Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 6 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 6

Ela acordou na manhã seguinte em um Holiday Inn Express na Union Street, no Brooklyn. Era um buraco, mas era perto do metrô e fora de Manhattan, o que servia para ela.

Quando ela fizera o check-in tarde na noite anterior, a mulher na recepção dissera, em uma voz monótona e sonolenta, que estavam felizes por ela ter escolhido o Holiday Inn Express e como era maravilhoso tê-la como hóspede. O resto era tão padrão quanto isso, e Carmen gostava de implicar com esse tipo de conversa, especialmente quando estava tão estressada. Debater verbalmente com alguém a relaxava.

Ela avaliou a mulher atrás do balcão. Cabelos loiros ressecados por causa de uma pintura mal feita na pia da cozinha. Batom vermelho escuro que ressaltava um dente quebrado na parte da frente, e que estava amarelado por causa do cigarro. Maquiagem pesada, mais escura do que a cor natural da pele e que terminava na altura do maxilar sem nenhum retoque em direção ao pescoço. Ela tinha uma aparência ridícula. Carmen a observou enquanto realizava as tarefas de atendimento ao cliente como se socializar com um cliente fosse a última coisa que a mulher quisesse fazer.

Vejamos o que ela tem.

— Como foi seu dia? — perguntou a mulher.

— De matar — respondeu Carmen.

— Lamento ouvir isso.

— Não. Literalmente, de matar.

A mulher ergueu os olhos para ela.

— Não acredito que tenha saído viva. Quase morri.

A mulher passou um cartão em uma máquina, enfiou-o em um envelope pequeno usado que dizia Holiday Inn Express e voltou à receita de bolo que memorizara depois de anos repetindo a mesma retórica.

— Nós, do Holiday Inn Express, queremos que saiba que temos café, sucos e café da manhã de cortesia pela manhã. Nosso café da manhã de cortesia, que é gratuito para nossos valiosos clientes, está disponível das 06h00 às 10h00. Nossos rolinhos de canela são famosos, você vai adorar.

— Eu normalmente durmo até às 11.

— Então vai perder o café da manhã.

— Não pode guardar para mim?

— Não podemos fazer isso, senhora.

— Por quê?

— Política.

— Ou, mais provavelmente, a proliferação de bactérias.

A mulher piscou.

— Os rolinhos — disse Carmen. — Tenho alergia a canela. Alguma coisa que possa fazer a respeito?

— Temos frutas.

— Nenhum rolinho sem canela?

— Frutas.

— Laranjas?

— Não faço ideia.

— Uvas?

— Sei que há uma bandeja sortida de cereais.

— Sortida?

— Quatro tipos diferentes. Gosta de frutas? Temos Fruit Loops.

— Como é o café?

— Quente.

— Quente significa queimado?

— Não queimamos nosso café.

— Pode garantir isso?

— Não.

— Há alguma seleção de ovos?

— A única coisa quente é o café. E a torrada.

— Parece limitado.

— É cortesia.

— Com esses preços, não, não é.

— O Holiday Inn Express tem tarifas razoáveis que ajudam você a esticar seu dinheiro. Vai pagar no cartão de crédito?

— Dinheiro. — Carmen entregou o dinheiro a ela, pegou o troco e guardou no bolso o cartão que a mulher passara na máquina.

— Essa é a chave do seu quarto.

— Imaginei.

— Quarto andar. Pegue à direita ao sair do elevador. Tenha uma excelente estadia.

— Encontro você no café da manhã?

— Como?

— É por minha conta. Eu adoraria sentar e conversar.

— Tenha uma excelente estadia, senhorita.

— Tenho certeza de que terei.

Ela não teve, mas isso não a surpreendeu. Se ela imaginara, na noite anterior, que uma caminhada pela cidade ajudaria a espairecer porque não conseguia dormir, o que aconteceu por causa daquela caminhada tornou impossível dormir.

Como pelo menos as toalhas de banho tinham cheiro de alvejante, ela cobriu o lençol da cama com elas antes de se deitar. Spocatti a encorajara a pensar além de Katzev e do consórcio. Queria que ela considerasse todas as opções antes de presumir que eram eles. Ela confiava nele, portanto, pensou cuidadosamente no assunto.

Quando ela dissera aos homens na noite anterior para dizer a Katzev que se fodesse, nenhum dos dois ficara surpreso com o uso do nome dele. Eles simplesmente responderam, o que lhe dizia duas coisas, mas nenhuma resposta concreta. Se fossem bem treinados, não teriam reagido à menção do nome de Katzev. Eles a deixariam acreditar no que quisesse, especialmente se Katzev não estivesse envolvido. Por outro lado, se Katzev estivesse por trás de tudo, o mesmo era verdade. Não mostrar conhecimento do nome dele, o que não fizeram. Isso só teria dado a ela mais certeza.

É Katzev?

Ela não sabia. Antes que ela e Alex partissem para Bora Bora, tinham avisado ao consórcio que, se viessem atrás deles pela morte de Laurent, mandariam tudo o que sabiam para a imprensa.

Na verdade, isso não era uma ameaça muito grande, pois o consórcio trabalhava por trás de uma cortina de privacidade que era relativamente rigorosa. Katzev e o consórcio sabiam disso. Ainda assim, como com qualquer ameaça — e se eles estivessem mesmo por trás disso — eles a levaram a sério, descobriram onde estavam, mataram Alex e quase a mataram.

Com o consórcio, tudo era tratado usando linhas seguras. Os endereços de e-mail eram constantemente trocados e associados a contas em países do terceiro mundo. Sempre que pagavam a ela por um trabalho, era de uma conta numerada de um banco da Suíça, sem nomes associados.

Nos sete anos em que trabalhara para eles, ela só vira Laurent duas vezes. A primeira quando ele a chamara para trabalhar com eles e, no final, quando ela ajudara a matá-lo. Carmen nunca vira Katzev nem nenhum outro membro do consórcio. Com a exceção do sotaque russo falso de Katzev no outro lado da ligação telefônica, todos os associados ao consórcio eram estranhos para ela.

Apesar de respeitar Spocatti, ela tinha certeza de que quem estava por trás disso era Katzev e o resto do consórcio. Eles tinham uma razão direta para ir atrás dela e de Alex. Queriam se vingar pela perda de Laurent e conseguiram. Pelo menos, parcialmente.

Mas como descobriram onde eles estavam? Se Jake dizia a verdade e fora amigo de Alex, era possível que Alex tivesse dito a ele aonde estavam indo e que Jake tivesse vendido a informação para o consórcio. Também explicaria por que ele a entregara na noite passada.

Comece pelo princípio.

Antes de matarem Laurent, por que o consórcio queria ela e Alex mortos? Alex trabalhara com eles mais vezes do que ela. Ele tropeçara em algo que não deveria? Alguma coisa que incriminaria o consórcio? Eles achavam que ele compartilhara essa informação com ela? Era possível, mas como descobriram? Ela sabia que Alex tinha um apartamento na cidade, mas o consórcio também sabia e, nesse ponto, ela sabia que já o tinham vasculhado e retirado qualquer prova incriminadora. Se é que havia alguma.

Ela olhou para o relógio. Em uma hora, se encontraria com o velho, o contato sem nome de Spocatti. Precisava tomar um banho. Teria que usar as mesmas roupas, não havia opção. Até que isso estivesse resolvido, voltar ao seu apartamento estava fora de questão. Ela teria que fazer compras em algum lugar e poderia ser muito bem perto da casa dele.