Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 13 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 13

LIVRO DOIS

Na manhã seguinte, Carmen acordou sobre um conjunto de toalhas que tinham um cheiro tão forte de alvejante que ela se surpreendeu de não ter morrido asfixiada durante a noite.

Com as cortinas fechadas, o quarto do hotel parecia cinzento, mas estava tão claro ao longo das bordas da cortina que cobriam as janelas que ela podia ver o sol brilhando do lado de fora.

Ela colocou os pés no chão ao lado da cama e olhou em torno. Na cadeira do outro lado do quarto estavam as sacolas que largara ao voltar na noite anterior depois de comprar as roupas e artigos de higiene nas lojas próximas ao hotel. Graças ao mensageiro de Babe McAdoo, na mesa do quarto estava um novo MacBook Air. O hotel tinha rede sem fio, que Carmen considerava como sendo a coisa mais próxima de um milagre que veria na vida. Portanto, ela estava novamente conectada com o mundo, o que era essencial.

Ela pegou o telefone na mesa ao lado e pressionou o botão da recepção. — Eu gostaria de um bule de café, por favor.

— Aqui no Holiday Inn Express, temos um café da manhã de cortesia, que inclui o café Folgers Gourmet e que está sendo servido nesse momento na área de jantar.

— Folgers Gourmet? Tem certeza de que o nome é esse?

— Se tenho certeza?

— É, tem certeza de que não leu o nome errado?

— Mas é o que diz na lata. Folgers Gourmet. Vi com os meus próprios olhos.

— E não está escrito errado?

— Por que estaria?

— Que tal me mandar um bule?

— Você pode tomar uma xícara de café e comer bastante em nossa sala de jantar.

— Então, agora é uma sala?

— Como?

— Há alguns momentos, você disse que era uma área de jantar.

— É uma área grande, onde servimos o café, e está cheia de clientes famintos.

— Pode, por favor, mandar um bule de café?

— Não oferecemos serviço de quarto, mas nosso serviço documentado de três estrelas é excelente em nossa área de...

Carmen desligou o telefone e colocou as mãos no rosto, esfregando-o em um esforço para acordar. Ela precisava comer e sabia disso. Havia dois dias que não comia nada substancial.

Mas ela não comeria nesse buraco, de jeito nenhum.

Ela foi até a janela com vista para a rua, abriu levemente as cortinas, fez uma careta por causa da luz brilhante e viu alguns restaurantes abertos. Todos eles pareciam razoavelmente cheios, o que era promissor. Ela encontraria Babe e Jake mais tarde na casa de Babe na Park, mas tinha tempo para um banho rápido e um café da manhã. Pegou uma calça jeans, um sutiã, uma calcinha e um suéter de uma das sacolas, arrancou as etiquetas e colocou as roupas sobre uma pilha de toalhas. Pegou a Glock da mesinha de cabeceira, verificou o pente, colocou a arma na pia ao lado do chuveiro, ligou a água e entrou sob ela. Surpreendentemente, a pressão da água era boa e a temperatura, quente. Um ponto para o Express, pensou ela.

Ela estava secando os cabelos com o minissecador do hotel quando o celular tocou. Carmen desligou o secador, foi até o quarto e pegou o telefone que estava sobre a mesa para ver quem estava telefonando.

Carmen teve um sobressalto quando viu que era Katzev.

Ela ponderou se atendia ou não. O instinto e a experiência lhe diziam que qualquer coisa poderia acontecer se atendesse, portanto, resolveu deixá-lo falar primeiro com a secretária eletrônica. Melhor não falar com ele ainda. Se deixasse uma mensagem, ele avisaria por que estava telefonando.

Pelo menos até certo ponto.

Ela segurou o dispositivo e esperou. Levou mais tempo do que esperara, mas finalmente veio o bipe sinalizando que uma mensagem fora gravada. Ela colocou o telefone no viva-voz e escutou.

— Carmen — disse ele. — Está me ignorando? Mesmo? Depois de todos esses anos? É uma pena. Eis outra pena. Eu sei o quanto gostaria de assistir à formatura de Chloe na escola no ano que vem, mas isso poderá não acontecer por um de dois motivos. Você se entregará para que ela possa se formar e, portanto, viver o resto da vida dela, ou pretendo matá-la se você não se entregar. É claro, há uma possibilidade de que não se entregue, que a sacrifique porque realmente é tão fria quanto acho que é. Então, eis a situação. Descobri que você dá muito dinheiro e apoio a St. Vincent, e eles têm sete abrigos no Queens e em Staten Island. Se você não se entregar, incendiaremos os abrigos durante a noite, quando todos estiverem dormindo, incluindo as duas outras garotas que você admira, Valencia e Shenika. Você me entendeu? Todos dentro dos abrigos morrerão. Então, seja sensata. Você teve uma vida emocionante, então por que privar aqueles garotos reabilitados de ter algumas aventuras? Eles não merecem? Vou desligar agora, mas saiba que, se eu não tiver notícias suas logo, nunca saberá o que farei. Ou o que já fiz. Você sabe o meu número. Sugiro que me telefone e combinaremos um horário para que venha aqui para discutirmos o motivo de sua eliminação. Bem no fundo, você já sabe o motivo. Mas, para sermos justos, caso ainda esteja no escuro sobre o assunto, nós lhe diremos pessoalmente e lhe daremos uma oportunidade de responder antes de agirmos.

A linha ficou muda.

Carmen largou o telefone e puxou os cabelos para trás, afastando-os do rosto, torceu-os furiosamente atrás da cabeça, deu um nó e apertou.

Aquelas garotas significavam tudo para ela. Suas contribuições davam suporte a todos em St. Vincent, mas, por anos, aquelas três garotas tiveram o amor e a amizade dela e receberam o máximo possível de tempo que ela pudera lhes dar. Talvez não pudesse ter os próprios filhos, mas tinha aquelas garotas, que eram como filhas. Ela as conhecia há oito anos, conhecia suas esperanças e seus sonhos, sabia sobre seus passados podres e faria o que pudesse para protegê-las.

Katzev mencionara Chloe. Ele já fizera alguma coisa com ela? Se não, estava prestes a fazer.

Ela pegou o telefone e discou o número de Spocatti.

— Isso está se tornando um hábito — disse ele.

— Está ocupado?

— Na verdade, ainda estou em Capri, aproveitando o sol. Eu disse a Babe que ajudaria no que pudesse. Não tenho nada programado na próxima semana, então posso conversar.

— Para onde vai a seguir?

— México.

— Lamento.

— Não importa. Todas aquelas coisas desagradáveis que me pediram para fazer lá pagarão uma casa aqui, onde decidi que quero morar, pelo menos durante parte do ano. Já esteve aqui?

— Só uma vez. — Anos antes, o pai a levara a Capri para um trabalho. Ela era jovem, a situação era tensa, o trabalho era difícil, mas também emocionante. Ao terminar, o pai dissera que queria pagar uma cerveja a ela, que acabou virando cinco. Eles foram a um pequeno bar escondido em uma esquina aleatória de Capri, que estava vazio, pois era o meio da tarde, e havia somente uma janela com vista para a rua. Mas o pai preenchera o espaço com histórias sobre a vida dele que Carmen não conhecia na época e que relembrava agora. — Não me lembro muito bem — disse ela. — Foi há muitos anos. Mas me lembro que era linda.

— É só disso que se lembra sobre Capri?

— Eu fui até lá para fazer um trabalho, Vincent. Não para passear. E, especialmente, não fui até lá para um caso de uma noite. — Ela não mencionou o pai. Spocatti não sabia nada sobre ele.

— Então você não sabe como viver. Mas qual é o problema agora?

Ela contou a ele.

— Esse Katzev é ardiloso — disse ele. — Falaremos sobre ele em um minuto. Primeiro, estou surpreso por você, Carmen. Você realmente dá dinheiro para os pobres? Quem faz isso? E por que é tão apaixonada por crianças? Foi por isso que não quis matar aquela bruxinha hispânica no trabalho de Wall Street? A que dormiu sobre a mesa da cozinha? Aquela que eu tive que matar?

— Eu não mato crianças, Vincent.

— Um dia, com uma garrafa de vinho, em minha villa em Capri, terá que me contar o motivo. Quero dizer, pense bem. É como bater em uma piñata, só que cai dinheiro. Se me derem como alvo um moleque de seis anos para execução porque os pais dele não entram na linha, estou dentro. Dinheiro rápido. Basta sentar em silêncio atrás de alguns arbustos, observá-lo correr cegamente em um parquinho como um zumbi e, quando finalmente ele se sentar para cavar na terra como um cachorro, bam!, subitamente estará sangrando e criando o tipo de confusão que as crianças sempre criam. E parto para o próximo trabalho.

— Não é meu estilo.

— Sua consciência me mata, Carmen, mas é um dos motivos pelos quais gosto de você. Todos temos os nossos limites, só que ainda não encontrei o meu. Provavelmente gatinhos.

— Vincent...

— Então, sobre Katzev — disse ele, acabando com a brincadeira. — Ele fará o que disse que fará. Ambos sabemos disso. Uma de suas garotas estará morta em breve se você não telefonar para ele e se entregar. Se não o fizer, ele provavelmente usará outra garota como alvo. E assim por diante, até começar a incendiar os prédios. Está preparada para morrer por essas crianças?

— Sim.

— Quem está falando? — perguntou ele, dessa vez com um tom de impaciência na voz. — Carmen? Uma impostora? Aparentemente, não a conheço tão bem quanto pensava.

— Não conhece.

— Muito bem — disse ele. — Então você quer salvar a humanidade de Katzev.

— Não. Quero enfiar uma bala na cabeça dele por matar Alex, por querer me matar e por ameaçar aquelas garotas e St. Vincent. Por falar nisso, a ironia do nome St. Vincent é impressionante, não acha? Talvez seja sua dica para entrar em ação.

— O que quer que eu faça, Carmen?

— Preciso de alguma coisa sobre ele. Talvez o nome verdadeiro, que posso ameaçar de enviar ao meu contato na polícia de Nova Iorque. Eu o pagaria com prazer para investigar Katzev, o que colocaria o consórcio em perigo. É esse tipo de informação de que preciso. Alguma coisa que o assuste a ponto de fazê-lo recuar até que eu descubra onde ele mora e mate-o.

— Já sabemos onde ele mora, Carmen.

Ela ficou sem palavras. Uma onda de perguntas a invadiu, e a primeira delas era por que não lhe tinham dito isso antes. Spocatti falou antes que ela pudesse responder.

— Babe telefonou para Gelling essa manhã para dizer como as coisas andavam. Ouvi dizer que isso permitiu que ele respirasse uma vez mais e que o coração dele continuasse batendo. Portanto, bom para Babe. Aparentemente, Gelling estava trabalhando com seus contatos desde que você o visitou. Ele encontrou seu Katzev. Babe planejava contar isso hoje à tarde quando você fosse até lá para discutir estratégias. Gelling também tem outras informações, mas Babe não me contou, pois não perguntei. Dada a urgência de sua situação, recomendo que entre em contato com ela agora, conte sobre a mensagem de Katzev e sugira que se encontrem imediatamente para que consiga chegar à frente, antes que ele faça alguma coisa.

O telefone fez um clique, avisando que outra mensagem fora deixara. Ela agradeceu a Vincent, desligou e ouviu a mensagem. Era de Sheila Paige, uma das administradoras de St. Vincent que ela conhecia há anos. Ela parecia estar à beira do pânico, o que era incomum. Enquanto ouvia a mensagem, Carmen entendeu o pânico da mulher e por que suas entranhas se contorciam. Ele agira.

Sequestrara Chloe.