Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 7 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 7

O endereço que ele dera fora Rua Sessenta e Um, número 118. Lá, havia uma casa grande de tijolos, protegida por um portão de ferro preto preso em quatro colunas de pedra, sobre as quais havia dois postes de ferro originais.

Na frente da casa, havia um enorme bordo, quase sem folhas, pois estava no fim do outono, e uma campainha em um dos postes, que ela apertou.

Ela ficou observando as janelas do primeiro e do segundo andar para ver se havia movimento, mas não viu nada. Depois de um momento, houve um zumbido. Ela abriu o portão e desceu a escada até a porta da frente, que se abriu ao aproximar-se.

Atrás dela, estava um homem de meia idade com um tapa-olho. Mas não era um tapa-olho qualquer. Costurado nele, estava um relógio, da cor das safiras, funcionando e com o ponteiro dos segundos se movendo. Ela fez uma pausa antes que pudesse se recuperar da surpresa. Ele tinha cabelos grisalhos curtos e parecia ter a altura e a largura da porta. O rosto bem barbeado e sem emoção alguma. Ela conseguia reconhecer um ex-fuzileiro quando via um.

— Carmen Gragera?

Ela concentrou-se no outro olho, que era tão azul quanto o fundo safira do relógio. — Sou eu.

Ele deu um passo para a direita. — Entre, por favor.

Carmen entrou e, quando ele fechou a porta, ela estendeu os braços para os lados na entrada iluminada pelo sol. — Está no bolso do meu casaco — disse ela enquanto ele a revistava. — Depois da noite passada, não podia sair às ruas sem ela. Espero que entenda.

— Não entendo nada do que você faz. Mas não é meu trabalho julgar.

Acho que acabou de fazê-lo.

Ele pegou a Glock e continuou a revista. Mesmo tendo sido enviada aqui por Spocatti, ela se sentia nervosa e nua sem a arma. Quando ficou convencido de que ela não tinha mais nada, ele perguntou se podia guardar o casaco dela.

Ela o retirou e o entregou a ele. Quando ele o pegou, Carmen notou que as mãos dele eram o triplo do tamanho das suas. Alex tinha quase um metro e noventa, mas esse homem era muito mais alto. Dois metros, dois metros e dez? Ela olhou em torno, observando o vestíbulo amplo com paredes de carvalho envelhecido e viu todas as antiguidades que o decoravam. Nesse nível, o teto era alto. Provavelmente uns três metros e meio.

Ela apostava como ele estava contente com o espaço extra.

— Por aqui — disse ele, acenando para que ela avançasse. — O Sr. Gelling a espera na biblioteca.

Gelling? O nome não significava nada para ela.

— E o seu nome? — perguntou ela.

— O Sr. Gelling decidirá se você precisa dessa informação. Siga-me, por favor.

Minha nossa.

Ela o seguiu por um longo corredor, passando por uma sala de estar com belo design e que tinha todo o tipo de mobília que sugeria que Gelling herdara muito dinheiro ou sabia exatamente o que fazer com ele quando o ganhava.

Em uma mesa redonda de mogno no centro da sala, estava um vaso Lalique Bacchantes. Somente pela profundidade da opalescência dele, Carmen sabia que era um original feito pelo próprio Rene Lalique.

As réplicas atuais que a empresa fazia eram belas, mas de qualidade inferior. Alguns achavam que parecia vidro fosco. Mas esse era verdadeiro, do final dos anos vinte, algo que ela só vira antes em museus. Com a série graciosa de nus envolvendo o vaso, era o exemplo típico do movimento art nouveau que ela amava tanto. Há muito, Carmen deixara para trás seus dias como especialista em história da arte na Espanha, mas ainda mantinha essa veia. Uma parte dela queria ir até lá e admirar o vaso, tocá-lo.

Mas o Big Ben não aceitaria uma coisa dessas. Ele não diminuiu o passo e, logo, estavam na biblioteca. Ela se encontrou frente a frente com Gelling, um homem de aparência antiga, com a cabeça coberta de cabelos brancos cuidadosamente penteados para trás e um rosto interrogativo que se iluminou ao vê-la. A cadeira de rodas acolchoada elétrica veio rapidamente em sua direção.

— Carmen Gragera — disse ele, com uma voz que não era nem um pouco frágil como quando falara com ela no telefone na noite passada. — Estou muito feliz por ter vindo.

— Obrigada por me receber.

Ele parou em frente a ela e observou-a com olhos verdes nublados que a lembravam do mar. Ele estendeu a mão e ela a apertou. E foi então que ela sentiu a fragilidade dele. A pele era macia e frágil. Os dedos, retorcidos pela artrite, eram tão finos que ela poderia quebrá-los se os apertasse com muita força. Na parte de trás das mãos havia manchas marrons e machucados arroxeados. Ela lembrou-se das mãos do avô pouco antes da morte dele.

— Meu nome é Gelling — disse ele. — James Gelling. É um prazer conhecê-la. Ouvi falar de você, sabia?

— Não, não sabia.

— Vincent pensa muito em você.

— Fico feliz de ouvir isso. É mútuo, aprendi muito com ele.

— Absorva tudo, minha querida. Tudo. Ele é o melhor. Você trabalhou com ele só uma vez, correto? Naquele trabalho de Wall Street?

— Isso mesmo.

— Não saiu como o planejado, ouvi dizer.

— Às vezes, não sai.

Ele abanou a mão aleijada no ar. — Muitas coisas não saem como o planejado. Por exemplo, olhe para mim. Pretzels no lugar dos dedos. Preso nessa cadeira de rodas. Um escravo das baterias dela, sem falar no meu próprio corpo, que me traiu de uma forma pior que meus próprios filhos. — Ele inclinou a cabeça. — Todos eles estão mortos, sabia? Vivi mais do que eles. Cada um deles. Isso não é inusitado? E maravilhoso, considerando a forma como me tratavam. Quantos anos acha que tenho?

Ela sabia que era melhor usar a verdade com esse homem. Estudou o rosto dele e deu seu melhor palpite. — Em torno dos noventa?

— Início ou final?

— Depende da idade que tinha quando seus filhos nasceram.

— Não vou dizer.

— Então eu diria que tem perto de noventa e cinco.

— Então eu me saí bem — disse ele. — As loções funcionaram. E você alimentou minha vaidade, isso não acontece com frequência. Tenho cento e três anos, Carmen. Eu posso morrer durante nossa conversa, então prepare-se, caso isso aconteça. Posso cair para a frente, cagar nas calças e pronto. As luzes se desligam. É assim que as coisas são na minha idade. Nunca se sabe quando a morte chegará. Ser velho assim é a experiência mais surreal. Vou dormir à noite e penso: "Bem, acabou. Com certeza, não vou acordar". E então acordo na manhã seguinte, atônito ao ver que tenho mais uma chance de fazer alguma coisa que preste.

— E que tipo de coisa é essa? — perguntou ela.

— Todo o tipo de coisa. Acredito que uma delas é o motivo de sua visita. Venha, venha. Sente-se em um daqueles sofás atrás de mim. Se pretendo ajudá-la, quero conhecê-la melhor. Quero saber mais sobre você.

Ela subiu a guarda. Carmen raramente falava sobre sua vida pessoal. Desde que fizera vinte anos, a única pessoa em quem confiara totalmente fora Alex.

Ele acionou a cadeira, que passou por ela como se uma abelha gigante tivesse entrado na sala. Ela sentiu que ele gostava da velocidade e se animava com ela. — Quer algo para beber? Chá gelado? Café?

— Eu adoraria um chá gelado.

— Limão? Sem limão?

— Limão.

— Com açúcar? Sem açúcar.

— Sem açúcar.

— Imaginei. Você é magra. — Ele olhou para o grandalhão, Big Ben com o tapa-olho, que estava parado ao lado do sofá onde ela se sentara, os braços enormes dobrados sobre a extensão do peito igualmente enorme. — Um chá gelado sem açúcar e com limão para Carmen, e outro para mim, por favor. Não se esqueça do meu canudo. E pare de parecer tão tenso, Frank. Carmen é amiga de Vincent e, portanto, amiga nossa. Só vamos conversar um pouco antes de entrarmos no assunto. — Ele abaixou a voz e falou com Frank como se ela não estivesse lá. — Estou curioso para saber como ela se tornou uma assassina.

Quando Frank saiu, Gelling olhou para Carmen e disse: — O relógio a deixou sem ação por um momento?

— Não sei se foi sem ação. Mas nunca vi nada como aquilo.

— Frank é excêntrico.

— Eu diria que ele é um ex-fuzileiro.

— E estaria certa. Mas o relógio — disse ele. — Acho que dá uma certa vantagem a ele. Pega as pessoas desprevenidas. Você não acreditaria nas situações das quais ele se livrou por causa do relógio. Ele é um brutamontes, é claro, mas, quando aparece, a primeira coisa que as pessoas veem é o relógio. Não conseguem evitar. Na verdade, é bem esperto da parte dele. Permite que ele aja naquele momento adicional. Você deveria tentar.

— Prefiro minha Glock.

— Inteligente. Então? Voltemos a você. Como entrou nessa linha de trabalho? Você não parece o tipo certo.

Você não me viu cortando a garganta de um homem.

— Sr. Gelling... — disse ela.

— Eu entendo. Você não se sente confortável falando sobre como o passado trouxe ao presente. Muitos de vocês são assim. Mas, para ajudá-la, preciso conhecê-la. Não tudo. Mas eu era psiquiatra e sou naturalmente curioso. Como alguém escolhe uma carreira para distribuir a morte? O que aconteceu em sua vida para que tomasse tal decisão e como dominou a profissão? Você não precisa dar todos os detalhes, Carmen. Mas se quiser que eu a ajude a encontrar Katzev, e posso fazer isso, espero que seja simpática e me diga como chegou onde está.

No começo, ela não disse nada. Não era natural para ela compartilhar tais informações íntimas com um estranho. Nem mesmo Vincent sabia de nada sobre a vida pessoal dela. Ele nunca perguntara, provavelmente porque ela viraria o jogo e perguntaria como ele se envolvera nesse negócio. Mas, olhando para Gelling e sua impaciência crescente, ela sabia que não tinha opção se queria a ajuda dele. — Meu pai era um assassino — disse ela. — Aprendi com ele.

— Que herança curiosa. Quando foi isso?

— Quando me formei na universidade.

— O que você estudou?

— História da arte.

— Bem, é um longo caminho, de Matisse a assassinato. Seria divertido ver isso em um currículo. Sempre soube no que seu pai trabalhava?

— Não.

— O que achava que ele fazia?

— Ele me disse que trabalhava como consultor para uma corporação. No fim, era verdade, só que, quando descobri o tipo de consultoria que ele oferecia, não pareceu tão inocente quanto antes.

— Como descobriu?

— Eu fui sequestrada.

Ela observou o rosto de Gelling iluminar-se novamente. Ele estava gostando da história. Não importava para ele que reviver aquela época de sua vida era doloroso. Se Spocatti não a tivesse mandado aqui, ela sairia nesse minuto.

— Por quem? — perguntou ele.

— Homens que meu pai tinha sido contratado para matar. Eles ficaram sabendo — não me pergunte como, porque eu não sei — e vieram atrás de mim. Eu trabalhava no Metropolitan na época. Costumava andar parte do caminho para casa, especialmente no outono que, para mim, é a melhor época do ano em Manhattan. Eu estava na Quinta Avenida. Eles pararam ao meu lado em uma limusine, apontaram uma arma, disseram-me para entrar no carro e me levaram como refém. Avisaram ao meu pai que, se ele não os deixasse sair dos Estados Unidos e voltar para o país deles, onde achavam que estariam seguros, eles me matariam. Meu pai concordou, eles me soltaram, entraram em um avião e foram para casa. Meu pai esperou dois meses, subiu em um avião e os matou em Estocolmo.

— É sempre em Estocolmo — disse ele. — Ou Berlim, ou Beirute. Ou Moscou ou Madri, mas nunca em Brisbane. Nunca no Canadá. Nunca no Maine. Aposto como esses lugares sentem-se rejeitados pelos assassinos.

Ela só o encarou.

— Como se sentiu quando descobriu o que o seu pai era?

— Traída. — Ela fez uma pausa e pensou naquela época. Agora, Carmen tinha trinta e oito anos. Fora sequestrada aos vinte e três. Já fazia quinze anos desde que descobrira a verdade sobre o pai? Ela estava surpresa ao ver como o tempo passara depressa e como ela mudara tanto nesse tempo. — Mas também aliviada. Ele salvou a minha vida.

— Mas só depois de colocá-la em perigo.

— Indiretamente, mas você tem razão.

Gelling estava prestes a falar quando Frank entrou na sala com os chás gelados. A luz do sol clara da sala refletiu-se no relógio, fazendo-o parecer como uma esfera. Carmen ficou imaginando se ele brilhava no escuro.

Frank parou ao lado deles. O chá de Gelling tinha um canudo com a ponta que podia ser estendida. Depois de pegarem os chás, ele pediu que o homem saísse da sala.

— Durante aqueles dois meses, você e seu pai devem ter conversado.

— Sim, conversamos. E não vou mentir para você. Não há dúvidas de que me senti traída, mas também fiquei intrigada com a vida dele. Sempre considerei meu pai um cavalheiro. Ele não era violento. Ele era um homem de aparência comum que tinha habilidades superiores em áreas que eu não conhecia. Eu era jovem quando fiquei sabendo da outra vida dele. Meu pai e eu nunca fomos próximos. Depois do sequestro, descobri por quê. Começamos a conversar. Ele me contou várias histórias e confiou em mim. Como eu não o julguei, acho que parte dele queria compartilhar sua vida com alguém, porque nunca tivera a oportunidade de fazê-lo antes.

— Ele não compartilhava isso com sua mãe?

— Nunca conversamos sobre minha mãe. Ela nos deixou quando eu tinha quatro anos.

— Por que ela os deixou?

— Você teria que perguntar a ela.

— Você mantém contato com ela?

— Sr. Gelling, nem sei se ela está viva.

— Onde está seu pai agora?

— Em um cemitério em Madri.

— Viu só? — perguntou ele. — Madri. É sempre em alguma das grandes cidades estrangeiras. Tudo acontece lá. — Ele se inclinou para perto do copo de chá gelado e colocou os lábios em torno do canudo, bebendo enquanto a estudava. — Ele morreu de causas naturais?

— Ele foi morto com um tiro nas ruas da Cidade do México.

— Cidade do México — disse ele, como se estivesse novamente destacando seu ponto anterior, o que ela achou inútil. — Terrível, mas não surpreendente. Quando foi isso?

— Há quatorze anos. Eu tinha vinte e quatro.

— E você buscou se vingar?

— Ele era meu pai. Eu o amava. Alguém tinha que pagar.

— Você encontrou quem o matou?

— Encontrei. E também encontrei os outros que o tinham como alvo. Matei todos eles.

— Foi uma tarefa corajosa.

— Eu tinha vinte e quatro, era ingênua.

— A juventude pode ser libertadora, mas também perigosa. Para você, presumo que tenha sido ambos. Por que queriam seu pai morto?

— Ele fora contratado para matar o líder de um cartel de drogas. O cartel não ficou feliz com isso. Foram atrás dele. Fim.

— E então você entrou no negócio da família?

— Pode-se dizer que sim. Tudo mudou para mim depois da morte do meu pai. Vi um mundo diferente. Descobri que eu conseguia atirar muito bem. As pessoas que costumavam contratar meu pai entraram em contato comigo. Ofereceram-me um trabalho por uma quantidade de dinheiro obscena. A pessoa que me pediram para matar era a coisa mais próxima do diabo que se pode imaginar. Ele machucava pessoas. Acho que foi por isso que aceitei. Talvez eu tenha achado que, se acabasse com ele, estaria fazendo algum bem para o mundo. Talvez fosse só uma justificativa. Mas você tem razão, é isso o que chamam de juventude. Libertadora e perigosa. Agora só trabalho por dinheiro. A única exceção é que me recuso a matar crianças. Nunca pensei em voltar à minha vida antiga.

— Não até que Alex...

Ouvir o nome dele era suficiente para causar dor. A imagem do rosto dele piscou diante de seus olhos. A dor da perda era como uma onda se aproximando e sufocando-a. Ela lembrou-se da primeira vez em que ele dissera que a amava, mas forçou a lembrança a ir embora. Foco. — Na verdade, Alex faz com que eu olhe para a frente — disse ela. — Eles pagarão pelo que fizeram com ele.

— Não a culpo.

Não me importo se o fizer. — Preciso de sua ajuda. Preciso saber como chegar até Katzev.

— Sua história é fascinante, Carmen.

— Não a vejo dessa forma.

— Eu vejo. E quero agradecer por tê-la compartilhado comigo.

Você não me deu opção.

— Eu tenho uma pergunta.

— E o que é?

— Por que você não mata crianças? Uma vida é uma vida. Quem se importa se ela pertence a uma criança?

— A consciência deve começar em algum lugar, Sr. Gelling.

— É uma resposta esperta, Carmen, mas acho que isso vai mais fundo. Você tem um filho?

Ela não queria entrar nesse assunto, mas não estava aqui por sua causa. Estava aqui por causa de Alex. Estava aqui para fazer qualquer coisa que pudesse para vingar a morte dele. Portanto, ela o encarou nos olhos e disse a verdade. — Não posso ter filhos.

— Que pena. Ou não. No meu caso, quem dera eu não tivesse nenhum. Demônios podres gananciosos. Mas por que não pode ter filhos? Não pode conceber?

— Não. Há anos, quando estava apaixonada por um jovem com quem trabalhava no Metropolitan, tentei engravidar. Estávamos envolvidos seriamente havia um ano na época. Nenhum dos dois queria casamento, mas filhos? Nós dois queríamos. Infelizmente, todas as vezes que engravidei, perdi o bebê. Três vezes seguidas. Conversei com o médico e ele disse que eu não podia manter uma gravidez. Aparentemente, há algo de errado com o meu corpo. Portanto, a vida me negou filhos. Não tenho o menor interesse em negar aos outros o que eu queria, mas não pude ter. Todas as vezes em que me pediram, eu me recusei. Não há exceções.

— Lamento por suas perdas.

— Foi há muito tempo.

— Mas ainda sente a dor, não é?

Carmen sentia a dor todos os dias, mas essa linha de interrogatório, para ela, acabara. Ela tomou um gole do chá e não respondeu.

— Esse Katzev — disse ele. — É claro, ouvi falar dele. E também de Jean-Georges Laurent e do que Alex e você fizeram com ele naquela noite no Four Seasons.

— Laurent tentou nos matar.

— Eu sei que ele tentou. E, devo dizer, o que ele tinha em mente era genial. Sob circunstâncias diferentes, acho que até você concordaria com isso. Mas você e Alex foram espertos e resolveram ser honestos um com o outro. O amor salvou você. Ao contar a verdade, vocês salvaram a vida um do outro. É como um filme.

— Como sabe disso?

— É o que faço, Carmen. É o que me mantém vivo aos cento e três anos. As pessoas conversam comigo, me contam coisas. Eu nunca diria a você quem me contou o que, é claro. Isso vem da minha época como psiquiatra. A confidencialidade é essencial. É por isso que Vincent confia em mim e por isso que você aprenderá a confiar em mim.

Ele se inclinou para a frente na cadeira e segurou o olhar dela. — Assim como você nunca mataria uma criança, eu nunca entregaria nenhum de vocês. Todos temos nossa moral e nossa ética, não importa o quanto elas sejam, em alguns momentos, testadas. Eu acredito que é importante fazer a coisa certa. O que Laurent e Katzev tentaram fazer com você e Alex foi além dos limites. Portanto, aqui estou eu, preparado para ajudar.

Ela estava ficando impaciente com ele. Acabara de abrir parte de sua alma e, agora, queria o endereço. — Onde Katzev mora?

— Não faço ideia.

A resposta dele foi como um tapa em seu rosto. Ela estava confusa. E ficou furiosa. Ela acabara de cuspir alguns de seus segredos mais pessoais para esse homem. — Mas achei que soubesse. Spocatti me mandou aqui porque você sabia.

— Isso não é verdade. Ele a mandou aqui porque eu conheço pessoas que talvez saibam. Na verdade, eu conheço pessoas que provavelmente sabem, pois conheço todo mundo. É por isso que você está aqui, Carmen, por causa dos meus contatos. Vou dar a você o nome de uma pessoa que tenho quase certeza de que sabe o endereço de Katzev. Ou que pode descobrir. Ela é poderosa. Convive em todos os tipos de círculos, alguns dos quais ela prefere manter em segredo, e não a condeno. Uma mulher estranha, na verdade, se souber da história dela, mas é o tipo de pessoa de quem você precisa agora. Alguém com a história dela. Seus contatos e o conhecimento que tem. Eu já telefonei para ela para falar sobre você. E ela está ansiosa para conhecê-la, pois adora esse tipo de coisa, tanto quanto eu.

— Qual é o nome dela?

— Babe McAdoo. Ela é uma socialite de uma das grandes famílias de Nova Iorque. Não tradicional. Um pouco deslocada. Tão excêntrica quanto, ahm, você sabe quem. — Ele olhou rapidamente para Big Ben. — Mas no ambiente dela, talvez as coisas sejam assim. Quem sabe como é para ela? Em alguns momentos, você achará que ela está falando em idiomas estranhos, mas é tudo encenação. Quando for discutir negócios com ela, Babe será totalmente profissional. É como se ela tivesse um interruptor, ligasse uma luz e se transformasse na pessoa de que você precisa. E, quando é essa pessoa, ela é muito boa. Na verdade, eu a admiro quando ela se transforma nessa pessoa.

— O nome dela soa familiar.

— Temperos McAdoo? É a família dela.

— Acho que já a usei em algum peru.

— É uma maneira curiosa de colocar as coisas, mas, de certa forma, acho que o país inteiro fez isso. Ela está em todos os lugares, de costa a costa. Ela vai além do sal e da pimenta, e tenho certeza de que se sente grata por isso. Por que se limitar quando há tantas outras coisas que podem ser amassadas, misturadas, trituradas?

— Posso confiar nela?

— Eu não a enviaria até ela se não pudesse.

— Quando devo me encontrar com ela?

Ele olhou para o outro lado da sala onde estava Frank, parado em frente a uma lareira com um grande espelho sobre ela. — Que horas, Frank?

— Logo depois das onze, senhor.

— Que rápido. O espelho ajudou?

— Sim, senhor.

Gelling olhou para Carmen. — Eu o adoro. Você deve encontrar-se com Babe agora. Ela mora na Park. Vou lhe dar o endereço. E, por favor, depois de falar com ela, pode me telefonar? Eu gostaria muito, quero saber o que está acontecendo. — Por um instante, ela viu um raio de vulnerabilidade cruzar o rosto dele. Um raio de medo. — Quero saber como as coisas andam. É o que me mantém vivo e o que me faz querer ver o sol nascer novamente.