Vingança em Manhattan
Capítulo 21
No depósito que continha a coleção de carros, que não estava lá só para ver e tocar, mas também para lembrá-lo de como ele era bem-sucedido, Illarion Katzev se inclinou contra seu Bugatti Veyron Super Sport Vitesse favorito de três milhões de dólares, assistiu ao vídeo duas vezes, leu a mensagem de Carmen três vezes e assistiu ao vídeo novamente.
Ele estava incrédulo.
De alguma forma, Carmen Gragera descobrira onde a família dele morava. A única coisa que ela sabia era que ele era russo. Como ela descobrira a verdade, que ele era escocês, se chamava Iver Kester, que viera de uma fazenda em Aberdeen conhecida pelo queijo que produzia e que, nos Estados Unidos, ele morava em uma cobertura na Quinta Avenida, da qual ela sabia o endereço exato?
Alex contara isso a ela antes de ser assassinado? Ele devia ter contado, o que provava que as informações que eles achavam que Alex tinha sobre o consórcio eram tão relevantes quanto tinham imaginado.
Mas será que eram mais extensas ainda?
O quanto Alex sabia sobre ele? O consórcio sabia sobre a violação da segurança, mas não tinham certeza sobre exatamente o quanto de informação ele conseguira com ela.
Ele descobrira o nome dos outros membros do consórcio e os compartilhara com Carmen? O que faziam, onde moravam? Ele fechou os olhos e desejou que não fosse verdade, esperou que as castas estivessem do seu lado, mesmo que fosse somente por causa das proteções rigorosas que tinham colocado em vigor há tanto tempo, para proteger o anonimato de cada membro com software de criptografia.
A julgar por essas precauções, havia uma chance de que Alex não soubesse de tudo quando morrera. Talvez ele estivesse prestes a descobrir mais, mas fora impedido ao morrer. Apesar de parecer muito pequena, ainda havia a chance de que as informações que ele tinha fossem somente sobre Katzev. Katzev rezou para que fosse assim. Porque, se não, ele sabia que Alex teria contado tudo a Carmen.
Levantou o rosto para o teto do depósito e considerou a situação. Certamente, nesse ponto, se ela sabia mais do que escrevera naquela mensagem, já teria usado essas informações em um esforço para conseguir Chloe de volta. Ou estava guardando, esperando o momento certo de usá-las para um fim maior? O que ele sabia era que, sabendo ou não de tudo, Carmen encontrara a família dele. E descobrir tanto sobre ele provava que ela sabia o suficiente para ser muito mais perigosa do que imaginara.
De algum jeito, ele tinha que matá-la. Depressa.
Havia algumas maneiras de lidar com isso. Ele ponderou sobre elas, sabendo que, em uma hora, se quisesse salvar sua família, ele teria que achar uma resposta.
A pergunta era se ele queria salvar a família.
Katzev, que crescera com merda de ovelha até os joelhos, criado por uma família determinada que violara todas as leis conhecidas sobre trabalho infantil durante sua juventude, não sentia muita coisa por eles. Exceto pela mãe, por quem ele sentia uma ponta de alguma coisa. Amor? Ele não tinha certeza. Será que ele sabia o que era amor? Também não tinha certeza. Mas havia alguma coisa lá. Ele só não sabia o que era.
Quando ia para casa todos os anos, era mais para ver a mãe, com quem ele tinha uma conexão emocional que, achava agora, depois de refletir, podia muito bem ser amor. Mas e o resto deles? Pelo tanto que se importava, eles podiam desaparecer. Ele nunca fora próximo dos irmãos nem da irmã, dos tios, das tias nem dos primos. Apesar de lhe darem os parabéns pelos seu sucesso nos Estados Unidos sempre que ia para casa, ele sempre sentira uma forte corrente de inveja vinda deles. E esse era um dos motivos pelos quais ele se recusava a ajudá-los.
Se Katzev quisesse, poderia colocar o queijo Kester nos mercados do mundo inteiro. Com um telefonema, ele poderia iniciar um processo que melhoraria a situação da família. Com suas conexões, eles seriam mais ricos do que jamais sonharam.
Mas ele nunca faria isso.
O único motivo pelo qual festejavam quando ele ia para casa era porque esperavam que, um dia, Katzev compartilhasse seu dinheiro com eles.
Eles nunca pediram nada diretamente — os Kester eram orgulhosos e perderiam tudo antes de ir tão baixo a ponto de pedir dinheiro — mas se Iver algum dia oferecesse, sabia que eles aceitariam.
Ele assistiu ao vídeo novamente e observou o rosto da mãe quando ela falou. — Você deveria estar aqui agora, Iver... Antes que seja tarde demais.
Ela parecia frágil. Mais magra do que ele se lembrava. Quando ele era jovem, ela era dura, mas nunca cruel. Ela o protegera do pai, que podia ser brutal, se achasse que o marido estava sendo duro demais, o que acontecia com frequência. Por causa dela, ele fora poupado de muitas surras. Será que ele deveria devolver o favor e salvá-la? E, com ela, o resto da família?
Ele não sabia a resposta.
Se ele não chegasse a Carmen imediatamente, não havia como dizer o que ela faria com as informações que tinha. A mãe significava alguma coisa para ele. Katzev se lembrava de bons momentos com ela. Lembrou-se de uma vez, quando viera para casa da escola, com um de seus muitos boletins excelentes, em que ela o abraçara e o elogiara. Frequentemente ela dizia que ele iria longe, muito além da fazenda, e que deveria viver os sonhos dele, apesar da fazenda. Ela fora uma das primeiras pessoas a encorajá-lo a ir além. Ele apreciava isso, mas o consórcio era filho dele e de Laurent. Durante anos, eles o construíram e, com os outros membros, prosperaram muito por causa dele. Então, o que seria? A mãe ou o filho? O que uma mãe faria?
Salvaria o filho.
Ele olhou para Chloe Philips do outro lado do salão e viu que ela olhava diretamente de volta. No caso de Carmen, o que uma mãe faria? A mesma coisa. Salvaria a filha. Ele conhecia as habilidades dela, bem como a imensa quantidade de contatos, e não iria subestimá-los nessas circunstâncias. Se ela viesse atrás dele, viria com tudo o que tinha. E já ficara claro que ela morreria por essa garota.
Ele precisava de conselhos, mas não dos membros do consórcio. Eles só resmungariam e reclamariam por terem sido afastados de suas vidas novamente. Depois, haveria uma briga interna infinita sobre como melhor lidar com a situação.
Portanto, ele não os consultaria. Afinal de contas, ele era o líder.
Ele pegou o telefone, sabendo que, quando discasse o número que estava prestes a discar, isso lhe custaria adiantado cinco milhões de dólares pela orientação e pela assistência de que precisava.
Ainda assim, Vincent Spocatti era o melhor. Eles se entendiam. Por anos, eles tiveram um excelente relacionamento de trabalho. E, diferentemente de qualquer outro assassino com quem Katzev trabalhara, Spocatti era o único que valorizava o dinheiro mais do que qualquer outra coisa, incluindo relacionamentos pessoais. E isso era essencial, pois Katzev sabia que Spocatti trabalhara com Carmen. Spocatti a mataria por ele?
Com certeza.
Tudo o que Katzev precisava fazer era deixar Spocatti decidir o preço, mandar metade do dinheiro para a conta dele, o que ele estava preparado para fazer, e depois mandar a outra metade quando o trabalho fosse feito.
Ele discou o número do homem. Depois de um momento, Spocatti atendeu.
— É o Katzev, Vincent.
Passou-se mais um momento e Spocatti riu. — Por que demorou tanto?
— Como assim? Estava esperando meu telefonema?
— É claro que sim. Você está fodido sem mim.
— Por que acha isso?
— Há muito pouco que eu não sei, Katzev. Você sabe disso. Estou totalmente ciente da situação em que você está. Quando precisa de mim?
— Imediatamente.
— Achei que fosse.
— Que barulho é esse?
— Estou em um avião — disse Spocatti. — A algumas horas de Nova Iorque. Eis uma dica: até que as outras companhias aéreas façam o mesmo, voe pela de Cingapura. Rede sem fio. Acesso telefônico. Uma cabine particular adorável só para mim, onde posso trabalhar e minha vida não fica parada. Finalmente, alguém oferece voos como deveria. Presumo que queira que eu lide com Carmen?
— Isso mesmo.
— E o que isso envolve?
— A morte dela.
— E Jake?
— Nós cuidaremos dele.
— Pobre Jake. Não foi considerado digno.
— Ele é um problema, mas não como Carmen.
— Ainda assim — disse Spocatti. — Ser descartado desse jeito. É como se ele não importasse. É tão frio. Tão... russo.
Katzev não respondeu, pois sabia que Spocatti sabia que ele era escocês. Sabia que Spocatti estava implicando com ele e o ignorou.
— O preço é vinte milhões — disse Spocatti. — Metade adiantado e enviado para as minhas contas imediatamente. Divida o dinheiro de forma desigual. Quando eu souber que está depositado, considere que estou comprometido com o trabalho.
— Vinte milhões?
— É o preço.
— Você nunca cobrou nem perto disso antes.
— Isso porque você e o consórcio nunca estiveram com um problema tão grande antes, especialmente contra Carmen, que é quase tão boa quanto eu. As coisas estão andando, Katzev. Carmen está providenciando isso enquanto conversamos.
Katzev considerou mandar a mãe para o inferno, deixá-los matar sua família e depois atrair Carmen usando Chloe. Mas ele receava não ter tempo para isso. Ele não sabia o que Carmen planejava a seguir, mas a conhecia o suficiente para saber que ela estava planejando alguma coisa e que poderia ser desastroso para ele e todos os envolvidos se não agisse agora. Ele ouviu o que parecia gelo batendo contra vidro no outro lado da linha e sentiu que Spocatti estava esperando impacientemente. — Está bem — disse ele. — Mas terminamos isso hoje à noite, Vincent.
— Ótimo. Na verdade, é até melhor para a minha programação.
— Você tem como entrar em contato com Carmen? Fazê-la parar até que chegue em Nova Iorque? Ela me deu o prazo de uma hora para atender aos seus pedidos, ou matará minha família. Se for possível, nós os salvaremos. Se não, não vou perder o sono por causa disso.
— Que filho bom — disse Spocatti. — Está disposto a perder a sua mãe?
— Preferia que não acontecesse, mas estou.
— Isso é tão profissional de sua parte, Katzev. Tão distante. Posso telefonar para Carmen e fazê-la parar. Ela confia em mim cegamente. Nunca entendi isso, mas ela confia. Ela nunca entendeu que nosso relacionamento é puramente de negócios e que nunca passará disso. Direi a ela que estou em um avião para Nova Iorque e que ela deve me esperar antes de fazer qualquer outra coisa. Direi a ela que estou indo ajudá-la. Escolheremos um lugar neutro para que nós todos nos encontremos. Você trará a garota e um de seus homens, ninguém mais. Vá armado. É esse o acordo. Eu e Carmen iremos juntos, mas também não levaremos mais ninguém. Ela achará que é um acordo justo. Em troca de Chloe, ela prometerá não matar sua família. Nunca. Você entrega a garota. Quando começarmos a sair, quando ela achar que estamos prestes a ir embora e que estaremos seguros, eu atirarei nelas. Serve assim para você?
— Serve.
— Mande um carro para me esperar no LaGuardia em três horas. — Spocatti deu a ele o número do voo. — Discutiremos os outros detalhes mais tarde. Ah, e pode me fazer um favorzinho? — perguntou ele. — Só um?
— Qual?
— Essa besteira sua de fingir ser russo está enchendo o saco. Quero ouvir Iver. Pode voltar às suas raízes nas ovelhas e me dar um gostinho do Iver Kester, mas sem o queijo? Quero ouvir como o verdadeiro Iver soa. Aquele que está disposto a matar a família, especialmente a mãe. Vai me ajudar a entender com quem realmente estou lidando.
Katzev desligou o telefone e enviou o dinheiro.