Tempo para Amar
Capítulo 34 · Nick subiu com o carro o caminho…
Nick subiu com o carro o caminho de acesso e estacionou no local que ela lhe indicou, atrás da casa principal.
- Queres que espere aqui? - perguntou ele com nervosismo.
Tygue estava sentado no colo de Kate, a observar tudo com atenção.
- Podes aproximar-te mais da vivenda. Há mais pessoas. Não vais dar nas vistas.
Saíram do carro. Ela pegou na mão de, Tygue e fez-lhe uma festa na cabeça. Ele continuava agarrado ao urso de pelúcia. Kate telefonara antes a prevenir Mr. Erhard e ele dissera-lhe que Tom se encontrava em boa forma.
O trio silencioso avançou, e Kate apontou para um banco branco de ferro foado.
- Porque não esperas aqui, querido? Assim podes ver a vivenda.
Nick olhou para o banco, Então, fora ali que ela passara todos aqueles anos. Teve de reprimir as lágrimas ao pensar nisso. Olhou para Tygue e fez-lhe uma festa na cara.
- Estás bem, Tigre?
Tygue assentiu. Kate pegou-lhe na mão e avançaram. Mr. Erhard esperava-os à porta e olhou para Tygue com um sorriso meigo. Kate já se esquecera de Nick. Agora encontrava-se no mundo de Tom e apertava com força a mão do filho. Queria que ele soubesse o quanto ela tinha amado o pai, o quanto eles se haviam amado. Queria que ele visse em Tom algo que já lá não estava e, acima de tudo, queria que ele sobrevivesse ao encontro. Pousou um braço nos ombros dele e obrigou-se a sorrir.
- Tygue, este é Mister Erhard. E ele que toma conta do pai já há muito tempo.
- Olá, Tygue. Que urso tão bonito. Como é que ele se chama?
- Willie - respondeu Tygue de olhos muito abertos. -Nós também temos um Willie - retorquiu Mr. Erhard olhando para Kate. - Queres vê-lo?
Tygue assentiu, tentando ver a vivenda por trás de Mr. Erhard. Este desviou-se e Kate entrou. Tom tinha ficado na vivenda, apesar do bom tempo e, quando o viu, ela percebeu que isso já devia acontecer há muito. Tom estava muito pálido e parecia ter perdido dez quilos em duas semanas. Contudo, naquele dia os seus olhos brilhavam e, ao ver Tygue, sorriu como já há muito não sorria. Kate teve de fazer um enorme esforço para não chorar.
- Tu também tens um Willie como eu! - exclamou Tom, levantando o seu urso. Tygue sorriu. - Deixa-me ver o teu. - Estendeu a sua mão grande e Tygue estendeu-lhe o seu urso. Durante alguns minutos compararam-nos, enquanto a criança olhava furtivamente para o pai, e depois decidiram que o de Tygue se encontrava em melhor estado. - Queres bolachas? - Guardara algumas da véspera. Os dois «rapazes» comeram as bolachas e em seguida Tygue sentou-se na cadeira de balouço. - Como é que te chamas?
- Tygue.
- Eu sou o Tom. E aquela é a Katie. - Olhou para Kate com um sorriso que ela retribuiu. - Ela vem visitar-me muitas vezes. É muito simpática. Gosto muito dela. Tu também gostas? - Tygue assentiu em silêncio e Kate quase teve a sensação de que Tom se esforçava por falar como uma criança para pôr Tygue à vontade. Parecia que ele seria capaz de se comportar como um adulto se assim o desejasse. Queres ver o meu barco?
Tygue olhou-o com surpresa e sorria.
- Sim. Nós também temos um barco. - Falaram dos barcos durante algum tempo e Mr. Erhard interveio.
- Querem ir dar um passeio junto ao lago? Podíamos experimentar o barco do Tom. - Pai e filho olharam-no entusiasmados e Kate sorriu enquanto Mr. Erhard empurrava a cadeira de Tom lá para fora. Tygue caminhava ao lado do pai, com um ar orgulhoso. A meia hora seguinte foi bastante divertida. Até o próprio Tom parecia mais animado do que a princípio. Depois Kate apercebeu-se de que ele começava a ficar cansado, e Mr. Erhard sugeriu que voltassem lá para dentro.
Daquela vez, Tom não discutiu, e deu a mão a Tygue enquanto regressavam à vivenda. A criança apertou com força a mão que lhe era estendida. Kate sentiu-se satisfeita por tê-lo levado ali. E quando chegaram à porta da vivenda, Tom inclinou-se e apanhou duas flores cor de laranja. Uma para Kate, outra para o filho. Observou-o com atenção enquanto lhe dava a flor, sem lhe largar a mão.
- Porque é que vieste ver-me?
Kate ficou muito aflita, mas Tygue olhou para ele e não vacilou.
- Porque precisava de te ver.
- Eu também precisava de te ver. Toma conta da Katie. Tygue assentiu muito sério e Kate reparou que os olhos dele se enchiam de lágrimas, tal como os seus. Tom nunca dissera uma coisa daquelas.
- Assim farei.
- E torna também conta do Willie.
Tygue assentiu e, inesperadamente, inclinou-se e beijou Tom. Este sorriu e abraçou-c, com força.
- Gosto muito de ti - declarou Tygue.
- Eu também gosto muito de ti - correspondeu Tom com uma gargalhada inocente, e Tygue riu-se também. Pareciam entender-se às mil maravilhas, como se partilhassem um segredo. Encaravam aquele encontro de uma forma muito ligeira. Eram duas crianças. Tom ainda estava a rir quando Mr. Erhard empurrou a sua cadeira para dentro de casa. - Está na hora da minha sesta?
Mr. Erhard assentiu, olhando para Kate. Já chegava. Era melhor ficarem por ali.
- Está, sim.
- Odeio sestas - comentou ele com uma careta, olhando para Tygue.
- Eu também - redargüiu Tygue, pegando no seu urso. Tom observou-o com uma expressão estranha, mas sem deixar de sorrir.
- Vamos trocar. - O quê?
- Os ursinhos. Eu dou-te o meu, tu dás-me o teu. Queres? O meu Willie está farto de viver aqui.
O rosto de Tygue iluminou-se, como se o pai lhe tivesse oferecido a coisa mais preciosa do mundo.
- Claro - respondeu, estendendo-lhe o urso. Tom foi buscar o seu e deu-o a Tygue.
- Toma conta do Willie.
- Assim farei. - Tygue deu-lhe outro beijo e Tom sorriu.
- Adeus.
A criança olhou para ele durante um longo momento como se estivesse a pensar no que devia dizer, de que forma devia despedir-se, mas limitou-se a sorrir e a dirigir-se à porta.
- Adeus.
Kate aproximou-se de Tom, pousou uma mão no ombro dele e, juntos, olharam para o filho, que lhes sorria da porta com o ursinho na mão. Vira o pai. Ganhara.
Tom olhou para ela com um sorriso cansado. A visita também não fora fácil para si, mas a sua expressão parecia igualmente ser de vitória.
- Adeus, Katie.
A forma como ele disse aquelas palavras Provocou uma grande angústia em Kate, não sendo capaz de dizer adeus. Tygue continuava a observá-los da porta.
- Até breve.
Tom assentiu com um sorriso calmo e feliz. Estava a olhar para a criança. Quando saíram para o sol quente de Outono, Kate continuava a sentir o olhar de Tom pousado neles. Olhou para Tygue e limpou os olhos.
- Estou contente por teres vindo.
- Eu também. - Com um sorriso, ele dirigiu-se ao banco onde tinham deixado Nick. Kate esquecera-se dele. Avançou devagar atrás do filho, tentando recuperar da hora que tinham passado com Tom. - Olá -disse Tygue com um sorriso. - Tenho um ursinho novo.
- A mim parece-me o velho - retorquiu Nick, observando o rosto da criança e vendo apenas uma grande paz e uma grande ternura. A visita não lhe fizera mal.
- E o ursinho dele. Ele deu-mo.
- Ele também tem um ursinho? - perguntou Nick e Tygue assentiu. - Que bom. - Olhou para Kate, que ainda tinha na mão as flores que Tom lhe dera. - Como é que estás?
- Bem. Acho que me esqueci de que estavas aqui respondeu ela com um sorriso cansado, mas também de alívio.
- Eu sei. Mas ainda bem que estou.
- Ainda bem. Nick... - Baixou os olhos para o chão, depois olhou para ele. - Podíamos ir passar uns dias à minha cidade.
- Estás com saudades do campo, querida? - perguntou ele enquanto regressavam ao carro.
Achava que não.
- Não. Não sei. Tenho é de lá ir passar uns dias num sítio qualquer. - Apetece-me...
Apetecia-lhe afastar-se da casa, do livro e de tudo o que tinha acontecido. Não sabia como dizê-lo. -Podes meter férias?
- Acho que sim. Temos é de parar para comprar roupa. Estes diazinhos vão fazer-nos bem.
- Pois vão.
- Muito bem. - Pôs um braço nos ombros dela e outro nos de Tygue. Kate sentia-se em paz quando saíram de Mead. Não queria deixar Tom, mas chegara a altura de o fazer.
CAPÍTULO 35
Foi uma boa idéia terem regressado por alguns dias à casa de Kate. Assim puderam assimilar tranqüilamente os acontecimentos dos últimos dias. Nick e Kate precisavam de estar juntos e de estar com Tygue. A criança sentia-se de novo bem, em paz. Durante o primeiro dia, manteve-se um bocado calado, sentado lá fora com o ursinho que Tom lhe dera. Mas a sua expressão não era triste, apenas pensativa.
No segundo dia, Kate foi sentar-se lá fora ao sol ao lado do filho. Nick estava em casa a fazer qualquer coisa.
- Se calhar devia ter-lhe falado do meu cavalo - disse Tygue.
- Ele nunca gostou muito de cavalos. - Kate olhava para as colinas e recordou o passado. Durante um momento, quase se esqueceu do filho.
Este fitou-a com ar incrédulo.
- Não gostava de cavalos? - perguntou, chocado. A mãe olhou para ele e sorriu; ele estava com melhor cara. Parecia repousado e feliz, como dantes, muito diferente da criança abandonada que tinham encontrado sob as árvores na estrada para Carmel. - Como é que isso é possível?
- Ele adorava futebol. Não pensava em mais nada. - Isso é porque ele era uma vedeta.
Kate sorriu ao ouvir o orgulho na voz do filho. - Pois era.
- Tu és uma vedeta, mãe? Ela fitou-o com um sorriso.
- Não. Escrevi um livro que foi comprado por muitas pessoas, mas isso não faz de mim uma vedeta. Ninguém sabe quem eu sou. - Deitou-se e esticou as pernas compridas que há muito haviam passado modelos. - Mas toda a gente sabia quem era o teu pai. Onde quer que ele fosse, as pessoas pediam-lhe autógrafos, queriam tocar nele, as mulheres queriam beijá-lo.
Tygue deu uma gargalhada. - E ele deixava?
- Quando estava comigo, não.
- Deve ser giro ter as pessoas a gostarem tanto de nós. As vezes. Outras é bastante difícil. As pessoas esperam demasiado de nós. Não nos deixam em paz. Não nos deixam ser nós próprias.
- Eu não gostaria disso - declarou Tygue, pegando numa folha e estudando-a.
- Ele também não gostou. Foi isso que o fez ficar doente. Todas aquelas pessoas a pressioná-lo. E ele só queria jogar futebol durante o resto da vida.
- E não podia?
Kate abanou a cabeça.
- Não, querido. Só se pode jogar futebol profissional durante alguns anos. Depois temos de nos retirar.
- O que é isso?
- Deixar de jogar.
- Para sempre?
- Sim.
- Isso é horrível! - exclamou Tygue, atirando fora a folha e olhando para a mãe.
- Foi isso que o teu pai achou. Não queria fazer mais nada, e eles obrigaram-no a ir-se embora. Depois houve muita gente a chateá-lo, como os jornalistas, por exemplo. - Era a melhor explicação que podia dar-lhe.
- E depois ele ficou maluco, não foi?
- Mais ou menos.
- Ele não se lembra de que jogou futebol?
- Não. Acho que agora só se lembra de onde está, de Mister Erhard e de mim. E a partir de agora vai lembrar-se também de ti. - Sorriu ao filho de lágrimas nos olhos e ouviu Nick sair de casa. Trazia um cobertor e duas maçãs. Deu uma a cada um e olhou-os com ternura. - Obrigada, querido.
- Não querem sentar-se em cima disto?
- Não - respondeu Tygue olhando para o cobertor com desdém; depois, recordou-se das palavras do pai... - Queres sentar-te nele, mãe?
- Pode ser. - Ela também se recordara das palavras: «Toma conta da Katie»...
Estenderam os três o cobertor aos quadrados, sentaram-se e comeram as maçãs. Kate e Nick partilharam uma, e Tygue atacou a sua com gosto. Eram maçãs do campo, apanhadas havia pouco. Tinham-nas comprado na véspera, no mercado.
- Queres ir ao rancho dos Adams mais logo ver que cavalos novos é que lá há? - perguntou Nick.
Tygue ia já junto ao caroço da maçã. Abanou a cabeça.
- Não. Há cavalos melhores no parque.
- Em São Francisco? - perguntou Nick, admirado, e Tygue assentiu com insistência. Kate sorriu. Tinham-se ambos já desabituado daquele lugar. E pensar que havia quatro meses ele nunca tinha sequer saído dali! Recordou a primeira viagem dele a São Francisco em junho... e a sua no mês anterior...
- No que estás a pensar, Cinderela? - perguntou Nick, estendendo-lhe a maçã.
Ela deu uma dentada e devolveu-lha.
- Estava a pensar na primavera que passou. Na altura, nenhum de nós tinha saído daqui. E de repente começou tudo a acontecer.
- É assim.
- E tu, o que estavas a fazer na passada Primavera? perguntou Kate com um sorriso curioso.
- Não tens nada a ver com isso - respondeu Nick com um sorriso, acabando a maçã.
- Era assim tão mau?
- Vai-te lixar - murmurou ele baixinho, fazendo-lhe uma festa no pescoço. Já não se preocupavam tanto que Tygue os visse. A criança habituara-se. - Queres ir visitar o Joey? - perguntou a Tygue.
Ele abanou a cabeça. Já se despedira do amigo. Agora tinha amigos novos. Uma vida nova.
Passaram juntos uma tarde tranqüila, tal como na véspera. compraram bifes e Nick grelhou-os quase ao pôr do Sol. A noite viram televisão e fizeram pipocas na lareira, tal como haviam feito nas primeiras vezes em que Nick os fora visitar. E, tal como nos velhos tempos, esperaram que Tygue se fosse deitar e correram para o quarto, a rir, famintos um do outro, ansiosos por fazer amor.
- Caramba! Estamos muito ansiosos esta noite! - brincou ele enquanto Kate lhe beijava o interior das coxas e lhe puxava os shorts.
- Tu também não vieste a arrastar os pés, meu menino - disse ela, sentando-se no chão em cuecas e soutien. Parecia mais nova e mais livre desde que tinham ido visitar Tom.
- Kate, estás contente com o fato de termos ido visitá-lo, não estás?
Ela assentiu,
- Sinto-me aliviada. Já não preciso de esconder mais segredos de ti nem do Tygue. Agora sabe-se tudo. Sinto-me de novo livre.
- E ele? - Ainda no tinham falado do assunto, e Nick queria saber mais algumas coisas,
- O que queres dizer, Nick? Ele ajoelhou-se ao lado dela.
- Quero dizer, o que vai agora acontecer ao Tom? Não podes deixar de o ir visitar ao fim de todos estes anos, percebo isso, mas... bem, as visitas exigem muito de ti.
- Acho que não vão exigir. Já não carrego sozinha o peso. Sempre que lá for posso dividi-lo contigo e com o Tygue. Posso dizer-te o que sinto, como é, o que está a acontecer-lhe. - Hesitou, baixou a cabeça e olhou para a aliança que tinha no dedo. Então, com cuidado, tirou-a e apertou-a na palma da mão. -Acabou tudo, Nick. Vou deixar de lá ir com tanta freqüência. Nem sei se ele irá dar por isso. Talvez a princípio dê, mas a noção que ele tem do tempo é bastante vaga. Acho que se lá aparecer de duas em duas semanas será o suficiente. O que te parece? - perguntou, fitando-o, mas não parecendo triste.
- Acho que és uma mulher extraordinária e que nunca te amei tanto. Faças o que fizeres, decidas o que decidires, eu aceito.
- E só isso que preciso de saber. Mas isto quer dizer que não podemos casar enquanto ele for vivo. Não... não seria capaz de lhe fazer uma coisa dessas. Sei que ele nem iria aperceber-se de que nos tínhamos divorciado, mas não me sentiria bem comigo própria.
- Não precisamos do papel passado, Kate, temo-nos um ao outro. E quando chegar o momento, casamos. Entretanto... - sorriu - Kate acabara de lhe dar o único presente que queria dela: a promessa do casamento. Dirigiu-lhe um olhar travesso. - Entretanto, deixa-me dizer que não fazia idéia de que pensavas em casar-te. Pensei que tencionavas continuar independente.
- E porque não? - Olhou para ele um pouco envergonhada, e depois com uma expressão desafiadora. -Não posso permitir que tomes todas as decisões por mim, mesmo que um dia casemos. Fiz isso com o Tom, e dei-me mal.
- Compreendo. Acho que tem estado tudo normal. - Concordo. E não é só nisso que tens estado bem.
- Ai não? - perguntou ele, travesso.
- Não, tarado, estou a referir-me ao Tygue - esclareceu ela com uma gargalhada. Cativaste-o completamente. Acho que ele já não tem ciúmes de ti.
- Creio que o fato de ter visto o pai ainda vai melhorar mais as coisas.
- Provavelmente. Mas fizeste um ótimo trabalho, querido. Acho que a princípio nenhum de nós foi muito fácil.
- Meu Deus, uma confissão. Depressa, um gravador!
- Oli, cala-te! exclamou Kate, brincando com os pelos do peito dele. A propósito, vou fechar a casa.
- Que casa? - A vida com Kate era uma surpresa constante. julgou que ela ia fechar a casa de São Francisco e que iriam todos viver para outro lado.
- Esta, tonto. Já não preciso dela.
- Queres dizer que vais desistir dela? Do refúgio onde podias vir esconder-te de mim?
- Não é assim que eu a vejo - retorquiu, tentando parecer ofendida, mas em vão. - Como é que soubeste?
- Não sou tão estúpido como julgas.
- Não julgo nada disso.
- Ótimo. Então diz-me realmente porque é que vais fechar a casa e explica-me o que é isso de «fechar». Queres desistir completamente dela?
- Completamente. Não, precisamos dela. Nunca cá vimos nem tencionamos vir. E uma parte da minha vida que acabou. - Ficou muito séria, abriu a mão e olhou para a aliança que tirara do dedo ainda há pouco. - Acabou. Pronto.
Sem uma palavra, pousou a aliança na mesa e foi para os braços de Nick. Nunca se sentira tão livre com ele como naquela noite. Parecia que algo dentro dela se libertara e entregou-se-lhe como nunca se lhe entregara antes, o seu corpo contorcendo-se devido ao êxtase.
De manhã, tomaram o pequeno-almoço sozinhos; em seguida, foram acordar Tygue e disseram-lhe que ele iria partir naquela manhã com Nick.
- Sem ti, mãe?
Kate esperava alguns protestos e ficou surpreendida ao ver a expressão deliciada do filho.
- Não fiques tão triste, patife! - Sentiu um grande alívio. Parecia que aquela família ficara mais unida nos últimos dias.
- Quanto tempo vamos ficar sozinhos? - perguntou Tygue, radiante.
- O tempo que eu levar a arrumar as coisas que aqui estão. A propósito, meu menino, quero que esta manhã dês uma olhadela aos teus brinquedos e jogos e que vejas quais queres dar e quais queres levar para São Francisco.
Já não havia muita coisa no roupeiro e nos armários dele, só o suficiente para mantê-lo ocupado durante algumas horas. Arregaçaram as mangas e começaram a arrumar as coisas, mas ao fim da tarde Kate já se encontrava sozinha. Depois do almoço, Nick e Tygue tinham partido para São Francisco. Kate ficou admirada por se sentir tão bem ali sozinha. Fartou-se de pensar enquanto arrumava as coisas que ela e Nick tinham ido buscar ao supermercado antes do almoço.
Ele tivera razão, ela iria mesmo desistir de algo ao sair daquela casa; porém, ia desistir de uma coisa que já não desejava, uma saída de emergência, um esconderijo, um local onde podia esconder-se de Nick. Gostara de saber que tivera isso, mas já não precisava dele. Se desejasse afastar-se de Nick, ou expressar a sua independência, poderia fazê-lo com palavras, ou indo dar um passeio, ou indo passar o fim-de-semana sozinha a qualquer lado, mas não regressando à casa onde vivera durante sete anos, a chorar o passado. Ali não havia nada para chorar. E se viesse a sentir medo, aborrecimento ou perturbação, haveria de resolver a situação - sem ter de fugir. Era agradável saber isso.
Demorou três dias a embalar os seus pertences. Deu muita coisa, escreveu o nome de Tillie em algumas caixas e deixou-as na garagem. Ficou com um pequeno lote de coisas que mandaria para São Francisco de camionete. Não sobrou mais nada. Enviou uma carta ao senhorio, a informá-lo de que se ia embora, e perguntou a si mesma se não estaria já na altura de ele se reformar e ir viver para ali. Talvez um daqueles dias o homem acabasse por usar a casa. Fora uma casa boa para Kate. Mantivera a salvo o seu segredo durante vários anos. Lembrou-se do quanto se sentira feliz quando para ali fora viver. Feliz por escapar ao inferno, feliz ao deitar-se na relva durante a Primavera, sentindo Tygue crescer dentro de si, e feliz quando ele nascera e o levara para ali. Parou no quarto e recordou-se de ter olhado para as mesmas colinas, havia muitos anos, com Tygue nos braços. Então, com ar solene, deu meia volta e saiu de casa.