Vingança em Manhattan
Capítulo 11
Enquanto Carmen estava com Babe McAdoo, Illarion Katzev se preparava para discursar para o consórcio.
Na enorme parede de aço inoxidável à sua frente, havia treze monitores de tela plana. No centro, um estava desligado em respeito a Jean-Georges Laurent, cujo rosto fora explodido no Four Seasons havia algumas semanas, de tal forma que precisara de um caixão fechado no funeral. As pessoas estalavam a língua de pena, não porque ele estava morto, mas porque algumas achavam que estavam sendo privadas de ver a natureza arruinada do que restara dele.
Os outros doze monitores, por outro lado, estavam ligados com imagens de pessoas descontentes do mundo todo, todas elas trancadas em salas seguras e transmitindo em linhas seguras.
Depois da morte de Laurent, essas pessoas eram o que sobrara do consórcio — três mulheres e nove homens. Nenhuma delas estava contente por estar ali naquele momento, apesar de entenderem a importância de precisarem deixar suas vidas empolgantes para trás para lidar com uma situação potencialmente perigosa antes que fosse tarde demais.
Para Illarion Katzev, aquele entendimento tornaria a reunião mais produtiva e, quando tomassem decisões, seria mais fácil lidar com a situação quando os planos fossem colocados em prática.
Depois da fuga de Carmen Gragera do Waldorf Astoria na noite anterior, Katzev decidira marcar a reunião em um esforço de ficar à frente da situação antes que Carmen fizesse o mesmo.
Cada pessoa que o fitava agora conhecia a extensão das habilidades de Gragera, que eram impressionantes. Ela não era alguém que eles tinham em baixa conta — alguns tinham medo dela — e esse fora um dos motivos pelos quais a tinham marcado para morrer algumas semanas antes, achando que era o momento de destruir a conexão que Carmen tinha com eles e buscar novos talentos em outro lugar.
Mas o que mais os preocupava era o relacionamento amoroso dela com Alex Williams, que também consideravam uma ameaça. Uma terceira pessoa respeitada os informara que, por algum motivo, Williams estava reunindo informações sobre eles.
Em Bora Bora, tinham conseguido matar Williams, mas Carmen escapara. Todos concordaram que isso os colocara em perigo, pois provavelmente Alex compartilhara aquelas informações com ela. E, se essa suspeita fosse confirmada, com um trabalho investigativo bom o suficiente, aquele conhecimento poderia levá-la diretamente a eles. Isso era preocupante, pois como eram responsáveis pela morte do amante dela, todos acreditavam que ela buscaria vingança em breve.
Portanto, Illarion Katzev, um homem formidável, perto dos cinquenta anos, que fizera sua fortuna à moda antiga — por meio de assassinatos e cálculos implacáveis — leu pela última vez suas anotações enquanto os outros se preparavam para ouvir sua recomendação sobre a melhor forma de lidar com a esquiva Gragera.
— Colegas — disse ele, olhando para os monitores.
— Katzev — uma dúzia de respostas.
— Desde a noite passada, li nossos arquivos sobre Carmen Gragera e nossa história comum de sete anos. Não há dúvidas de que ela precisa desaparecer, como muitos de nós concordamos há algumas semanas, dada a ameaça que ela representava por causa do relacionamento com Alex Williams. A boa notícia é que, ao pesquisar as informações que compilamos sobre ela no decorrer dos anos, encontrei um possível calcanhar de Aquiles.
Ele esperou um momento e observou a impaciência em alguns dos rostos se transformar em interesse. — Carmen adora crianças — disse ele. — Não faço ideia do motivo, pois eu as detesto. Mas Carmen as ama de uma forma quase... anormal.
— Como sabe disso?
A pergunta veio de Conrad Bates, que era dono de uma parte maior do que devia de Las Vegas, considerando as dificuldades financeiras em que a cidade se encontrava. Ainda assim, em contrapartida, o portfólio dele tinha uma variedade de outras propriedades, a maioria delas hotéis localizados em Manhattan, Chicago, Boston, Los Angeles e por toda a Europa, com atenção particular para Londres e Paris, onde os negócios dele prosperavam.
Ele era mais jovem que Katzev, um produto de uma das melhores famílias de Boston e que fizera algo produtivo com sua enorme herança. Ele era agressivo e não tinha ética, e essas eram qualidades que o consórcio prezava. Katzev nunca gostara dele, mas seus sentimentos não importavam muito. O que importava era o dinheiro que Bates levara para o consórcio e que, como o de todos os outros, era substancial. E era essencial para atingir o que cada um deles desejava ao avançarem, não só em direção a uma riqueza maior, mas em direção ao que realmente queriam: um poder inigualável.
— Olá, Conrad — disse ele.
— Illarion.
— Como está Vegas?
— Espero que possamos tratar disso em nossa próxima reunião.
— Aposto que sim.
— Mas, se puder responder à minha pergunta agora, acho que todos concordamos que isso é mais importante. Ou pelo menos é o que parece, dada a urgência dessa reunião.
— Ao ler os arquivos de Carmen, uma coisa ficou clara. Sempre que foi colocada em um trabalho que envolvia matar uma criança, ela recusou sem pensar duas vezes. Nunca disse o motivo. Simplesmente recusou. Nos arquivos dela, há dezessete casos desse tipo enquanto trabalhou para nós.
— Quem se importa? — disse Bates. — Ela gosta de crianças, e daí? Alguns de nós gostamos. Aonde quer chegar?
Katzev manteve o rosto neutro, apesar de ter vontade de chamar o homem de idiota por não ter a imaginação de ver algo tão óbvio. — Se Carmen gosta tanto assim de crianças, então nós as usaremos para ameaçá-la.
— Ela tem filhos?
Dessa vez, a pergunta foi feita pela herdeira dos estaleiros, Hera Hallas, uma grega de oitenta anos. Katzev olhou para a mulher elegante com a pele bronzeada e os cabelos brancos chiques penteados para trás, presos em um rabo de cavalo. Novamente, ele viu que, quando jovem, ela devia ter sido de uma enorme beleza.
— Ela não tem filhos — disse ele.
— Se ela gosta tanto assim de crianças, por que não?
— Cuidar de crianças enquanto atira em adultos provavelmente é difícil — disse Conrad Bates.
— Eu diria que trocar fraldas e trocar pentes de armas seria um desafio para qualquer mãe solteira. Mas ainda não vejo a importância, Illarion. E daí se ela gosta de crianças?
Paciência, disse ele a si mesmo. Paciência.
— Ao ler as informações, algo mais se destacou: ela só contribui para uma instituição de caridade.
— Bebês Chorões Anônimos? — perguntou Bates. — Demência Prematura na Infância? Instituto dos Joelhos Arranhados de Montana? Fundação do Bicho Papão?
Hera Hallas revirou os olhos em reação aos comentários infantis. No monitor próximo ao dela, outro membro do consórcio, que estava em Paris, usava um smoking e começou a aparentar um ar impaciente. Katzev o viu olhar para o relógio. Como todos podiam se ver, ele ficou imaginando se Bates também detectara a impaciência do homem.
— Na verdade, Conrad, independentemente do desrespeito que trouxe a essa mesa, sem falar de seu cinismo sem fundamento, você não está tão longe da verdade, pois a instituição de caridade tem a ver com crianças. Sob a liderança de Franco, o pai de Carmen Gragera tornou-se um órfão dado não intencionalmente para adoção.
— O que diabos isso significa? — perguntou Bates.
— Se prestar atenção às notícias — e espero que o faça, Conrad, além das informações truncadas que a CNN apresenta — você se lembrará do escândalo que estourou na Espanha em 1989, quando foi revelado que trezentos mil bebês foram roubados logo após o parto. Alguém se lembra disso?
— Eu me lembro — disse Hera Hallas. — Foi horrível.
— Foi dito às mães — frequentemente jovens e solteiras e, portanto, consideradas inúteis sob o regime de Franco — que as crianças tinham nascido mortas. Ou que morreram logo após o parto. Quando a mãe pedia para ver a criança, mostravam, à distância, o corpo de um bebê que o hospital guardava em um congelador. Por quê? Porque a criança já fora vendida pela Igreja Católica. O casal adotante que pagara pela criança era geralmente influente e membro da igreja. Portanto, era considerado mais adequado para criar a criança do que uma mãe solteira, considerada uma desgraça por Franco e, naturalmente, pela igreja. Franco morreu em 1975. A igreja continuou essa prática por mais quatorze anos e só parou quando o escândalo veio à luz por causa de um homem que, em seu leito de morte, revelou a verdade ao filho, dizendo que o comprara por duzentas mil pesetas. Cerca de mil e quinhentos dólares. Foi uma sensação, manchete no mundo inteiro. Outra bala no coração da Igreja Católica. Certamente você ouviu falar disso, Conrad.
Bates hesitou, mas, claro, disse que ouvira.
Mentira, pensou Katzev. Mas continuou. — Para o pai de Carmen, o problema foi além do rapto. Os pais que o compraram e criaram eram cristãos devotos. Monstros. Eles o compraram com a única intenção de abusar dele, achando que, ao espancar essa criança nascida de uma mulher que consideravam uma prostituta, certamente seriam recompensados quando chegasse a hora de entrar nos portões do céu. — Ele abanou a mão. — Ou algo assim. Eles foram um horror com o garoto. Fizeram coisas indescritíveis com ele. Nerón Gragera só conseguiu livrar-se quando tinha dezesseis anos e os esfaqueou até a morte enquanto dormiam. Ele desapareceu por anos. Ninguém sabia para onde tinha ido. Foi nessa época que ele conheceu as pessoas certas — pelo menos, no que dizia respeito a ele — e foi treinado para se tornar um assassino.
— Então, o fruto não cai longe da árvore — disse Bates. — Fantástico. Mas o que isso tem a ver com o motivo dessa reunião?
— Carmen Gragera é uma mulher rica — disse Katzev. — Ela e o pai eram muito próximos. Não é coincidência o fato de que boa parte do dinheiro dela vai para um orfanato em especial em Madrid e para sete abrigos St. Vincent no Queens e em Staten Island. Cada um deles cuida de crianças perturbadas, todas com cicatrizes emocionais. Ela dá milhões por ano para garantir que cada uma das organizações dê às crianças os melhores cuidados, incluindo alojamentos, escolas, acesso a médicos e psiquiatras treinados especificamente para lidar com crianças e adolescentes perturbados. Quando pode, ela visita as crianças. Apegou-se a muitas delas, especialmente as de Nova Iorque, pois é aqui que Carmen passa boa parte de seu tempo. Eu acho que ela doa tanto dinheiro porque quer homenagear o pai. Depois da experiência dele, Carmen mexeu fundo no dinheiro que tem e apoia ativamente duas organizações que dela e dos resultados do seu sucesso. Acho que Carmen cuida dessas crianças porque sabe que, ao fazê-lo, eles terão cuidados adequados e não sofrerão o mesmo destino que o pai dela.
— Como descobriu isso? — perguntou Hera Hallas.
— Não há nada que eu não possa descobrir, Hera. Se ler nas entrelinhas, muito disso está nos arquivos. Parte foi uma investigação que fiz. Com ele, comecei a montar o cenário completo. O que não consegui descobrir sozinho precisou apenas de alguns telefonemas.
— Mas para quê? — perguntou Bates.
— Não consegue imaginar? — A pessoa que falou foi o parisiense, Marius Aubert. Katzev olhou para ele e viu que fitava Bates, a impaciência do homem tão grande quanto a tensão na sala. — Obviamente, Illarion planeja ter como alvo uma das organizações. Presumo que seja St. Vincent, por causa da proximidade e porque Carmen agora está em Nova Iorque. Ele ameaçará Carmen com aquelas crianças. Dirá a ela que, se não se entregar, ele matará uma por uma das crianças até que se entregue. — Os olhos de Aubert ergueram-se para Katzev. — Estou certo, Illarion? É o que planeja fazer? Trocar a vida das crianças pela dela?
— Algo assim, Marius.
— E depois? — perguntou Hera Hallas. — Não sou nenhum anjo, mas matar crianças inocentes, especialmente com os números que mencionou, parece extremo, cruel e desnecessário.
— Não chegará a tanto — disse Katzev.
— Como sabe disso?
— Porque eu conheço Carmen e ela me conhece. Ela sabe que irei até o fim se me forçar a isso. Não pensará duas vezes. Ela sabe que incendiarei um ou mais daqueles abrigos se for preciso para fazê-la se entregar. Teremos notícias dela. Ela fará o que for necessário para proteger aquelas crianças.
— Ela arriscará a própria vida? — perguntou Hera Hallas.
— Acredito que sim.
— Carmen Gragera tem seu próprio exército de contatos — disse Hallas. — Se ela desconfiar de alguma coisa, cercará aqueles abrigos.
— Deixe que o faça.
— Você está sendo muito superficial, Illarion. Como pretende fazer isso?
— Basta assistir — disse ele.
— Prefiro ouvir o seu plano, e não o que Marius acha que você fará. Acho que todos gostaríamos de ouvi-lo.
Ele sabia que esse momento chegaria e contou o plano a eles. Observou os rostos primeiro mostrarem ceticismo. Viu quando pensaram bem sobre o que haviam acabado de ouvir. E depois viu quando os olhares encontraram-se com o dele com o que parecia admiração ou respeito. Ele decidiu que qualquer um dos dois servia.
— Alguma pergunta? — perguntou ele.
A sala ficou em silêncio.
Katzev olhou para Conrad Bates, que o observava. Ele inclinou a cabeça, esperando que Bates desse uma resposta sarcástica. Quando viu que nem mesmo ele tinha nada a dizer, soube que seu instinto estava certo e que, se quisesse ter sucesso, precisava agir rapidamente.