Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 2 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 2 · A mudança da carrinha azul-escura entrou facilmente…

A mudança da carrinha azul-escura entrou facilmente e Kate saiu da estrada de gravilha. O pequeno Mercedes que Tom lhe oferecera já fora vendido. Kate não precisava dele. Aquele carro era agora o mais indicado para a sua nova vida. As colinas desapareciam no horizonte; ainda se encontravam cobertas de verde embora o Verão estivesse a chegar ao fim. Nalguns locais já havia zonas castanhas, mas chovera o suficiente para amenizar o calor. O cenário exibia um ar majestoso que a fez ficar sem fôlego; montanhas atrás e colinas à frente, cobertas de flores silvestres e zonas com árvores. Avistou algum gado à distância. Era o gênero de paisagem que os livros descreviam, e seria o local indicado para criar uma criança. O seu filho ficaria mais forte ali, sentir-se-ia livre, brincaria com os filhos do rancheiros e dos fazendeiros. Seria saudável e ativo, não cruel como os pais de Kate, ou perturbado como Tom. Correria descalço no Prado junto da casa e sentar-se-ia com os pés no riacho. Kate tencionava fazer-lhe um balouço, comprar-lhe alguns animais, talvez até um cavalo. Fora isso que Tom quisera para o filho. E se fosse uma menina, teria a mesma vida. Quando fosse mais velha, poderia ir para a cidade, embora Kate não tencionasse sair dali. Deixá-los esquecer. Nunca mais iriam tocar-lhe. Nem a imprensa, nem os pais, nem ninguém. A sua casa era agora ali. Criara um refúgio, escolhera o seu papel. Era a viúva Harper. Parecia uma expressão tirada de um velho filme de cowboys e fez Kate soltar uma gargalhada ao ligar o rádio e pegar num cigarro. Estava uma bela manhã de Verão e ela sentia-se surpreendentemente bem. A gravidez não estava a ser tão difícil. como julgara; por outro lado, havia muitas coisas em que pensar, decisões a tomar, coisas a resolver. Quem tinha tempo de preocupar-se com azias, com cãibras nas pernas e com dores? Porém, Kate quase não padecia dessas coisas. Talvez isso se devesse à vida fácil que levava agora no campo. E era de fato fácil, excluindo as longas viagens para visitar Tom. E aquilo que sentia depois.

O rádio emitia baladas alternadas com música rock e o apresentador fazia alguns comentários e dava algumas notícias. Era Verão. Todos estavam de férias, a viajar, na praia. Era difícil recordar essa vida naquele momento. A vida de Kate era visitar Tom, depois regressar a casa e escrever. Às vezes ia ao quarto do bebê e sentava-se na cadeira de balouço, perguntando a si mesma como seria tê-lo nos braços. Seria estranho, ou iria ela amá-lo instantaneamente? Era difícil imaginar-se mãe, mesmo com o bebê no ventre. Percebia isso, mas ver a criança seria diferente... tal como pegar nela... Seria o bebê parecido com Tom? Desejava que sim. Se fosse rapaz, chamar-lhe-ia Tygue, se fosse rapariga seria Blaire. Queria um nome fora do comum. Um nome bonito, especial. Tom teria... respirou fundo, apagou o cigarro e levantou o volume do rádio. Já estava farta dos seus pensamentos. Abriu a janela do carro e deixou que o vento da manhã brincasse com o seu cabelo. Naquele dia não lhe apetecera fazer tranças. Tom gostara sempre de a ver de cabelo solto. O macaco de ganga já estava muito apertado, mas ele não reparava nisso. As costuras pareciam prestes a rebentar, tal como a sua pele. Porém, já não podia alargar mais a roupa. Deu uma ligeira palmada na barriga e carregou no acelerador. O bebê mexeu-se de novo; parecia que tinha um cachorrinho no regaço. Sorriu. Seguia a cento e quarenta. Queria que a viagem passasse depressa. Queria ver Tom.

Depois de mais duas horas e meia na estrada, sabia que o desvio devia estar próximo. Já conhecia as tabuletas. Veria um cartaz verde a anunciar um restaurante dali a quinze quilômetros. Uma casa branca com portadas azuis. Um pequeno motel de aspecto triste e logo a seguir o desvio. Passou para a faixa da direita e abrandou. Nervosa, desligou o rádio, acendeu outro cigarro e no primeiro cruzamento esperou que os carros passassem. Dali a vinte e cinco quilômetros estaria em Carmel. Aquela zona era mais rústica, porém mais bonita. Estava ainda longe da costa, mas já via as gaivotas, sempre em busca de alimento.

Kate tomou a carregar no acelerador e virou na primeira estrada estreita à direita. Chegou a outro caminho, mais semelhante a uma vereda, ladeada de arbustos e pequenas árvores. De vez em quando via bagas maduras e apeteceu-lhe sair do carro para apanhar algumas; fizera isso em criança. Mas naquele momento não tinha tempo para isso. Olhou para o relógio. Já eram nove e meia. Tom devia estar cá fora, ou talvez deitado na cama de rede, a pensar. Fazia isso muitas vezes. Kate perguntava a si mesma o que pensaria ele. Ele nunca lhe dizia. Limitava-se a rir quando lho perguntava, e por vezes parecia de novo o antigo Tom, como se ainda tivesse coisas em que pensar. Era estranho vê-lo assim, quase como que a provocá-la, como se a qualquer momento fosse acabar com aquele jogo. Isso fazia com que Kate o amasse ainda mais; os olhos dele brilhavam e o seu rosto tinha uma expressão de felicidade. Tom era um belo rapaz.

O edifício principal assemelhava-se a uma casa normal bem cuidada. Estava pintado de branco com um friso amarelo, tinha floreiras em quase todas as janelas e flores bonitas na orla do relvado. Um carreiro sinuoso conduzia até à porta que ostentava uma pequena placa de metal, cuidadosamente gravada. Mead Home. Apenas duas palavras. Não precisavam de dizer mais; quem ali vinha sabia onde estava. Ali perto existiam outras casas mais pequenas, todas pintadas de branco e amarelo, e, um pouco mais afastado, um conjunto de pequenas vivendas, rodeadas de flores. As vivendas eram as instalações mais exclusivas. Algumas alojavam dois ocupantes, outras apenas um. E cada vivenda tinha um enfermeiro. Tom vivia numa dessas vivendas com um enfermeiro de idade - Mister Erhard, que desaparecia discretamente sempre que Kate lá ia. Como membro da equipe de futebol, Tom possuía um bom seguro, que dava para pagar a sua permanência em Mead, e daria ainda durante os dez ou doze anos seguintes. Depois disso, Kate teria de procurar outro lugar, mas nessa altura... quem sabe... os médicos diziam que ele ainda podia viver muitos anos.

Trazia sandálias e sentiu a relva úmida nos pés quando se aproximou da vivenda de Tom. Já não precisava de ir primeiro à casa principal. Os doentes eram bem vigiados, mas Kate já era conhecida. Das janelas, onde havia sempre alguém atento, viam-na chegar e podia entrar e sair conforme lhe apetecesse. Kate foi logo à procura de Tom. Era fácil encontrá-lo. Porém, naquele dia, quando chegou à vivenda, ele não se encontrava lá.

- Tom? - Ninguém lhe abriu a porta. - Mister Erhard? - O enfermeiro parecia também não estar ali.

Com cuidado, Kate abriu a porta e olhou em volta. A sala estava arrumada e limpa, tal como o resto da vivenda. Esta era uma das razões por que quisera que Tom ficasse em Mead Home. Fora ver várias outras casas de saúde perto de São Francisco, e tinha-as achado sombrias, cheias de desespero. Mead tinha uma aura de esperança. Era um local intocado pelo tempo, tal como Tom. Era seguro, isolado. E parecia mais uma escola do que uma casa de saúde; Kate estava sempre à espera de ouvir crianças a cantar, ou de as ver correr para ir jogar basebol.

- Tom? - Perguntou a si mesma para onde teria ele ido, e sentou-se numa cadeira para recuperar o fôlego. Naquele dia, sentiu-se ofegante, mais do que o costume. O bebê estava cada vez maior, e ela conduzira três horas sem parar, contrariando as ordens do médico. Porém, uma paragem roubava-lhe demasiado tempo. Achava sempre que podia esticar as pernas quando chegasse a Mead. Espreguiçou-se, saboreando a confortável cadeira de balouço. Tinha almofadas com flores vermelhas e as colchas das duas camas eram feitas do mesmo tecido. As cortinas eram brancas e na mesa junto à janela encontrava-se uma jarra com flores amarelas. Sabia que fora Tom quem as apanhara. Alguns dos seus quadros encontravam-se pendurados na parede, e as mãos dele ainda tinham a maturidade que o seu cérebro já não tinha. Havia aquarelas delicadas de flores e de pássaros. Nunca se apercebera de que ele sabia pintar até o levar para Mead. Tom nunca pintara nada. Só jogava futebol. Agora, já nem se lembrava de que jogara. Esquecera o passado. Era como se tivesse sido necessário regressar à infância para se ver livre dele. Porém, conseguira.

Aquela vivenda era perfeita para qualquer pessoa, doente ou saudável, adulto ou criança, e Kate gostava de saber que ele se sentia feliz ali. E podia deslocar-se facilmente na cadeira de rodas. Lá fora encontrava-se uma cama de rede onde Mr. Erhard ajudava Tom a deitar-se quando queria descansar e olhar para os pássaros. Às vezes até o deixava ficar ali deitado à noite durante algum tempo, envolto em cobertores, a observar as estrelas. Mr. Erhard era bom para Tom. Fora seu admirador durante muitos anos e ficara contente com o fato de o terem incumbido de olhar por ele.

Kate ouviu barulho lá fora e levantou-se. Em seguida ouviu a voz de barítono de Mr. Erhard a contar uma história a Tom. Houve uma pausa, quando o enfermeiro deve ter-se apercebido de que a porta estava aberta. Kate ouviu os seus passos no carreiro de pedra e segundos depois viu a cabeleira branca do enfermeiro junto à porta.

- Sim? - perguntou muito sério com ar de quem não tolerava disparates nem intrusões. Mas a sua expressão suavizou-se assim que viu Kate. - Ora viva! Como é que se sente?

- Bem. Muito inchada. - Riram-se ambos. - Como está o nosso amigo?

Mr. Erhard assentiu com uma expressão satisfeita. - Muito bem. Ontem fartou-se de desenhar e esta manhã fomos apanhar flores. Ele conta-lhe tudo...

- Ei! Andy! - Era a voz de Tom vinda lá de fora. A cadeira ficara presa na relva. - Ei!

- Já vou, filho. - Erhard saiu da vivenda, seguido de perto por Kate. O sorriso estampado no seu rosto era uma loucura. Por que motivo ainda se sentiria ela assim? Parecia estar prestes a ver o velho Tom... Invadia-a sempre a mesma excitação, o mesmo prazer em olhar para ele, em tocar-lhe, em abraçá-lo, em saber que ele estava bem e que era seu.

- Katie! - exclamou Tom muito feliz quando a viu aproximar-se. Os seus olhos brilharam e esboçou um enorme sorriso quando estendeu os braços para ela.

- Olá, querido. Como estas hoje?

- Ótimo! Espera só para veres o que encontramos! Os olhos sábios de Mr. Erhard expressavam a sua alegria quando empurrou a cadeira de Tom para a vivenda. Já desaparecera quando Kate se virou.

- Os teus desenhos novos são muito bonitos, querido declarou Kate, embora não estivesse a olhar para os desenhos, mas sim para ele. Tom estava bronzeado e tinha um ar forte e feliz. Era o Tom Sawyer de Mead Home. Aproximou a cadeira de rodas de Kate e ela inclinou-se, tomando-o nos braços. Foi um abraço terno. Era só isso que ele percebia agora, porém com aquele abraço Kate disselhe que ainda o amava,

- Estás muito bonita, Katie - afirmou ele com um ar atrapalhado quando se afastou e aproximou a cadeira da mesa. Pegou na jarra com as flores amarelas e voltou para junto dela. - Apanhei-as para ti.

As lágrimas surgiram nos olhos de Kate quando lhe sorriu e pegou na jarra. Eram lágrimas de alegria, não de dor.

- São muito bonitas. - Apetecia-lhe voltar a abraçá-lo, mas sabia que tinha de esperar. Ele não iria sentir-se bem se ela exagerasse. Quando lhe apetecesse, tornaria a mostrar o seu afeto. - Queres ir dar um passeio?

- Pode ser.

Kate largou a mala e empurrou a cadeira. Estava mais pesada do que esperara, ou talvez ela se sentisse excepcionalmente cansada. Naquele dia, o bebê parecia pesar muito. Tom ajudou-a e chegaram ao carreiro. Ele dirigiu as rodas com as mãos e encontraram logo uma zona macia.

- Queres ir sentar-te junto ao lago? - Ele olhou para trás e assentiu alegremente, começando em seguida a assobiar.

O lago era pequeno mas bonito, tal como tudo em Mead.

Kate trouxera-lhe um barco à vela em miniatura e ele ia ali muitas vezes. Mr. Erhard dizia que aquilo era uma das coisas que ele mais gostava de fazer. No entanto, haviam deixado o barco na vivenda. Devagar, Kate virou a cadeira e sentou-se na relva.

- Então o que fizeste durante a semana? -Porque não vieste visitar-me esta semana? - Porque estive demasiado ocupada a engordar. - Ainda sentia o desejo tolo de falar com ele sobre aquilo, como se conseguisse avivar-lhe a memória, como se ele fosse capaz de perceber que o bebê era seu, ou até que na barriga dela havia um bebê.

- Aposto que mal consegues correr - proferiu ele, reprimindo, a custo, uma gargalhada. Kate riu-se. Agarrou na mão dele e o som do seu riso espalhou-se sobre a água.

É verdade. Pareço uma galinha gorda a bambolear-se. Ele riu-se e continuou a agarrar na mão dela.

Passado algum tempo ficou sério.

- Porque não posso ir para casa contigo, Katie? Sou capaz de dirigir a cadeira de rodas sozinho. Ou podíamos levar conosco Mister Erhard. Hum?

Outra vez aquela conversa. Caramba!

Kate abanou a cabeça, mas continuou a segurar na enorme mão de Tom.

- Não gostas de viver aqui, Tom?

- Quero ir para casa contigo.

Parecia tão suplicante que ela teve de reprimir as lágrimas. Não podia falar daquilo com ele. Não de novo. Ele não entendia. Fazia-a sentir-se como se o tivesse abandonado.

- Neste momento isso não é fácil. Porque não deixamos as coisas ficarem como estão durante algum tempo e falamos no assunto mais tarde?

- Também não vais deixar. Prometo que me porto bem. - Já tinha lágrimas nos olhos e Kate pôs-se de joelhos, abraçando-o.

- Tu és bom e eu amo-te. E prometo, querido, que se for possível, um dia levo-te para casa. - Houve um silêncio longo e triste enquanto ambos estavam mergulhados nos seus pensamentos, tão distantes um do outro e contudo tão próximos. - E entretanto hei-de visitar-te e havemos de jogar e Mister Erhard há-de tomar conta de ti e... - Kate reprimiu as lágrimas e não foi capaz de continuar.

Tom, porém, já perdera o fio à meada.

- Okay. Oli, olha! - Muito excitado, apontou para cima e Kate deitou-se para olhar para o céu, limpando as lágrimas dos olhos. - Não é bonito? Mister Erhard disseme ontem como é que se chamava, mas já me esqueci.

Era uma ave azul e verde com cauda amarela e asas brilhantes,

Kate sorriu a Tom e voltou a sentar-se.

- Trouxe-te um piquenique. O que achas? - A sério?

Ela levantou a mão. - A sério. Prometo.

Era divertido fazer coisas para ele, mesmo que fosse apenas um almoço. Trouxera sanduíches de salame, batatas fritas, salada de macarrão, pêssegos e uma cesta de cerejas. juntara também um termo com limonada e umas fatias de bolo de chocolate. Ele agora até comia como uma criança.

- O que é que trazes? - Os seus olhos brilhavam de novo. Já se esquecera de que queria ir para casa com Kate. Por enquanto.

- Hás-de ver quando tiveres fome - disse ela, brandindo um dedo na sua direção. Tom agarrou-o. Era um jogo que jogavam desde que se tinham conhecido. Kate podia fingir, por um momento, por um instante, que tudo continuava como dantes.

- Tenho fome.

- Não tens nada. Só queres ver o que está no cesto do piquenique. - Estava deitada na relva, sentindo-se uma baleia, e sorriu.

- Tenho fome, a sério! Voltaram ambos a rir.

- Como é que podes ter fome? São dez e meia da manhã.

- Mister Erhard não me deu pequeno-almoço. - No entanto, o riso bailava nos olhos de Tom e ele não foi capaz de manter-se sério.

- Tretas. Queres enganar-me.

- Vá lá, Katie. Estou a morrer de fome.

- És de todo - retorquiu ela. Mas acabou por se sentar e pensou em ir buscar o cesto. Se ele tinha fome, porque não? - A propósito, trouxe um presente.

- Trouxe? O quê?

- Já vai ver.

- Oli, és tão má! - exclamou ele com a ira de uma criança, impaciente por ver o piquenique e o presente. E com outro sorriso, Kate levantou-se e inclinou-se para lhe beijar a ponta do nariz. - Não faças isso! - pediu ele, afastando-a devagar.

- Porque não?

- Porque és má, ora! - Porém, pôs um braço à volta da cintura dela e ficaram assim por uns momentos, ele na cadeira e ela de pé ao lado. Daquela vez, foi Kate quem se afastou primeiro.

- Vou buscar as coisas. - Sentia-se cansada e ainda tinha o dia inteiro pela frente.

- Queres ajuda?

- Está bem. Podes trazer o cesto do piquenique.

Ele fez avançar a cadeira até ao carro e Kate caminhou devagar ao lado dele, saboreando o sol. Tom contou-lhe o que andara a fazer, falou-lhe dos desenhos, de um jogo novo que ela lhe trouxera na semana anterior, de uma enfermeira de que não gostava, e do «melhor jantar que já comi», enquanto Kate o escutava como se tudo aquilo fosse verdade, como se tivesse importância.

Quando chegaram ao carro, pousou o cesto com cuidado no regaço dele e pegou num embrulho vermelho às riscas brancas com um grande laço.

- Para ti, meu querido.

Fechou a porta do carro e empurrou a cadeira até ao carreiro.

- Despacha-te!

- Há algum problema? - perguntou Kate. Precisaria de Mr. Erhard. Tom era demasiado pesado para ela o ajudar a ir à casa de banho.

- Não, tonta, quero abrir o meu presente! - Segurava-a junto ao peito, e já enfiara uma mão no cesto do piquenique para tirar uma mancheia de cerejas e um bocadinho de bolo. - Tira a mão daí, Tom Harper, se não...

- Não vais fazer nada, Katie, pois gostas demasiado de mim.

- Tens razão. - Sorriram, e Kate parou a cadeira sob uma árvore junto à vivenda. A relva estava fresca e brilhante. Dali a pouco Tom iria fartar-se de estar lá fora.

- Posso abri-la agora? - Esperou a aprovação de Kate e, quando ela assentiu, rasgou rapidamente o papel de embrulho. Era um presente idiota, mas ela não fora capaz de resistir a comprá-lo. E comprara uma igual para o quarto do bebê.

- Oli, gosto muito! Como é que ele se chama? - Tom segurava nas mãos um grande urso castanho e apertava-o junto ao peito.

Kate ficou admirada e radiante com a alegria dele. - Não sei. Diz-me tu. Eu acho que ele tem cara de George.

- Sim. Talvez... - hesitou Tom, olhando para o urso com ar pensativo.

- Lucius? - sugeriu Kate com um sorriso. Ainda bem que comprara aquilo. Não fazia mal que fosse um presente idiota. O que importava isso, desde que ele ficasse contente?

- Lucius, não! E um nome horrível. Já sei! Willie!

- Willie?

- Willie! - Estendeu os braços para Kate, e ela abraçou-o, dando-lhe um beijo na testa. - Obrigado, Katie, ele é muito bonito.

- É parecido contigo.

Ele bateu-lhe com o urso e soltaram ambos uma gargalhada.

- Queres sentar-te na tua cama de rede? Posso pedir a Mister Erhard que venha cá.

- Não, estou bem assim. - Tom já enfiara os braços no cesto do piquenique; comeu durante meia hora, com Willie sentado no regaço.

Descansaram depois do almoço, e Kate quase adormeceu na relva. O ar estava agradavelmente quente. Uma ligeira brisa agitava-lhe um pouco o cabelo e o bebê acalmara finalmente. Passaram o cesto das cerejas um ao outro e atiraram os caroços às árvores, rindo muito.

- Um dia há-de haver aqui um cerejal e ninguém saberá porquê.

- Nós saberemos, não é, Katie?

- É.

A voz de Tom era tão meiga, quase suplicante, que Kate pensou que ele devia saber. Mas de que servia ele saber? Era por isso que ela se impedia sempre de o fazer recordar-se. Se Tom voltasse a ser o que fora, teria de ser julgado por agressão ou tentativa de homicídio, ou o que quer que decidissem chamar-lhe. Estava melhor em Mead Home, naquele estado, do que numa prisão diferente. Porém, também não havia possibilidade de o fazer recuperar. O médico já explicara isso a Kate várias vezes, mas a tentação não desaparecia. As vezes, por um instante, parecia-se tanto com o que fora antigamente, com o velho Tom, que era difícil acreditar que a bala destruíra tudo aquilo que os médicos tinham dito. Fora difícil perder a esperança, deixar de tentar.

- Katie?

- Hum? - Katie olhou para ele com um pé de cerejas na mão; tinha-se esquecido delas.

- No que é que estás a pensar?

- Oli, em nada de especial. Estou com uma grande preguiça.

- Ficas muito bonita quando pensas. - Depois o olhar de Tom desviou-se delicadamente para a barriga de Kate. Tinha pena que ela estivesse gorda, embora não se importasse muito com isso. Amava-a mesmo assim.

- Obrigada, Tom. - Encheu-lhe um copo com limonada e voltou a deitar-se na relva. Uma árvore alta ocultava-a do sol e o ar tinha a habitual calma de uma tarde de Verão. A única coisa que faltava era o ranger de uma porta de rede à distância, e depois o barulho da porta a bater quando uma criança entrasse para ir buscar um copo com água. - Isto aqui é bonito, não é?

Tom assentiu com ar feliz e atirou outro caroço de cereja para junto da vivenda.

- Preciso de uma fisga. - Ai isso é que não.

- Não é para magoar ninguém - explicou ele com ar ofendido -, é só para coisas como caroços. Ou então clipes. Sabes... para atirar às árvores. - Esboçava de novo aquele sorriso travesso.

- Onde é que aprendeste essas coisas? Já não se usam fisgas há muitos anos.

- Vi na televisão.

- Bestial.

- Talvez eu possa fazer uma.

Contudo, Kate já não o ouvia. O bebê dera-lhe um pontapé forte nas costelas. Ela inspirou, soltando o ar devagar, e perguntou a si mesma se estaria na altura de regressar. Ainda tinha uma viagem longa pela frente e já eram quase duas da tarde. Estava ali há quatro horas, Não era muito tempo, mas era só o que conseguia agüentar. Viu Tom a fazer pontaria com outro caroço de cereja. Ainda tinha migalhas do bolo de chocolate na cara. Kate sentou-se e limpou-lhas, depois olhou na direção da vivenda. Vira Mr. Erhard entrar havia quase uma hora.

- Vou lá dentro um bocadinho, querido. Queres alguma coisa?

Ele abanou a cabeça com ar satisfeito.

- Não.

Mr. Erhard estava à sua espera, a ler o jornal e a fumar cachimbo. Era um passatempo invernal para um dia tão quente e soalheiro.

- Vai já embora?

- Acho que é melhor.

- Admira-me que o seu médico ainda a deixe fazer estas viagens. - Esboçou um sorriso paternal. - Ou será que não lhe pede autorização?

- Bom, digamos que fechamos ambos os olhos. - Ouça, podia ficar algumas semanas sem cá vir. Eu mantenho o Tom entretido. Ele pode queixar-se quando a vir, mas não reparará na sua ausência.

Era triste verificar que Mr. Erhard tinha razão.

- Não sei. Vamos ver como me sinto na próxima semana.

- Está bem.

Kate foi à casa de banho, depois voltou lá para fora e Mr. Erhard seguiu-a, aproximando-se de Tom e acenando com o cachimbo.

- Com que então és tu quem tem andado a bombardear a casa com caroços de cereja toda a manhã! -exclamou ele num tom alegre, e Tom sorriu, feliz. - Aposto que não és capaz de acertar naquela árvore. -Porem, enganou-se. Tom acertou-lhe em cheio.

- É melhor ter cuidado, Mister Erhard, pois ele quer uma fisga.

- Lembra-se? Como aquela do filme do outro dia? Aquele em que o rapaz... - A história era longa, mas Mister Erhard alinhou com Tom, e Kate observou-os durante algum tempo. Detestava ter de abandonar Tom. Detestava sempre.

Devia sentir-se aliviada, mas tal não acontecia. O seu único alívio consistia em ir vê-lo, e deixá-lo ainda lhe despedaçava o coração.

- Bem, querido, vou andando, mas volto depressa. - Está bem, Katie, adeus. - Acenou-lhe; a conversa da manhã já há muito que estava esquecida. Aquele lugar era para ele um lar. Nem sequer pestanejou quando ela lhe disse que se ia embora.

Kate inclinou-se para o beijar no rosto e apertar-lhe o ombro.

- Toma conta do Willie, querido. - Afastou-se, acenando e sorrindo, com um grande peso no coração ao vê-lo na cadeira agarrado ao urso de pelúcia. Continuou a vê-lo quando fez marcha atrás para sair do estacionamento. Abriu a janela para acenar pela última vez, mas Tom já estava embrenhado numa conversa com Mr. Erhard.

- Adeus, Tom. Amo-te - murmurou Kate quando se afastou.