Tempo para Amar
Capítulo 20 · Parecia que sempre haviam estado juntos. Levantaram-se…
Parecia que sempre haviam estado juntos. Levantaram-se às sete e foram à cidade comprar o jornal, deram um passeio na praia e comeram um enorme pequeno-almoço preparado por ambos. Até isso correu bem, como se alguém tivesse catalogado as capacidades de cada um e percebido que elas se completavam. Estavam tão à vontade um com o outro que Kate sentiu um certo receio. Após anos de celibato, nem sequer se sentia envergonhada por andar nua sob a T-shirt dele. Estavam ambos nus deitados sobre uma toalha atrás da duna mais próxima da casa, longe de olhares estranhos. Kate admirou de novo o corpo magnífico dele e ergueu-se sobre um cotovelo, fitando-o.
- Fazes idéia de como isto é extraordinário? Ou será que costumas fazer este tipo de coisa? -Arrependeu-se da pergunta assim que a fez. Nada tinha a ver com o que ele costumava fazer. Mas queria saber.
A expressão de sofrimento de Nick quando se endireitou deu-lhe a resposta.
- O que queres dizer com isso, Kate?
- Desculpa. Só que... vives num mundo diferente, Nick. É só. As coisas são muito diferentes para ti -disse ela baixinho. Talvez não quisesse saber mais nada. Ele cobriu-lhe os ombros com as mãos e não desviou o olhar.
- Tens razão. As coisas são diferentes, Kate. Ou têm sido, pelo menos em alguns aspectos. Quando eu era mais novo, andei atrás de todas as mulheres que me excitavam, e mesmo de algumas que não me excitavam. Corri, corri e corri e sabes uma coisa? Fiquei exausto. Acabei por perceber que não valia a pena correr atrás de nada. As coisas acalmaram bastante depois disso, tornei-me mais sensato, mas bastante mais solitário. Lá não há muitas mulheres por que valha a pena lutar. Hollywood parece ser a Meca da estupidez, do egoísmo e da futilidade. As mulheres vão para a cama conosco por causa das suas carreiras, para se aproximarem do Jasper Case, para serem vistas no Polo Lounge na hora certa, para irem às melhores festas ou talvez só para comerem à borla e darem uma queca. Sabes o que ganhei com tudo isso? Nada. Então porquê incomodar-me? Na maior parte das vezes não me incomodo. De certa forma, tenho estado tão sozinho como tu. E sabes o que me resta? Um apartamento elegante, algumas assoalhadas cheias de móveis caros, alguns quadros bons, um bom carro. E tudo isto somado, minha querida, não vale um chavo. E então, uma vez na vida, um momento, um rosto, uma fração de segundo e sabemos que vimos todos os sonhos que havemos de ter. É como aquela sensação de acordarmos meio atordoados e, de repente, sem sabermos porquê, lembrarmo-nos de um sonho enquanto bebemos o café. Primeiro uma imagem, depois um excerto, e por fim todo o sonho. E conhecemos a história e o local e as pessoas com quem sonhamos. Conhecemos tudo, e só nos apetece lá voltar. Mas não podemos. Por muito que tentemos, não somos capazes. Por vezes o sonho atormenta-nos. Talvez durante um dia, talvez durante a vida inteira. Eu podia deixar que isso me acontecesse, Kate. Podia deixar que me atormentasses o resto da vida. Mas não quis fazer isso. Decidi correr com todas as forças e regressar ao sonho antes que fosse tarde de mais para ambos. Foi por isso que te vim ver. Não podia perder-te ao fim de todos estes anos de espera. Nem sequer sabia que estava à tua espera, mas percebi-o na quinta à noite. E tu também.
Nick tinha razão. Ela também, embora tivesse tentado percebê-lo. Dissera a si própria que não voltaria a ver Nick, embora no seu íntimo sentisse que isso não era verdade.
- Amo-te, Kate. Não consigo explicar porquê. Sei que passaram apenas alguns dias, mas tenho a certeza de que tomei a decisão acertada. Casava contigo hoje, se me deixasses.
Ela sorriu e pousou a cabeça no ombro dele, beijando-lhe o pescoço.
- Eu sei. Mas é incrível, não é? - Estava deitada no cobertor a fitá-lo, enquanto ele a observava com aqueles belos olhos azuis. O céu da manhã tinha exatamente a mesma cor.
- Está tudo a avançar tão depressa. Não sei o que hei-de pensar. Acho que não devia estar a sentir-me assim. Acho... achava... - corrigiu ela - que estavas sempre a fazer isto.
No entanto, isso não explicava os meus sentimentos. Como é que pude apaixonar-me tão depressa? Ao fim de todos estes anos... não me entendo.
Contudo, não parecia triste. Aliás, era a primeira vez que ele a via sem aquela sombra de tristeza no olhar. A dor desaparecera quando acordaram naquela manhã. Kate parecia uma pessoa nova. E sentia-se renascida.
- Talvez seja assim que as coisas acontecem. Tenho ouvido histórias de pessoas que viveram juntas durante cinco ou dez anos e, de repente, zás, uma delas conhece outra pessoa e casa-se ao fim de duas semanas. Se calhar, quando temos de esperar todo esse tempo para ter a certeza, sabemos que não vale a pena. Talvez quando isso acontece, quando acertamos, quando vemos a pessoa a quem estamos destinados as coisas aconteçam de repente, bang, e nós saibamos. Foi isso que me aconteceu.
Encontrava-se deitado ao lado dela, de barriga para baixo, e deu-lhe um beijo na boca,
- Kate?
- O que é, querido?
- Estavas mesmo a falar a sério quando disseste que não querias voltar a casar?
Ela assentiu e fitou-o antes de responder.
- Sim.
Nick quase não ouviu a palavra, mas teve pena de a ter percebido.
- Porquê?
- Não sei explicar. Só sei que não posso.
- Isso não é justo. E não faz sentido.
Talvez fosse demasiado cedo para a pressionar. Olhou para o rosto dela e viu de novo a dor nos seus olhos. Arrependeu-se de ter tocado no assunto.
- Talvez não me devas nenhuma explicação.
- Não há nenhuma para dar - retorquiu ela, fazendo-lhe uma festa nas costas e olhando-c, de uma maneira que o fez arrepiar. - Só te posso dizer que farei tudo o que quiseres, menos casar.
Ele fitou-a com um sorriso lascivo.
- Dado o que estou a pensar neste momento, Cinderela, não me importo. - Não voltou a falar em casamento. Fizeram amor na toalha, ali na praia, e depois nas ondas em frente à casa.
- Nick, és indecente! - exclamou ela sem fôlego, correndo até à toalha e deitando-se. Nick deitou-se com cuidado em cima dela, sustendo o seu peso nos braços.
- Olha quem fala. Eu não fiz nada sozinho, sabes?
- Nicholas... Nick... N... - Ele beijou-a de novo e abriu as pernas dela com as suas na areia quente. A tarde já ia adiantada quando regressaram a casa, cansados, bronzeados e felizes, como se fossem amantes há anos.
- Oli, meu Deus! - exclamou Kate, olhando chocada para o relógio da cozinha.
- O que foi? - perguntou ele, olhando-a por cima do ombro com a boca cheia de uvas.
- O Tygue. Chega a casa às quatro. Esqueci-me completamente!
Era a primeira vez em seis anos que isso acontecia. Até se esquecera de Bert, mas pelo menos tinha-lhe dado de comer antes de sair de casa na véspera. O cão comia apenas uma vez por dia, e podia entrar e sair de casa através da sua porta especial.
- Descontrai-te, querida, são só três da tarde.
- Mas... - Ele calou-a com um beijo e passou uma das uvas para a boca dela. - Importas-te de parar com isso? Tenho de... - argumentou Kate a rir. - A sério.
- Eu também estou a falar a sério. Fiz esta manhã a mala. Só tenho de tomar uma ducha e tirar a roupa da cama. Temos muito tempo. Queres telefonar aos pais do Joey?
- Talvez seja melhor. Bolas, devia ter feito isso ontem à noite. Se lhe aconteceu alguma coisa, ou...
Tornou a beijá-la e pegou no telefone, estendendo-lho com um sorriso.
- Não é pecado divertires-te um pouco, para variar salientou, beijando-a. - Liga então. Eu vou tomar uma ducha. Ela juntou-se-lhe cinco minutos depois.
- Está tudo bem?
- Sim - respondeu ela com ar envergonhado. - Parece nem ter dado pela minha falta.
- Claro que não deu, com as duas cabras novas a distraí-lo. O pai do Joey comprou o pônei? -perguntou ele, ensaboando-se e estendendo-lhe depois o sabonete. Cheirava a cravos.
- Comprou dois. Um e para a irmã do Joey. -Parece ser um bom homem.
- Tu também. - Beijaram-se de novo sob a ducha, envoltos no perfume dos cravos.
- Nada de brincadeiras, minha menina. Temos de ir embora.
- Olha, olha - disse ela. Mas estava divertida. Ele parecia ser bom em tudo. Era bom amante, bom amigo e parecia ser bom pai. Tinha razão em querer casar. Daria um marido maravilhoso... Teria dado... pensou ela cheia de pesar quando lhe devolveu o sabonete, deixando que a água lhe tirasse a espuma do corpo.
Vinte minutos mais tarde, estavam vestidos e já tinham fechado a casa. Kate arrumara a cozinha enquanto Nick acabava de se vestir e encontrava-se ao pé dele com uma expressão de pesar quando ele trancou a porta da frente. Nick virou-se, vendo a expressão dela, e abraçou-a com um sorriso.
- Ora, querida, vá lá. Isto não acabou. É apenas o começo.
Era uma loucura, mas Kate tinha lágrimas nos olhos.
O fim-de-semana fora tão bom que ela não queria que ele terminasse. Desejava que continuasse para sempre. E agora tinha de voltar a ser a mãe de Tygue e de ir visitar Tom. Apetecia-lhe ficar para sempre em Santa Barbara com Nick. Porém, ele tinha de regressar igualmente ao mundo real.
- O que vai acontecer? - perguntou ela encostando-se ao muro do alpendre e olhando para os olhos dele. Não viu nada que a assustasse, apenas muito amor.
- Porque não esperamos para ver? Eu posso vir cá passar todos os fins-de-semana que quiser. O dono da casa nunca cá vem. Não a acha suficientemente vistosa, por isso prefere alugá-la. É toda nossa, se assim o desejarmos. Eu posso vir de Los Angeles todas as noites, se quiseres. Depois do programa. Chegaria por volta da meia-noite e ia-me embora antes de o Tygue acordar.
- Nick, isso é uma loucura. Não agüentavas muito tempo. - Porém, tinha de admitir que a idéia lhe agradava.
- Podíamos experimentar, e tu podias ir a Los Angeles para te ambientares. Há muita coisa que podemos fazer, Cinderela. Já te disse que isto é apenas o começo. O sapato de cristal serviu-te, não serviu? - Inclinou-se e beijou-a, tirando-lhe o cabelo dos olhos. - Amo-te. É tudo. - Era tudo. Simples, claro. E tudo o que ele dizia soava maravilhosamente... só que ela tinha de tomar as suas próprias decisões. Tinha de avançar ao seu ritmo e não podia esquecer Tygue.
- O que fazemos em relação ao Tygue?
- Deixa-c, habituar-se às coisas. Confia em mim. Acho que sou capaz de tratar de tudo.
- Também acho que és.
- Então está combinado. Satisfeita?
Ela assentiu alegremente enfiando a mão no braço dele e descendo até ao carro. Nada fora combinado, mas soava tudo muito bem.
- Queres vir atrás de mim? - Era natural que ele a acompanhasse a casa, mas Nick abanou a cabeça e abriu a porta do carro. Ela observou-o admirada.
- Não. Acho que precisas de estar um bocado sozinha com o Tygue. E se eu lá aparecer por volta das seis? Dava-me jeito tratar de uns assuntos aqui em Santa Barbara.
- Durante duas horas?
Ele assentiu e Kate ficou cheia de ciúmes. E se ele tivesse .outra mulher na cidade? E se era por isso que ali ia com regularidade? E se era por isso que alugava a casa? E se...
Nick viu a expressão dela e desatou a rir.
- Minha querida, és perfeita e eu adoro-te! - exclamou, abraçando-a. - Estavas com cara de quem queria matar alguém.
- E queria - afirmou ela com um sorriso envergonhado. -Espero que não fosse eu.
- Não. Era a mulher com quem eu imaginei que ias encontrar-te.
- Kate, minha querida, garanto-te que não tenho nenhuma amiga nesta cidade. Normalmente venho até aqui para fugir disso tudo. Quanto às outras, estou disposto a queimar a minha agenda em público na segunda-feira ao meio-dia, em frente à câmara municipal.
- Porquê esperar tanto tempo? Eu tenho aqui fósforos - disse Kate, remexendo nos bolsos da camisa.
Ele beliscou-lhe o nariz.
- Pois deves ter. Usamo-los mais tarde. Agora vai ter com o teu filho, sua ciumenta de um raio, antes que eu te viole já aqui.
- Ao pé da minha carrinha?
- Quando quiseres. - Nick abriu-lhe a porta e ela entrou. Depois fechou-a e inclinou-se para um último beijo. Vai com cuidado, por favor.
- Sim senhor. Então até às seis. -Em ponto.
Esperou até que ela se afastasse, depois meteu-se no Ferrari e dirigiu-se à cidade.