Tempo para Amar
Capítulo 24 · Miss Harper? - A mulher com o…
Miss Harper? - A mulher com o vestido preto caro e o cabelo muito bem penteado entrou na sala e estendeu-lhe a mão. Kate apertou-a com nervosismo e alisou o seu vestido.
- Vai para o ar daqui a um minuto.
Era a primeira vez que iria aparecer na televisão em Nova Iorque e sentia-se apavorada, mas preparada. Revira com Nick naquela manhã o que iria dizer. Envergava o vestido novo que comprara em Carmel. Era de linho cor de coral e realçava o seu bronzeado. Tinha posto as jóias da mesma cor que Licia lhe trouxera da Europa no ano anterior, apesar dos seus protestos. Agora sentia-se satisfeita por Licia ter insistido em que ficasse com elas. «Nunca se sabe.» Kate recordou as palavras com um sorriso. Tinha o cabelo apanhado e esperava parecer uma escritora. Pelo menos sentia-se uma escritora.
- Tenho estado a admirar a vista. - Era arrebatadora. Encontravam-se na extremidade sudoeste do edifício de trinta andares da General Motors, com vista para o Central Park se olhassem para a parte alta da cidade, e de Wall Strect se olhassem para a baixa. - Deve ser fabuloso viver nesta cidade.
A mulher do vestido preto soltou uma gargalhada, abanando a cabeça e revelando um enorme anel de esmeralda. - Eu dava o braço direito para viver na costa oeste. Porém, é aqui que a Audrey faz o programa, por isso... - Levantou as mãos.
Aquela mulher era a melhor produtora da televisão, e o seu trabalho era muito semelhante ao de Nick. Kate percebia agora no que ele consistia.
- Está pronta?
- Acho que sim.
Segurou uma porta e Kate avançou. A porta do estúdio tinha por cima um letreiro iluminado onde se lia «No, Ar». Kate participou no programa durante quase uma hora, juntamente com três outras mulheres: uma representante das Nações Unidas, uma advogada famosa e uma mulher que ganhara o Nobel de bioquímica no ano anterior. Deus do Céu! Kate sentiu-se ficar sem fôlego ao fitá-las. O que estaria ela ali a fazer? Mas quando as mulheres a observaram, percebeu que estavam a pensar a mesma coisa. Ninguém a conhecia.
- Qual é a sensação de escrever o primeiro best seller? perguntou Audrey Bradford, a apresentadora do programa, com um sorriso, e as outras mulheres pareceram interessadas, mas não fascinadas.
- Ainda não chegou tão longe, mas devo admitir que é uma sensação muito agradável - respondeu com uma gargalhada e Audrey sorriu-lhe.
Aquela era a melhor droga do mundo, a melhor coisa para o ego. O êxito. O êxito público. Na televisão nacional. Mesmo assim, Kate continuava a sentir um certo antagonismo por parte das outras convidadas. Inveja? Desconfiança?
- A nossa pesquisa revelou que o livro vai na terceira reimpressão e que vendeu cinqüenta mil exemplares em cinco semanas. Eu diria que é um best seller, não acha? Aliás, já começou a aparecer nas tabelas nacionais.
- Já? Porque seria que ninguém lho tinha dito? Bolas! Cinqüenta mil exemplares? Ficou sem fôlego, mas em vez de o mostrar sorriu.
- Nesse caso, dou a mão à palmatória. - Após alguns minutos de nervosismo, Kate ficou admirada ao ver como o programa estava a correr bem. As outras mulheres eram fascinantes e Audrey uma excelente apresentadora. Era capaz de transformar uma situação embaraçosa noutra muito agradável.
Kate ainda se sentia nas nuvens quando foi ter com Nick ao Lutèce para almoçar. Sentou-se com ar radiante na mesa instalada no jardim.
- Olá, querido. Caramba, tive tanto medo. - Desatou a contar-lhe como estivera tensa, como as outras mulheres eram famosas, como Audrey era espantosa, como a produtora e era muitíssimo elegante, como...
- Então, tem calma. Mais devagar. Descontrai-te - disse Nick, divertido com o entusiasmo dela. Kate estava tão elétrica como todas as outras pessoas de Nova Iorque.
Ela sentou-se com um sorriso envergonhado e respirou fundo.
- Já me acalmei.
- Ainda bem. Então, disseste alguma coisa de jeito no programa?
- Não estiveste a ver? - perguntou ela perplexa. - Minha querida, já vais ver como é a minha vida em Nova Iorque. Estava confortavelmente instalado na suíte do Jasper para te ver no programa quando os três telefones começaram a tocar ao mesmo tempo. Ele mandou instalar mais duas linhas. A secretária dele entrou a correr, aflitíssima: o nosso principal convidado do programa de logo à noite aqui encontra-se no hospital, devido a um ataque cardíaco. A secretária temporária que ele contratou aqui entrou na suíte e demitiu-se. O filho mais velho do Jasper telefonou de Londres a dizer que tinha atropelado um miúdo e que estava preso. E entretanto fiz chamadas para nove pessoas a fim de ver se arranjava um substituto para o programa de logo. Não, minha querida, não estive a ver, mas tenho a certeza de que te portaste à altura.
Nick olhou para Kate com um sorriso e ela tentou esconder a sua desilusão. As vezes esquecia-se do quanto ele tinha para fazer.
- A propósito, o Jasper acha que talvez gostasses de voltar ao programa. Talvez no final da semana.
- Já? Ainda há pouco lá estive.
- Não faz mal. Agora estás na berra, porque o livro continua a vender muito bem, e, como apareces nos programas do dia, o público feminino iria gostar de te ver também no nosso. - Durante um momento, ele deixara de ser Nick, era apenas um produtor, um desconhecido, um homem nervoso que tinha de coordenar o talk show mais importante do país. Nem sequer tivera tempo de a ver a primeira vez que aparecia num programa de Nova Iorque. - Vou pedir ao Stu que fale com o teu editor a respeito da tua ida ao programa. O Jasper quer mesmo ter-te lá. - Puxou de uma pequena agenda, escreveu qualquer coisa e levantou a cabeça, admirado, quando o empregado lhe trouxe um telefone,
- Uma chamada para si, Mister Waterman. - Seguiram-se dez minutos de uma conversa ininteligível com alguém da equipe de produção durante os quais Kate olhou para as mesas à volta. Estava a almoçar num dos restaurantes mais caros de Nova Iorque, rodeada de pessoas ilustres e poderosas. Nick fez sinal ao empregado e apontou para o relógio. O empregado assentiu e apressou-se a levar uma ementa a Kate. Só cinco minutos mais tarde é que Nick desligou o telefone.
- Desculpa, querida. Há muitos dias assim. - Mais até do que ele deixava transparecer. Kate nunca se apercebera do trabalho que ele tinha para fazer, embora começasse a ter uma noção. Nick voltou a olhar para o relógio. - Bolas!
- Algum problema?
- Não. Só tenho de te deixar daqui a vinte minutos. Preciso de discutir trinta e sete coisas com o Jasper antes do programa de logo à noite.
- O sortudo... parece que vai ver-te mais vezes do que eu - observou Kate um pouco amuada. Porém, tentou logo animar-se; não tinha o direito de ser tão exigente; haviam ido ali para trabalhar, não para se divertir.
- Lamento não ter visto o teu programa, Kate. Lamento mesmo. Para a próxima vou ver, aconteça o que acontecer. Prometo. Nem que tenha de trancar as portas e tirar os telefones do descanso.
- Okay, estás perdoado. - Beijaram-se quando a garrafa de Louis Roederer chegou. Era um excelente champanhe de 1955.
Comeram caviar em torradas finas como papel, croquetes, salada de endívias, framboesas com natas, e empurraram tudo com a garrafa de champanhe em menos de meia hora. O resultado foi Kate encostar-se às costas da cadeira, ligeiramente embriagada.
- Sabes... - Olhou para Nick com uma expressão filosófica e este sorriu ao pagar a conta. Ainda bem que tinha despesas de representação. - Sabes... - recomeçou Kate -, às vezes é difícil lembrarmo-nos que todo este divertimento pode conduzir à desgraça.
- O que queres dizer com isso? - perguntou Nick quase a soltar uma gargalhada, mas lembrando-se subitamente de Tom. - Só se deixares que as coisas te subam à cabeça, Kate. É possível atingir o êxito sem se ficar louco.
- Tens a certeza? - inquiriu ela preocupada. Não se esquecera do que tudo aquilo fizera a Tom... - e a si própria.
- Já vi pessoas lidarem muito bem com a situação. Não podemos é perder a noção da realidade nem esquecermo-nos do que é realmente importante. E talvez saibamos que é bom enquanto dura, mas que não é tudo. Tens sorte Kate. Tens um lar a que podes regressar. Tens o Tygue...
- Esqueceste-te de uma coisa - interveio Kate.
- Do quê?
- Esqueceste-te de que te tenho ainda a ti.
- É verdade. Não te esqueças disso.
Ela não esqueceu. Aliás, não pensou noutra coisa quando regressou ao hotel, ainda sob os efeitos do champanhe. Era tão fácil embriagar-se com o êxito, com as refeições caras nos restaurantes elegantes, com a adulação e a atenção e os aplausos. Tinha de admitir que estava a gostar daquilo, embora também se sentisse amedrontada. De súbito, e pela primeira vez., percebeu que todas aquelas coisas tinham tentado Tom. Principalmente porque a vida dele fora muito simples antes do êxito. Fora-lhe impossível resistir. Seria ela tão diferente dele? Estaria a portar-se melhor? Não sabia.
Regressou ao hotel, adormeceu e foi acordada pelo telefone às quatro. Pedira ao recepcionista que a acordasse. Tinha de estar numa estação de rádio em West Side às seis da tarde. Daquela vez a entrevista correu mal. O entrevistador fez-lhe as perguntas erradas, e fartou-se de indagar como é que uma mulher podia saber tanto de futebol; foi agressivo, misógino e Kate odiou todos os minutos, embora tenha dito a si própria que a publicidade seria boa para o livro. O editor prometera mandar-lhe um carro com motorista para a levar ao hotel, mas nem um nem outro apareceram e Kate deu por si a percorrer algumas das ruas mais perigosas de Manhattan e a rezar por um táxi. Eram nove quando chegou ao estúdio para se encontrar com Nick. A tarde dele fora bastante agitada, e já haviam surgido problemas para o programa da noite seguinte. Eram dez e meia quando, cheios de calor e sujos, saíram para comer qualquer coisa ao La Grenouille que, apesar da sua elegância, não agradou a Kate. Sentia-se transpirada e exausta e só lhe apetecia ir para a cama, À saída, um fotógrafo do Women's Wear Daily apanhou-a e Kate quase lhe rosnou quando o flash disparou junto à sua cara.
- Então, tem calma, Kate. Não te esqueças de que isto é trabalho.
Ela suspirou e sorriu.
- Não sei. Começo a pensar que correr atrás do Tygue e do Bert não era assim tão mau.
- Eu bem te disse.
Subiram a Quinta Avenida de braço dado, e Kate estava de rastos quando se deitaram à uma da manhã. Ao acordar no dia seguinte, o cansaço ainda não desaparecera. Nick deu-lhe um exemplar do Women's Wear e Kate franziu logo o sobrolho ao ver a fotografia de ambos à saída do restaurante, ao ler a legenda que dizia quem eles eram, referia o livro e fazia um comentário maldoso ao vestido dela.
- Bolas, estavam quarenta graus e eu ainda não parara. Afinal, o que é que eles querem de mim?
Nick, que estava a beber café, riu-se e encolheu os ombros.
- Estás na berlinda, querida. Em Nova Iorque não perdoam nada.
- Então podem ir para o raio que os parta! Não gosto de aparecer nos jornais, - Estava muito nervosa e acendeu um cigarro. Era uma péssima forma de começar o dia.
- Como é que sabes? Já alguma vez tinhas experimentado? - Ela fitou-o, calada. - O que se passa, querida? - Nick sentou-se na cama e pegou-lhe na mão. - E só uma fotografia no jornal, não o fim do inundo.
- Odeio estas coisas. Eles não têm nada a ver com a minha vida.
- Estão interessados em ti. És nova, és inteligente, bonita. O teu livro é um êxito. Isto faz parte.
- Não me interessa. - Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Ia começar tudo outra vez e eles iriam destruir o que tinham. Kate queria ir para casa.
- Então... vá lá, querida... já passou - disse Nick abraçando-a. - E se te incomoda assim tanto aparecer nos jornais, iremos ter mais cuidado. Vamos almoçar a um sitio mais discreto. - Num Papel, escreveu o nome de um restaurante francês na Rua 53 onde passariam despercebidos, deu-lhe um beijo e foi para uma reunião com Jasper. No entanto, quando se encontraram ao almoço, Kate ainda sentia um certo receio à mistura com a excitação. Tinha um ar cansado e Nick era bom observador.
- O que se passa?
- Nada.
- Estás outra vez preocupada com os paparazzí? - Mais ou menos.
- Então não te preocupes. Nem mortos eles apareciam aqui. E as pessoas que comem aqui não merecem a atenção do Women's Wear.
- Ótimo - disse Kate com ar aliviado, pegando na mão dele. - Detesto essas coisas.
- Porquê? - Por que motivo não lhe contava ela? Será que ainda não confiava nele? Nem agora?
- É uma espécie de violação. Arrancam-nos a roupa, olham para o nosso corpo e apoderam-se do que lhes apetece - respondeu ela com um ar triste.
Nick riu-se e inclinou-se para a frente.
- Posso ser o primeiro?
- Oli, pára com isso.
- Então, não penses mais no assunto. Faz tudo parte do pacote. Todos nos habituamos. Já me chamaram desde ninfomaníaco a maricas. E depois?
Kate sorriu.
- É sério?
- Sim. Especialmente ninfomaníaco. - Mas não parecia orgulhoso. Tudo aquilo ficara para trás. Não olhava para outra mulher desde que conhecera Kate, fazia naquele dia seis semanas. - Olha, hoje é o nosso aniversário!
- Eu sei. A sexta semana - disse ela radiante, esquecendo os jornais. Que se lixassem. Aquilo é que era importante. Nessa noite, jantaram no 21 com Jasper e um conhecido produtor de teatro. Era agradável conhecer melhor Jasper e ela não se importava que ele tivesse conhecimento da sua relação com Nick. Jasper parecia aprovar e tratava-a como se ela fosse uma pessoa muito especial.
No dia seguinte encontraram-se para almoçar na suíte dele no Hotel Pierre, e nessa noite ela e Nick foram comprar brinquedos para Tygue no FAO Schwarz.
- Queres experimentar o barco?
- Agora? - perguntou Kate com uma gargalhada quando saíram da loja. Era a única coisa que levavam; tinha mandado entregar o resto no hotel. Roupas de cowboy, uma bicicleta. Kate tivera de se zangar com Nick para que ele não comprasse uma casa de madeira em ponto pequeno. Queria comprar tudo. Ela não queria isso, e ele sabia. Ainda pensou em levar qualquer coisa para Tom, mas isso não era possível sem Nick se aperceber. Ele observava-a, segurando o barco teleguiado. Tygue iria experimentá-lo no lago.
- Olha, há um pequeno lago aqui no Central Park. Vêem-se lá muitos velhotes com veleiros e escunas. Vamos parecer uns pelintras, mas não faz mal.
Foi magnífico. Passaram ali duas horas, a falar com os velhotes, a ver os barcos, a sorrir para as amas que empurravam os carrinhos cheios de rendas. Em Nova Iorque, todas as pessoas aparentavam ser muito ricas ou muito pobres e a classe média parecia ter sido expulsa para outro lado. Talvez para New Jersey. Ou para o Bronx.
A caminho da saída do parque passaram pelo jardim zoológico e Kate deteve-se juntos aos pôneis.
- Gostava que o Tygue aqui estivesse. Ele iria adorar.
- Talvez para a próxima. - Apertou a mão dela no seu braço pensando na criança e depois olhou para ela. - Queres andar de pônei, Cinderela?
- Estás a brincar? - retorquiu ela a rir. - Partia logo o fiacre ou matava o cavalo. - O fiacre era feito à medida das crianças.
- Responde.
- O que é que estás a tramar?
- Já vais ver.
Saíram do parque e foram direitos aos fiacres alinhados na Rua 59. Ali, Nick deteve-se por um momento, falou com um dos condutores de chapéu alto e depois virou-se e ajudou-a a subir.
- Isto é mais o nosso tipo de velocidade.
O calor ainda era intenso; porém, Kate já se habituara à temperatura. Às cinco da tarde passeavam calmamente pelo parque no fiacre. As pessoas olhavam para eles e sorriam, as crianças acenavam-lhes. Era como se estivessem a viver um conto de fadas. Nick comprou gelados aproveitando um semáforo vermelho. Uma hora mais tarde, o condutor deixava-os à porta do hotel.
- Cheiro a cavalo - murmurou Kate com uma gargalhada quando atravessaram o átrio.
- Eu gosto - disse ele, sorrindo ao ver o bocadinho de gelado que ela tinha no queixo. - Estás toda suja. - Porém, sentia-se ansioso por se apanhar no quarto com ela. Passaram uma hora na cama e depois tiveram de se apressar. Ele foi fazer o programa de Jasper e ela ia aparecer no talk show rival de outro canal.
Correu muito bem, tal como o primeiro dos dois programas de rádio onde esteve no dia seguinte. No segundo, ninguém parecia saber quem ela era ou porque se encontrava ali. Nos jornais não apareceu mais nenhuma referência a Kate. Ela estava a gostar da viagem, apesar do seu ritmo frenético, e ficou admirada ao ver a facilidade com que se acostumava às entrevistas e às câmaras. Quando foi ao programa de Jasper, estava muito menos nervosa do que da primeira vez. Deixou que Nick lhe escolhesse o vestido, um Halston colante pérola-acinzentado. Era o vestido mais sexy que ela vira, embora também bastante discreto. Ficava-lhe lindamente. Até Jasper ficou um pouco admirado quando Kate apareceu. Ela era uma mulher muito bonita. A sua ida ao programa foi o ponto alto da viagem.
- Então, Mister Waterman, qual é o programa das festas para amanhã? - O dia seguinte era sábado.
- Não sei. Queres ir à praia? Vai ser agradável voltar a ver um pouco de areia.
- Há alguma praia aqui perto? Pensei que os nova-iorquinos não gostavam dessas coisas.
- Em Southhampton. - indicou Nick, deitado na cama, a olhar para a mulher que amava. Nesse momento o telefone tocou. - Atende tu. O quarto é teu, lembras-te? - Pensava em tudo.
- Sim? - Calculava que fosse Licia, ou talvez Jasper, para falar com Nick. Quem mais poderia ligar. Mas era Tillie.
- Ele o quê? A sério? O que? Deus do Céu. Mas ele está bem? - Kate pôs-se muito direita e Nick franziu o sobrolho.
- Agora? Porque é que ele lá ficou? Não pode ir para casa?
Nick estava a dar em doido por ouvir só um lado da conversa e começou a fazer perguntas, mas ela mandou-o calar.
- Esta tarde? Está bem. Vou ver o que posso fazer.
Desligou de sobrolho franzido, olhou para Nick e depois para o regaço com um suspiro. - Bolas!
- O que aconteceu, por amor de Deus?
- O Tygue caiu do portão no rancho dos Adams e quebrou o braço. A Tillie disse que ele estava pendurado nele com o Joey e que caiu de costas. Pensaram que poderia ter uma concussão, por isso mantiveram-no esta noite no hospital. Ela disse que tentou ligar-nos ontem à noite, mas não nos encontrou e teve receio de deixar recado, não fosse eu entrar em pânico. Bolas!
- Coitadinho. Já sabem se ele não tem nenhuma concussão? E para que hospital é que a Tillie o levou? - perguntou Nick, muito preocupado.
Kate sorriu.
- Para o de Santa Barbara. Ele já está bem. Tem alta esta tarde. Vai é andar com gesso algumas semanas. Nick olhou para o relógio.
- Se eu te puser no avião daqui a uma hora, chegas à Califórnia ao meio-dia, apanhas um vôo para Santa Barbara... e podes lá chegar às duas da tarde - sugeriu ele com um sorriso.
- Sim, eu sei - respondeu Kate sentando-se.
- O que se passa contigo? - perguntou Nick, admirado. - Vais para lá, não vais?
- Acho que não tenho alternativa - disse Kate, contrariada.
- O que quer isso dizer?
Era a primeira vez que Kate o via com aquele ar contrariado. Aliás, ele parecia ter ficado chocado. 1
- Quer dizer que sei que devo ir, mas que não me apetece. Estava a divertir-me tanto! A Tillie disse que ele está bem, porém, se eu não voltar já para casa, vou ficar cheia de remorsos e o Tygue vai ficar muito sentido, e... oli, Nick! Há sete anos que não fazia nada sozinha e isto tem sido tão divertido!
- Ele não tem culpa que tenhas ficado trancada em casa durante sete anos, por amor de Deus! És mãe dele! - retorquiu ele aos gritos.
Isso chocou Kate.
- Okay. Eu sei isso. Mas não deixei de ser eu. Sou a Kate, não sou apenas a «mãe», Tenho quase trinta anos e há seis que sou mãe a tempo inteiro. Não achas que tenho direito a mais qualquer coisa?
- Sim, mas não à custa dele, menina. Nunca à custa dele. - Andava de um lado para o outro, furioso. -Deixa-me dizer-te uma coisa. Já vi muitas idiotas. Deram cabo das suas vidas, das dos filhos, enganaram os maridos, destruíram os seus casamentos e sabes porquê? Porque estavam tão cegas consigo próprias que não eram capazes de ver com clareza. Adoram o barulho e as luzes, as apresentações e os aplausos, as câmaras e os microfones e sabes que mais? Estou a ver-te a fazer o mesmo. Bom, então faz um grande favor ao Tygue e a mim próprio: não vás por aí. Não hás-de encontrar nada. A fama é uma coisa agradável para visitar, mas mais nada. E agora, o teu filho partiu o braço, tu vais para casa e ponto final. Passou por ela, pegou no telefone e pediu à telefonista que lhe ligasse para a TWA; porém, antes de acabar a frase, Kate desligou-lhe o telefone. Nick fitou-a, abismado. Os olhos dela brilhavam de fúria, mas quando falou a sua voz era calma.
- Não voltes a fazer isso. Quando eu quiser ligar para a companhia de aviação, fá-lo-ei. Quando decidir voltar para casa, informo-te. E quando precisar dos teus conselhos a respeito das minhas responsabilidades de mãe, peço-vos. Entretanto, meu menino, guarda para ti as tuas idéias, as tuas ameaças e a tua indignação. - Levantou-se e atravessou o quarto de costas para ele. Quando chegou à janela, virou-se, e Nick nunca vira tamanha ira no rosto de uma mulher. - Durante anos, dei tudo àquela criança. Tudo o que tenho, tudo o que sou, tudo o que sei dar... foram para ele. Mas agora é a minha vez. E sei melhor do que ninguém o preço que se paga. Vi uma pessoa que amava ficar contaminada com o vírus da fama. Sei tudo o que há a saber. E estou apavorada. No entanto, isso não quer dizer que desejo ser enterrada viva. Tenho direito a isto. Tenho direito a estar contigo, à minha carreira, à minha própria vida e, se fiquei triste por ter de voltar à realidade, tenho direito a isso, Mas não voltes a tentar fazer-me sentir culpada nem a dizer-me quais as minhas obrigações de mãe. Eu sei muito bem quais são e paguei caro. E não voltes a dizer-me o que devo fazer. Já passei por isso. Confiei num homem ao ponto de me apagar completamente. Deixei que ele tomasse as decisões por mim, adorava a situação e adorava-o, e quase morri quando ele deixou de ser capaz de decidir. Por isso cresci. Tomo as minhas próprias decisões e isso agrada-me. Amo-te, Nick, mas nunca mais voltas a dizer-me quando é que devo voltar para casa. Quem toma essa decisão sou eu. Estamos entendidos?
Ele assentiu em silêncio e ela aproximou-se de Nick de cabeça baixa. Parou quando chegou junto dele.
- Desculpa se falei demais, mas a minha vida não foi fácil e paguei muito caro para ter aquilo que tenho. Não sei como reagir se alguém quiser estragar isso. Nem sei como reagir quando alguém me quer ajudar. Estão neste momento a acontecer muitas coisas na minha vida. Preciso de tempo para as assimilar... Talvez regressar a casa não seja afinal uma idéia assim tão má.
Estava quase a chorar quando se calou e estendeu a mão para o telefone. Pediu a ligação para a companhia. Nick estava calado; ouviu-a fazer a reserva para o vôo seguinte, Levantou-se quando ela desligou e ficaram imóveis durante algum tempo, sem falar, sem saber o que dizer, abalados pelo que tinham sentido e dito. Foi Kate quem falou primeiro.
- Desculpa, Nick.
- Não tens de pedir desculpa. Eu não tinha o direito...
Abraçou-a e suspirou. Queria fazer-lhe tudo, porque sabia que já há muito ninguém o fazia; no entanto, sabia que ela tinha de habituar-se sozinha àquela nova vida. Desejava poupá-la à dor e ao preço a pagar, mas não podia. Abraçou-a com força, depois deu-lhe uma palmada no rabo e soltou-a.
- E melhor despachares-te, senão perdes o avião.
- Não perco nada - retorquiu ela com um sorriso. Era um sorriso de medo, muito feminino, e ele retribuiu-lho.
- Olha...
- Cala-te. - Puxou-o pela mão até ao quarto que tinham partilhado durante a estada em Nova Iorque, empurrou-o para cima da cama e começou a rir. - Não sejas tão sisudo, Nick. O mundo não chegou ao fim. - Aliás, parecia-lhe que estava ainda no começo. E quando ele lhe despiu a camisa, ela puxou-c, para si com um desejo quase incontrolável. A sua boca e o seu corpo ansiavam pelos dele.