Tempo para Amar
Capítulo 11 · Viajavam em silêncio havia quase uma hora,…
Viajavam em silêncio havia quase uma hora, depois da excitação e das tagarelices iniciais. Já iam a mais de meio caminho e Kate reparara que tinham acabado de passar pelo desvio para Carmel. Felicia também reparou.
- Kate?
- Hum?
Estava escuro no carro, mas Felicia conseguia ver o perfil da amiga. Parecia a mesma de há seis anos e meio atrás quando Felicia a levara ao seu «retiro». Se tivesse adivinhado o tempo que Kate se manteria lá escondida, nunca teria concordado em ajudá-la a procurar a casa.
- O que é que te incomoda, Licia? - perguntou Kate com um sorriso.
- O que te fez mudar de idéias?
- Não sei se mudei em relação a tudo. Eu... Bolas! Não sei, Licia. Talvez esta loucura toda com o livro me tenha afetado. Estava tão feliz com a minha vida lá no campo.
O miúdo, o cão, as coisas todas.
- Tretas. Kate fitou-a.
- Não acreditas em mim?
- Não. Acho que já há algum tempo que te sentias aborrecida. Não és capaz de o admitir, mas acho que o sabias. Não podes enterrar-te viva dessa maneira. Tens uma vida de fantasia nos teus livros, mas ela não é real e tu sabe-lo. És nova, Kate. Precisas de pessoas, de lugares onde ir, de viagens, de homens, de roupas, de êxito. De tudo isto. E desististe demasiado cedo. O Tom viveu bem a vida, saboreou os bons momentos enquanto eles duraram. Acho que se ele... que se ainda fosse o mesmo detestaria ver-te fechada dessa maneira como uma velha. Não és a Tillie, por amor de Deus. Bom, já não é a primeira vez que te digo isto. Desculpa. Não era minha intenção fazer um discurso.
Kate continuava a sorrir no escuro.
- E eu acharia que já não gostavas de mim se deixasses de fazer isso. Bom, em resposta à tua pergunta, talvez tenhas razão. Talvez eu soubesse que estava aborrecida, embora aborrecida não seja o melhor termo. Eu gosto da minha vida, só que... de repente, sinto vontade de mais. Quero ver pessoas. Pessoas verdadeiras. Na sexta, quando fui visitar o Tom, o dia não correu muito bem e fui-me embora mais cedo. E sem razão aparente, apeteceu-me ir até Carmel.
- É sério? - Kate assentiu com ar satisfeito, sentindo-se culpada. - Sua marota. E não me disseste nada. O que fizeste?
- Gastei uma fortuna.
A gargalhada de Kate fez Felicia sorrir.
- Em quê? Estou desejosa de saber.
- Em coisas ridículas. Roupas. Nada de que precise. Meu Deus, nem sequer sei onde é que as vou usar. Ou melhor, não sabia até esta noite. Talvez seja por isso que decidi ir contigo para São Francisco, para usar as minhas roupas novas.
Achava que ainda não era bem por causa daquilo que decidira ir. Só que dentro de si havia agora um pequeno demônio a gritar-lhe «Vai! Mexe-te! Vive! Sonha! Gasta!» Então ocorreu-lhe um pensamento.
- Não achas que é horrível fazer isto ao Tygue? - perguntou fitando a escuridão.
Felicia olhou para ela.
- O quê, saíres daqui durante uns dias? Não sejas parva, A maior parte dos pais está sempre a fazer isso. Acho que vai ser bom para o Tygue.
- Talvez devesse tê-lo preparado com mais antecedência.
- Se assim fosse, terias desistido.
Kate assentiu em silêncio e acendeu um cigarro. Felicia olhou para ela com um sorriso.
- Estás pronta?
- Para quê? - perguntou Kate. Depois percebeu o que a amiga queria dizer. Estivera tão mergulhada nos seus Pensamentos que perdera os primeiros sinais. Estavam a aproximar-se.
Já tinham passado pelo aeroporto. Sim, Kate estava pronta. Mais três quilômetros, a auto-estrada dava a última curva e
ali estava a cidade. Kate sorriu, os seus olhos enchendo-se de lágrimas. Chegara a casa, apesar dos muitos anos que vivera fora dali. Chegara a casa. Havia mais prédios, tudo estava mais velho, mas na essência nada mudara. São Francisco era uma cidade que nunca mudava muito. Mantinha sempre intacta aquela parte integrante da sua personalidade. E a sua beleza. A ponta do edifício da TransAmerica erguia-se para o céu, na zona baixa. Kate permitiu-se então pensar em vários lugares que apagara da sua mente durante anos. Nas ruas ladeadas de árvores de Pacific Heights, nas pequenas casas vitorianas, no yacht dub numa noite de Verão, na marina num domingo de manhã, a majestade do Presidio, no arco da Ponte Golden Gate e em todos os recantos que partilhara com Tom. Ver a cidade enquanto seguia no carro com Felicia trouxe-lhe à mente milhares de recordações que mantivera à distância. Parecia que as segurava agora nas mãos, e elas emanavam um perfume familiar. Abriu a janela e deixou que o ar da noite lhe refrescasse o rosto.
- Está frio. Deve haver nevoeiro.
Felicia sorriu e ficou calada. Percebeu que Kate não tinha vontade de falar. Queria ver, ouvir e sentir. Já haviam tomado o desvio para a cidade.
Encontravam-se na Rua Franklin dirigindo-se para norte, para a baía. À medida que o carro subia as colinas, podiam ver-se as luzes cintilantes do outro lado da baía. Até o trânsito parecia sofisticado. Jaguares, Mercedes e Porsches ao lado de carrinhas e Volkswagens e uma moto ocasional. Tudo parecia mover-se a grande velocidade, e tudo surgia pleno de luz e de vida. Eram dez horas num domingo à noite.
Felicia virou à direita na Rua Califórnia e um quarteirão depois encontravam-se atrás de um elétrico a subir a colina. Kate soltou uma gargalhada.
- Meu Deus, Felicia, já me tinha esquecido. Adoro esta cidade! É tudo tão bonito! - Apetecia-lhe levantar-se e gritar: «Vitória!» Estava de volta. Talvez até voltasse para sempre.
Felicia ultrapassou o elétrico ao cimo de Nob Hill, e Kate voltou a ficar em silêncio enquanto observava a magnífica catedral, o Pacific Union Club, Fairmont e Mark; depois começaram a descer o outro lado da colina rumo à zona financeira da cidade, tendo em frente o Edifício Ferry. Kate riu-se de novo.
- Muito bem, Licia. Confessa. Fizeste isto de propósito, não fizeste?
- O quê?
- A visita guiada. Sabes bem ao que me refiro, marota.
- Eu?
- Sim, tu. Mas estou a adorar. Não pares.
- Queres ver mais alguma coisa?
- Não sei. - Havia tantas sensações novas que Kate nem sabia o que queria ver em seguida.
- Tens fome?
- Mais ou menos.
- Queres ir comer qualquer coisa ao Vanessí's?
- Com esta roupa? - Kate olhou horrorizada para as calças de ganga, a camisa vermelha e os sapatos gastos.
- Quem é que vai ligar a isso num domingo? Ainda por cima já é tarde.
- Não sei, Licia. - Parecia de novo nervosa e Felicia ignorou-a com um gesto da mão e acelerou pela Kearriy até ao cruzamento com a Broadway. De súbito, viram-se catapultadas para a vulgaridade espampanante da Broadway. «Lutadoras Adolescentes Combatem em Topless» e as habituais promessas feitas pelos apregoadores: «Virgens, todas virgens», ao lado de Pinnocchio's e os seus travestis. No meio da loucura, do trânsito e dos caminhões que saíam da Ponte Bay encontrava-se o Café Enrico's, com a sua esplanada no passeio. Com as rosas nas mesas com tampo de mármore cor-de-rosa, o ruído agradável e os coloridos transeuntes, dava a sensação de ser a Via Veneto e não propriamente a Broadway. E para manter essa ilusão, do outro lado da rua surgia o Vanessi's, cheio de freqüentadores deslumbrantes, e outros que o eram menos, clientes importantes, ou que seriam importantes no futuro... e ainda outros que não eram nem uma coisa nem outra, mas que julgavam que eram. Homens de meia-idade, matriarcas e senhoras, homens de fatos azuis, mulheres de preto carregadas de pulseiras de ouro e, ao lado, calças de ganga e cabelos frisados. Era um lugar onde as pessoas podiam perder-se, onde podiam ser encontradas. Era, simplesmente, o Vanessi's. Kate e Tom tinham-no adorado. A princípio, haviam-no achado demasiado barulhento para as noites românticas a dois, mas passado algum tempo tinham-se habituado. E Tom sentira-se ali sempre em paz. Dava alguns autógrafos, apertava mãos, acenava algumas vezes, mas ninguém o incomodava verdadeiramente. Ninguém o queria beijar ou agarrar. Vanessi's.
- Estás pronta? - perguntou Felicia parando abruptamente no parque de estacionamento mais próximo. Detestava ter de deixar Kate escolher, mas parecia-lhe o mais justo. Kate olhou em volta durante um longo momento e a sua mão pousou no relógio em forma de coração que tinha pregado à camisa. Procurava força, coragem.
- Estou. - Saiu do carro, esticou as pernas e quase se encolheu ao ouvir o barulho ambiente. Porém, até ela sabia que aquilo que agora considerava «barulho» não passava de um murmúrio.
Felicia foi buscar o ticket para meter no carro e, de braço dado, dirigiram-se ao restaurante.
- Estás com medo?
- Estou apavorada.
- A maior parte das pessoas também o está quase sempre. Não te esqueças disso.
- Essas pessoas não têm nada a esconder.
Dissera-o. Pronto. O problema sempre havia sido esse. Bolas!
Felicia estacou e virou-se para a amiga, sem lhe largar o braço.
- Tu também não tens nada a esconder, Kate. Já sofreste muito no passado. Mas é isso, é o passado. E é o passado de outra pessoa, não o teu. Agora tens um filho, escreveste um livro, e levas uma bela vida no campo. É tudo.
Kate fechou os olhos, sorrindo, e respirou fundo.
- Quem me dera sentir isso, Licia.
- Então obriga-te a senti-lo.
- Sim, senhora.
- Ora, cala-te!
O momento de sobriedade já passara e Kate soltou uma gargalhada, desatando a correr sobre as suas pernas altas e elegantes.
- Vou ganhar-te!
Correram os últimos metros, a rir e a ofegar. O empregado abriu-lhes a porta e, apesar de já serem dez horas, deparou-se-lhes a habitual avalancha de sons e cheiros característica do Vanessi's. Os empregados gritavam junto ao grifi, as pessoas riam-se ao balcão, travavam-se combates políticos, começavam-se romances, tudo à mistura. Era fabuloso. Kate deteve-se e sorriu. Tinha a sensação de que aquele ruído era o de uma orquestra a tocar Bem-vinda a Casa.
- Mesa para duas, Miss Norman?
Felicia assentiu com um sorriso, o empregado observou Kate com uma expressão vaga. Era novo ali. Não a conhecia. Não conhecia Tom. Apenas Felicia. E fosse como fosse, Kate não era ninguém, apenas uma rapariga com calças de ganga e uma camisa vermelha.
Sentaram-se ao fundo da sala, a luz rosada conferindo a toda a gente um aspecto jovem e rosado. O empregado estendeu-lhes as ementas. Kate devolveu logo a sua.
- Canelloni, salada da casa e zabaglione para sobremesa. - Este era uma mistura morna de rum e claras.
Felicia pediu bife, salada e um Martini enquanto Kate olhava para o relógio.
- Tens alguém à tua espera?
- Não. Perguntava a mim mesma se devo telefonar à Tillie.
- Ela já deve estar a dormir.
Kate assentiu, tentando não se sentir culpada. Estava a divertir-se demasiado para isso. O jantar foi tão bom como costumava ser. Depois, caminharam algum tempo pelas ruas estreitas e coloridas de North Beach. Lojas hippies, bancas de artistas, cafés e o cheiro da marijuana no ar. Ali também nada mudara. Depois de percorrerem alguns quarteirões, regressaram ao carro de Felicia. Era apenas meia-noite, mas Kate já começara a bocejar.
- Já pareço a Cinderela.
- Amanhã podes dormir até tarde.
- A que horas sais para o trabalho?
- Não perguntes. Já sabes o que eu penso das manhãs. Kate foi a bocejar até casa, exausta devido às emoções que o regresso a São Francisco a tinha feito sentir. Mal conseguiu manter os olhos abertos no caminho. Quando chegaram ao cimo de Telegraph Hill, Felicia carregou no botão do comando e a porta de uma garagem abriu-se a meio quarteirão de distância.
- Caramba, Licia, que elegante!
- É apenas seguro.
Kate olhou divertida para o prédio. Era ainda mais elegante do que aquele em que Felicia vivera quando Kate saíra da cidade. Era o prédio típico dos solteirões. Caro, bem cuidado, calmo, apartamentos de duas ou três assoalhadas com uma vista extraordinária para o porto e para a baía. Não era um local para crianças, e tinha um ar pouco acolhedor ou cativante. Era apenas caro.
- Não gostas? - perguntou Felicia com um sorriso, enquanto entravam na garagem.
- Claro que gosto! Porque perguntas?
- Por causa da tua expressão. Lembras-te, eu sou o rato da cidade. Tu és o do campo.
- Está bem, está bem, estou demasiado cansada para discutir. Kate sorriu, tentando reprimir um bocejo e pouco depois encontravam-se no elevador, a subir. Felicia destrancou a porta do apartamento ainda no elevador e entraram para um vestíbulo com papel de parede em tons rosa e carpetes beges.
Nas paredes viam-se aquarelas, e aos cantos grandes palmeiras e um espelho antigo. Era tudo de um excelente gosto. E combinava perfeitamente com Felicia.
- Será melhor tirar os sapatos? - perguntou Kate na brincadeira.
- Só se quiseres enfiá-los pelo rabo acima. Bolas, não sou assim tão picuinhas, Kate! Se te apetecer, podes rebolar no chão.
- Gostaria muito. - Só o vestíbulo teria dado um belo quarto.
Porém, Felicia já estava a acender as luzes da sala, decorada com sedas brancas e damascos creme e mesas orientais embutidas. A vista da janela era arrebatadora e a decoração da sala bastante marcante. A sala ao lado era do gênero, com chão de mármore branco e preto, vários castiçais de cristal e um pequeno candelabro. Kate tinha a certeza de que o estilo de Felicia não era tão grandioso havia seis anos. Elegante, mas não tão espetacular. E a toda a volta da casa havia uma varanda cheia de flores. Kate percebeu que eram tratadas por um jardineiro.
- Gostas?
- Estás a brincar? É maravilhosa! Quando é que a vida te começou a correr tão bem?
- Depois da minha última promoção - respondeu ela com um sorriso. Suspirou. - Tenho de fazer alguma coisa ao dinheiro. Como ainda não me deixaste comprar um carro ao Tygue, gastei-o, aqui.
- Estou vendo.
- Obrigada, querida. Vou mostrar-te o quarto. - Estava satisfeita por Kate gostar da casa, embora ela própria começasse a sentir-se um pouco farta de tudo aquilo. Já estava pronta para comprar outra, ainda mais elegante, e a decorá-la de forma diferente.
O quarto de hóspedes condizia com o resto da casa com papel de parede branco e azul. A um canto havia uma pequena lareira com uma prateleira de mármore, viam-se mais plantas, uma porta para a varanda, uma pequena secretária e um sofá de dois lugares de estilo vitoriano.
- Quero que saibas que se calhar nunca mais saio daqui - declarou Kate, rindo-se com a idéia horrível que lhe ocorrera.
- Qual é a piada?
- Estou a imaginar o Tygue nesta casa. Estás a vê-lo coberto de manteiga de amendoim sentado naquele sofá?
- É uma idéia muito agradável - retorquiu Felicia com uma expressão de enfado. Depois encolheu os ombros. Bem, talvez até seja... - E riram ambas.
Kate sentiu imensas saudades de Tygue. Desde que ele nascera, era a primeira noite que passavam afastados. E se precisasse dela? Se tivesse um pesadelo? Se não conseguisse encontrar Willie? Se...
- Kate!
- Hum?
- Já sei no que estás a pensar. Pára com isso. Falas com ele amanhã.
- Amanhã volto para casa, mas entretanto... - Atirou-se para a cama com um sorriso feliz. - Isto é o paraíso. - Bem-vinda a casa.
Felicia foi até ao seu quarto.
- Posso ir ver? - perguntou Kate.
Era branco e tinha um ar frio, semelhante ao da sala. Kate ficou desapontada.
- Se calhar estavas à espera de ver um espelho no teto, não?
- No mínimo.
- Queres beber alguma coisa?
Kate sorriu e abanou a cabeça. Sabia exatamente o que queria e, depois de ter dado as boas-noites a Felicia e de a ouvir fechar a porta do quarto, conseguiu fazê-lo. Foi descalça até à varanda, em camisa de noite, e pôs-se a ver o nevoeiro sobre a baía e os barcos, a ponte e os carros a deslizarem nela. Ficou ali meia hora até começar a tremer de frio e ter de entrar. Porém, quando o fez, ainda sorria.