Tempo para Amar
Capítulo 33 · Nick estava à sua espera na porta…
Nick estava à sua espera na porta de desembarque, olhando muito tenso para os rostos que desfilavam à sua frente. Quando a viu, puxou-a para si e abraçou-a com força. Ela retribuiu o abraço e fitou-o.
- Já o encontraram? Ele abanou a cabeça.
- Não, mas hão-de encontrar. Quero arrancar já para Carmel. Acho que os agentes ainda não perceberam que ele está mesmo decidido.
- Contaste-lhes?
- Achei que não era necessário. Havemos de encontrá-lo.
- E se não encontrarmos?
- Ligamos ao FBI ou a quem tiver de ser. Mas vamos encontrá-lo. - Foram buscar a mala dela e dirigiram-se para o carro, calados. Sabia bem estar de novo junto dele, sentir o seu braço nos ombros, estar em casa. Kate suspirou quando entrou no carro. - Estás bem, querida? - perguntou ele com nervosismo.
Kate sorriu.
- Claro.
Nick ia enfiar as chaves na ignição, mas deteve-se a meio do gesto e puxou Kate para si.
- Desculpa ter sido tão parvo, mas amo-te tanto!
- Oli, Nick! - Kate começou de novo a chorar. Parecia que ainda não fizera outra coisa. Tinha passado por tanta coisa. - Errei. E tinhas razão, aquela coisa do estrelato é uma treta. Subiu-me à cabeça. O dinheiro, a agitação, faz tudo tão bem ao ego!
- Também há aspectos agradáveis. Não tens de pôr tudo de lado.
- Neste momento é só o que me apetece fazer.
- Isso é uma estupidez. Se não tivesse sido a tua carreira, não nos tínhamos conhecido. - Endireitou-se, pôs o carro a trabalhar e Kate recostou-se no banco de cabedal. Até o carro tinha um cheiro familiar, como a casa, e estava repleto de coisas deles. Raquetas de tênis, o jornal de domingo que tinham partilhado havia apenas quatro dias. Era tão bom estar de volta. Com ele. Agora só faltava encontrarem Tygue. Falou do seu encontro com o pai enquanto se dirigiam a sul. - Não sei como é que conseguiste conter-te e não esbofeteaste o filho da mãe.
- Não me apeteceu fazê-lo.
- Ele disse ao menos que estava arrependido - Nem por isso. Tentou justificar-se. Achou que seria embaraçoso entrar em contato comigo quando aconteceu aquilo com o Tom. Não sei, querido, acho que ele vive num mundo que nada tem a ver conosco. Agora mudou-se para Nova Iorque.
- Ótimo. Hei-de matá-lo se alguma vez o encontrar.
- Houve um momento de silêncio. Depois Nick teve uma idéia. - Sabes, se calhar devíamos ir pela estrada da costa. Talvez o encontremos.
Kate acendeu outro cigarro e deu um a Nick. Tinha a sensação de que viajavam há uma eternidade, mas só passara uma hora. Oito horas antes, ela estivera a almoçar em Nova Iorque. Naquele momento eram seis da tarde. Encontravam-se na estrada costeira e ainda não haviam visto Tygue. De súbito, Kate puxou a manga de Nick.
- Além... faz marcha atrás, Nick. Acho que vi um casaco amarelo. - A noite aproximava-se mas ela quase que podia jurar que era o casaco do filho. Nick encostou à berma e fez marcha atrás.
- Aqui?
- Além, ao pé daquelas árvores.
Kate abriu a porta e saiu. Correu sobre os ramos e as folhas até às árvores onde julgara ter visto o casaco. E ali estava ele. Parado. A observá-la. Sem saber o que ela iria fazer. Pareceu encolher-se e depois baixou a cabeça. Kate aproximou-se devagar e tomou-o nos braços. Não disse nada, não era preciso. Ele começou a chorar e ela fez-lhe uma festa no cabelo. Agradeceu a Deus por ter saído de Nova Iorque e por Nick se ter lembrado de vir por aquela estrada. Podia ter acontecido uma tragédia. Não se permitira pensar nisso durante a viagem de avião, mas sentira-se em pânico no carro. Agora acabara tudo.
Ouviu Nick aproximar-se. Ele abraçou-os.
- Olá, Tigre. Estás bem? - perguntou baixinho, Tygue assentiu e olhou para Nick.
- Queria ir para Carmel. E há horas que estou à espera que alguém me dê carona.
Coitadinho. Estava cansado, com frio e provavelmente com fome. Quando olhou para a mãe, a expressão de desafio desaparecera, mas a dor ainda estava presente. - Tenho de o ver. Ele é meu pai.
- Eu sei, querido. - Voltou a fazer-lhe uma festa no cabelo e assentiu. Porém, os olhos dele não sorriam. - Vou levar-te a vê-lo. - Nick ficou surpreendido, mas nada disse.
- Vamos lá amanhã.
A criança assentiu. Não gritou de alegria, nem pareceu mais animada. Estavam apenas a fazer uma coisa que tinham de fazer. Tal como Kate, quando apertara a mão do pai em Nova Iorque. Às vezes, saber apenas não bastava.
- O que queres fazer, Kate? Queres voltar cidade ou queres passar a noite em Carmel?
- Não tens de ir gravar o programa? Ele abanou a cabeça.
- Liguei a noite passada a dizer que estava doente. - O Jasper não vai ficar chateado? De certeza que não queres voltar?
Nick voltou a abanar a cabeça. Resolveria o assunto quando voltasse ao estúdio, Aquilo era mais importante.
- Não, mas acho que devíamos telefonar à Polícia. Eles vão continuar as buscas de noite. Ache, que é justo informá-los.
Kate assentiu e olhou para Tygue.
- Okay, Vamos ficar em Carmel.
Nick parou em frente do hotel onde ela tinha ficado com Tom. No entanto, Kate já não se importava. Não podia haver locais sagrados, era demasiado tarde para isso. Tygue estava a dormir nos seus braços. Olhou para Nick; queria dizer-lhe o quanto o amava, mas não sabia como. Ele observou-a e sorriu, embora no seu olhar também houvesse alguma preocupação.
- Vais mesmo levá-lo lá?
Ela assentiu. Tinha de o levar, para bem de todos. - Queres que eu vá?
- Gostaria que estivesses lá, mas acho que ele não te devia ver. Isso iria só confundi-lo, assustá-lo. Já basta o Tygue.
- Gostava que não tivesses de passar por isso.
- Não vai haver problema.
Nick deu-lhe um beijo, saiu do carro, deu a volta e pegou em Tygue. Levou-o ao colo para o hotel, e a criança não voltou a acordar. Informaram a Polícia de que o tinham encontrado e Nick marcou uma reunião com o tenente na segunda-feira seguinte. Queria certificar-se de que Kate não seria incomodada pelas investigações. Aquilo era um assunto de família, embora o fato de terem chamado a Polícia duas vezes fosse causar um certo embaraço. Desejava resolver o assunto antes que este tomasse maiores proporções.
- O que é que os agentes disseram? - perguntou Kate com nervosismo enquanto bebia chá no quarto. Acabara de ir ver Tygue, que continuava a dormir. Dormiria toda a noite e estava demasiado cansado para comer. Passara por multa coisa em pouco tempo, tal como todos eles. Kate disfarçou um bocejo.
- Disseram que estava tudo bem. Não penses mais nisso. Vai mas é dormir.
- Eu estou bem.
- Não pareces. - Estava muito pálida e, à exceção de um pouco de rímel esborratado, não tinha mais pinturas. Nick sentou-se ao lado dela na cama e abraçou-a. - Estou muito contente por te ter de volta, Kate. Tenho andado muito preocupado contigo.
- Pensei que me odiavas quando fui para Nova Iorque. - E odiava - disse ele com um sorriso. - Mas pensei muito. Aquilo que temos é demasiado especial para ser desperdiçado.
E ela que quase deitara tudo a perder com aquele idiota em Nova Iorque. Era terrível perceber que naquele momento podia estar com ele na cama se não tivesse ido para casa. De certa forma, a fuga de Tygue fora uma bênção. Fechou os olhos, aninhada nos braços de Nick. Apenas por um momento. Só lhe apetecia estar ali e senti-lo ao seu lado. Os seus olhos fecharam-se e, quando voltou a abri-los, já era de manhã.
Olhou em volta, atordoada, para o quarto cheio de sol. -Nick? - Ele soltou uma gargalhada do outro lado da cama. Já estava a beber café. - O que aconteceu?
- Adormeceste, Cinderela.
- Deve ter sido divertido - observou ela com um sorriso, espreguiçando-se. Ele tinha-lhe tirado a roupa.
- Sim, muito.
Trocaram um sorriso matreiro e ela estendeu a mão para o café dele.
- Onde é que foste buscar isto?
- Eu e o teu filho já tomamos o pequeno-almoço, querida.
- Quando?
- Há cerca de uma hora.
- Credo! Que horas são?
- Quase nove.
Ela assentiu e ficaram ambos muito sérios. Sabiam o que os esperava.
- Como está o Tygue?
- Bem. Muito calado. E tinha uma fome de lobo. Kate inclinou-se para Nick, deu-lhe um beijo e foi ao outro quarto ver Tygue. Encontrou-o sentado à janela com o ursinho, Aproximou-se e sentou-se,
- Olá, querido. Como é que está o Willie?
- Está bem, mas esta manhã tinha muita fome.
- Ai tinha? - retorquiu ela com um sorriso, abraçando-o. Era tão macio e tão quente. Isso fê-la recordar-se dos anos em que só haviam tido um ao outro. - Estás preparado para hoje? - Ele sabia ao que é que a mãe estava a referir-se. Assentiu, apertando Willie. - Não vai ser divertido. Aliás...
- Obrigou-o a fitá-la. - É capaz de ser a coisa mais difícil que já fizeste. Ele não é como os outros pais, Tygue,
- Eu sei - respondeu Tygue, de olhos muito abertos.
- Parece um rapazinho, mas um rapazinho doente. Não pode andar. Está numa cadeira de rodas e não se lembra das coisas. - Quase teve pena de não ter lá levado o filho mais cedo, quando Tom ainda tinha um aspecto bronzeado e saudável. Agora tinha sempre um ar cansado e triste. Ia ser mais difícil para Tygue. - E quero que saibas... - Hesitou, reprimindo as lágrimas. - Quero que saibas agora que antes de ficar assim ele amava-te muito. Antes de nasceres. - Respirou fundo e abraçou o filho. - E quero que saibas que eu também te amo de todo o coração e que... se estiver a custar muito, não temos de lá ficar, okay? Prometes que me dizes quando quiseres vir-te embora?
Tygue assentiu e limpou as lágrimas da mãe, que o abraçou com força.
- O Nick também vai?
Ela afastou-se um pouco e olhou para ele. - Queres que ele vá?
Tygue assentiu. - Será que pode?
- Não pode ver o T... o pai, mas pode estar presente.
- Está bem. - Olhou para a mãe com uma expressão suplicante. - Podemos ir já?
- Daqui a bocadinho. Vou só beber café e vestir-me. Ele assentiu e deixou-se ficar sentado.
- Eu espero aqui.
- Vou despachar-me.
Nick levantou a cabeça quando ela entrou no quarto. Ia ser mais um dia difícil, mas se calhar era o último. Pelo menos, ele assim esperava.
- O Tygue está bem?
- Sim. E quer que tu vás. E eu também - acrescentou, olhando para Nick com aqueles enormes olhos verdes que ele adorara assim que vira.
- Lá estarei.
- Estás sempre.
- Fico muito sensibilizado. - Deu-lhe uma xícara com café e uma torrada, mas ela não conseguia comer. Até o café a punha mal-disposta. Tinha um nó no estômago do tamanho de um coco. Só conseguia pensar em Tygue e no pai dele.