olhou para cima. Sobre a sua cabeça havia uma clarabóia e à sua direita uma porta entreaberta. Talvez mais roupeiros. Kate espreitou, inclinando-se para trás. Parecia serem escadas. Franziu o sobrolho e levantou-se.
- Há mais alguma coisa lá em cima? - perguntou ela à agente.
Ouviu-a folhear o livro.
- Não tenho a certeza - respondeu.
Quando Kate se dirigia à porta, a agente apareceu ao fundo das escadas.
- Se calhar é um sótão. Mas não vem referido aqui no livro. Aqui só diz: «três quartos, escritório e quarto da empregada».
- Escritório? - Kate não vira nenhum.
A escada era estreita mas forrada a alcatifa e as paredes encontravam-se cobertas com seda bege ainda de aspecto novo. Não parecia ser o tipo de coisa que se pusesse nas escadas que iam dar ao sótão e quando Kate chegou lá acima compreendeu porquê. Não estava num sótão, nem sequer num escritório, era um oásis, um sonho. Uma sala pequena, de proporções agradáveis e painéis de madeira na parede com uma lareira e uma vista de 360 graus de São Francisco. A baía, o Presidio, a baixa, e as colinas que levavam ao Sul. A sala era alcatifada, tinha as habituais janelas de sacada e possuía ainda um pequeno anexo, uma espécie de solário que seria paradisíaco quando estivesse cheio de flores. Continuaria ainda a haver espaço para uma secretária e para algumas estantes.
O anexo tinha duas discretas portas envidraçadas que não tapavam a vista, mas ainda assim permitiam que uma pessoa se isolasse... o escritório perfeito. E um espaço muito agradável para estar com Nick depois do programa. Podiam acender a lareira e olhar para a cidade. Seria um esconderijo, uma sala para encher de beleza, de crianças e de amor. Toda a casa era assim; exatamente aquilo que Kate procurava, aliás, melhor ainda. Aquilo com que sonhara e julgara que nunca iria encontrar. Beleza, elegância, simplicidade, acolhimento, privacidade e funcionalidade. A agente imobiliária pensara que ela era maluca quando lhe dissera que procurava todas aquelas qualidades. E agora fora encontrá-las numa única casa, que ainda por cima não era nada parecida com a que partilhara com Tom.
- Ficamos com ela - anunciou Kate virando-se para a agente imobiliária, que entretanto subira também as escadas.
- É uma casa extraordinária - concordou a mulher. Kate assentiu com uma expressão de vitória.
- É perfeita. - Estava radiante e mal podia esperar por mostrá-la a Nick. - Quando é que pode dar-nos a chave?
- Amanhã - respondeu a mulher. Afinal tinham conseguido. julgara que não iriam fazer negócio. A mulher queria tudo e não se contentava com menos. Porém, a sala lá de cima transformara a casa num verdadeiro achado. Por que diabo ainda ninguém a tinha comprado? Porque se calhar ninguém reparara na sala. Não constava da planta. - Tenho indicação de que ela está disponível imediatamente. Podemos tratar já da papelada e a casa é sua.
- Na verdade, eu devia mostrá-la ao... ao meu marido. No entanto, tenho a certeza absoluta. É esta. Aliás, só para ter a certeza, quanto é que pedem de sinal? - A agente imobiliária deu uma olhadela aos seus apontamentos e disselhe um valor muito baixo. Kate teve vontade de gritar: «Só isso?», mas ficou calada. Aquilo era demasiado bom para ser desperdiçado. Passou o cheque à pressa e entregou-o à mulher. Eu venho cá com ele logo à noite.
Assim fez, e Nick também se apaixonou pela casa. -Não é estupenda? - Com ele podia ser exuberante.
- Oli, Nick, adoro-a! - exclamou, sentando-se no banco de uma das janelas de sacada.
- E eu adoro-te - retorquiu ele, aproximando-se com um sorriso e olhando depois para a vista da baía.- Mas também adoro a casa. Vai ficar muito bem contigo nela e com o Tygue a correr de um lado para o outro,
E o Bert - corrigiu ela com uma expressão muito séria.
- Sim, desculpa, e o Bert. Mas o Brownie não, se não te importas. Já telefonei para as cavalariças do parque. O Brownie vai ficar muito bem instalado, e pelo mesmo preço que vamos pagar para alugar esta casa.
- Meu Deus, que horror! Talvez devêssemos deixá-lo em Santa Barbara.
- Nem pensar! Não podes fazer uma coisa dessas ao Tygue. Para além disso, acho que havemos de nos safar - disse, olhando em volta para aquilo a que Kate já chamava «a torre de marfim»: a sala com painéis de madeira no último andar. Imaginou as noites em frente à lareira, com Kate nos braços, as luzes da baía a cintilarem até depois de Angel Island, e Tygue a dormir profundamente lá em baixo. Também imaginou Kate muito atarefada na sua secretária do outro lado das portas de vidro, ignorando tudo menos o seu trabalho, escrevendo um novo livro à máquina e tendo no cabelo três lápis e uma caneta. Nick adorava o que via na sua imaginação e à sua volta.
- Achas que devemos ficar com ela? - perguntou Kate a sorrir como uma criança, ansiosa, animada e orgulhosa. Ele riu-se.
- Estás a pedir a minha opinião? Pensei que já estavas decidida, Cinderela. A propósito, devo-te o dinheiro do sinal. - Uma ova. Aquilo foi a minha parte.
- Que parte? - perguntou ele admirado.
- Não estás a pensar sustentar-me, pois não? Vamos dividir tudo a meias. Não vamos? - perguntou ela, atrapalhada. Ainda não haviam falado acerca do lado financeiro da mudança.
- Estás a falar a sério? - perguntou Nick com uma expressão ofendida. - Claro que estou a pensar sustentar-te. - Mas não somos casados! Só vivemos juntos.
- A decisão foi tua, não minha. És responsável pelo Tygue, se quiseres, mas eu sou responsável por ti. Não vou permitir que pagues renda para viver aqui.
- Não acho justo.
- Então mete-te na tua vida. Eu também teria muito gosto em sustentar o Tygue, se concordasses.
Fitou-a muito sério, mas ela abanou a cabeça.
- Nick... - Kate aproximou-se com uma expressão meiga. Só tinham passado dois meses, mas ele já estava a oferecer-lhe tudo. Oferecia a sua ajuda, e oferecia-se ainda para a distrair e para tomar conta dela e do filho. Parecia um sonho. - Porque é que és sempre tão bom para Mim?
- Porque mereces e porque te amo. - Sentou-se ao lado dela à janela. - E ainda fazia mais, se me deixasses.
- Que mais seria possível? - perguntou ela com um sorriso travesso, mas ele continuou muito sério.
- Casamento - respondeu Nick, e Kate desviou o olhar. - Nem sequer consideras essa possibilidade, pois não?
- Haviam decorrido apenas dois meses e, para além disso, ela ainda não lhe falara de Tom. Tinha de dar tempo ao tempo... pelo menos era isso que julgava. E gostou da idéia de um quarto de hóspedes ao lado do de Tygue. Já tinha idéias para o ocupar, e não era com amigos de Los Angeles ou de Nova Iorque.
Nick continuava a fitá-la muito sério ao pôr do Sol e Kate levantou por fim a cabeça. Depois abraçou-o e apertou-o com força.
- Desculpa, Nick, mas não posso pensar em casamento... não posso - murmurou, cheia de sofrimento.
- Continuas dependente do teu marido? - Nick não queria insistir, mas não podia deixar passar aquela oportunidade.
- Não da maneira que julgas. Eu aceito o que aconteceu, como aliás já te disse. Ele desapareceu. Faz parte de outra vida, de outro século. E o mais engraçado é que tu já me conheces melhor do que ele alguma vez chegou a conhecer.
- Sentiu-se uma traidora ao dizer aquelas palavras. Tom conhecera-a muito bem, mas na altura Kate era ainda uma criança. Nem ela própria se conhecia na altura. Porém, agora conhecia, e Nick também. Era uma relação completamente diferente.
- Mas ainda continuas ligada a ele, não é? Ela abanou a cabeça, mas depois reconsiderou. - De certa forma.
- Porquê?
- Talvez por uma questão de lealdade. Por aquilo que tivemos. - Era uma conversa com duplo sentido. Kate estava a responder às perguntas de Nick com sinceridade, embora julgasse que ele não percebia.
- Não podes viver assim para sempre, Kate.
- Eu sei. Só que sempre soube que nunca iria voltar a casar.
- Isso é ridículo. - Nick suspirou e levantou-se. - Podemos falar disso mais tarde. Entretanto, Cinderela - acrescentou com o sorriso que derretia sempre Kate -, bem-vinda a casa. - Envolveu o rosto dela com as mãos e beijou-a com meiguice.
Mudaram-se três semanas mais tarde, no meio do caos, dos risos e da ternura. Tygue instalou-se no seu quarto, Bert apoderou-se de toda a casa, a cozinha transformou-se no ponto de encontro preferido por todos e o quarto da criada foi convertido em arrecadação: encheu-se de patins, de bicicletas e de esquis. Nick andava a ensinar Tygue a patinar e ia levá-los a esquiar assim que caísse a primeira neve. A sala ficou tal como ela a imaginara, com uma mesa comprada num leilão, oito cadeiras rústicas com encosto de cabedal e cortinas de organdi branco. A sala era demasiado elegante para o dia-a-dia, com veludos castanhos e sedas beges, mas seria perfeita para receber os amigos de Nick ou os convidados do programa. E a sala do andar superior tornou-se precisamente naquilo que haviam sonhado. Um ninho de amor. Quando não estavam no quarto mobiliado ao estilo vitoriano e em tons de azul e branco, podiam ser encontrados na sala do último andar. Kate decorou-a com plantas e livros, com alguns quadros de que gostava muito, com os cadeirões de cabedal que Nick trouxera do seu apartamento e com as coisas de que ele mais gostava - os troféus da infância, as fotografias preferidas e a cabeça empalhada de um leão a fumar um charuto enorme e a piscar um olho. Numa das paredes havia ainda uma tuba, recordando um passado ainda mais distante do que aquele comemorado pelos troféus e pelo leão, e inúmeras fotografias de Tygue em bebê. O passado de Kate parecia não recuar mais do que isso. Porém, antes de Tygue tinham existido os pais dela e Tom, e essas duas eras encontravam-se agora encerradas. Tinha uma vida nova, iniciada com a vinda para a cidade. Tal como iniciara outra quando fora viver para o campo. Fechava uma porta atrás de si de cada vez que mudava de casa.
Tygue adorou a escola nova e o programa estava a correr bem. Até o novo livro de Kate estava a avançar com rapidez. Ela tinha a certeza de que iria conseguir acabá-lo antes do Natal. E A última Época já ia na quinta reimpressão.
- Sabes, ainda não consigo acreditar nesta casa. - Felicia era a primeira convidada que tiveram para jantar. Estava sentada na sala de estar depois de terem comido e olhava em volta. - Há quem tenha sorte logo à primeira. - «Ou à segunda», pensou, embora não o dissesse. Olhou com ternura para Nick. -Conseguiste em dois meses aquilo que eu não consegui em sete anos, Nick. Tenho de te tirar o chapéu. Sorriu, fazendo uma vênia. Simpatizavam um com o outro. Ele gostava do que ela fizera por Kate, da forma como a apoiara ao longo dos anos.
- Acho que ela estava pronta para sair da casca - retorquiu ele.
- Sair? Fui arrancada de lá! - exclamou Kate.
Felicia escondeu um sorriso na xícara de café. Até as coisas de ambos se tinham combinado bem para formarem um lar. Olhou em volta e trocou outro sorriso com Nick, que depois olhou para o relógio.
- Minhas senhoras, é com grande pesar que vos deixo.
- Tinham jantado cedo para ele poder chegar a tempo às gravações, Kate e Licia iriam ficar em casa na conversa. Volto depois das nove. Não te vás embora, Licia. Podemos jogar pôquer ou outra coisa qualquer quando eu chegar. Ou então podemos ir beber um copo a qualquer lado.
- Fica para a próxima, pá. Amanhã de manhã tenho várias reuniões. Vai ser um dia lixado. Eu não fico na cama até ao meio-dia como vocês os dois.
- Eu também não. Aqui passo metade do tempo a levar o Tygue e os colegas de casa para a escola e da escola para casa.
- Não me digas - disse Nick, franzindo o sobrolho. Kate riu-se com ar culpado.
- Está bem, está bem. Juro-te que para a semana o levo eu.
- Kate Harper, estás cheia de mimo - comentou Felicia, espantada. - O Nick leva o Tygue para a escola? - Kate assentiu a sorrir. - Meu Deus! Não mereces a mina de ouro que tens - acrescentou, fingindo-se horrorizada. Durante sete anos esperara ver a amiga feliz, como ela estava agora. Viver com Nick era a situação ideal.
Nick abraçou Felicia e beijou Kate e, depois de ele ter ido lá acima dar as boas-noites a Tygue, que estava no quarto de hóspedes a brincar com o comboio que Felicia lhe dera, ouviram o Ferrari arrancar,
- Há alguma coisa que este homem não faça por ti? perguntou Felicia olhando para a amiga, sentada na outra ponta do sofá de veludo castanho.
- Nada que me lembre. - Parecia feliz. - Eu sei, ele mima-me demasiado. - Mas nem tudo eram rosas. Também tinham as suas discussões, embora Kate não se importasse.
- Tu mereces, querida. Ele é de fato um homem extraordinário. - Fez uma pausa, olhou para a amiga com ar interrogativo e esta desviou o olhar. - Ele ainda não sabe nada a respeito do Tom, pois não? -Kate abanou a cabeça com uma expressão de dor. - Já deixaste de ir visitá-lo? Esperava que sim, mas Kate tomou a abanar a cabeça e suspirou.
- Claro que não. Não posso deixar de lá ir. Como é que podia? O que iria dizer? «Agora, vou-te deixar. Conheci outra pessoa.» Não se diz uma coisa dessas a uma criança de sete anos. Não podemos abandoná-lo. Não se pode acabar tudo, Licia. Não se pode. Nunca deixarei de lá ir enquanto ele for vivo.
- Vais contar ao Nick?
- Não sei. - Fechou os olhos e depois olhou para a lareira. - Não sei. Acho que devia, mas não sei como. Talvez daqui a algum tempo.
- Vais ter de o fazer se continuares a viver com o Nick. Onde é que ele julga que vais?
- Dar aulas.
- Ele não desconfia? Quero dizer, fazer o caminho todo até Carmel só para dar aulas é um bocado exagerado, não achas?
Kate assentiu.
- Não tenho alternativa.
- Não queres ter alternativa. Eu acho que ele iria compreender.
- E se não compreendesse, Felicia? Ele quer casar, ter filhos, ter uma vida normal. Como é que se pode ter uma vida normal quando se vive com uma mulher casada? Uma mulher casada com um deficiente motor que mentalmente parece ter sete anos de idade? E se eu lhe contar e ele achar que é demasiado? -Fechou os olhos ante a perspectiva.
- E achas que se não lhe contares alteras isso, Kate? E se ele acabar por descobrir? E se ele te pressionar para casar? E se lhe contares daqui a cinco anos, ou dois anos, ou dez anos? O que achas que ele dirá nessa altura? Ele tem direito a saber a verdade. - E Tygue também. Já há vários anos que Kate andava a pensar nisso. De vez em quando parecia acreditar que a amiga fizera o correto quando decidira não contar a Tygue, mas sempre achara que a criança estaria melhor se soubesse. Contudo, decidiu não insistir. E se Nick soubesse, poderia ajudá-la a contar a verdade a Tygue. - Acho que brincas com o fogo se não lhe contares. Não demonstras confiar o suficiente nele e revelas pouca coragem.
- Bolas, que grande discurso, Licia.
- Desculpa, Kate, mas acho que tens de dizer a verdade antes que cometas um erro.
- Está bem. Vou pensar.
- Ele não te faz perguntas sobre Carmel?
- Às vezes. Mas eu mudo de assunto.
- Não podes mudar de assunto para sempre, Kate. E porque haverias de o fazer? Não é justo. Pensa no que ele está a fazer por ti, naquilo que te dá, no quanto te ama. Deves-lhe a verdade.
- Está bem, Licia, está bem, mas deixa-me esperar pelo momento indicado. - Levantou-se e dirigiu-se à lareira, de costas para a amiga. Não queria continuar a conversa. Sabia que Licia tinha razão; precisava contar a Nick. Um dia, mas ainda não. E Licia também estava certa ao dizer que ela não poderia continuar a mudar de assunto. Kate já começara a sentir-se nervosa nos dias em que tinha de viajar. Três dias antes, descera as escadas em bicos de pés, rezando para que ele ainda não se tivesse levantado. Mas tinha. E ela detestara ter de lhe mentir.
- Quantas vezes lá vais? - Felicia, como de costume, não desistia.
- As do costume. Duas por semana. - E, com um suspiro, lembrou-se de que no dia seguinte era dia de viajar. Talvez Nick dormisse até mais tarde.