Tempo para Amar
Capítulo 13 · Kate chegou a casa em menos de…
Kate chegou a casa em menos de cinco horas e sem ser multada por excesso de velocidade. Isso era quase um milagre. Cento e quarenta. Cento e cinqüenta. Porém, quisera ver Tygue antes de ele ir para a cama. Queria falar-lhe de São Francisco e de o levar lá. Dos elétricos e da ponte. Comprara-lhe chocolates em Ghirardelli Square e também iria falar-lhe disso. Tinha tanto que lhe contar. Só de pensar nisso ficou nervosa. Virou para o caminho de acesso à casa. Trazia vestidas a saia vermelha e a blusa estampada. Talvez Licia tivesse razão. Talvez fizesse bem a Tygue vê-Ia assim bonita. Queria partilhar as novidades com ele. A animação.
A casa parecia alegre e bem iluminada quando estacionou. Ninguém veio cumprimentá-la, não ouviu latidos embora soubesse que eles deviam estar confortavelmente instalados. Abriu a porta da rua e lá estava ele, sentado à mesa da cozinha a fazer um quebra-cabeças com Tillie. Tinha vestido o pijama de flanela azul e o pequeno roupão amarelo que Licia lhe mandara havia não sei já quanto tempo. Parecia confortável e bem instalado, e todo seu. Kate ficou imóvel durante um instante, a observá-lo, e Tillie sorriu-lhe; Tygue continuou concentrado no quebra-cabeças.
- Olá, meninos.
Silêncio. Tillie franziu o sobrolho, mas não disse nada. Sabia o que Kate queria ouvir, e não era de si. Mas as palavras não vieram. Nada de «Olá, mamã». Só Bert agitou a cauda, ensonado.
- Olá, borracho. Não me dizes olá? - Aproximou-se do filho, abraçando-o, mas ele ignorou-a.
- Sim. Olá.
O olhar de Kate cruzou-se com o de Tillie. Então era isso. Estava zangado. Kate sentou-se numa das cadeiras da cozinha e ficou a olhar para ele. Tygue ainda não a fitara. Tillie levantou-se e foi buscar as suas coisas. Havia algo em Kate de que ela gostava muito: regressava sempre quando prometia.
Não brincava em serviço. Tinha dito que estava em casa na segunda à noite e cumprira. Tillie apreciava isso. Também sabia que Kate tinha um problema para resolver. Tygue não parecera o mesmo desde que ela partira. «Não dormiu cá, Tillie! Ela não dormiu cá!», dissera a criança, chocada.
- Onde arranjaste esse novo quebra-cabeças?
- Foi a Tillie. Compramo-lo hoje.
- Ótimo. A tia Licia manda beijinhos.
De novo silêncio. Bolas! Aquilo ia levar bastante tempo, a julgar pelo ritmo. Kate perguntou-se se valeria a pena. Porém, ao recordar as últimas vinte e quatro horas, soube que sim. O filho iria ter de perceber.
- Olha, adivinha uma coisa. - Tornou a apertá-lo nos braços e tentou beijar-lhe o pescoço, mas ele pôs-se muito teso e não a deixou chegar-lhe. - Tenho uma surpresa para ti.
- Ai sim? - Nunca se mostrara tão pouco entusiasmado com uma surpresa. - O que é?
- Uma viagem. - Ele fitou-a horrorizado. Mas Kate continuou. - Gostarias de ir um dia destes comigo a São Francisco visitar a tia Licia? - Esperou que o filho inspirasse e arregalasse os olhos, mas as coisas não correram como ela esperava. Tygue afastou-se com os olhos cheios de lágrimas.
- Não vou! Não vou! – Levantou-se da mesa a correr e pouco depois ela ouviu a porta do quarto fechar-se.
Tillie vestiu o casaco, sem tirar os olhos de Kate, e esta respirou fundo.
- Sabia que ia ficar zangado por eu me ter ido embora, mas não estava à espera disto.
- Há-de passar-lhe. É uma grande mudança para ele. Tillie parecia ter pena de ambos, e isso irritou Kate.
- É uma grande mudança eu ter passado uma noite fora?
- Caramba, tinha direito a isso, não tinha? Tinha, não tinha? Sabia que sim. Tygue era apenas uma criança. Não podia esperar ter todo o tempo da mãe. O problema é que sempre tivera. Isso é que era o pior.
- Quantas vezes já dormiu longe dele, Kate? É claro que Tillie já sabia a resposta.
- Nunca.
- Então é uma grande mudança para ele. Há-de habituar-se, se você tencionar continuar a fazê-lo. Creio que ele pressente a mudança. Talvez esteja confundido.
- Oli, bolas, Tillie! Eu também estou. Fiz um bom negócio com um dos meus livros na semana passada. Isso significa que a nossa vida vai ter coisas muito agradáveis, e outras que eu ainda não entendo. Tenho tentado perceber o que sinto a respeito de tudo isto.
- O Tygue não percebe. Sente, mas não percebe. Sabe apenas o que sempre soube. Nunca se afastou muito daqui, não é? E agora a Kate passa uma noite fora de casa e diz-lhe que o vai levar a São Francisco. Nós sabemos que isso é giro. Ele acha apenas que é uma coisa assustadora. E para lhe dizer a verdade, creio que a maior parte dos velhotes da zona acharia o mesmo.
- Eu sei. Também me senti assustada com a idéia durante vários anos. - Fossem quais fossem as razões. - Acho que espero demasiado do Tygue.
- Ele há-de ultrapassar isto. Dê-lhe tempo. Sabe - continuou ela olhando para Kate -, se calhar vê-Ia assim vestida assusta-o um pouco. Talvez pense que está a perdê-la, ou que a senhora está a mudar. Nunca se sabe, com as crianças. Pensam as coisas mais estapafúrdias. Quando o meu marido morreu, o meu filho mais novo pensou que eu iria dá-lo para adoção. Não me pergunte porquê, mas ele pensou que iríamos mandá-lo embora. Chorou durante três semanas até que finalmente desabafou. Talvez o Tygue tenha medo de que a senhora o abandone, vendo-a assim vestida. Mas está muito bonita.
- Obrigada, Tillie.
- Tenha calma. Ali, mais uma coisa. Amanhã vai dar aulas?
- Acho que é melhor esperar alguns dias antes de sair outra vez.
- E agradável eles serem assim tão flexíveis.
- Pois. - «Bolas, Tillie, não me venha também com mais perguntas. Por favor!»
Tillie, porém, não insistiu. Despediu-se e fechou a porta. Kate sentiu-se muito sozinha naquela casa. Só Bert andava por ali querendo brincar com a corrente dourada dos seus sapatos novos.
- Nem pensar, meu menino, isto custou oitenta e seis dólares.
Afastou-o com a mão e apercebeu-se de como a casa parecia vazia ouvindo-se apenas a sua voz. Sentou-se durante um momento e em seguida levantou-se e despiu a saia. Abriu o fecho da mala que trouxera da cidade e tirou de lá as calças de ganga e a camisa vermelha, atirando a saia e a blusa novas para uma cadeira. «Adeus, por agora.» Pôs os sapatos na mala, para evitar que Bert os roesse. Depois aproximou-se descalça do quarto de Tygue e bateu à porta.
- Posso entrar?
Fez-se silêncio, até que finalmente ele respondeu.
- Sim. - Estava sentado às escuras e o seu rostinho brilhante parecia minúsculo no quarto escuro.
- Não queres acender a luz?
- Não.
- Okay. Tens ai o Willie?
- Sim.
- Aposto que isso sabe bem.
- O quê? - perguntou ele numa voz cansada e a medo. -Aposto que sabe bem ter o Willie perto de ti. Sabes que podes contar com ele. Será sempre teu.
- Sim. - O tom de voz dele suavizou-se e Kate sentou-se na cama do filho, tentando ver-lhe o rosto.
- Sabes que me tens a mim, tal como tens o Willie? Só que mais ainda. Tens-me para sempre. Sabes isso?
- Mais ou menos.
- O que queres dizer com mais ou menos? - Não era uma acusação, apenas uma pergunta.
- Quero dizer mais ou menos,
- Está bem. O que acontece se puseres uma fita vermelha no pescoço do Willie? Isso fá-lo parecer diferente?
- Sim. Fá-lo parecer tontinho.
- Mas ficas a gostar menos dele? - Tygue abanou a cabeça com veemência, puxando o ursinho para junto de si. Por isso, embora possas achar que eu pareço uma tontinha por causa das roupas novas, continuo a ser a mamã do costume, não é? - Ele assentiu. - E continuo a gostar muito de ti independentemente do que estiver a fazer ou do meu aspecto, ou de onde me encontrar.
- O Willie não me abandona.
- Eu também não. Também não te abandono. Às vezes, posso viajar, mas nunca te abandonarei, querido. Nunca.
- Mas tu foste-te embora - retorquiu ele com voz trêmula.
- Só por uma noite, e já estou de volta. Tal como prometi. Não é?
Ele assentiu com relutância. -Porque é que foste?
- Porque precisei. E porque quis. Às vezes os adultos têm de ir a certos sítios sem as crianças.
- Nunca tinhas precisado de ir antes?
- Não. Mas desta vez precisei. - Aquele homem mandou-te embora?
Ela percebeu de imediato a quem ele se referia.
- O Stu Weinberg? - Tygue assentiu. - Claro que não. Fui eu quem me quis vir embora. E custou-te assim tanto passar uma noite sozinho?
Ele encolheu os ombros e, de súbito, desatou a chorar e estendeu os braços para ela. Kate ficou perplexa.
- Tive saudades tuas! E pensei que já não gostavas de mim!
- Oli querido... Como é que podes ter pensado uma coisa dessas? Eu gosto muito de ti. E também tive imensas saudades tuas. Só que... tive de ir. Mas hei-de sempre, sempre voltar. E para a próxima, tu vais comigo. - Queria prometer-lhe que não voltaria a afastar-se, mas sabia que estaria a mentir. Como poderia desistir de tudo, agora que voltara a recuperar o que perdera?
Tygue chorou durante quase meia hora. Por fim parou. Olhou para a mãe com um pequeno sorriso.
- Se eu torcesse a minha camisa, podíamos dar um banho ao Willie só com as tuas lágrimas. Sabias?
Soltou uma pequena gargalhada e Kate deu-lhe um beijo e alisou a franja loura do filho.
- Apetece-te um chocolate?
- Agora?
- Claro. - Tinha comprado uma tablete enorme e mandara-a embrulhar em papel dourado. Era do tamanho de um livro de capa dura. Trouxera-lhe também uma caixa de chupa-chupas de chocolate e uma pistola também de chocolate. Era melhor do que na Páscoa ou na Noite das Bruxas. Quando viu a arma de chocolate embrulhada em papel dourado, a sua boca abriu-se e estendeu as mãos.
- Uau!
- Nada mau, pois não, maroto?
- Uau, mamã, é bestial!
- Tu também és. - Sentou-o ao colo enquanto ele mordia a tablete. Tencionava guardar a pistola para a mostrar aos colegas.
- E se alguém a parte?
- Compramos outra quando formos juntos a São Francisco. - Sentiu um certo temor enquanto aguardava a resposta, mas Tygue fitou-a com um enorme sorriso e uma expressão de gula.
- Está bem, deve ser um sítio porreiro.
- Pois é. - Nessa noite, Kate abraçou-o durante muito tempo.