Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 3 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 3 · A viagem de regresso a casa pareceu…

A viagem de regresso a casa pareceu mais longa do que habitualmente. Não conseguia esquecer a imagem de Tom com o urso de pelúcia e as coisas que ele dissera. Obrigou-se, por fim, a esquecer a visita e ligou o rádio. Tinha dores nas pernas e só lhe apetecia chegar a casa. Fora um dia bastante longo e tinha aquela sensação de exaustão que costumava dominá-la nos últimos tempos, como se não tivesse forças para dar mais um passo. Talvez Mr. Erhard tivesse razão. Talvez ela pudesse não ir visitar Tom nas semanas seguintes. O nascimento do bebê estava previsto para dali a três semanas. Kate não queria sequer permitir-se pensar nisso. Nem no bebê, nem em Tom. Só conseguia pensar na cama e em despir a roupa que parecia lutar com o seu corpo. Quando estacionou junto à casa, teve a sensação de que tinham passado mil anos. Estava tão cansada que nem viu o Alfa Romeo vermelho ali parado. Saiu do carro, deteve-se junto dele durante algum tempo a esfregar a barriga das pernas e em seguida avançou devagar e a custo até à porta.

- Não parece que estejas em grande forma. - Era a voz grave e cínica de Felicia Norman, e Kate deu um salto. - Ei, menina, tem calma. Sou uma miserável parteira,

Kate olhou então para cima e soltou uma gargalhada.

- Pregaste-me um grande susto, Licia.

- Admira-me que ainda tenhas energia para te assustares.

O que julgas que andas a fazer? - Tirou o cesto das mãos da amiga e avançaram as duas Para a casa.

- Isso não interessa. Eu é que pergunto: o que estás tu a fazer aqui tão cedo?

- Decidi que precisava de umas férias e que a ti te fazia bem um hóspede.

- Férias?

- Bem, de um fim-de-semana prolongado. Meti quatro dias.

Felicia estava satisfeita por ter vindo. Kate parecia exausta, e, se era assim que ficava quando ia ver Tom, talvez fosse melhor lá não ir durante uns tempos, ou pelo menos conduzir até lá.

- Já te apercebeste de que é um milagre ainda não teres sido despedida por minha causa? - perguntou Kate, embora esboçasse um sorriso. Sabia-lhe bem ver a amiga.

- Têm mas é muita sorte por eu não me ter despedido. Se continuarmos assim durante mais um mês, tenho um esgotamento. - E a assistente dela também. Para poder estar com Kate, Felicia encarregara-a dos desfiles da semana. Isso iria custar-lhe outra mala Gucci, e um almoço no Trader Vic's, mas tivera um pressentimento.... e metera-se no carro para ver Kate. Pousou o cesto do piquenique em cima do balcão da cozinha e olhou em volta. Era de fato uma casa agradável. Kate fizera uma ótima escolha. - Então, como estava o Tom?

- Bem. Feliz. Nada de novo.

Felicia assentiu com ar solene e sentou-se numa cadeira. Kate imitou-a.

- Sabes uma coisa, Licia? Estás com pior aspecto do que eu. E a tua viagem também foi mais comprida. Queres o resto da limonada?

Felicia fez uma careta.

- Querida, gosto muito de ti, mas limonada não é comigo. Credo, que idéia horrível!

Kate fitou-a com um sorriso de desculpas. -Não tenho mais nada para te oferecer.

- Uma ova é que não tens. - Felicia fez um ar travesso e avançou para o armário. - A semana passada deixei aqui vermute e gim. E trouxe cebolas e azeitonas. - Tirou os frascos da mala com um sorriso.

- Davas uma ótima escuteira.

- Dava, não dava? - Tirou as garrafas do armário e preparou um Martini de aspecto bastante profissional enquanto Kate se endireitava na cadeira. - Estás outra vez com azia?

- Felicia conhecia aquela expressão no rosto da amiga. Estava com ela vezes suficientes para conhecer todas as suas expressões melhor até do que a própria Kate. Tudo, desde a azia à histeria. E aquilo parecia ser azia.

- Acho que comi muitas cerejas ao almoço. Parece mais indigestão do que azia. - E dores. Caramba, era só o que lhe faltava, uma dor de barriga. Pobre bebê, como podia ela ter-lhe feito aquilo? Soltou uma gargalhada. - Talvez precise é de um Martini.

Porém, ambas sabiam que ela não estava a falar a sério. Já não bebia álcool há meses.

- Porque não vais deitar-te? Eu vou tornar uma ducha e depois preparo o jantar. - Felicia tinha um ar prático e parecia estar em casa.

- Vieste até aqui para cozinhar?

- Sim. Agora tira essa roupa e vai-te deitar. -Sim, mãe.

Sentiu-se melhor depois de se ter despido. E ainda melhor depois de ter tomado uma ducha. Ouviu Felicia na cozinha e deteve-se no futuro quarto do bebê. Ali estava. Willie.

O mesmo urso que Tom tinha. Perguntou a si mesma como estaria naquele momento o Willie dele, se Tom o teria ao colo, se brincava com ele, ou se já o teria esquecido. Tocou no urso e depois saiu do quarto.

- O que estás a fazer?

- Gostas de espaguete? - Era uma das três coisas que Felicia sabia fazer. As outras duas eram ovos estrelados e bife. Kate assentiu.

- Gosto. Vou engordar mais dois quilos, mas nesta altura já não me ralo.

Comeram à luz da vela, admirando a vista, e Kate gostou de ter alguém com quem falar. Estava a ficar demasiado habituada ao silêncio e a ver apenas Tom. Precisava de Felicia para acrescentar um pouco de cor à sua vida. Felicia animava-a sempre. Naquele momento, contava-lhe os mexericos da semana na loja- quem ia para a cama com quem, quem fora promovido, quem fora despedido e quem acabara por se revelar homossexual. Porém, Kate não a ouvia com a atenção do costume, nem se ria tanto.

- O que se passa, querida? Não estás com boa cara. E por causa do meu espaguete?

- Não. Acho que são outra vez aquelas malditas cerejas.

- Atacara-a o mesmo mal-estar que sentira antes de jantar, só que ainda pior.

- Cerejas uma ova. Estás mas é exausta. Porque não te deitas no sofá? Ou será que queres ir para a cama?

- Não estou muito cansada. - Aliás, sentia-se inquieta, tal como se sentira depois de ter visto Tom. Porém, acabou por se deitar no sofá e começou de novo a brincar com Felicia. - Talvez seja mesmo o teu maldito espaguete.

- Vai-te lixar, menina! Eu faço o melhor espaguete da costa oeste.

- Mamã Felicia.

Felicia preparou outro Martini e as duas mulheres conversaram e riram. Mas a indigestão piorou em vez de melhorar.

- Afinal, talvez me vá deitar.

- Okay. Até já. - Felicia sorriu enquanto Kate ia para o quarto. Os pratos já tinham sido lavados. Kate quisera dizer que se sentia feliz pelo fato de a amiga ali estar, mas já lho dissera tantas vezes que não sabia como ser original.

Kate adormeceu antes das nove horas, e Felicia instalou-se no sofá com um livro. Não se sentia cansada, embora houvesse tido uma péssima semana no trabalho. Sabia-lhe bem estar ali sentada, descontraída, longe da cidade. A leitura do livro prendeu-a e era já quase uma da manhã quando ouviu Kate mexer-se no quarto. Prestou atenção durante um minuto, para se certificar, e depois viu luz debaixo da porta.

- Estás bem? - perguntou Felicia de sobrolho franzido. Kate respondeu-lhe logo.

- Sim.

Porém, não soava nada bem.

- Continuas com aquela dor de barriga?

- Hum, hum.

Pouco depois, Kate abriu a porta do quarto e ficou ali parada, envergando o roupão comprido cor-de-rosa e branco. Parecia uma criança estranhamente inchada e sorria, com os olhos muito abertos.

- Acho que não é dor de barriga. Acho que talvez... seja o bebê. - Kate quase soltou uma gargalhada. Sentia-se radiante. Era de loucos... No entanto, parecia demasiado cedo, embora sentisse uma grande excitação. O bebê! Ia nascer finalmente!

- Queres dizer que ele está a nascer? - perguntou Felicia muito pálida.

Kate assentiu.

- Talvez. Não tenho a certeza.

- Não é demasiado cedo?

Kate tornou a assentir, mas não parecia muito preocupada.

- Acho que aos oito meses já não há problema. Já estou quase de oito meses e meio.

- Telefonou ao médico?

Kate assentiu com ar solene, com uma expressão de vitória. Ia ter o bebê. Talvez naquela noite. Não tinha de esperar mais tempo. Acabara-se! Era o começo!

- Ele disse para lhe ligar daqui a uma hora, ou antes, se as dores ficarem muito fortes.

- Estás com dores? - inquiriu Felicia, apertando o livro no regaço e olhando para a amiga.

- Acho que sim. Pensei que era uma indigestão, mas as dores estão a aumentar e, de vez em quando...- Sentou-se, como se estivesse farta de falar, e pegou na mão de Felicia. Toca aqui que vais sentir.

Sem pensar, Felicia deixou que Kate pousasse a sua mão na barriga inchada. Sentiu a sua dureza. Nem sequer parecia uma barriga. Parecia antes uma parede, um chão, algo que podia partir-se.

- Meu Deus, é horrível.

- Dói?

Kate abanou a cabeça, animada, mas na sua testa tinham surgido já algumas gotas de suor.

- Não, não dói. Só está muito, muito dura.

- Precisas de alguma coisa, querida?

As mãos de Felicia tremiam, e Kate soltou uma gargalhada.

- Não, e se desmaias agora, dou-te uma surra. Ainda bem que estás aqui.

- Também acho - retorquiu Felicia, embora parecesse muito pouco convencida.

Kate soltou outra gargalhada.

- Descontrai-te.

- Pois. - Felicia respirou fundo e encostou-se ao sofá. Sou capaz de lidar com qualquer crise. Mas os bebês nunca foram a minha especialidade. Nunca fui a nenhum, quero dizer... Oli, raios! Preciso de uma bebida.

A imperturbável Felicia Norman estava de novo em polvorosa, ao passo que Kate parecia estranhamente calma. Fora por aquilo que esperara quase nove meses.

- Não precisas de bebida nenhuma, Licia. Eu é que preciso de ti.

Felicia olhou para Kate e achou que a amiga parecia não precisar de ninguém.

- Está falando sério?

- Sim. - A sua voz estava de novo tensa e Felicia observou-a. Agora já sabia o que era.

- Outra contração?

Kate assentiu, com uma expressão vaga, como se estivesse a pensar noutra coisa, e Felicia pegou-lhe na mão. Kate apertou a sua. As contrações começavam a ser muito fortes.