Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 8 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 8

Babe McAdoo morava em uma casa na Setenta e Quatro com a Park. Dada a longa história de temperos de sua família, que Carmen sabia que eram populares nos Estados Unidos, onde tudo é assado, recheado e salpicado, o prédio era grande e imponente, uma daquelas raras mansões de Manhattan que faziam as pessoas pararem devido ao tamanho e à beleza.

Carmen não queria ficar na rua mais do que o necessário. Ela subiu degraus amplos de granito que levavam a duas portas de mogno laqueado enormes que brilhavam sob o sol como se tivessem acabado de ser polidas. Ela tocou a campainha e esperou que alguém atendesse. Quando a porta se abriu, um senhor vestido com um terno preto olhou para Carmen com uma condescendência fria.

Ela sabia que era por causa da forma como estava vestida e pela aparência horrorosa de seu cabelo, pois não tivera produtos adequados no Holiday Inn Express. E, pelo mesmo motivo, ela não estava usando maquiagem. Provavelmente, sua aparência era um desastre completo. Ela o sentiu julgando-a naquele instante e teve que impedi-lo quando ele começou a fechar a porta. Ele achou que ela era uma mendiga.

— Desculpe-me — disse ela. — Sou Carmen Gragera. Tenho uma hora marcada para falar com a Srta. McAdoo.

Os olhos dele se arregalaram. — Você é Carmen Gragera?

— Tive uma noite ruim.

— Aparentemente. Desculpe-me por ter fechado a porta. Pessoas demais batem aqui pedindo dinheiro. Elas vêm em bandos. Eu achei...

Que eu fosse uma mendiga. — Está tudo bem — interrompeu ela. — Eu sei que provavelmente está acostumado a ver algo bem diferente quando alguém vem visitar a Srta. McAdoo. Mulheres com Chanel. Birkins. Peles tão esticadas que é um milagre que não se rasguem. Esse tipo de coisa.

— Receio que sim. — Ele abriu a porta. — Por favor, entre. E perdoe-me novamente. A Srta. McAdoo a está esperando. Presumo que esteja armada?

Ela apontou para o bolso e ele retirou a arma.

— Ela será mantida em um lugar seguro — disse ele, colocando-a no bolso do casaco. — E o resto?

Ela abriu os braços. — Não tenho mais nada, mas pode me revistar.

Ele o fez e, satisfeito, disse: — Siga-me até a sala de estar e sente-se, enquanto eu a busco.

Enquanto a busca? Vou ter que lidar com mais uma pessoa inválida? — Se não for uma boa hora...

— Ela está no andar de cima fazendo a Respiração Tartaruga.

— Como?

— A Respiração Tartaruga.

— Não entendi.

— É parte dos exercícios zen. Depois de vinte minutos de Chacra Naval, ela sempre termina com uma técnica chamada Respiração Tartaruga. Quando ela chegar, verá que estará bem relaxada. — Ele fez uma pausa e reconsiderou o que dissera. — Bem, tão relaxada quanto a Srta. McAdoo consegue ser. Nunca vi uma pessoa com tanta energia. É... inspirador.

A forma como ele disse inspirador soara exaustivo.

Eles foram até a sala de estar, que parecia recoberta de ouro. Papel de parede dourado. Cortinas douradas com puxadores dourados nas janelas de parede inteira com vista para a rua. Um tapete Aubusson dourado estendia-se pelo chão de parquê. Molduras douradas esculpidas no teto.

Como nuances de cor, Babe McAdoo colocara um piano Steinway preto perto das janelas da frente, pinturas grandes nas paredes que circundavam a sala e quatro cadeiras vitorianas vermelhas, estofadas com veludo, que ficavam no centro da sala, viradas umas para as outras, com uma mesinha de café de mármore entre elas. Havia mais, mas, apesar de desejar, ela não queria absorver tudo. Queria tratar de negócios.

Mesmo assim, quando Carmen se sentou em uma das cadeiras desconfortáveis, a parte dela que admirava tudo o que a rodeava não pôde deixar de olhar e avaliar. O que viu foram obras verdadeiras, aparentemente intocadas. Ao olhar ao redor, ela pensou que muitas pessoas deviam precisar dos Temperos McAdoo, pois o que notou — da pintura de lírios de Monet ao abajur Tiffany autêntico sobre a mesa sob o quadro — foi que não estariam na coleção dela se não fosse assim.

Houve uma perturbação no ar. Ela ouviu passos descendo a escada enorme que vira na entrada. Em seguida, uma voz. — Algo molhado — ela ouviu uma mulher dizer. — Algo que borbulhe na língua. Um borrifo fantástico. E talvez biscoitos ou algo parecido. Pense em algo. É o que você faz de melhor, Max. Cinco minutos. Ela está lá dentro?

— Está, madame.

— Estou louca para conhecê-la. Preciso disso. Meu corpo precisa. Já faz tempo demais. E traga também um pouco de queijo. Ela pode estar com fome. Ouvi dizer que ela teve uma noite infernal, pobrezinha. Coloque um pouco de pó de pimenta McAdoo sobre o queijo. A minha mistura, não aquela diluída que vendemos. Dará um toque especial. Mas não coloque demais. Não quero explodir a cabeça dela.

— Madame...

— Eu sei, não foi uma boa escolha de palavras.

— Ela está logo ali.

— Cinco minutos, Max. Nem um minuto a mais. Você sabe como fico depois da Respiração Tartaruga.

— É claro. Cinco minutos.

— Então vá.

Carmen ouviu quando ele se afastou. Ela se levantou e olhou para a entrada da sala de estar. O que surgiu foi uma mulher de meia idade, talvez perto dos sessenta anos, mas, com um pouco de ajuda médica, parecia mais perto dos cinquenta. Babe McAdoo tinha cabelos ruivos puxados para trás, em um coque apertado, que revelava um rosto fino ovalado, marcado pelos anos de extrema riqueza e toda a pressão que a acompanhava. Usava um caftan amarelo tão delicado que ela parecia quase etérea ao se mover.

— Olá, como vai? — perguntou ela, atravessando a sala com a mão estendida. — Sou Babe McAdoo. Pode me chamar de Babe. Todos me chamam assim, mas só depois que peço.

— Carmen Gragera — disse Carmen. — É um prazer.

— Não nessas circunstâncias, receio. Sei que você sofreu um golpe terrível, que teve uma noite difícil e que alguém está tentando matá-la. E que você precisa de minha ajuda. Gelling não a mandou aqui sem motivo.

— Não, mas eu tive a impressão de que minha conversa com ele era particular.

— Até onde podia ser, sim. Não sei de nenhum detalhe, só as linhas gerais. Gelling tinha que me dizer alguma coisa para que eu concordasse em recebê-la. Não recebo qualquer um e ele sabe disso.

Babe McAdoo se virou e acenou em direção às cadeiras vermelhas. — Portanto, sente-se — disse ela. — Bem ali, naquela cadeira vermelha. Vamos sentar e conversar. Vejamos o que precisa ser feito e como podemos rearrumar as peças no tabuleiro para que o jogo esteja a seu favor, e não deles. Eu vivo para isso!

 

* * *

 

Depois que Max voltou com o queijo temperado com a mistura particular de pimenta de Babe McAdoo, os biscoitos e duas taças de champanhe borbulhante, Babe acenou para que ele se retirasse e ergueu a taça para Carmen. — Um brinde ao fato de termos nos conhecido.

Carmen ergueu a taça, tocou-a na de Babe e tomou um gole minúsculo. Ela raramente bebia, mas não queria ofender essa mulher que talvez pudesse ajudá-la. Ainda assim, para chegar onde queria, obviamente haveria uma conversa, o que a deixava tensa. Ela já percorrera a alameda das memórias com Gelling e não queria fazê-lo novamente com outra pessoa estranha.

Mas, se era o que precisava fazer para chegar até Katzev, ela o faria.

Babe McAdoo a surpreendeu. Ela se recostou na cadeira vitoriana vermelha e cruzou a perna direita elegantemente sobre a esquerda.

— Vocês são todos iguais — disse ela.

— Como?

— Nenhum de vocês quer falar. Não é uma crítica, é somente uma observação. Sua privacidade significa muito para você. Eu sei que sim, por uma infinidade de motivos, e entendo, pois a minha privacidade também significa muito para mim por causa de quem sou. Mas deixe-me lhe dizer uma coisa. Não sou Gelling. — Ela revirou os olhos e tomou outro gole de champanhe. — O psiquiatra dentro dele tem uma sede que não será saciada até que o coração murcho finalmente pare de bater e o espírito escape pelos lábios e, espero, por uma janela aberta. Somente então, quando a energia dele voltar para o universo e encontrar as respostas para mais perguntas do que acha possível, ele será verdadeiramente feliz. — Ela fez uma pausa. — Eu acho.

Ela largou a taça sobre a mesa entre elas, botou um pedaço de queijo em um biscoito e o colocou na boca, saboreando-o com os olhos fechados. — Quando eu disse que devíamos nos conhecer, só estava sendo educada. Você não precisa compartilhar seus segredos comigo, Carmen. Mas aconselho que me conte as coisas que acha que nos ajudarão a encontrar a pessoa, ou as pessoas, responsável pela morte de seu amigo, Alex, e por quase matá-la. Caso contrário, de que adianta? Você só estaria desperdiçando meu tempo, o que não posso permitir. Portanto, sim, você terá que cuspir alguns segredos ao longo do caminho. Você se sentirá desconfortável com isso, eu entendo, mas espero que resulte em uma conclusão bem-sucedida. Faz sentido?

— Posso concordar com isso.

— Excelente. Coma um biscoito com um pouco de queijo. Você parece faminta e mal nutrida. Não seja tímida. E, se não bebe, não vamos fingir que bebe. O que gostaria?

— Estou bem, de verdade.

— Não estará bem depois que minha pimenta McAdoo chegar à sua boca. — Ela chamou Max. — Um copo de água, Max, com limão para refrescá-la. Um copo alto. Tout suite! — Ela voltou a atenção para Carmen, que estava pegando um biscoito e colocando um pedaço de queijo sobre ele. Afinal, verdade seja dita, ela estava mesmo faminta.

— O que aconteceu ontem à noite? — perguntou Babe.

Max já estava vindo em direção a elas com um copo de água sobre uma bandeja de prata. Uma fatia de limão estava presa na borda. Carmen pegou o copo, agradeceu, comeu o biscoito com queijo — e imediatamente bebeu a água.

— Viu só? — disse Babe. — Eu sabia que você precisaria da água. É a minha mistura. Tentamos vendê-la nas lojas, mas ninguém comprou. Não que eu me importe. As massas gostam dela suave, eu gosto dela forte.

A língua de Carmen parecia queimada. — Percebi.

— Você não é espanhola?

Ela assentiu.

— E é apimentado demais para você?

— É uma bomba nuclear.

— É assim que eu gosto. Então, vamos começar? O que aconteceu ontem à noite?

Carmen tomou outro gole d'água, começou pelo princípio e contou tudo a ela, em detalhes.

— Então, você matou um homem?

Ela assentiu.

— Mas poupou outro?

Ela assentiu.

— Devo dizer, foi genial a forma como se livrou dos outros homens. Três deles? Ligar para a polícia? Afastar-se deles caminhando porque sabia que eles não poderiam tocar em você com a polícia presente? É para esse tipo de coisa que eu vivo.

— Você disse isso antes. Posso perguntar por quê?

— Porque sou uma McAdoo.

— E o que isso tem a ver?

Babe tomou um gole de champanhe. — Eu nasci e fui jogada em uma vida absolutamente tediosa. Quando eu era pequena, tudo parecia um script. As expectativas da família e da sociedade eram esmagadoras. Meus irmãos e irmãs abraçaram ambas, pois isso trazia poder e status, que não me interessavam. Quando ainda eram vivos, meus pais deleitavam-se com suas posições pelos mesmos motivos. Mas eu não. Acho que, na época em que eu estava na faculdade, dei-me conta de que precisava de algo mais, mas não sabia o que, além do fato de que precisava de aventuras. Algum tipo de intriga parecida com os livros de mistério que lia. Anos mais tarde, encontrei isso em um novo namorado. Descobri que ele era um assassino. Ainda é, na verdade. Tivemos um caso de amor. Ele é muito mais jovem do que eu — acho que ainda estava começando naquela época — mas não importava. Apesar de breve, tivemos momentos maravilhosos juntos. Eu era fascinada pelo que ele fazia. Ele era destemido, talentoso e brilhante. Nós nos demos maravilhosamente bem. Ele me apresentou a muitas das pessoas que, provavelmente, poderão nos ajudar agora. Parte de mim ainda vive alimentada por ele.

Carmen precisava perguntar. — Está falando de Spocatti?

— E se estiver? — ela deu de ombros como se não importasse. — Vamos direto ao ponto, Carmen. Quem acha que está por trás disso?

Ela contou a Babe sobre o consórcio. Contou sobre o que Laurent tentara fazer com ela e Alex, como o tinham matado no Four Seasons na frente de uma multidão reunida para celebrar o presente de Leana Redman para uma organização de prevenção ao suicídio e como Alex fora assassinado na casa dela em Bora Bora três semanas depois.

— Eu nunca gostei dos Redman — disse Babe. — Quer dizer, pelo menos a maioria deles. A forma como George Redman derrubou essa cidade para transformar tanto dela em sua propriedade é nojenta, por causa de alguns dos belos prédios antigos que perdemos. Mas eu gosto da filha dele, Leana. Eu a encontrei uma vez em uma festa beneficente no iate de Anastassios Fondaras. Aquela garota é brilhante. E é rebelde, gosto disso. Sempre achei que o pai dela a tratou muito mal, mas ele é esse tipo de homem. Sempre favoreceu Celina, quando eu teria escolhido Leana. Observe. Leana é ambiciosa e chega onde quer, não importa quem tenha que derrubar para isso.

Ela viu o olhar paciente no rosto de Carmen e terminou o champanhe. — Mas estou divagando. Esse consórcio sobre o qual falou — é claro, já ouvi falar dele. No decorrer dos anos, encontrei Laurent algumas vezes, apesar de ele só ter me dado atenção quando descobriu que eu era uma McAdoo. Ele adorou saber disso, como tantos, por motivos que fazem minha pele se arrepiar. Para mim, ele parecia um verdadeiro filho da puta. Alguma coisa nele me deixava inquieta. Então, claro, quando descobri que ele era parte desse consórcio, minha inquietação fez sentido. — Ela olhou para Carmen. — Você sabe do que se trata esse consórcio, não sabe?

— Eles sempre mantiveram segredo, mas não é preciso ser um gênio para descobrir. Os homens e as mulheres que fui contratada para matar eram líderes empresariais. Presidentes de corporações. Esse tipo de coisa. Depois de cada assassinato, eu esperava alguns dias e procurava no Google a pessoa que substituíra aquela que eu matara. Algumas vezes, descobri que a empresa fora colocada à venda pela súbita falta de liderança. Quando descobria quem se beneficiava com a morte, tinha uma visão um pouco melhor de com o que eu estava lidando. O consórcio não é composto de apenas algumas pessoas. É composto de muitos homens e mulheres poderosos, a maioria deles tão ambiciosos que matariam para subir ainda mais dentro da própria empresa ou assumir uma outra empresa que está vulnerável.

— Laurent foi a única pessoa com quem você trabalhou?

— Não. Também trabalhei com um homem chamado Katzev. Acredito que ele seja responsável por eu e Alex termos sido seguidos até a ilha. Não sei com certeza, mas acho que ele queria vingar a morte de Laurent. Ele pegou Alex, mas não me conseguiu me pegar, o que resultou no que aconteceu na noite passada. Você o conhece?

— Eu o conheci há muitos anos.

Carmen não pôde conter a surpresa. Nem mesmo ela encontrara-se com Katzev. — Mesmo?

— Mesmo. Há muito tempo. Ele domina bem o sotaque, mas não é russo.

— Ouvi dizer que é escocês.

— Isso mesmo, mas é difícil detectar, não é? De alguma forma, acho que ele é ainda pior do que Laurent. Ainda mais perigoso, se é que isso é possível.

— Como você o conheceu?

— Por meio de Laurent. Foi só de passagem, e não gostaria de encontrá-lo de novo. Ele me deu arrepios. Provavelmente bate em mulheres. Tem certeza de que ele é responsável pelo que aconteceu com Alex?

— Eu não tenho certeza absoluta. Mas meu instinto diz que sim, e meu instinto nunca me falhou. Confio nele. Além disso, os fatos se somam. Matamos Laurent. Três semanas depois, nos encontraram, Alex foi assassinado e quase me pegaram. Não pode ser uma coincidência.

— Tudo isso parece apontar para o consórcio — disse Babe. — Mas e seus outros trabalhos? Você tem inimigos, já pensou neles?

— Spocatti me perguntou a mesma coisa. Serei franca com você, Srta. McAdoo...

— Babe.

— Babe. Na vida de qualquer assassino, sempre haverá alguém à sua procura. O troco é a natureza do jogo. Poderia ser outra pessoa? Claro. Mas não acho que seja.

Babe se inclinou para a frente na cadeira, juntou as palmas das mãos e apontou os dedos para Carmen. — Eu também não acho — disse ela. — Na verdade, eu sei que Katzev está por trás disso. Quer saber como eu sei?

Carmen ficou intrigada pela súbita reviravolta. McAdoo sabia? — É claro.

— Achei que sim. — Babe virou-se na cadeira. — Max! — gritou ela. — Traga-o aqui.