Vingança em Manhattan
Capítulo 27
Na escuridão que ela mesma criara, Chloe Philips esperou.
Ela ouvia passos, alguns tão próximos que o suor começou a escorrer na testa e nas costas. Eles a estavam procurando. Em algum momento, a encontrariam. E então? Atiraria neles? Se a vida dela estivesse em jogo, ela não teria escolha.
— Chloe — disse o russo. — Saia. Agora.
Ele estava à direita dela. Perto o suficiente para que ela começasse a tremer. A dor no ombro deslocado estava ficando forte demais para que aguentasse, mas ela se forçou a ignorá-la. Ela estava abaixada atrás de um dos carros esportivos ridículos dele, segurando a arma firmemente à frente nas mãos algemadas, e esperava que ele agisse a qualquer momento. Ele conseguia ouvir a respiração dela?
Ela conseguia ouvir a respiração dele...
— Não seja burra, Chloe. Por que morrer quando tem todas as chances de viver? Carmen está a caminho para resolver as coisas. Você ainda tem esperança, desde que se entregue e se comporte. Caso contrário, darei um telefonema e pedirei aos homens lá fora que entrem e varram esse lugar até encontrá-la. Não será agradável.
Mais cedo, ela rastejara para longe do centro do depósito, onde ficavam o banheiro e o bebedouro, sabendo que eles a procurariam lá primeiro. E foi o que fizeram.
Agora, ela estava perto da entrada do depósito. Ela correria até lá, mas seria inútil. Era evidente que a porta do depósito estava trancada. Ela precisaria esperar até que Carmen chegasse, se é que estava mesmo vindo, e isso levantou novamente a questão sobre o motivo de Carmen estar envolvida nisso — seja lá o que quer que fosse isso. Não fazia sentido para ela.
— Está muito escuro aqui — disse o russo. — Totalmente escuro. Não dá para ver merda nenhuma, mas acho que é o que ela queria. Mas não precisa ser assim, precisa, Michael? Afinal de contas, estamos rodeados por dezenas de carros que têm uma coisa na qual ela não pensou. Você sabe, aquelas coisas chamadas faróis.
Ele parou de caminhar. Houve um barulho sibilante, como se ele tivesse subitamente girado o corpo, talvez por achar que a tivesse ouvido. Mas o momento passou e ele continuou a caminhar para longe dela novamente. — Michael — disse ele. — Por que não começa a ligar os faróis e acabaremos com isso antes de Carmen e Spocatti chegarem?
À direita dela, bem no fundo do depósito, onde o guarda chamado Michael devia estar descansando mais cedo, ela ouviu a porta de um carro sendo aberta. Um instante depois, os faróis acenderam e inundaram aquela parte do depósito com uma luz neon azul brilhante que rasgou a escuridão.
— Ligue todos eles — disse o russo. — Descubra onde ela está se escondendo, mas tenha cuidado. Ela ainda está com a arma.
Ela ouviu passos atravessando o espaço até o carro diretamente oposto àquele com os faróis ligados. Uma porta se abriu, houve um som de clique e mais luz inundou o aposento.
Naquele momento, mesmo do lugar onde estava abaixada, ela podia ver silhuetas que não conseguira ver antes, incluindo a do russo, cuja arma estava apontada à frente enquanto olhava em torno do aposento procurando-a. Que tola ela fora. Nem se lembrara dos faróis. Não demoraria muito para que a encontrassem.
Outra porta se abriu e mais luz inundou o depósito. Ela respirou fundo, sabendo que não tinha escolha. Matar o capanga e quebrar a caixa de disjuntores era apenas a primeira parte de seu plano. Agora, era hora da segunda parte.
Antes que pudessem vê-la completamente, Chloe Philips levantou-se, mirou a arma no capô de um dos carros que brilharam sob a luz e atirou nele.
O alarme disparou. O recuo da arma quase fez com que ela desmaiasse por causa da dor no ombro. Ela cambaleou, encostou-se em uma parede e pressionou o ombro contra ela para se apoiar. Ela queria gritar de dor, mas ficou em silêncio.
— O que diabos está fazendo? — gritou o russo, acima do alarme do carro. Ela ouviu medo real na voz dele. Ele amava os carros tanto assim? Ou ele estava preocupado com o alarme? — Faça isso de novo e eu mesmo vou matá-la.
Ela virou-se para outro carro, mirou e atirou, destruindo o capô e, provavelmente, boa parte do motor, o que acabava com o valor do carro e seria difícil de consertar.
— Quer mais? — perguntou ela, sobre os gritos dos dois alarmes.
— Ela está na parte da frente — Chloe ouviu o russo dizer. — Pegue-a.
Ela não conseguia ouvi-los caminhando por causa do som dos alarmes, mas tinha certeza de que um deles corria em sua direção.
Vá em frente. Mostre a eles que você está falando sério.
Chloe enterrou uma bala no capô de outro carro, mas, dessa vez, errou e quebrou o para-brisa. Mais um alarme disparou. Ela firmou a mira o melhor possível, atirou novamente e dessa vez acertou. A bala atingiu o capô e um pequeno fogo surgiu sob ele, que começou a soltar fumaça por causa do calor. Se ela estava pensando nisso, eles também estavam: se não agissem depressa, o carro explodiria.
— Fique longe de mim! — gritou ela. — Se você se aproximar, vou arruinar todos os seus carros preciosos.
— Depressa — ela ouviu o russo dizer. — O extintor de incêndio. Apague o fogo antes que os aspersores disparem. Você sabe o que acontecerá se eles dispararem.
Chloe também sabia o que aconteceria. Se o sistema de aspersores disparasse, o corpo de bombeiros seria notificado. St. Vincent tinha um sistema desses. Eles também tinham um plano de evacuação. Ela e os outros foram instruídos sobre o que fazer e onde se encontrar no lado de fora se o alarme de incêndio e o sistema de aspersores disparassem. Foram avisados de que o corpo de bombeiros e a polícia seriam automaticamente alertados se um dos dois disparasse. Ela sentiu uma onda inesperada de poder com a ideia de que os aspersores podiam disparar e as consequências disso para esses homens se isso acontecesse.
Mas o poder dela não residia só nesse fato. Aqueles alarmes estridentes também não eram inofensivos.
Em quantos carros ela teria que atirar antes que os alarmes criassem uma comoção tal que alguém chamaria a polícia, nem que fosse para acabar com o barulho que, possivelmente, estava incomodando alguém? Pelo endereço que ela ouvira antes, sabia que não estava em uma área residencial. Outra desvantagem é que ela não sabia que horas eram. Estava claro lá fora? Havia algum comércio aberto? Ela não sabia. E as pessoas que passavam de carro na rua? Podiam ouvir os alarmes? Se pudessem, será que alguém telefonaria para a polícia?
Ela sabia que não podia contar com isso.
Ainda assim, os alarmes eram alguma coisa. Melhor do que nada. Era uma possível saída, do mesmo jeito que o sistema de aspersores, caso ele disparasse e alertasse os bombeiros e a polícia. Ela tinha que usar as ferramentas que tinha para sair dali e os alarmes podiam ser a saída.
Ela olhou em torno do lugar, com o ombro doendo. O som dos três carros já estava em um nível doloroso, mas eles estavam na parte de trás do depósito, longe das duas portas grandes à esquerda dela que se abriam para a rua. Fazia alguma diferença o fato de que os carros em que atirara estavam tão longe daquelas portas? Ela apertou os olhos para ver na luz fraca e observou os carros mais próximos das portas. Ficou pensando e repensando.
Ela não sabia quantas balas ainda tinha, mas presumiu que ainda tinha algumas. Não sabia nada sobre armas, mas sabia que a que tinha nas mãos parecia sofisticada. Alguma coisa parecida com o que vira em um filme de ação. Precisava usar a munição de forma moderada, mas isso poderia valer a pena.
Ela pressionou o ombro contra a parede de concreto, mirou e atirou no capô do carro à sua frente. Novamente ela errou e acertou a janela, mas foi o suficiente para disparar o alarme. O som era muito mais alto aqui, o que lhe deu esperanças.
O russo gritou alguma coisa. Ela viu que estavam usando o extintor de incêndio para apagar o fogo sob o capô, que agora estava levantado. O outro homem, Michael, tentava abafar o fogo. Ela olhou para o teto e perguntou-se por que os aspersores não tinham disparado. Não havia muita fumaça, mas certamente era o suficiente para dispará-los. Então, por que não acontecera? O depósito era antigo. Os sistemas também eram?
Será que os aspersores funcionavam?