Vingança em Manhattan
Capítulo 23
— Frank — disse Gelling. — Pode me ajudar a encontrar outro número? Sim? Sims Cliveden. Esse será o último. Não há tempo para outros. Sims me dirá o que preciso saber, pois sei que não matou a amante ele mesmo, há tantos anos, naquela noite terrível em Sagaponack. Foi outra mão, não a dele. Ele é um covarde e contratou alguém. A culpa o trouxe até aqui uma noite e ele me contou tudo, em um desabafo meio incoerente. Acho que ele pensou que eu pudesse lhe oferecer expiação. Tudo o que eu podia fazer era ouvir e não julgar, que é o que faço de melhor. Mas eu me lembrei, hoje mais cedo, enquanto pensava sobre esse ângulo que estou investigando, que fiquei confuso no momento do colapso nervoso de Sims, pois foi a primeira vez em que ouvi menção do consórcio sobre o qual ele falou. Sims o usou, deve ter usado. E tenho certeza de que estamos atrás do mesmo consórcio. Quero dizer, quantos consórcios existem lá fora?
Ele olhou para Frank quando o homem ergueu a sobrancelha e, em seguida, ergueu a mão frágil o máximo que conseguiu, o que não foi muito, por causa da artrite que a consumia. — Não responda. Você é um ex-fuzileiro cheio de informações e poderá arruinar as coisas para mim. Eis a agenda. Você encontrará o número aí dentro.
— Quer que eu disque novamente, senhor?
— Seria ótimo, Frank. Você sabe que não consigo ver merda nenhuma. E meus dedos são pretzels. Algumas vezes fico surpreso, quando ando para lá e para cá nesse buraco com a cadeira de rodas, por não bater em nada.
— Algumas vezes, eu me preocupo com isso, senhor.
— Não se preocupe. Eu conheço cada canto, cada ângulo. É minha pista de corridas e minha fuga.
— Eis o número.
— Perfeito. Você sabe, Frank, quando isso terminar, terei o nome de todos que compõem o consórcio. Ou, pelo menos, boa parte dos nomes. Provavelmente há mais, mas é um bom começo e, se Carmen usar a lista da forma certa, e eu sei que usará, isso balançará os alicerces. E então veremos o que Illarion Katzev fará. O tempo é fundamental. Além de ajudá-la, acho que esse tal de Katzev vai mijar no kilt quando descobrir sobre a lista. Pois saberá que, quando ela estiver nas mãos de Carmen, virará o jogo.
Ele viu o olhar confuso que cruzou o rosto normalmente neutro de Frank e explicou. — Katzev nasceu como Iver Kester em uma fazenda de ovelhas de segunda categoria em Aberdeen antes de virar russo, entrar em um voo para os Estados Unidos e começar a assistir filmes americanos em excesso, a maioria sobre a máfia. Por isso ele é assim hoje. Ele é totalmente escocês, mas negaria isso em um minuto. Um velho conhecido me disse que ele passou anos com um tutor pessoal, que o ensinou a falar russo de forma perfeita e fluente, e também a falar inglês como se tivesse nascido russo. Quem pensa desse jeito? Se eu fosse mais jovem e ainda estivesse publicando em diários, escreveria um estudo de caso sobre ele sem pensar duas vezes.
Ele olhou para o olho coberto de Frank, conferiu a hora no relógio cor de safira que brilhava, e desviou o olhar para o outro olho por educação.
— Isso tem sido revigorante. Todas essas investigações. Graças aos céus eu tratei tantos malucos ricos e assassinos na vida. É empolgante. Você sabe que isso pode ter me dado mais um ano de vida. Posso sentir meu coração batendo como se eu fosse jovem de novo. Consegue ler minha letra aqui?
Ele mostrou a Frank o pedaço de papel com a lista de nomes, endereços e outras informações.
— Sim, consigo.
— Tudo?
— Tudo.
— Perfeito. Ok, disque o número de Sims. Vou lembrá-lo do que sei sobre ele e a amante. Ele falará. Assim como Piggy French, Sims Cliveden sempre fala. O lado bom é que ele não precisa estar bêbado nem drogado para isso.
* * *
Mais tarde, Sims Cliveden, do Pittsburgh Clivedens, disse a Gelling o nome da pessoa que ele usara para matar a amante, Jacqueline, nove anos antes, antes que ela cumprisse a ameaça de causar problemas entre Sims e a mulher dele, Florette, com quem estava casado havia vinte e três anos.
Gelling conhecia a história porque, na época da morte de Jacqueline, Sims era seu cliente e, como um católico cheio de culpas, ficara ruborizado ao contar tudo durante uma de suas sessões.
Gelling foi até os arquivos e encontrou suas antigas anotações. O homem que Sims usara chamava-se Conrad Bates. Por algum motivo, o nome soava familiar para Gelling — ele sentia que havia alguma conexão com o nordeste — mas não sabia o motivo e, certamente, não importava agora.
O que importava é que ele tinha compilado oito nomes e, apesar de duvidar que cobrissem todos os que pertenciam ao consórcio, era suficiente para armar Carmen com as informações de que ela precisava agora para desarmar Katzev.
Ele leu a lista novamente e, com orgulho, colocou-a de volta na mesa. Em um momento, ele telefonaria para Carmen com as informações e pediria a ela que viesse buscá-las. Era o trunfo dela contra Katzev e o consórcio. E ele ajudara a fabricar.
Mesmo com a minha idade, pensou ele, empolgado.
Girando apressado, ele se afastou da mesa com a cadeira de rodas elétrica e olhou em torno à procura de Frank, que devia ter saído para usar o banheiro ou buscar algo para comer.
Deixe-o em paz, ele pensou consigo, um fiapo de ideia já se formando. A oportunidade aparece.
Cinco meses depois de fazer noventa e seis anos, os médicos disseram a James Gelling que ele nunca andaria novamente. Os quadris, operados vinte anos antes, estavam gastos demais, bem como os joelhos, também operados, que travavam sempre que ele subia ou descia escadas.
Ele queria fazer uma cirurgia para corrigir os quadris e os joelhos. Mas, devido à idade, a médica o aconselhou a não fazê-lo. — É improvável que você sobreviva — disse ela. — É arriscado demais.
— Por quê? — perguntou Gelling.
— Você sabe o porquê.
— A anestesia? — perguntou ele.
— Isso mesmo — disse ela. — A anestesia. E também a sua idade. Você não é jovem, James. A cirurgia será demais para o seu corpo, especialmente por causa da duração dela. Ela o matará. Você sabe disso. A não ser que eu esteja entendendo errado, não acho que queira que isso aconteça.
— Não sei o que eu quero. — Ele fez uma pausa quando um sentimento de derrota o invadiu. Ele queria uma vida normal. Queria continuar praticando a profissão, mas ela também dissera a ele para parar, pois precisava do descanso. A ideia o deixou furioso. Ela estava tirando dele tudo o que importava. — Está sugerindo que eu passe o resto da vida em uma cadeira elétrica, até que a morte venha me buscar? — perguntou ele.
— Estou dando meu melhor conselho — disse ela. — E, não, não é o que estou sugerindo. Com ajuda, você ainda pode ter uma vida significativa. O que precisa descobrir é como essa vida será, dada sua situação atual.
Ele se lembrava de ter olhado pela janela e perder-se na penumbra chuvosa do horizonte de Manhattan.
— Comecei a cagar nas calças — disse ele, com uma voz distante. — Não contei a você sobre isso. Uso fraldas agora, que não consigo trocar sozinho, então há a humilhação adicional de pedir a alguém que a troque para mim e limpe minha bunda porque tenho incontinência. O homem que faz isso é Frank. Ele é uma joia. Um cara incrível, ex-fuzileiro, mais alto do que é possível geneticamente, mas só tem um olho e morro de vontade de ver o que há sob o tapa-olho. Ele não me mostra. Provavelmente, sente-se humilhado. Obviamente, sente-se envergonhado. Eu conheço esse sentimento. O que adoro nele é que ele é um excêntrico. Tem um relógio costurado na parte da frente do tapa-olho. Consegue imaginar? Eu acho que ele faz isso para desconcertar as pessoas, que não sabem para onde olhar quando falam com Frank. Eu sei que tenho sorte de tê-lo ao meu lado, mas quero andar de novo. Não quero ficar em uma maldita cadeira de rodas.
— E quem quer?
— Mas é onde você está me colocando. O que vou fazer em uma cadeira de rodas? De verdade?
— Algo diferente. Algo que use capacidades que você nem sabe que tem. Você precisa ficar em paz com isso. Teve uma vida boa, James. E, com exceção das pernas, dos joelhos e dos dedos deformados, você tem uma saúde excelente. Metade das pessoas na sua idade não podem dizer o mesmo.
— Meus dedos deformados. Isso também deveria fazer com que eu me sentisse melhor?
— É para dar a você a perspectiva correta. Você teve uma vida ótima. Ainda pode aproveitar alguns anos, especialmente se encontrar um motivo para acordar todas as manhãs. Um novo tipo de carreira.
Ele consultara outros médicos, mas, para sua decepção, todos concordaram. A cirurgia seria o seu fim. Ele morreria em uma mesa, com um dos quadris de titânio já removido. Mas, em vez de ser colocado de volta dentro do corpo de forma adequada, ele sabia como funcionava. Eles só o jogariam de volta lá dentro, de qualquer jeito, e o costurariam, sem se importar com a aparência.
Para Gelling, que tinha planos muito específicos para o funeral e o enterro, a ponto de ter contratado uma agência de teatro para colocar nove atrizes, de várias idades, ao redor do enorme caixão de mogno, onde deveriam chorar por ele enquanto estivesse descendo para dentro do buraco, o pensamento de ser enterrado de forma tão desfigurada o revoltava.
Quando ele finalmente decidira render-se à vida em uma cadeira de rodas, comprara o melhor modelo existente, que ainda usava. E depois parara para reavaliar sua vida.
Quais eram suas paixões? O que ele queria fazer antes de morrer? Foi quando sua conhecida de longa data, Babe McAdoo, telefonara para pedir um favor, que envolvia encontrar um homem que ambos conheciam por meio de amigos mútuos, que ele começara a suspeitar coisas sobre ela que não teria sabido quando o homem foi encontrado sem cabeça alguns dias depois.
Fora um evento que aparecera nos jornais internacionais por causa de quem era o tal homem. Depois de alguns drinques, ele exigira que ela contasse tudo. Foi assim que ele descobrira sobre a "vida secreta" dela, como Babe chamava, o que o deixara atordoado. Mas, também, cheio de empolgação.
— Eu sei que você conhece muita gente — Babe dissera a ele. — Mais do que qualquer outra pessoa que conheço, na verdade, incluindo eu mesma, o que é o bastante. E você sempre teve uma mente interrogativa. Você é bom com enigmas e entende a mente humana de formas que a maioria não entende por causa de seu histórico médico e da longa prática profissional. Ainda pode ser precioso para algumas pessoas que conheço. E poderia fazer tudo isso sentado nessa cadeira.
Antes que Babe fosse embora, ele já estava convencido. E a vida dele, aos noventa e seis anos, começara de novo, com uma série de aventuras emocionantes com as quais ele nunca sonhara em sua casa perto do parque, que fora reformada para acomodar a cadeira de rodas.
Quando se sentia bem, como hoje, por causa da forma como ajudara Carmen, ele algumas vezes corria pelo apartamento, como se fosse um garoto. O que tinha a perder? O corpo tinha parado de funcionar anos atrás, mas o senso de aventura de Gelling nunca o deixara, mesmo que fosse somente correndo pelo quarto andar da casa em uma velocidade que deixava Frank pálido, pois ele ficava preocupado. A cadeira poderia virar, não importava o quanto Gelling estivesse se divertindo.
Gelling ficou parado na cadeira ouvindo os sons da casa. Seus ouvidos não eram mais os mesmos, mas não eram ruins e, se ele fosse apostar, diria que Frank estava na cozinha, no andar de baixo, provavelmente preparando o sanduíche de peru que sempre comia nesse horário.
Sabendo que Frank brigaria com ele, mas sem se importar muito, Gelling olhou para a direita e viu o longo corredor que saía do aposento que fora transformado em uma segunda sala de estar. Em sua condição, era mais conveniente ter uma segunda sala de estar no quarto andar, onde ele morava, do que no primeiro andar, onde raramente ia.
Ele escutou novamente, não ouviu ninguém na escada e, com um sorriso, impulsionou a cadeira de rodas para a frente.
A cadeira era rápida e robusta. Logo, ele estava livre, correndo de uma sala a outra, de um corredor a outro, com tal velocidade que o fazia rir e arquejar. Ele cortou em volta de mesas e mobílias, quase virou, mas, de alguma forma, conseguiu se endireitar novamente, avançando cada vez mais depressa, o rosto normalmente pálido rosado com a empolgação. Até que a cadeira de rodas teve um defeito.
Aconteceu tão rápido, que Gelling não tinha certeza do que fazer ao correr pelo longo corredor que se abria para a sala de estar. O fim do caminho era uma janela francesa enorme com vista para a Rua Sessenta e Um East, ao lado do parque, quatro andares abaixo.
Enquanto tentava ficar em linha reta para que a cadeira não virasse, Gelling puxou para trás a alavanca, que estava presa na posição à frente, impulsionando-o rapidamente.
A sala de estar do quarto andar era um aposento grande, com uns quinze metros de comprimento, mas Gelling já passara da metade. Ele não tinha força suficiente, a essa velocidade, para fazer qualquer coisa além de observar o fim inevitável à frente.
Então, era isso. A morte dele não seria natural, como sempre pensara que seria. Ele não abriria os olhos uma manhã para se dar conta de que o teto branco era, na verdade, uma luz brilhante que se abria para outro mundo. Ele não cairia morto na cadeira sobre um prato de sopa. Ele não ia dar o último suspiro de vergonha ao observar Frank limpando sua bunda e trocando sua fralda, o que odiava e o deixava extremamente estressado.
Em vez disso, sua morte, ironicamente, traria a desfiguração, da mesma forma como teria acontecido ao operar os quadris e os joelhos, como ele quisera.
A ideia de desfiguração era algo que ele não podia aguentar, mas, com a morte tão próxima, sabia que aconteceria. A cadeira de rodas bateu na parte de baixo da janela e o catapultou através do vidro e para o ar, que estava muito frio, tão intenso quanto tudo o que estava acontecendo.
Naquele momento, enquanto estava suspenso no ar, o corpo tão rígido por causa da idade que ele não conseguiu erguer as mãos para o rosto para evitar que batesse diretamente na calçada, James Gelling cagou nas calças pela última vez, uma humilhação final ao morrer. Ele gritou para Frank, que era uma joia e que, tristemente, ele não veria novamente.
E então acabou.
Enquanto as pessoas paravam na calçada para gritar, olhar em horror ou virar de costas pelo mesmo motivo, ele se tornou uma parte infeliz do cimento, com a lista de nomes de Carmen sobre a mesa.