Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 12 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 12 · Quando Kate se levantou, encontrou um prato…

Quando Kate se levantou, encontrou um prato com croissants, café e um bilhete de Felicia. «Vai ter comigo à loja ao meio-dia. Podes comprar lá umas coisas com desconto antes ou depois, se quiseres. Beijos, F.» Comprar umas coisas com desconto. Não era o que lhe apetecia mais fazer. Queria voltar a ver a cidade. Só a cidade. Os lugares, as recordações, os momentos. Imaginou-se com Tom no cimo de Divisadero, a brisa a mandar-lhes o cabelo para a cara, e depois a descerem de novo para a pequena praia ou a seguirem pela via rápida e a atravessarem a ponte da baía. Recordou os passeios pelas ruas estreitas na zona superior da cidade, pela Rua Union, junto aos molhes, ou comer camarão com os turistas em Fisherman's Wharf.

Espreguiçou-se descalça na cozinha, o cabelo castanho a brilhar com uns laivos vermelhos ao sol, solto sobre as costas. Até da cozinha a vista era boa. Kate contemplou-a satisfeita enquanto comia um pêssego e esperava que o café aquecesse.

O telefone tocou quando acabou o pêssego. Devia ser Licia.

- Olá.

- Ora viva! Já voltaste.

O coração de Kate deixou de bater. Quem seria o homem?

- Hum... Sim. - Ficou imóvel, à espera de ouvir de novo a voz dele.

- E levantaste-te mais tarde, pelo que vejo. É um choque estar de volta?

Era agora.

- Não, é bastante agradável. - Bolas, quem seria aquele tipo? Parecia conhecê-la, mas ela não fazia idéia de quem era. Possuía uma voz grave e agradável. Porém, não era parecida com nenhuma das que ouvira. Mesmo assim, Kate sentia-se a tremer. Era como ser vista sem conseguir ver.

- Liguei para aí ontem à hora de jantar, mas ainda não tinhas chegado. Como estava a tua amiga?

Foi então que Kate respirou fundo. Então era isso. No entanto, ele não devia conhecer Felicia muito bem se confundira a voz de Kate com a dela.

- Desculpe, mas acho que há aqui um grande equívoco.

- Há? - perguntou ele, confuso, e Kate riu-se.

- Eu sou a amiga. Quero dizer, não sou a Felicia. Lamento. Não sei por que carga de água pensei que você sabia quem eu era, mas parecia tão confiante...

- Parti do princípio que estava a falar com a Felicia retorquiu ele, parecendo igualmente divertido, e o seu riso era tão agradável como a sua voz. - Desculpe. Você é a amiga do campo?

- O rato do campo. As suas ordens. - Bom, não propriamente, mas era agradável falar com ele agora que sabia que não estava na berlinda. Devia ser um dos homens que Licia tinha no momento se sabia das viagens ao campo. - Lamento imenso. Não pretendi induzi-lo em erro. Quer deixar recado? Eu vou estar com a Felicia ao almoço.

- Diga-lhe então, se faz favor, que eu confirmei tudo para esta noite. Vou buscá-la às oito. O ballet é às oito e meia e reservei mesa no Trader Vic's, para o jantar depois do espetáculo. Acho que Miss Norman ira aprovar.

- Bolas, acho que sim! - exclamou Kate de novo a rir, sentindo-se em seguida um pouco atrapalhada. Talvez ele fosse uma pessoa formal.

- Eu digo-lhe que você aprovou.

- E eu digo-lhe que você ligou.

- Muito obrigado.

Desligaram e Kate percebeu, espantada, que não tinha ficado com o nome dele. Que horror! No entanto, fora tão estranho falar de novo com um homem... Já era o segundo naquela semana. Calculou que Felicia devia saber quem ele era. Se não, iria ao ballet com um desconhecido. A idéia divertia-a e,soltou uma gargalhada enquanto se servia de café. Homens. Ainda gostava da vida de celibatária, mas era engraçado voltar a brincar com eles. Era divertido esconder-se atrás de um telefone, ou falar apenas de trabalho com Stu. Apeteceu-lhe voltar de novo a brincar. Não fazer «alguma coisa», apenas brincar. Ainda estava a sorrir quando se foi vestir.

Tirou os vestidos novos da mala com um olhar matreiro e animado. O preto estava fora de questão, era demasiado elegante. A saia vermelha serviria. Levara também umas calças cinzentas de flanela já antigas, uma camisa branca e uma camisola de lã cinzenta, No entanto, não lhe apetecia vestir aquilo. Apetecia-lhe vestir o fato. O fato de seda creme com a blusa cor de pêssego e os sapatinhos com a corrente dourada no calcanhar. Quase pulou com a excitação. Meia hora depois, ficou satisfeita quando se viu ao espelho. Lavada, maquiada, perfumada e vestida com um fato divino que comprara em Carmel. Apanhara o cabelo sem o apertar muito, o que lhe dava um ar bastante feminino, e levara uns pequenos brincos de pérolas, não fosse dar-se o caso de precisar deles. Quando se olhou ao espelho, sentiu-se de novo um modelo, mas mais velha.

Tinha quase trinta anos e estava pronta para o look da alta costura. Nunca tivera nada parecido com o fato creme. Voltou a sorrir e revirou um dos pés. Quem era aquela pessoa? Seria uma escritora famosa que vinha almoçar a São Francisco? Seria uma dona de casa discreta, vinda de visita da província? Seria a mãe de um rapazinho, de um urso de pelúcia e de um basset hound chamado Bert? A esposa de coração desfeito de... não, isso não. Já não. Porém, era todas as outras e nenhuma. Seria a mulher que ela via com a delicada blusa de seda cor de pêssego mesmo a mãe de Tygue? E ele? Existiria mesmo? Onde? Em que país? Agora, encontrava-se em São Francisco. Aquilo era real. Como podia o resto sê-lo?

Pegou na mala bege de camurça que levara para dar com o fato e enfiou-a debaixo do braço. Tinha um fecho de coral e havia pertencido à sua mãe, havia muito tempo. Numa outra vida. Agora era apenas uma mala.

O dia estava lindo, a cidade era linda e Kate desejava fazer algumas coisas. Desceu Telegraph Hill e apanhou um táxi em Washington Square. Dali, foi até uma empresa de aluguer de automóveis e depois ficou por sua conta. Subiu a Broadway até Pacific Heights, passou pelas magníficas vivendas e dirigiu-se a Presidio. Depois regressou. Passou por Divisadero, subiu a colina com um grande sorriso e travando em seguida com brusquidão. Regressou a Presidio e chegou aos penhascos que davam para o mar, com a Ponte Golden Gate parecendo estar mesmo ali ao lado, em todo o seu esplendor, e com a majestade dos penhascos de ambos os lados. Aquela vista sempre a fizera ficar sem fôlego. E soube que tinha de ali levar Tygue. Ele precisava de conhecer a cidade onde tinham vivido. Merecia-o. Merecia a animação, a beleza, os elétricos, a ponte, as pessoas, tudo aquilo. Pensar no filho fê-la reforçar a decisão que tomara na véspera quando o deixara. Iria regressar a casa nessa noite. Respondera às suas próprias perguntas. Era capaz. Enfrentara a situação. Não havia fotógrafos à espreita nas esquinas. Ninguém sabia nem se importava com quem ela era. Encontrava-se numa nova época, cheia de novas pessoas, nos velhos locais mais amados. Queria partilhá-los com Tygue. Contar-lhe-ia tudo naquela noite.

Em paz consigo própria, entrou no carro alugado e rumou ao centro da cidade. Até isso agora a divertia. Lembrava-se de uma altura, antes de se ir embora de vez, em que essa viagem a enchera de pânico. De terror. Ficava com claustrofobia, independentemente de onde fosse. Grávida, assustada, sozinha, com a vida a desmoronar-se, só a ação de ir ao centro da cidade fora como que um pesadelo. Agora era engraçado. Todas aquelas pessoas atarefadas com roupas coloridas a entrar e a sair de edifícios, a conduzir carros, a saltar para os elétricos, enquanto a rainha viúva e o Hotel St. Francis olhavam com ar complacente para Union Square. Durante um momento, Kate parou e sorriu. Ali nada mudara. Mal tinha mudado desde que era criança, e muito menos mudara em seis anos. A relva da praça estava bem cuidada, a pompa dos grandes armazéns mantinha-se inalterada, os pombos continuavam em grande número, tal como os bêbedos: tudo estava bem com o mundo. Deu a curva e parou o carro em frente ao Geary. A princípio, julgou que isso mudara, mas não - o porteiro apressou-se para a ajudar a sair do carro.

- Quer deixar o carro, minha senhora?

- Obrigada.

- Vai demorar?

- Vou encontrar-me com Miss Norman.

- Com certeza. - Ele sorriu de forma agradável quando ela lhe entregou as chaves e um dólar. Era mais simples e mais barato do que ir para um parque de estacionamento. Ele iria arranjar sítio para o carro. Só Deus sabia onde. A loja devia ter um acordo com o parque subterrâneo em frente, ou com a Polícia, mas o certo é que se reavia sempre o carro.

Sentindo uma certa expectativa, Kate abriu a pesada porta de vidro e avançou no interior das paredes de mármore cor de cacau. Paredes sagradas. Malas à direita, jóias a esquerda, secção de homem na extremidade direita, só que agora estava ampliada, e cosméticos e perfumes no recanto ao fundo à esquerda. A mesma coisa, tudo a mesma coisa. As luvas já tinham desaparecido. As meias parecia terem mudado, mas nada de importante havia sido deslocado. E bolas, aquilo era muito bonito! Incrivelmente bonito. Uma amálgama de produtos a que nenhuma mulher conseguia resistir. Malas de camurça vermelhas, luvas de lagarto pretas, magníficas peças em ouro e prata, ouro e veludo misturados para se usar à cintura durante a noite, lindas capas espessas em tons pastel, lenços Lanvin, e o aroma de perfume no ar... flores de seda... camurças... cetins... uma palete de cores infinitamente abundante. Fazia com que as pessoas sentissem que não podiam ser belas sem possuir aqueles artigos. Kate sorriu ao ver as mulheres devorarem tudo aquilo em que podiam tocar. Teve vontade de fazer o mesmo, porém não sabia se ainda seria capaz e, para além disso, não queria deixar Felicia à espera; já se sentia suficientemente extravagante com o fato que trazia vestido.

O elevador levou-a lá para cima, parando por um momento no primeiro andar e depois no segundo. Ela vivera naqueles pisos, envergara os fatos, exibira as peles, vestira-se de noiva. Viu rostos novos de cada vez que as portas do elevador se abriam. Rostos frescos. Não restava ninguém do seu tempo. Agora Kate já era adulta e as outras também se haviam ido embora. Vinte e nove anos. Isso era ser-se velho?

O elevador parou no sétimo andar e ela saiu. Já não sabia bem onde ficava o gabinete de Felicia, mas foi prontamente informada por um segurança. Era um gabinete de canto, evidentemente. O diretor de moda da cadeia de lojas na Califórnia tinha de ter um gabinete de canto. No mínimo. Kate voltou a sorrir quando entrou na ante-sala e foi rapidamente interpelada por duas jovens muito elegantes e um homem de calças de camurça azul-claras.

- Sim? - sibilou ele. Tinha dentes perfeitos e lábios delicados.

- Sou Mistress Harper. Miss Norman está à minha espera.

O jovem foi verificar e desapareceu. Dali a pouco, Felicia saiu do enorme gabinete branco. Tudo era branco, de vidro ou cromado. Possuía um aspecto frio, mas elegante. O branco parecia ser a cor preferida de Felicia.

- Caramba, vieste mesmo! - Felicia parou à porta do gabinete e olhou para a amiga. Se tivesse mandado exibir um modelo num dos seus desfiles, não teria escolhido uma indumentária diferente. Sentiu um grande orgulho na amiga e ficou satisfeita ao ver que ela prendera o seu relógio novo no fato.

- Aprovas?

Felicia revirou os olhos e arrastou-a para dentro do gabinete. Kate até andava de forma diferente, abanando ligeiramente as ancas, como se se sentisse tão bonita como parecia. Felicia ficou radiante.

- Foi isso que compraste em Carmel?

- Sim.

- É divino. Foste abordada por todos os homens da loja, não?

- Nem por isso - respondeu Kate com um sorriso. Mas esta noite vais ao ballet com um tipo que vai buscar-te às oito e depois vais jantar com ele ao Trader Vic's.

- Hum. E o Peter.

- Então, conhece-lo.

- Mais ou menos. - O que significava que o conhecia bem fisicamente, mas pouco intelectualmente. Isso não importava. Era um assunto que só dizia respeito a Felicia. Pareceu ficar agradada com a idéia do jantar. - Queres vir conosco?

- Ele não iria achar muita graça. Bem, vim comunicar-te que vou voltar para casa.

- Vais? Porquê? - Teria acontecido alguma coisa? Felicia parecia apavorada. - Já?

- Não, esta tarde. E já fiz multa coisa. Mais do que imaginas. - Porém, Felicia imaginava. Bastara-lhe ver os olhos de Kate. Parecia de novo confiante, como há muito não parecia.

- E tencionas regressar? - perguntou, sustendo o fôlego. Kate assentiu com um sorriso.

- Sim, com o Tygue. Acho que ele devia conhecer a cidade. Já é suficientemente crescido para a apreciar. - Hesitou e o seu sorriso alargou-se. - E eu também. Talvez. -Talvez, uma ova. Anda, vamos almoçar.

Levou Kate a um restaurante novo nas docas e tornaram a beber champanhe para comemorar. Agora, todos os dias pareciam uma comemoração. O restaurante serviu-lhes um festim e era freqüentado pela nata das pessoas da baixa. Era à porta fechada e semelhante a um clube. «Só com reserva», e tinham muito cuidado na escolha das reservas que aceitavam. Felicia conseguia sempre. Levava as pessoas certas, era linda e tratava-se de uma cliente que lhes dava uma boa imagem. «Miss Norman» era uma pessoa estimada no Le Port. Kate começara a aperceber-se de que a amiga era uma pessoa famosa.

- Toda a gente te conhece? - Parecia que todos os homens atraentes do restaurante a conheciam.

- Só as pessoas certas, querida.

Kate abanou a cabeça e soltou uma gargalhada.

- És impossível.

No entanto, Felicia parecia também ter crescido. Andara bastante ocupada durante os anos em que Kate estivera escondida. Agora era uma pessoa importante, o que quer que isso significasse. Havia uma certa aura em redor de tudo aquilo em que tocava. Êxito. Dinheiro. E classe. Felicia possuía muita classe e juntara bastante dinheiro ao longo dos anos. Ao ver a amiga no seu meio, Kate sentiu um novo respeito por ela.

- A propósito, falaste com a Tillie? - perguntou Felicia com ar descontraído, mas o coração de Kate quase parou. -Ela ligou?

- Claro que não. Só pensei que tinhas telefonado - respondeu Felicia, lamentando ter tocado no assunto.

- Não. Tencionava telefonar, mas o Tygue já tinha ido para as aulas quando me levantei. Falo com ele logo à noite. Vou tentar chegar a casa a horas de o ver.

- Far-lhe-ia muito bem ver-te vestida dessa maneira, Kate. Tem de conhecer coisas diferentes das calças de ganga rasgadas, miúda - disse com ar sério.

- Foi por isso que pensei em trazê-lo cá. Assim podias ensinar-lhe as coisas básicas da vida. Concordas, tia Licia?

- Podes crer que sim, querida. - Brindaram uma à outra com o resto do champanhe e Felicia olhou pesarosa para o relógio.

- Gaita, não me apetece nada ir. Quando é que cá voltas? - Tinha de insistir com Kate naquele momento, antes que ela mudasse de idéias.

- Pensei em trazê-lo cá para o mês que vem, quando começarem as férias de Verão. - E falava sério.

Felicia ficou radiante.

-Bolas, Kate, estou ansiosa que lhe contes!

- Eu também.