Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 30 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 30

Carmen e Vincent sacaram as armas e as apontaram à frente deles no momento em que viram que o depósito estava mergulhado na escuridão.

A porta foi aberta manualmente. A pessoa que a abriu e fechou afastou-se rapidamente. O aposento tinha cheiro de fumaça e de algo mais que Carmen não conseguiu definir. Um extintor de incêndio? Fazia sentido, mas ela não sabia o motivo pelo qual ele fora usado. Ela olhou em volta procurando Chloe — qualquer pessoa — mas não conseguia ver nada.

— É uma armação — disse ela para Spocatti. — Eles podem estar usando óculos de infravermelho.

— Deixe que eu lido com isso. — Ele deu um passo à frente. — Ligue as luzes, Katzev. Não foda comigo. Você perderá. Ligue-as agora.

Da parte de trás do depósito, veio o som de um isqueiro, seguido de uma chama minúscula sendo acesa na escuridão. Carmen conseguiu ver os traços do rosto de Katzev na penumbra. Ele segurava o isqueiro à sua frente, o que lançava sombras inquietas sobre o rosto dele. Ela nunca o vira antes, mas fora assim que o imaginara. Com as sombras dançando sob os olhos, ele parecia demoníaco. Maligno.

— Acalme-se — disse ele. — Não temos luz porque a garota de Carmen atirou na caixa de disjuntores depois de matar um dos meus homens. Nada que eu possa fazer a respeito. Você tem sorte de haver uma tranca manual naquela porta para que pudéssemos deixar vocês entrarem.

— Você está me dizendo que não tem luzes de emergência nesse buraco? Mentira — disse Spocatti. — Não acredito nisso.

— Acredite. O prédio é velho, Vincent. Quando ela ateou fogo em um dos meus carros, nem o sistema de aspersores funcionou. Se tivesse, estaríamos encharcados, e os bombeiros e a polícia estariam aqui.

Carmen processou a informação rapidamente. De alguma forma, Chloe conseguira pegar uma arma. Matara um dos homens de Katzev. Provavelmente atirara em vários carros, o que explicava as sirenes que ouvira mais cedo. Uma ou mais balas devem ter causado um incêndio. Por algum tempo, todos ficaram confusos e ela provavelmente achara um lugar para se esconder. Garota esperta, pensou ela. Irresponsável, mas esperta. Agora, onde você está?

— Onde está Chloe? — perguntou Spocatti.

— Não faço ideia — disse Katzev. Ele deu um passo à frente e Carmen viu, na aura da luz em volta dele, que um homem com uma espingarda estava inclinado sobre o capô de um dos carros. A espingarda estava no ombro dele e apontada para eles. — A vadiazinha assassina desapareceu. Está aqui dentro, em algum lugar. E não se preocupe com a falta de luz. Já tomei providências e será resolvida em breve.

— Por mais de seus homens? — perguntou Carmen.

— É assim que a luz vai chegar aqui, Carmen.

— E por que isso soa terrivelmente conveniente, Iver?

Ele fez uma pausa com a menção de seu nome verdadeiro. Ela quase podia senti-lo se arrepiando ao ouvir o som dele. Com o fato de ela ter ousado usá-lo em sua presença e em frente aos homens dele. — Pense o que quiser — disse ele. — Mas foi sua garota que criou isso. Agora, eu preciso consertar. Caso contrário, ficaremos no escuro.

— Que é como me sinto nesse momento — disse ela a Spocatti, em voz baixa.

— Não que a situação da luz seja difícil de resolver — disse Katzev, apagando o isqueiro. — Liguem as luzes.

Em rápida sucessão, os faróis de todos os carros que não tinham sido danificados por Chloe começaram a acender, com a luz correndo do lugar onde Spocatti e Carmen estavam até a outra ponta do depósito onde Katzev estava.

Por um momento, Carmen não conseguiu ver nada. Os faróis altos, logo depois da escuridão absoluta, a cegaram. Ela ergueu a mão para proteger os olhos e notou que Spocatti estava parado, com os olhos semicerrados olhando para a frente.

— O que aconteceu com "somente Katzev e um guarda"? — perguntou ela. — Estamos rodeados de gente.

As portas dos carros foram abertas e fechadas. Passos soaram no concreto. Homens armados se posicionaram à frente de cada um dos carros, com as pistolas e as espingardas apontadas para ela e para Spocatti.

Era uma emboscada. Por que Spocatti não dizia nada? E onde estava Chloe? Embaixo de um dos carros? Provavelmente. Com sorte, em algum lugar mais discreto. Mas não importava onde ela estava, com essa luz, Carmen temia que não demoraria até que a encontrassem e possivelmente a matassem, já que matara um dos homens dele.

— Eu sei o que está pensando — disse Katzev. — Tantos homens. Mas quando sua Chloe quebrou nosso trato, não tive escolha. Tive que trazer todos os meus homens para que as coisas voltassem ao que eram.

— Ela não sabia sobre o nosso trato. Como poderia? Se ela matou um de seus homens, foi porque estava tentando salvar a si própria.

— Matar um de meus homens só resultará na morte dela.

— Não, não vai, pelos motivos que eu e você já discutimos — disse Spocatti. — Com exceção de você e seu capanga, que foi o que combinamos, recomendo que cada um de seus homens largue a arma, jogue-a para baixo do carro à frente do qual está parado e saia imediatamente. Foi esse o nosso acordo. Cumpra-o ou haverá consequências.

Mas Katzev o ignorou. Ele começou a avançar, estimulado pelo fato de que tinha pelo menos vinte de seus homens de prontidão. — Sabe por que está aqui, Carmen?

Por causa da forma como as luzes brilhavam, ela só conseguia ver uma silhueta caminhando em sua direção e não conseguia ver o rosto de Katzev. Ele ainda era um enigma para ela.

— Presumo que tem a ver com Alex? — disse ela. — Que você assassinou.

— E por um bom motivo — disse Katzev. — Alex era um agente perigoso. Ele descobriu coisas sobre o consórcio que temos certeza de que compartilhou com você. E foi por isso que você virou um alvo para eliminação.

— Que coisas?

— Diga-me você — disse ele.

— Alex não me contou nada, Iver. Não sei do que você está falando. Tudo o que posso dizer a você é o que eu descobri sozinha sobre você e o consórcio. E é muita coisa. Se não recuar e soltar Chloe, o mundo saberá tudo sobre vocês todos.

— Você não me intimida, Carmen.

— Então deixe-me ser um pouco mais clara. Será que o que sei sobre Hera Hallas a intimidaria o suficiente para acabar com sua ligação com o consórcio? Ou Conrad Bates, que odeia você? Ou Marius Albert, que mora em Paris e sente-se da mesma forma em relação a você? Ou qualquer outro membro do consórcio? Eu fiz o dever de casa, Iver, e sei quem são vocês todos. Isso não tem nada a ver com Alex, que guardou seus segredos, apesar de ter morrido porque você achou que ele era perigoso. Estou aqui para lhe dizer que ele carregou os seus segredos para o túmulo. Ele morreu à toa. Você o roubou de mim. Portanto, aqui estou, para me vingar. E vou fazer isso, de uma forma ou de outra.

— É melhor recuar, garota — disse Katzev. Mas, apesar de tentar fazer o sotaque russo falso soar durão, um pequeno rastro de preocupação era aparente. Carmen percebeu e se agarrou a ele.

— O que descobri sobre você e os outros tem tudo a ver comigo e com os meus contatos. Ou, devo dizer, um contato muito especial que morreu hoje, mas cujo funcionário falou comigo há alguns momentos depois de decidir que o patrão dele queria que eu recebesse as informações que compilou para mim depois de tanto trabalho. Você nunca saberá quem ele é. Mas, por causa dele, tenho informações sobre você e todos os outros membros do consórcio. Informações detalhadas, como e onde você mora, suas propriedades, onde investiu, em que prédios mantém os escritórios corporativos. Além disso, quem você mandou matar durante todos esses anos. Já providenciei com o meu contato na polícia de Nova Iorque para que, se alguma coisa acontecer comigo hoje, as informações que enviei a ele mais cedo sejam totalmente investigadas, expostas e divulgadas no mundo inteiro. Sobre tudo o que você fez de errado e acho que concordamos que foi bastante. Quer que eu cite o resto dos nomes, Iver? Sim? Não? Eu posso fazer isso, do mesmo jeito como posso impedir a morte de seus familiares. O que deve acontecer em alguns minutos, a começar pela sua mãe.

Spocatti se virou para ela surpreso. Ela podia senti-lo olhando para ela, reavaliando-a. Agora ele sabia por que ela usara o celular mais cedo. Agora ele sabia, assim como Katzev, que as informações que tinha eram verdadeiras. Melhor ainda, se ele ainda não sabia disso, não havia dúvidas de que ela era uma força a ser levada a sério.

— Preciso que seus homens saiam, Iver. E com isso quero dizer que devem dar o fora e não esperar do lado de fora. Preciso que entrem em seus carros e partam. Quando eu tiver certeza de que eles se foram, você solta Chloe, como foi acordado. Alguém está lá fora para pegá-la. Depois, eu e Spocatti vamos sair daqui. Você nunca mais vai entrar em contato comigo. Esquecerei tudo o que sei sobre você e o consórcio. É minha promessa a você. Quanto a Vincent, se quiserem continuar trabalhando juntos, é entre vocês. Eu realmente não me importo. Mas se vier atrás de mim novamente, meu contato está sentado em cima de um milhão de dólares, e só receberá a chave para pegá-lo de uma fonte desconhecida se o consórcio fizer alguma coisa contra mim a partir desse momento.

— E como ele saberá que fomos nós, Carmen? Tantas pessoas gostariam de vê-la morta. Pode ser nós. Pode ser qualquer outra pessoa. Como ele saberá?

Ela não previra essa pergunta e pensou rapidamente. — Iver, eu conheço sua mão. Você a mostra muito bem. Eu sempre saberei quando estiver sendo seguida por você. Quando isso acontecer, avisarei meu contato. Se alguma coisa acontecer comigo, ele saberá que foi você, a chave e o dinheiro serão dele, e todas as informações sobre o consórcio. Isso deverá lhe render aquela promoção gorda e a publicidade que lhe escaparam por tantos anos.

Ela ergueu o braço para olhar para o relógio. A mera ação de se mover fez com que vários dos homens que a rodeavam ficassem alertas e em posição com as pistolas e as espingardas. — Ora, vamos — disse ela. — Parem com isso. Não ouviram nada do que acabei de dizer?

Katzev abaixou a mão e eles relaxaram.

— Sua mãe morre em vinte minutos, a não ser que meu contato tenha notícias minhas. Você viu o vídeo. Sabe que ele está lá. Nada disso é mentira, Iver. Vamos nos livrar completamente um do outro.

— Mas você já disse que está buscando se vingar — disse Katzev. — Então, onde está sua vingança?

— Você é cego? Surdo? Não ouviu nada do que eu disse? Se vier atrás de mim em algum momento, o consórcio será revelado e investigado até os níveis mais altos. Incluindo você. Essa é a minha vingança. Ela continuará quando todos vocês forem expostos, forem publicamente levados a julgamento e, depois, colocados atrás das grades. Será um circo. Sua reputação será destruída. Essa é a minha vingança. Mas não termina aí. Minha vingança também é privá-lo de me matar. Caso seja burro o suficiente para fazê-lo, enfrentará a lei. Agora, tire seus homens daqui. Diga a eles para irem para bem longe. Você precisa agir depressa e levar isso a sério. Encontraremos Chloe e a soltaremos. Depois, Vincent e eu sairemos. Não sei o que ele vai fazer, mas eu sairei da sua vida para sempre.

— Sobre o Spocatti — disse Katzev. — Ele provavelmente tem o mesmo contato na polícia de Nova Iorque. Pelo menos, tenho certeza de que ele pode descobrir quem é e oferecer a ele mais dinheiro para se afastar e esquecer de tudo isso quando você morrer. Quanto ao homem que você contratou para matar a minha família, também tenho quase certeza de que Spocatti sabe quem é e pode dar um telefonema que o deterá. Pagaremos muito bem a ele para que faça isso.

Ele começou a andar em direção a ela. — Você é tão ignorante, Carmen. Tão arrogante. Porque há uma coisa que você não sabe. Spocatti? Seu bom amigo, Spocatti. Ele não tem consciência. É isso que eu adoro nele. É por isso que vou continuar trabalhando com ele enquanto eu estiver vivo. Sem você e sem o amor da sua vida, Alex, disponíveis para trabalhar, parece que ele ficará muito ocupado por vários anos.

Ele fez uma pausa quando Spocatti se virou e apontou a arma para ela. Carmen olhou para ele confusa. Recuou um passo quando o laser da Glock 19 dele acendeu e parou logo abaixo do olho direito dela.

— O que está fazendo? — ela perguntou. A voz dela expressava a confusão. Isso era algum tipo de brincadeira?

— O que parece, Carmen? — perguntou Spocatti. — Fui contratado para matá-la hoje à noite. Nada pessoal, então pare de agir como se fosse. É o que pessoas como nós fazem. Quer dizer, pelo menos é o que pessoas como eu fazem. Eu aceito o trabalho, pego o dinheiro e faço a minha parte. Não tenho a sua consciência. Eu mato crianças. Não estou interessado em fazer o bem. Só estou interessado em mim mesmo. Agora vire-se. Largue a arma. Isso não vai terminar do jeito como você deseja.