Tempo para Amar
Capítulo 8 · - Por que motivo dize que isto…
- Por que motivo dize que isto para ti faz sentido?
Tinham-se passado três dias desde que recebera a notícia e naquele momento encontrava-se ao telefone com Felicia pela enésima vez.
- Kate, por amor de Deus, estás a falar de ganhar uma fortuna. Ele não vai enviar os contratos pelo correio. Quer explicar pessoalmente. - Felicia tentava acalmá-la, mas em vão. Estava demasiado animada para parecer outra coisa que não animada e insistente.
- Mas porquê aí? Durante estes anos tratamos de tudo pelo telefone. E... Oli, merda, Licia! Nunca deveria ter escrito este maldito livro. - Parecia aflita.
- Está maluca?
- E se alguém descobre? E se volta a repetir-se aquilo que deu comigo em doida há seis anos? Fazes idéia do que é ser-se constantemente perseguida pelos jornalistas? Eles viviam à minha porta, seguiam-me até ao carro e quase me deitavam das escadas abaixo! Por que raio achas que vim para aqui?
- Eu sei isso tudo, Kate. Mas essas coisas aconteceram há muito tempo. Já não interessam a ninguém.
- Como é que sabes? Como é que alguém pode saber? Talvez aqueles malucos queiram recordar tudo. E se descobrirem onde está o Tom? Que conseqüências teria isso para o Tygue? Pensa um pouco, Licia! -Empalideceu ante a perspectiva; no seu gabinete de São Francisco, Felicia abanava a cabeça, impassível.
- Devias ter pensado nisso quando escreveste o livro. A verdade é que o livro é muito bom e que é um romance, Kate. Ninguém vai saber que é verdade. Queres descontrair-te, por favor? Estás para aí toda nervosa para nada.
- Não vou falar com o Weinberg. -Estás a ser parva, caramba!
Porém Kate já desligara e marcava apressada o número da agência em Los Angeles. Talvez ele ainda não tivesse saído.
Dissera que chegaria por volta das três. Ainda não era meio-dia. No entanto, a secretária informou-a de que ele já saíra havia cerca de uma hora.
- Raios!
- Desculpe?
- Nada.
Voltou a ligar para Licia. Esta parecia aborrecida.
- É melhor dominares-te, Kate. Estás a ficar descontrolada. Eu dissete que isto ia acontecer quando li o livro. - Julguei que disseste aquilo só por dizer. E quem é que fica conhecido só com um livro, hein? Quem é que vende um paperback e os direitos de adaptação ao cinema? Caramba, conheço escritores que nunca saem das prateleiras de trás.
- E estás a lamentar-te por não seres um deles? - perguntou Felicia exasperada.
Kate voltou a suspirar.
- Não, não estou a lamentar-me. Só que não sei o que fazer, Licia. Tenho visto poucas pessoas nos últimos seis anos e agora este tipo vem de Los Angeles para discutir comigo centenas de dólares. Estou tão apavorada que nem consigo ver nada.
- Vá lá, querida, vais conseguir lidar com isto. - A sua voz adquiriu um tom mais ameno quando pensou na amiga.
- Es uma profissional. Uma excelente escritora, uma mulher bonita, tens vinte e nove anos e estás à beira do êxito. Caramba, podias encontrar-te com o tipo com um casaco de serapilheira e uma mochila que não terias problemas.
- E não tenho mesmo mais nada para vestir.
- A culpa é tua. Já há muito que não queres que eu te mande roupa.
- Eu não visto nada dessas coisas. E seja como for, o problema não é a roupa. O problema é o que vou dizer... o que vou fazer... ele quer falar de publicidade. Credo, Licia, não vou ser capaz! - Estava à beira das lágrimas e fumava cigarro atrás de cigarro.
- O que disse ele exatamente acerca da publicidade? perguntou Felicia intrigada.
- Nada de concreto. Referiu apenas a possibilidade de ter de a fazer. Mas não explicou.
- Pois não deve ter explicado! - A gargalhada grave e rouca de Felicia chegou aos ouvidos de Kate. -Já pensaste que ele não sabe se tens três cabeças ou duas, ou se levas rolos e tênis de camurça cor-de-rosa quando vais à missa?
- Isso quer dizer que ainda disponho de duas horas e meia para arranjar rolos e tênis cor-de-rosa. Espera, tive uma idéia! - Agora Kate também já se ria. - Vou pedir à Tillie que se faça passar por mim.
Felicia soltou uma gargalhada.
-Não. Tens de enfrentar o problema. Fala com o tipo. Afinal de contas, ele é o teu agente. Não vai lançar-te aos leões e não pode obrigar-te a fazer nada.
- O que hei-de dizer-lhe? - Há mais de seis anos e meio que não estava sozinha com um homem.
- Ele não vai violar-te, Kate. A menos que tenhas muita sorte.
- És bestial. Bolas, como é que fui meter-me nisto?
- Por causa da tua grande boca, da tua inteligência e da tua máquina de escrever. Mas é uma excelente combinação.
Kate suspirou e Felicia abanou a cabeça com um sorriso.
O terremoto estava apenas no início. E as réplicas poderiam ser sentidas durante meses, ou até mesmo anos.
- Bem, é melhor desligar e ir à procura de alguma coisa para vestir.
- Pois é. Kate? - O quê?
- Sobe o fecho das calças.
- Oh, cala-te!
Sorria quando desligou, mas as palmas das suas mãos estavam alagadas em suor. E se ele se atirasse a ela? Se fosse um tipo chato? Se... Sentou-se lá fora ao sol durante meia hora, tentando acalmar-se e pensar. No livro, em Tom, em Felicia, em Tygue. Por que motivo o teria escrito? Porque tivera de ser. Porque a história estava a consumi-Ia e ela precisara de a deitar cá para fora, e deitara. Porque tivera de ser. Era um excelente livro, e Kate sabia-o. Porém, não esperava aquilo. Quisera que o livro vendesse, mas não esperava que isso afetasse a sua vida. E agora? Assim que abrisse a porta à publicidade, a sua vida recatada chegaria ao fim, e todos os seus esforços para proteger Tygue seriam em vão. No entanto, já era demasiado tarde, e ela tinha plena consciência disso.
Acabara de se vestir quando Stu Weinberg tocou à campainha. Kate respirou fundo, apagou o cigarro, olhou em volta, para a sala, e dirigiu-se à porta. Envergava calças e uma camisola pretas e uns sapatos caros italianos que tinham sobrevivido aos anos. Quando abriu a porta parecia muito alta, muito magra e muito séria.
- Kate Harper? - Ele mostrava-se um pouco inseguro e muito diferente daquilo que ela imaginara. Era mais ou menos da sua altura e tinha cabelo ruivo. Vestia umas Levis e uma camisola de caxemira bege. Mas os sapatos eram Gucci, a pasta Vuitton, o relógio Cartier e o blazer pendurado no braço um Bill Blass clássico. Todos os adereços necessários em Los Angeles. Todavia, possuía uma cara de miúdo cheia de sardas. Kate sorriu e teve vontade de rir ao pensar que fora naquele homem que confiara a sua carreira nos últimos seis anos. Se o tivesse visto, talvez tivesse feito o mesmo. Stu parecia ter vinte e dois anos. Kate sabia que ele tinha quarenta e um, a mesma idade de Felicia.
- Stu? - perguntou ela com um sorriso.
- Já sei, já sei, quer ver a minha carta de condução e quer rasgar imediatamente o seu contrato. Certo?
- Nem por isso. Entre. - Conduziu-o para a sala, perguntando a si mesma se a casa pareceria desarrumada, ou apenas confortável. Viu que ele a observava e que depois olhava em volta. Parecia intrigado. - Quer um café?
Ele assentiu e pousou o casaco e a pasta numa cadeira. Depois olhou pela janela.
- Tem aqui uma bela vista.
Kate não se mexeu durante um minuto, admirada por se sentir tão calma. Aquele homem não era o inimigo. Era um homem inofensivo que queria ajudá-la a ganhar dinheiro. E parecia ser boa pessoa.
- Pois tenho. E ainda bem que percorreu estes quilômetros todos para vir visitar-me.
- Também acho.
Serviu-lhe um café e sentaram-se ambos.
- Kate, posso fazer-lhe uma pergunta maluca?
O sorriso dele fez com que Kate o apreciasse ainda mais. Parecia um dos amigos de Tygue, não um agente literário.
- Claro, qual é a pergunta maluca?
- O que diabo faz num sítio destes?
- Você já respondeu a essa pergunta quando olhou pela janela. E um sítio bonito, calmo. Ideal para educar um filho.
- Tretas.
Ela riu com a frontalidade dele e bebeu um gole de café. -Não é nada.
- Diga-me outra coisa. Teria ido a Los Angeles se eu não tivesse vindo cá? - Kate abanou a cabeça com um pequeno sorriso. - Foi o que pensei. Porquê?
- Porque sou uma eremita e gosto de o ser. Quando perdi o meu marido, deixei... deixei de ir a outros lugares.
- Porquê?
- Aqui tenho muito que fazer.
Estava a aproximar-se da verdade. De súbito, Kate voltou a sentir medo.
- O que é que faz? - Os seus olhos eram rápidos, o seu olhar intenso e inquiridor, mas não cruel.
- Escrevo, sou mãe. Dou aulas. Tenho muito que fazer, mais nada.
E tem muito medo. Deus do Céu, como tinha medo. Mas de quê? Stu não conseguia perceber. Seria dos homens? Das pessoas? Da vida? De alguma coisa era. Não podia dizer ao certo de quê, mas via-o nos olhos dela.
- Não parece corresponder a esse papel. Já passou modelos ou foi atriz?
- Não. - Ela abanou a cabeça com ar nervoso, sorrindo enquanto acendia outro cigarro. Raios, ela escondia qualquer coisa. E Stu sabia que ela estava mentindo. A forma como se sentava, se mexia, falava, tudo indicava algo diferente. Boa educação. Treino. Passagens de modelos? Talvez tivesse sido hospedeira. Decerto, não vivera toda a vida naquele fim de mundo. Ele reparara nos sapatos que Kate trazia. Sapatos de oitenta dólares. Na Merdaleja, Estados Unidos. No entanto, fosse ela quem fosse, iria encantar os editores se ele conseguisse tirá-la da concha. Fora por isso que decidira lá ir, para descobrir quão vendável ela era. E já tinha a resposta. Kate era bastante vendável. Se colaborasse. Sorriu-lhe com ternura e bebeu o café, pensando que ela pareceria muito bem na televisão.
- Quantos filhos tem?
- Nove - respondeu ela, tornando a rir com nervosismo. - Não, só tenho um, mas ele é bastante irrequieto.
- Como é que se chama?
- Tygue.
- E o que pensa ele de a mãe ser um grande êxito?
- Acho que ainda não percebeu isso. Por acaso... acrescentou com um suspiro, permitindo-se descontrair durante um segundo. - Eu também não.
- Por enquanto, não tem de se preocupar com isso, Kate. Aliás, não precisa de se preocupar com isso de todo. Nós trataremos de tudo. O que tem de fazer agora é olhar para os contratos e passar o próximo mês a comemorar. Pode mudar as cortinas, comprar uma bola nova para o seu filho, um osso para o cão...- Olhou em volta com um ar inocente e Kate riu-se. Stu percebera: ela gostava da vida simples. No entanto, também percebia que ele se recusava a levá-la a sério.
- O que vai acontecer quando o livro for publicado?
- Durante cerca de duas semanas, nada. - Stu tentava empatá-la.
- E depois?
- Depois você vai aparecer em público com o livro e responder a algumas entrevistas. Nada de muito exagerado. - E se eu não quiser?
- As vendas do livro ressentir-se-ão. É tão simples como isso. Está estatisticamente provado. -Parecia muito sério.
- O contrato diz que eu sou obrigada a fazer isso? Ele abanou a cabeça com ar pesaroso.
- Não. Ninguém pode obrigá-la a fazer nada. Mas cometeria um grande erro se não o fizesse, Kate. Se tivesse dentes podres, um grande nariz e olhos tortos eu diria que o mais aconselhável seria não aparecer, mas dadas as circunstâncias...
- Fitou-a com um sorriso. - Bom... a sua aparição podia ajudar.
E quando a viu tornar a atravessar a sala, teve a certeza de que ela já fora modelo, apesar de o negar. O que o intrigava mais era o escudo impenetrável que a rodeava. Nunca o pressentira ao telefone. Agora perguntava a si mesmo por que motivo não tivera curiosidade em conhecê-la. No entanto, tinha de confessar que não esperara que ela viesse a ser um êxito até ler o seu último livro. A última Época. Não julgara que ela fosse capaz de escrever um livro daqueles.
- Podemos falar da publicidade mais tarde. Porque não examinamos primeiro alguns aspectos que eles querem ver no contrato?
- Está bem. Mais café?
- Obrigada.
Nas duas horas que levaram a analisar os contratos, Stu bebeu cinco canecas. E Kate percebeu por que motivo gostava que ele fosse o seu agente. Era tal e qual como ao telefone. Explicou-lhe todas as implicações, todas as obrigações, perigos, lucros, todas as linhas, todas as palavras, todas as nuances. Fez um excelente trabalho.
- Caramba, você podia ser advogado.
- E fui. Durante um ano. - Aquele miúdo sardento fora advogado? Quando? Kate sorriu perante a idéia. - Detestei. Isto é muito mais o meu gênero.
- O meu também - acrescentou Kate, voltando a pensar nos trezentos e cinqüenta mil dólares.
- Já está a ficar apanhada, Kate. Não permita que isso lhe dê a volta à cabeça.
- Nem pensar, Stu, nem pensar - retorquiu segura de si com um sorriso amargo. - Isto é só para as cortinas novas e para o osso do cão.
- Ainda bem. Mas se me aparecer à porta da agência num novo Rolls Royce daqui a cerca de três meses... o que é que eu ganho por ter tido razão?
- Um pontapé no traseiro?
- Veremos - disse ele com um sorriso.
Kate ouviu o carro da mãe de um dos colegas de Tygue parar lá fora. Já eram quase cinco e um quarto. Tinham trabalhado bastante.
- Quer ficar para jantar?
Jantar: rolo de carne, macarrão com queijo, cenouras e gelatina. A idéia fê-la rir, mas ele abanou a cabeça e olhou para o relógio com números romanos que parecia um quadro de Dali enrolado no seu pulso.
- Gostaria muito, Kate, mas tenho um jantar em Los Angeles às oito.
- Calculo que em Beverly Hills.
- Existe mais algum sítio?
Riram-se ambos e Kate foi à porta saudar Tygue. Stu Weinberg viu o rapaz entrar, abraçar rapidamente a mãe e parar de repente quando o viu.
- Olá, Tygue. Eu sou o Stu. - Estendeu a mão, mas o rapaz não se mexeu.
- Quem é ele? - perguntou com um ar abalado.
- E o meu agente de Los Angeles, querido. Não podes ser mais simpático?
Tygue parecia tão assustado como a mãe e Stu gostou imediatamente dele. Parecia estar tão pouco habituado a ver estranhos como Kate.
Tygue aproximou-se contra vontade e apertou-lhe a mão.
- Olá.
Kate sorriu e Stu pôs os contratos na mala.
- Bom, Kate, agora só lhe resta descontrair-se. Ela já assinara tudo.
- E quanto ao resto?
- O quê? - perguntou Stu, embora soubesse o que era. Deixá-la dizê-lo.
- A publicidade.
- Não se preocupe com isso.
- Stu... não vou ser capaz. -Não vai ou não quer? - Não quero.
- Está bem. - Ele parecia calmo. Demasiado calmo. Tygue observava-o em silêncio.
- Está a falar a sério?
- Claro. Já lhe disse. Ninguém pode obrigá-la a fazer nada. Mas é tonta se não o fizer. No entanto, o livro é seu, a decisão é sua, o cheque dos direitos pelas vendas é seu e a carreira é sua. Você é que decide. Eu sou apenas um empregado.
Stu fê-la sentir-se pequena, de uma forma estúpida e covarde. Se tivesse adivinhado, haveria de ter ficado satisfeito.
- Desculpe.
- Então pense nisso. E eu vou manter os diretores de publicidade das duas editoras longe de si até tomar uma decisão. Okay?
- Okay.
Fê-la sentir que ganhara alguma coisa, embora Kate não soubesse bem o quê. Apertaram a mão junto à porta e ela ficou a vê-lo ir de marcha atrás até à estrada num Jaguar cor de ameixa.
Acenou-lhe da porta e Tygue observou-a quando Stu sorriu a ambos do carro. Naquele momento, perceberam os três que tudo estava prestes a mudar.