Tempo para Amar
Capítulo 9 · - Sobreviveste?
Felicia telefonou depois de Tygue se ter ido deitar.
- Sim, sobrevivi. Por acaso, ele é simpático. Desconfio que por baixo do verniz é um filho da mãe muito chato, mas gostei dele.
- Podes crer que é chato. Como julgas que ele te conseguiu a fortuna que acabaste de ganhar?
Kate riu-se.
- Bem visto. Se tivesse encarado as coisas nessa perspectiva, teria ficado ainda mais nervosa. Mas sabes o que é mais espantoso, Licia?
- Sim. Tu.
- Não, a sério. Ao fim de todos estes anos, não tive medo de falar com ele. Sentamo-nos como duas pessoas normais, a beber café e a ler os contratos. Foi tudo muito civilizado.
- Estás apaixonada? - perguntou Felicia num tom divertido.
- Credo, não! Ele parece o irmão mais novo da Alice no País das Maravilhas, ainda com o cabelo ruivo. Mas é um bom agente. E não tive um ataque cardíaco por estar a falar com um homem.
Felicia sentiu-se contente pela amiga.
- Okay. E agora?
- E agora o quê?
- O que vai acontecer a seguir?
- Nada. Vou pôr o dinheiro no banco e daqui a uns anos posso mandar o Tygue para a faculdade. O Stu sugeriu que comprássemos um osso novo ao Bert - disse ela com um sorriso -, e talvez compre aqueles sapatos de camurça cor-de-rosa de que falamos esta manhã.
- Estás a esquecer-te de uma coisa, minha querida. Felicia parecia de novo sarcástica e determinada. Kate já conhecia aquele tom de voz. - E a publicidade do livro?
- Ele disse que não sou obrigada a fazer.
- Não acredito.
- Foi o que ele disse.
- Ele não te pediu que fizesses? - insistiu Felicia.
- Sim.
- E então?
- Eu disse que não.
- Sabes, és uma filha da mãe ingrata, Kate Harper, e, se eu fosse o teu agente, dava-te um chuto no traseiro.
- E por isso que não és minha agente.
- Ele largou-te assim com essa facilidade? -Sim. - Kate parecia o filho a falar, e sorriu.
- Então é maluco. - Ou isso, ou era muito inteligente. Felicia ficou na dúvida.
- Talvez. Bom, assinei os contratos e fiquei despachada. Até ao próximo livro.
- Que seca - observou Felicia com um sorriso.
- O que queres dizer com isso?
- Precisamente isso. Escreves sem parar, ficas acordada até tarde, fumas um maço de cigarros, bebes muito café e nem sequer queres fazer nenhuma das coisas divertidas. Nem sequer acabas por gastar o dinheiro.
- Porque não?
- Em quê? Mercearias? Que seca! O mínimo que podes fazer por ti é ir às compras num lugar civilizado. Em Los Angeles, aqui, em Santa Barbara. Caramba, até podias ir às compras em Carmel.
- Não preciso de roupa nova.
- Claro que não. Não vais a lado nenhum.
Por que motivo a tomava isso uma fracassada? Porque teria de sair dali, de se vestir, de se produzir para não ser «uma seca»? Porque não seria suficiente ter escrito um livro, caramba? Talvez comprasse umas coisas em Carmel da próxima vez que fosse visitar Tom. Isso era outra das coisas. Tinha de lá ir no dia seguinte.
- Escuta, Licia. Não vou discutir contigo por causa disto. Bom, tenho de desligar.
- Algum problema?
- Não. Tenho de ligar à Tillie. -Está bem, querida.
Felicia parecia calma e distante quando desligaram e perguntou a si mesma se teria falado de tudo. Talvez...
Kate combinou com Tillie o que iriam fazer no dia seguinte; depois, tomou um banho e foi-se deitar. Terminara um dia esgotante, e não sentia nada daquilo que queria sentir. Desejava sentir-se orgulhosa de si própria; no entanto, sentia-se apenas aborrecida, como se não tivesse sido capaz de fazer qualquer coisa. Por fim, adormeceu. Até que o despertador a acordou às seis.
- Vais outra vez dar aulas, mamã? - perguntou Tygue ao pequeno-almoço num tom lamuriento que aborreceu Kate.
- Sim, querido. A Tillie vem cá ter. - Não quero a Tillie.
- Podes ir trabalhar no jardim. Vais ver que te divertes. Come os cereais.
- Não estão estaladiços.
- Vá lá, Tygue.
- Iac! Está um bicho na minha torrada! - Afastou-a para o lado e Bert apanhou-a na ponta da mesa, todo contente.
- Bolas, Tygue!
De repente, surgiram lágrimas nos olhos do filho e ela ficou cheia de remorsos. Era uma péssima maneira de começar o dia. Voltou a sentar-se e estendeu os braços. Ele aproximou-se devagar, mas aproximou-se.
- O que foi, querido? Algum problema?
- Odeio-o.
- A quem?
- A ele.
O que seria agora?
- Quem, por amor de Deus? - Estava demasiado cansada para joguinhos.
- O homem... o que estava naquela cadeira.
- Ontem?
Ele assentiu.
- Mas é o meu agente, querido. Vende os meus livros.
- Não gosto dele.
- Estás a ser tonto. - O rapaz encolheu os ombros e ouviram a buzina do carro da mãe do colega de Tygue. - Não te preocupes com ele, está bem? - Ele voltou a encolher os ombros e ela abraçou-o com força. - Amo-te só a ti e a mais ninguém. Percebeste, meu menino? - No rosto dele surgiu um pequeno sorriso. - Por isso, descontrai-te e diverte-te.
- Está bem. - Pegou no casaco, fez uma festa a Bert e dirigiu-se para a porta. - Até logo, mamã.
- Até logo, querido.
No entanto, quando ele saiu, Kate percebeu que ficara aborrecida com o filho. Qual seria o problema dele? Teria ciúmes de Stu Weinberg? Isso não era de admirar. Nunca vira um homem lá em casa. Já era altura de se ir habituando a uns quantos desconhecidos. No entanto, a recalcitrância do filho constrangia-a. Ele empurrava-a de um lado, os outros empurravam-na do outro. Todos queriam algo dela. E que queria ela? Não sabia ao certo. Nem sequer tinha tempo de fazer a pergunta. Devia ir andando se queria ver Tom... se queria ver Tom... se queria... Que idéia espantosa. Fê-la parar no meio da cozinha. Quereria ela ver Tom? Não pensava assim há vários anos. Ia ver Tom, mas será que queria vê-lo? Provavelmente. Claro. Pegou na mala, fez uma festa a Bert e saiu, sem atender o telefone.