Tempo para Amar
Capítulo 5 · -Tens a certeza de que ficas bem?
Kate sorriu para a amiga na outra extremidade do quarto. -Não, vou entrar em pânico e ligar à Cruz Vermelha antes do meio-dia.
- Chica-esperta - retorquiu Felicia com um sorriso, acabando de beber o café.
Era uma bela manhã de domingo e Tygue tinha quase nove dias. Felicia fora para São Francisco e regressara ao campo no fim-de-semana. Kate dava de mamar ao bebê.
-Isso não dói?
Kate abanou a cabeça, sorrindo, e depois olhou para o filho, rosado, branco e brilhante ao fim da sua primeira semana de vida.
- Não, não dói. É loucura dizer isto, mas até parece que fui feita para ser mãe. E eu que achava que não ia gostar. - Eu também achava o mesmo. Mas já me fizeste repensar uma série de coisas. Sempre julguei que ter um filho era uma coisa horrível. Até que este pardalito nasceu. - Felicia sorriu de novo para a criança; ainda não conseguira esquecer aquela experiência maravilhosa. - Vou ter muitas saudades vossas.
- Vai fazer-te bem. Há tanto tempo que não vou à Europa que já me esqueci de como é que é.
Felicia iria em serviço, durante um mês.
- Queres acompanhar-me na próxima viagem?
- Com o Tygue? - perguntou Kate admirada, e a amiga sorriu.
- Claro. Seria divertido.
- Talvez. - Mas desviou os olhos e ficou muito séria.
- Kate, não estavas a falar a sério quando disseste que querias ficar aqui, pois não? - Começava a ficar preocupada com aquilo.
- Estava, sim. Acabei de renovar o contrato de arrendamento.
- Durante quanto tempo?
- Cinco anos.
Felicia ficou perplexa.
- Podes anulá-lo?
- Não faço idéia, querida. Não tenciono fazê-lo. Licia, sei que não percebes, mas agora a minha casa é esta. Acho que nunca vou querer regressar, independentemente do que acontecer. Com o Tygue, estou pronta para começar uma vida nova. Teria de o fazer em algum lado, e é aqui que quero estar. É um bom local para uma criança. Terá uma vida simples e saudável. Posso ir visitar o Tom. E numa vila como esta, o Tygue nunca precisará de saber o que aconteceu ao Tom. Harper é um nome bastante comum. Ninguém fará perguntas. Se regressarmos a São Francisco, um dia virá tudo à tona. - Respirou fundo e fitou Felicia. - Só se fosse maluca é que eu voltava. - Ainda se arrepiava quando pensava nos jornalistas.
- Está bem. Então que tal Los Angeles? Um lugar civilizado, pelo amor de Deus!
Kate sorriu perante o fervor da amiga, mas sabia que ela apenas queria o seu bem. Os laços de amizade entre as duas haviam-se reforçado ainda mais desde o nascimento de Tygue. Haviam partilhado um dos mais preciosos momentos da vida.
- Porquê Los Angeles, Licia? Não tenho lá nada. E apenas uma cidade. Olha, querida, não tenho família, nem uma casa, não sou obrigada a fazer nada. Tenho um filho que só crescerá saudável aqui, e este lugar também é ótimo para eu escrever. Sou feliz.
- Mas tencionas ir à cidade de vez em quando, não tencionas? - Houve uma grande pausa, e Felicia começou finalmente a perceber. - Não tencionas? - insistiu cheia de tristeza. Estava triste por Kate, que se afastara de vez. Aquele lugar não era para a amiga, mas quando ela o percebesse, seria demasiado tarde. Talvez isso só acontecesse quando o filho tivesse crescido e saído de casa. - Irás à cidade, não irás? Continuava a insistir, mas o rosto de Kate tinha uma expressão determinada quando levantou o olhar do rosto adormecido de Tygue junto ao seu seio. Abotoou a blusa.
- Veremos, Licia. Não sei.
- Mas não está nos teus planos, é isso? - Raios, como podia Kate fazer aquilo a si própria?!
- Está bem. Não está nos meus planos. Já estás mais satisfeita?
- Não, tonta, estou mais triste. Kate, não podes fazer isso a ti própria, isolar-te aqui no meio das ervas. E uma loucura. Tu és bonita, és jovem. Não faças isso!
- Na cidade já não tenho nada, Licia. Nem família, nem recordações que queira guardar, nada. Só tu, e hei-de continuar a ver-te quando conseguires cá aparecer.
- E quanto à vida e às pessoas? O teatro, a ópera, o ballet, as passagens de modelos, as festas? Bolas, Kate, vê só o que estás a desperdiçar!
- Não estou a desperdiçar nada. Afastei-me de tudo. Ficarei aqui até mudar de idéias.
- Mas tens vinte e três anos. Estás na idade de gozar tudo aquilo, de aproveitar o que a vida te oferece.
Kate sorriu ante aquelas palavras e tomou a olhar para o filho. Depois fitou Felicia. Não havia mais nada a dizer. Felicia perdera.
Esta fechou os olhos por um momento e levantou-se. -Não sei o que dizer.
- Diz apenas que virás ver-nos quando tiveres tempo, e que vais divertir-te na Europa - disse Kate com um ligeiro sorriso que não permitia discussões.
- E tu, o que vais fazer?
- Vou começar a escrever um livro.
-Um livro?
Parecia coisa de adolescentes. Kate estava a desperdiçar a vida só porque o marido perdera o juízo e vivia numa casa de saúde. Porém, a culpa não fora sua. Porque estaria a enterrar-se viva tal como ele? As pulseiras de Felicia tiniram quando pousou a xícara do café no lava-louça. Queria meter juízo na cabeça da amiga, mas teria de tentar fazê-lo quando regressasse da Europa. No entanto, algo lhe dizia que nunca seria capaz. Kate mudara bastante desde que o filho nascera. Parecia mais segura acerca de tudo. E teimosa como o diabo.
- Porque é que ficaste tão admirada por eu querer escrever um livro?
- Porque acho uma coisa engraçada. E também muito --solitária, para falar com franqueza.
- Veremos. Agora tenho a companhia do Tygue.
- Pois. E onde vais deixá-lo quando fores visitar o Tom?
- Ainda não sei. Uma das enfermeiras disse que conhecia uma boa ama, uma senhora de idade que adora bebês. Ou talvez o leve comigo. Mas a viagem é muito grande, e... bem, : não sei.
Tom não iria entender. Seria melhor deixar o filho com uma ama.
- Isso da ama parece-me boa idéia.
-Sim, mãe.
- Vá-se lixar, Mistress Harper! Sabes uma coisa? Vais-me dar mais cabelos brancos do que a loja.
- Em ti, ficam lindos!
- Que desperdício! - Porém, Felicia sorria de novo. Lembra-te de mim num dos teus livros.
Kate soltou uma gargalhada e deitou o filho no berço azul e branco que Felicia lhe trouxera. Dali a um mês pô-lo-ia na caminha antiga que Tom comprara, que por enquanto ainda era demasiado grande. Tygue sentir-se-ia perdido nele.
Felicia aproximou-se e ficou a olhar para o bebê. Estás a gostar, Kate? - perguntou com ternura.
É melhor do que aquilo que eu tinha imaginado. É perfeito. Até à mamada das quatro da manhã. -Sorriu. Nessa altura, começo a duvidar.
- Não comeces. Aproveita. - Felicia não conseguia esconder a tristeza que se abatera sobre ela. Tinha a sensação de que estava a despedir-se de Kate para sempre.
Esta percebeu.
- Não leves as coisas tão a peito, querida.
- Continuo a achar que fazes mal em ficar aqui. Mas virei visitar-te assim que regressar. E sempre que puder.
No entanto, sabiam que isso não sucederia todos os fins-de-semana. Cada uma tinha a sua vida. As coisas não voltariam a ser as mesmas. Felicia exibia lágrimas nos olhos quando pegou no saco de viagem e Kate estava muito séria quando lhe abriu a porta. Dirigiram-se ao carro vermelho de Felicia e abraçaram-se com força.
- Desculpa, Licia - disse Kate, também com lágrimas nos olhos. - Não sou capaz de voltar.
- Eu sei. Não faz mal. - Sorriu, apesar das lágrimas, e, abraçou Kate mais uma vez. - Trata bem o meu afilhado, miúda.
- E tu porta-te bem.
Felicia meteu o saco no carro, sentou-se ao volante e olhou para Kate. Sorriam uma à outra cheias de ternura e compreensão. Tinham de seguir os seus destinos. Acenaram ambas enquanto o carro de Felicia desaparecia ao longe.
Kate olhou para o relógio e voltou para casa. Dispunha de duas horas e meia até Tygue voltar a acordar para a mamada seguinte. Era tempo mais do que suficiente para trabalhar no livro. Já escrevera trinta páginas, mas não quisera confessá-lo a Felicia. O livro era o seu segredo. E um dia - sorriu ao pensar nisso -, um dia... já sabia o que iria acontecer.