Tempo para Amar

Danielle Steel · Capítulo 7 de 32

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Tempo para Amar

Capítulo 7 · -Vais dar aulas hoje, mamã? - Kate…

-Vais dar aulas hoje, mamã? - Kate assentiu e deu a Tygue outra torrada. - Calculei. Adivinho sempre.- Parecia satisfeito, e Kate observou o filho com um ar radiante. Era uma criança graciosa, robusta, alegre e bonita. Já se parecia menos com Tom. Tinha quase seis anos.

- Como é que adivinhas sempre que eu vou dar aulas?

- Costumavam conversar bastante ao pequeno-almoço; naquele belo dia de Primavera, Kate sentia-se com vontade de brincar. Tygue era a pessoa com quem mais falava. De vez em quando, isso fazia-a responder-lhe no mesmo tom infantil, embora na maior parte das vezes optassem por um tom intermédio.

- Adivinho, porque vestes roupas mais boas.

- Ai sim? - perguntou ela com um sorriso. Nos olhos do filho havia um brilho travesso, não muito diferente do seu. - E a palavra é «melhores».

- Pois. E metes essa coisa na cara.

- Que coisa? - perguntou ela com uma gargalhada.

- Essa coisa verde.

- Não é verde, é azul. E chama-se sombra para os olhos. A tia Licia também usa. - Como se isso justificasse alguma coisa.

- Sim, mas ela usa sempre, e a dela é castanha - argumentou ele com um sorriso. - E tu só a usas quando vais dar aulas. Porquê?

- Porque tu ainda não tens idade para apreciar, borracho. - Porém, nem Tom tinha. Ela só punha sombra nos olhos e vestia as roupas «mais boas», como Tygue lhes chamava, porque achava que devia, quando ia visitar Tom a Mead. Parecia adequado. Lá, ela era «Mrs. Harper». Ali, era apenas «mamã». E de vez em quando «minha senhora», no supermercado.

Já há muito que explicara a Tygue que ensinava crianças deficientes a escrever numa escola em Carmel. Isso permitia-lhe de vez em quando falar de Tom, ou de outras pessoas que ela via. Contava-lhe multas vezes histórias acerca de Tom, dos seus desenhos, de Mr. Erhard - as histórias eram um pouco simplificadas para que ela as pudesse contar ao filho e sentir-se um pouco aliviada. Ou por vezes, quando Tom tinha um momento de vitória, fazia um desenho espetacular, aprendia um jogo ou acabava um quebra-cabeças que parecera muito complicado - por vezes, ela podia partilhar essa sensação de triunfo com Tygue, mesmo que não o devesse fazer. E ao dizer-lhe que dava aulas numa escola para crianças deficientes, podia permitir-se ir para o quarto e fechar a porta depois de um dia cansativo. Tygue compreendia isso. Tinha pena das crianças de que ela lhe falava. E achava que a mãe era uma pessoa bondosa por ir lá. Por vezes, Kate perguntava a si mesma se era por isso que inventara aquela história... pobre mamã... mamã boazinha... faz aquela viagem grande para trabalhar com crianças deficientes. Kate afastava esses pensamentos. Era uma loucura precisar de ser mimada por uma criança de seis anos.

- Porque e que eles nunca têm férias? - perguntou Tygue enquanto comia os cereais do pequeno-almoço. Os pensamentos de Kate já estavam com Tom.

- Hum?

- Porque é que eles nunca têm férias?

- Porque não. Queres cá trazer o Joey depois das aulas? A Tillie vai cá estar quando chegares. -Porém, não precisava de lho dizer. Ele sabia-o. - Ela pode levar-vos de carro ao rancho dos Adams para vocês verem os novos cavalos, se quiserem.

- Não.

- Não? - repetiu Kate, admirada, fitando-o enquanto ele comia com uma expressão distante, mas com o mesmo brilho nos olhos. Estava a tramar qualquer coisa. - O que se passa contigo? Tens outros planos?

Olhou para ela com um sorriso e um ligeiro rubor, embora tenha abanado a cabeça com veemência.

- Não.

- Ouve, meu menino, vê lá se hoje és bonzinho para a Tillie. Prometes? - Tillie tinha o número de telefone de Mead; porém, como Kate passava tanto tempo na viagem, preocupava-se bastante, mesmo ao fim de todos aqueles anos.

- Não faças nenhuma maluquice enquanto eu estiver fora. A sério, Tygue. - A voz era séria e o olhar dele encontrou o seu, fazendo a promessa.

- Está bem, mãe. - Como se já fosse muito velho. Ouviram a buzina do carro da mãe do colega que vinha buscá-lo. Kate viu o grande jipe amarelo parar junto à casa.

- Já chegaram!

- Tenho de ir. Até logo! - Pousou a colher, deu uma última dentada na torrada, pôs na cabeça o chapéu de cowboy preferido, agarrou num livro, acenou a mãe quando ela lhe mandou um beijo e desapareceu. Enquanto bebia o resto do café, Kate perguntou a si mesma o que estaria o filho a tramar; fosse o que fosse, Tillie daria conta do recado. Era uma mulher grande, meiga e com ar de avó; porém, como já estava viúva há vários anos, não aturava os disparates de Tygue. Criara cinco filhos e uma filha, gerira um rancho sozinha durante vários anos antes de o entregar ao filho mais velho, e tomava conta de Tygue desde que ele nascera. Era forte e imaginativa, e divertiam-se imenso juntos. Tillie era uma verdadeira mulher do campo, não uma «imigrante» como Kate. Uma diferença que provavelmente nunca desapareceria. Para além disso, Kate era escritora, não uma mulher que gostasse de passar tempo na cozinha e no jardim. Gostava do ambiente campestre que a rodeava, mas ainda sabia muito pouco a seu respeito.

Kate olhou em volta antes de agarrar no casaco e na mala, interrogando-se sobre o que teria esquecido. Tinha o estranho pressentimento de que não devia fazer aquela viagem. Contudo, já estava habituada a isso. Já não dava ouvidos a esses sentimentos. Limitava-se a ir. Tillie era cem por cento de confiança. Vestiu o casaco e olhou para as calças. Já tinham oito anos mas continuavam a servir-lhe. Eram muito bonitas: gabardina cor de caramelo. O casaco era de tweed e também antigo. A única coisa nova era a camisola azul-pálido que comprara na vila. Kate tomou a sorrir ao pensar no que Tygue dissera acerca das suas roupas. Gostava de se pôr bonita para Tom. Talvez devesse também fazer o mesmo esforço em relação a Tygue. Mas tendo ele apenas seis anos? Era uma loucura. O que sabia o filho? Ou já teria conhecimento de alguma coisa? A idéia de se embonecar para um rapazinho de seis anos fê-la soltar uma gargalhada ao aproximar-se do carro.

A sua mente funcionou em piloto automático até Carmel, e também durante todo o dia. A estrada era monótona e já demasiado familiar. Tom mostrou-se aborrecido e apático e o dia estava enevoado. Até o almoço era parecido com centenas de outros almoços que já fizera. Alguns dos dias que passara com Tom destacavam-se pela sua preciosidade, pelas suas cores radiosas. Outros dias eram escuros e frios. E havia ainda outros dias em que ela nada sentia. Aquele era um desses dias. Apenas sentia cansaço quando se foi embora. Estava desejosa de chegar à auto-estrada e de regressar à sua casinha no campo e a Tygue e ao basset hound de olhos tristes que se tomara já membro da família. Sentira a falta deles. Talvez devesse ter ficado em casa. O velocímetro indicava os cento e quarenta no caminho de regresso. Acontecia o mesmo muitas vezes, mas ela raramente era apanhada pela Polícia. Só o fora duas vezes em seis anos. A viagem era tão monótona que só o excesso de velocidade a tornava mais suportável. De vez em quando, um rebate de consciência a recordar-lhe Tygue fazia-a abrandar, mas isso não era freqüente. O limite de noventa era intolerável. A maior parte das vezes viajava a cento e trinta.

Eram quase cinco da tarde quando se encontrou nas ruas próximas de sua casa, ainda a grande velocidade. Por que razão se teria sentido tão inquieta ao longo do dia? Entrou, com cuidado, no caminho de acesso à casa, não fosse aparecer o cão, olhando em volta à procura de Tygue. Viu-o então e sorriu, travando e desligando o carro. O filho estava todo sujo, sorridente e belo como sempre e ela fora louca em ter-se preocupado. O que raio se passaria consigo? Estava sempre a fazer aquela viagem. O que a teria levado a pensar que alguma coisa podia correr mal naquele dia, ou que surgiria algo que Tillie não conseguiria resolver? Tillie, aliás, estava tão suja como Tygue, e até Bert parecia precisar de um banho. Encontravam-se os três cobertos de lama. Tillie tinha lama na cara e Tygue no cabelo, mas pareciam radiantes.

O filho acenou-lhe e gritou qualquer coisa. Era altura de avançar. De sair do carro. De voltar a ser mamã. Tillie despia naquele momento um macacão. A roupa que tinha por baixo não era mais elegante e, como sempre quando regressava de Carmel, Kate sentiu-se demasiado bem vestida. Agarrou na mala e saiu do carro. O seu dia como Kate, mulher de Tom, chegara ao fim. Agora era a vez de Tygue. Inspirou o ar do campo e suspirou quando se baixou para fazer uma festa a Bert, que cheirava todo contente as suas calças.

- Olá, pessoal. O que têm andado a fazer?

- Espera só até veres, mãe! É bestial. Consegui! Consegui! A Tillie não fez nada.

- Não fez, hein? E depois? - Já estava a abraçá-lo, com lama e tudo, e ele tentava libertar-se.

- Anda, mãe, tens de vir ver.

- Não recebo primeiro um beijo? - Já lhe dera um e não o largou. Ele fitou-a com aquele sorriso radioso. -Se eu der, vens ver?

- Se me deres, vou ver. - Ele deu-lhe o beijo da praxe e puxou-lhe o braço com força. - Espera aí, o que é que eu vou ver? Não são de novo cobras... pois não, Tillie? - Lançou uma olhadela rápida à mulher mais velha. Tillie ainda não abrira a boca. Era uma pessoa de poucas palavras, especialmente quando falava com outras mulheres; tinha mais coisas para dizer a Tygue do que a Kate. Porém, entre ambas existia ternura e respeito. Tillie não percebia bem o que Kate fazia sentada à máquina de escrever, mas o livro que ela publicara impressionara-a e falara dele às amigas. Não fora um grande livro, mais um romance disparatado sobre uns ricaços de São Francisco, mas fora publicado, e isso era alguma coisa. Dali a um mês sairia outro. Talvez um dia fosse famosa. Era uma boa mãe e também viúva. Tinham isso em comum. Porém, havia algo de diferente nela que criava um certo distanciamento entre ambas. Kate não era esnobe, não se dava ares e não tinha nada que os outros não tivessem. Era apenas uma sensação difícil de definir, aquela que as pessoas experimentavam a seu respeito. Kate era requintada. Talvez fosse isso. Era uma palavra que a mãe de Tillie utilizara. Dissera que Kate era requintada. E inteligente. E talvez bonita, embora demasiado magra. Também havia sempre aquela tristeza no seu olhar. Isso, Tillie conhecia, vira-o ao espelho depois da morte do marido. Porém, não durara tanto como em Kate. Esse olhar de dor continuava tão presente como na primeira vez em que a vira, logo a seguir ao nascimento de Tygue. Às vezes, Tillie perguntava a si mesma se a escrita manteria viva a dor de Kate. Talvez ela escrevesse sobre isso. Não sabia.

Tillie viu Kate contornar a casa, puxada pelo filho impaciente e depois pararam ambos; Tygue sorria e segurava a mão da mãe. Era ainda um rapazinho, embora de vez em quando parecesse bastante adulto, provavelmente porque a mãe lhe falava muitas vezes como se ele já fosse um homem. No entanto, isso não era prejudicial. Tillie fizera o mesmo com os filhos, depois da morte do marido. Ver a criança a olhar para a mãe junto ao pedaço de jardim no qual haviam estado a trabalhar todo o dia trouxe-lhe recordações.

- Fizemos isto para ti. Metade são flores, metade legumes. A Tillie disse que devíamos plantar legumes para poderes fazer saladas. Sabes, pimentos e coisas parecidas. E para a semana plantamos ervas aromáticas. Gostas de ervas aromáticas? - Parecia ter dúvidas. As ervas pareciam-lhe ser uma coisa de raparigas. - Quero plantar abóboras. E cocos.

Kate sorriu e baixou-se de novo para o beijar. - É lindo, Tygue.

- Não é. Mas há-de ser. Plantamos todo o tipo de flores. Compramos as sementes na semana passada. E eu escondias. Era por isso que tivera aquela expressão misteriosa de manhã. Era o seu primeiro jardim.

- Foi ele que fez o trabalho mais difícil - declarou Tillie, aproximando-se e dando-lhe uma palmadinha no ombro.

- Também vai ficar muito orgulhoso quando vir que belo jardim plantou. Não há-de tardar muito.

- Tomates também.

Durante um momento, Kate teve de reprimir as lágrimas e, logo a seguir, sentiu vontade de rir. Preocupara-se com o filho durante todo o dia, e ele estivera a fazer-lhe um jardim. Que mundo maravilhoso era aquele. Independentemente da velocidade a que ela andava na estrada.

- Sabes uma coisa, Tygue? É o presente mais bonito que já recebi.

- A sério? Porquê?

- Porque trabalhaste muito para o conseguir, e porque é uma coisa viva. E porque haveremos de o ver crescer, de tirar dele coisas boas para comer e flores bonitas. Isso é um grande presente, querido.

- Pois é. - Olhou em volta, duplamente impressionado consigo próprio e, muito sério, deu um aperto de mão a Tillie, enquanto as duas mulheres tentavam não se rir. Foi um momento muito belo. Então Tillie levantou a cabeça, como se se tivesse lembrado de uma coisa.

- Recebeu um telefonema. - Devia ser de Felicia. Kate assentiu, satisfeita mas não muito interessada.- De Nova Iorque.

- Nova Iorque? - O seu coração parou por uns instantes. Nova Iorque? Não podia ser. Provavelmente era alguma coisa idiota, um telefonema da sede da sua companhia de seguros. Algo do gênero. Animara-se por nada. Sabia o que devia esperar. Depois de seis anos, já se habituara.

- Querem que lhes ligue.

- Agora já é tarde. - Eram cinco e meia da tarde na costa oeste, e três horas mais tarde na este. Kate não se incomodou muito.

Tillie assentiu com a sua calma habitual.

- Sim. Ele disse que podia ser tarde. Deixou um número de Los Angeles.

Kate sentiu-se de novo sobressaltada. Mais do que anteriormente. Aquilo era ridículo. Estava a tentar enganar-se. Porque se sentiria tão nervosa?

- Tomei nota do número.

- É melhor eu ir ver. - Olhou para Tygue com um sorriso meigo e a sua voz tornou a suavizar-se.

- Obrigada pelo meu belo jardim, querido. Adoro-o... e adoro-te. - Baixou-se para o abraçar com força e foram para casa de mãos dadas, com Bert a correr ao lado deles o mais depressa que as suas pernitas conseguiam. - Quer um café, Tillie?

A mulher mais velha abanou a cabeça.

- Tenho de ir para casa. Os filhos do Jake vão lá jantar, e ainda há algumas coisas para preparar. - A simplicidade do costume. Jake tinha nove filhos. Teria de fazer jantar para doze pessoas. Para mais ainda, se os namorados e as namoradas também fossem, como era costume. Tillie estava sempre preparada.

Entrou na carrinha com um aceno e depois espreitou pela janela.

- Vai dar mais aulas esta semana, Kate?

Tinha graça que ela perguntasse aquilo, e Kate fitou-a com um ligeiro franzir do sobrolho. Ia sempre duas vezes, mas naquele dia fizera aquela pergunta a si mesma. Não lhe apetecia ir lá uma segunda vez naquela semana.

- Posso dizer-lhe amanhã?

Não iria alterar o que pagava a Tillie - era uma quantia fixa, paga ao mês, por tomar conta de Tygue duas vezes por semana. Achava que era mais simples passar um único cheque, e a combinação agradava a ambas. Se decidisse ir ao cinema à noite, podia deixar Tygue em casa de Tillie e ir buscá-lo no regresso. Tillie não lhe levava nada por isso, pois a criança era mais um «neto». Porém, era raro Kate fazê-lo. Passava as noites sentada à máquina de escrever. E quando saía à noite, sentia a falta de Tom. Era mais fácil ficar em casa.

- Claro, ligue-me amanhã ou no dia seguinte, se quiser, Kate. O dia é seu, seja como for.

- Obrigada. - Kate sorriu e acenou-lhe enquanto encaminhava o filho para casa. Talvez tirasse uma folga e não fosse visitar Tom no fim da semana. Podia plantar mais algumas coisas no jardim com Tygue. Tillie tivera uma idéia excelente. Porque não tinha ela idéias parecidas?

- O que é o jantar? - perguntou Tygue, atirando-se para o chão da cozinha com Bert, fazendo cair lama nos mosaicos impecavelmente limpos.

A mãe sorriu.

- Vou fazer-te uma torta de lama, meu menino, se não fores imediatamente para a casa de banho lavar-te. E leva o Bert contigo...

- Vá lá, mãe... quero ver o...

- É melhor veres o sabonete e a água! Estou falando sério.

Apontou determinada para a casa de banho e foi então que viu o recado de Tillie e se recordou do telefonema de Nova Iorque. Afinal, era da delegação nova-iorquina da agência em Los Angeles que ela usava para vender os seus livros. Os editores estavam todos em Nova Iorque, pelo que o seu agente enviara.para lá os manuscritos e deixara que a delegação de lá se encarregasse de tudo. O seu agente ajudava-a bastante e ganharia muito dinheiro se ela alguma vez vendesse uma história para o cinema; porém, só a idéia de vender um argumento para cinema dava-lhe vontade de rir. Eram assim as fantasias dos escritores. Só os novatos acreditavam que tinham mesmo uma oportunidade. Ela já aprendera, e sentia-se grata por conseguir vender um livro de vez em quando, mesmo que apenas recebesse uns míseros dois mil dólares de três em três anos. Isso ajudava a engrossar o pequeno rendimento que ainda recebia dos investimentos de Tom.

Quando escrevia um livro, enviava-o para o agente de Los Angeles, que por sua vez o punha no correio para Nova Iorque. E Nova Iorque levava dois meses a dizer-lhe que sabiam que ela estava viva; em seguida - se tivesse sorte vendiam-lhe o livro. Recebia o cheque que eles lhe enviavam, e duas vezes por ano o dinheiro dos direitos pelas vendas. Era muito simples. Da primeira vez, haviam levado quase um ano a vender-lhe o livro, da segunda tinham levado o mesmo tempo para lhe dizer que o livro não prestava e que não podiam vendê-lo. Da última vez, haviam-lhe dito que estavam «esperançados». Porém, tinham levado quase dois anos a vendê-lo. Isso fora há um ano. E o livro iria sair dali a um mês. Toda essa morosidade era razoável pelos padrões editoriais. Sabia que os editores ficavam com um livro dois ou três anos antes de o publicarem. Recebera um avanço de três mil dólares, e mais nada. Isso já nem a desiludia. Uma tiragem simpática de cinco mil exemplares e Kate vê-lo-ia na livraria local se se desse ao trabalho de ir lá à procura dele. Um ano mais tarde, a edição estaria esgotada. Desaparecia tão discretamente como surgira. Porém, pelo menos ela escrevera-o. E estava satisfeita com o último livro. Era um pouco enervante pensar que ele podia vender bastante. O tema era-lhe dolorosamente familiar. Quase rezara para que ele não vendesse, não fosse alguém lembrar-se de si. Mas como poderia isso acontecer? Os editores não publicitavam o trabalho de escritores relativamente desconhecidos. E quem era Kaitlin Harper? Ninguém. Estava em segurança. O livro era um romance, mas continha muita informação acerca do futebol profissional, da pressão a que os jogadores e as suas mulheres estavam sujeitos. Escrever fizera-lhe bem. Libertara-a de alguns dos velhos fantasmas. Havia nele muito sobre Tom, o Tom que ela amara, não o Tom que vegetava numa clínica.

- Mamã, já começaste a fazer o jantar?

A voz do filho interrompeu o seu devaneio. Estivera parada junto ao telefone durante quase cinco minutos, a pensar no livro e a perguntar a si mesma o que quereria a agência. Talvez tivesse havido algum problema. Um atraso. Afinal, talvez não fossem publicar o livro dali a um mês. Podiam fazê-la esperar mais um ano. E depois? Já recebera o avanço. E andava a pensar em escrever outro livro. Para além disso, a sua vida era ir buscar o filho à escola e ver lama no chão da cozinha. Que diferença fazia ser escritora? Nenhuma.

- Não, ainda não.

- Mas eu tenho fome - lamuriou-se ele, todo sujo. Devia estar exausto. Trabalhara muito durante o dia, e isso agora começava a notar-se. Contudo, a mãe também estava cansada.

Tygue... - A palavra soou como um suspiro nos seus lábios. - Tygue, toma primeiro o teu banho que eu já preparo o jantar. Tenho de fazer um telefonema.

- Porquê? - Passara da meiguice à rabugice num minuto. No entanto, tinha apenas seis anos. Kate não podia esquecer-se disso.

- São coisas de trabalho. Vá lá, querido. Vê se és simpático...

- Oh... está bem - retorquiu ele, saindo da cozinha com Bert na sua peugada, a mordiscar-lhe os calcanhares. Mas eu tenho fome!

- Eu sei. E eu também! - Bolas, não queria ralhar com ele. Já eram vinte para as seis. Marcou o número da agencia em Los Angeles, perguntando a si mesma se ainda lá estaria alguém. Se não estivesse, ligaria para Nova Iorque na manhã seguinte. Porém, o telefone foi rapidamente atendido e a recepcionista passou-a para a pessoa com quem ela costumava falar: Stuart Weinberg. Kate nunca o vira, mas, como já há vários anos falavam ao telefone, sentia que já eram velhos amigos.

- Stu? É a Kate Harper. Como vai isso?

- Bem. - Tentava imaginar qual seria o aspecto dele: novo, baixo, magro, nervoso e provavelmente bonito, com cabelo escuro e as roupas caras de Los Angeles. Naquela noite parecia estar de bom humor. -E você, aí no meio do mato?

- Não estamos assim tão longe de Los Angeles. Meio do mato! É preciso lata!

Riram-se ambos. Costumavam gracejar bastante sempre que falavam.

- Escute - prosseguiu Kate. - Recebi um telefonema do Bill Parsons, de Nova Iorque. O recado já está um pouco amarrotado, mas diz para eu lhe ligar ou para ligar para si se já for demasiado tarde. Nem me apercebi de que já eram estas horas.

- Vê como trabalhamos no duro por sua causa, menina? Fazemos diretas, gastamos os dedos...

- Pare com isso! Está a pôr-me mal-disposta.

- Desculpe. Achei que merecia um pouco de compreensão.

- Mamã, tenho fome! - A voz vinha da casa de banho e era acompanhada por salpicos e pelos latidos de Bert. Bolas! -Vê se tens calma!

- O quê? - perguntou Weinberg, confuso, e Kate soltou uma gargalhada.

- Isto aqui está um pouco agitado. Parece que o meu lho está a tentar afogar o cão.

- Que boa idéia - comentou ele com uma risada. Kate procurou o tabaco. Não sabia porque, mas o agente estava a deixá-la nervosa.

- Stu?

- Sim, minha senhora? - Havia algo estranho na voz dele. Parecia-se com a de Tygue ao pequeno-almoço, antes de plantar o jardim surpresa.

- Sabe porque é que o Parsons me disse para lhe ligar? Sim.

- Então? - Porque estaria ele a manter o suspense?

- Está sentada?

- Não vão publicar o livro? - Kate sentiu um aperto no coração. Estava prestes a chorar. Voltara a estragar tudo. Nunca mais publicaria um livro. E aquele que era tão bom.

- Kate... - Houve uma pausa interminável, durante a qual ela fechou os olhos e se tentou obrigar a ouvi-lo. Hoje foi um dia incrível, minha querida. O Parsons fechou um negócio em Nova Iorque. E eu fechei outro aqui. O seu editor vendeu os direitos de publicação em paperback do seu livro e eu vendi os direitos de adaptação ao cinema.

A boca de Kate abriu-se, os seus olhos encheram-se de lágrimas; porém, não conseguiu dizer nada. E, subitamente, tudo aconteceu ao mesmo tempo. Lágrimas, palavras, confusão, caos. O seu coração batia com toda a força e a sua cabeça latejava.

- Oli, meu Deus! - Soltou uma gargalhada. - Oli, meu Deus!

- Kate, já sei que não se vai lembrar de nada do que eu lhe disse, mas amanhã voltamos a falar. Aliás, vamos falar bastante durante os próximos meses. Por causa dos contratos, dos planos, da publicidade. Vamos falar muito. E acho que devia vir a Los Angeles para comemorarmos.

- Não podemos comemorar ao telefone? - Apesar da alegria, começava a sentir o pânico. O que estaria a acontecer?

- Falamos depois. Já agora, os direitos de publicação em paperback foram vendidos por quatrocentos e cinqüenta mil dólares. E... - Outra pausa interminável. - Vendi os direitos de adaptação ao cinema por cento e vinte e cinco mil. Tem de dividir o dinheiro do livro ao meio com o seu editor, mas mesmo assim fica com bastante.

- Caramba, Stu, vou ficar com... duzentos e vinte e cinco mil? - Estava perplexa. O que quereria dizer aquilo?

- Tudo somado, vai ficar com trezentos e cinqüenta mil dólares. Já para não falar nos direitos pelas vendas, na publicidade e no que isto poderá significar para o futuro da sua carreira. Minha querida, isto pode ser uma rápida ascensão.

Aliás, eu diria que já está lá em cima. O Parsons falou com o editor do livro em capa dura e ele já subiu a tiragem para vinte e cinco mil exemplares. Para um livro de capa dura, é excelente.

- Ai vai? Ai é?

- Mamã, preciso de uma toalha!

- Cala-te!

- Tenha calma, Kate.

- Pois, já não sei o que estou a dizer. Nunca pensei que isto pudesse acontecer.

- E é apenas o começo.

Deus do Céu, e se alguém se fosse lembrar de Tom? E se alguém estabelecesse a ligação entre ela e o que acontecera havia seis anos e meio? E se...

- Kate?

-Desculpe, Stu. Estou a tentar assimilar tudo isso.

- Não vai conseguir. Tenha calma, descontraia-se e amanhã voltamos a falar. Okay?

- Okay. E Stu... não sei o que dizer. Estou... boquiaberta... é tão...

- Parabéns, Kate.

Ela respirou fundo e sorriu para o telefone.

- Obrigada. - Desligou e levou ainda um minuto a levantar-se e a ordenar as idéias. Trezentos e cinqüenta mil dólares? Bolas! E o resto? O que quisera ele dizer com «e é apenas o começo»? O que...

- Mamã! Bolas! -Já vou!

E ali, na casa de banho, estava a realidade da sua vida. Tygue Harper encontrava-se na banheira com o cão, um chapéu de cowboy na cabeça, e a casa de banho toda cheia de água.

- O que raio estás a fazer? - Mal conseguia manter-se de pé por causa da água que havia no chão. -Por amor de Deus, Tygue! - No seu olhar surgiu uma ira enorme e a criança ficou magoada.

- Mas eu fiz-te um jardim!

- E eu vendi o livro ao cinema! Eu ... Oli, Tygue... Sentou-se no chão, molhando-se toda, sorrindo para o filho com lágrimas nos olhos. - Vendi um livro ao cinema!

- É sério? - Tygue fitou-a muito sério e ela assentiu por entre as lágrimas com um sorriso. - Porquê?