Tempo para Amar
Capítulo 27 · Fechou a porta quando o carro da…
Fechou a porta quando o carro da mãe de um dos colegas de Tygue dobrou a esquina para ir levar as crianças à escola. Um último aceno antes de a pequena cabeça loura que seguia no banco de trás desaparecer de vista e ir à sua vida. Ela iria à dela. Dirigiu-se de mansinho à cozinha para acabar o café. Não queria acordar Nick.
- Estás muito bem vestida para uma terça-feira enevoada - disse ele da mesa, e ela deu um salto.
- Olá, querido, não sabia que já estavas a pé. - Tentou parecer animada quando se inclinou para o beijar. - Queres café? - Ele assentiu. - Ovos?
- Não, obrigado. Eu já os faço quando conseguir abrir os olhos. Vais dar aulas?
Ela assentiu sem desviar os olhos do café.
- O teu horário varia muito. - Havia algo de estranho na voz dele. Uma acusação. Uma desconfiança. Algo que não agradou a Kate. Olhou para Nick, mas não conseguiu perceber o que era. - A semana passada foste na segunda e na quinta, não foi?
- Acho que sim, não sei. - Pôs dois cubos de açúcar na caneca, tal como ele gostava, e começou a lavar a louça. - Anda cá.
O coração de Kate batia com toda a força, e ela tentou pensar em banalidades quando se virou para ele. Não queria que ele percebesse, que soubesse... que soubesse que ela estava a mentir. Fitou Nick, mas os olhos dele não sorriam.
- Porque não me dizes o que vais realmente lá fazer?
- Estás a falar a sério?
- Muito a sério.
O coração de Kate bateu com mais força, e ela parecia não ser capaz de ouvir mais nada.
- Já te disse. Ensino crianças e adultos deficientes.
- Não podes arranjar nada parecido aqui? De certeza que em São Francisco há imensas crianças deficientes que iriam adorar-te. Porquê Carmel? - E porque não a verdade, raios? Porquê?
- Já há anos que lá vou. Isso ele também sabia.
- Até quando eras casada?
- Não. - Fez-se um silêncio estranho e ela fitou-o determinada. - Que diferença faz isso?
- Não sei, Kate. Talvez eu deva fazer-te essa pergunta.
- Que diferença faz isso, bolas? Não te incomodo. Saio às oito e volto às cinco. Por vezes até às quatro e meia. Não és prejudicado em nada.
Estava zangada e cheia de medo. Nunca o vira tão sério. - Ai isso é que sou - retorquiu ele, dirigindo-lhe um olhar que a apavorou. Era um olhar frio e zangado. - Fico sem ti.
- Durante meia dúzia de horas? - Caramba, devia isso a Tom. Nick não tinha o direito de...
- Já alguma vez te viste ao espelho depois de regressares?
- Ela não respondeu. - Pareces um fantasma. Vens atormentada, magoada, cansada e triste. Porque fazes isso a ti própria?
Ela continuou sem responder.
- Deixa estar. Isso não me diz respeito.
Kate saiu da cozinha em silêncio. Sabia que devia ter ido abraçá-lo, beijá-lo. Teria sido mais inteligente; porém, ela não queria ser inteligente. E não queria ser pressionada. Só iria contar-lhe quando estivesse preparada, se é que alguma vez estaria. E nunca iria permitir que ele a impedisse de ir. Aqueles dois dias da semana eram sagrados. Pertenciam a Tom.
- Vemo-nos às cinco - disse ela da porta da rua, de olhos fechados, desejosa de ir ter com Nick, mas com medo de que ele fizesse algo para a impedir de ir ou, pior ainda, para a obrigar a dizer a verdade. Por que diabo tinha ele de acordar cedo? Era tão fácil quando ele estava na cama. Kate hesitou um momento e voltou a falar.
- Amo-te.
Ouviu-o ir da cozinha para a sala de jantar. Nick colocou-se junto à janela, de costas para a baía, e fitou-a durante o que pareceu ser uma eternidade.
- Amas mesmo, Kate?
- Sabes bem que sim. - Aproximou-se dele e abraçou-o. - Querido, amo-te tanto.
Ele abraçou-a também; depois, afastou-se um pouco.
- Então fala-me de Carmel. - Rezava para que ela acedesse. Não sabia durante quanto mais tempo poderia continuar a fingir nada saber.
Kate limitou-se a olhar para ele com uns olhos muito tristes.
- Já falamos de Carmel, Nick.
- Já? Então porque é que não me agrada que lá vás? - O que mais podia ele dizer? Se ao menos ela lhe desse uma oportunidade.
- Não precisas de te preocupar com nada.
- Ai não, Kate? Não ficarias também preocupada se eu fosse todas as semanas a um sítio e não te dissesse mais acerca dele do que aquilo que tu me dizes?
Ela ficou em silêncio durante um momento e depois desviou o olhar.
- Mas eu digo muita coisa. Sabes perfeitamente por que motivo lá vou - disse, tentando acalmá-lo.
Kate não percebeu o que viu no olhar de Nick. Ele queria dizer-lhe que sabia tudo, mas não podia. Tinha de o ouvir dos lábios dela. Quando Kate quisesse contar-lhe.
- Não interessa, esquece. Até logo. - Nick deu meia volta, regressando à cozinha, e Kate ficou sem saber se havia de ir atrás dele. Porém, não podia. Nick queria respostas e ela ainda não estava preparada para lhas dar.
Saiu e dirigiu-se ao carro, mas parecia que tinha correntes a prender-lhe os pés. Deveria ir? Deveria ficar? Dar uma explicação a Nick? Dizer-lhe a verdade? E se ele a abandonasse? E se... Então, enquanto olhava para o carro, obrigou-se a não pensar em mais nada. Devia a viagem a Tom, devia-lhe aquelas visitas, aqueles dias... mas, por causa disso, deveria também perder Nick? Pensar nessa possibilidade fê-la carregar nos travões e meditar. Quereria assim tanto? Teria Felicia razão? Poderia perder Nick se não lhe contasse e ele acabasse por descobrir?
- Merda - murmurou enquanto entrava na estrada. Ainda não podia contar-lhe. Ainda não... mas talvez em breve.