Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 25 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 25

O tempo passava lentamente. Há quanto tempo ela estava lá? Um dia? Mais do que um dia? Provavelmente mais do que um dia, mas sentia como se fossem três. Talvez mais, mas sabia que não era verdade. Eles ainda não a tinham alimentado, mas, quando pedira, deixaram que usasse o banheiro, que ficava logo à sua frente. E deixaram que usasse o bebedouro próximo ao banheiro quando dissera que estava com sede.

Sempre que a deixavam livre fora da cadeira, davam a ela oportunidades que não percebiam. Eles não deram importância a ela por causa da idade. Não tinham ideia do que Chloe vira em sua vida, pelo que passara nem como sobrevivera por tanto tempo em um mundo que parecia determinado a conspirar contra ela.

Chloe Philips, levada para St. Vincent aos oito anos, via as coisas de forma diferente da maioria das pessoas, pois tinha uma visão do mundo diferente da maioria. Ela procurava a dianteira, qualquer coisa que lhe desse uma margem, caso precisasse. E, frequentemente, esse era o caso nas ruas, especialmente ao ser intimidada de forma tão incansável como ela era.

No caso dela, todos na escola a consideravam a aberração que ninguém queria, a garota que não conseguira ser adotada, diferentemente da irmã, Mia, que encontrara uma família em questão de meses. Mas não Chloe. Por oito anos, ela fora descartada por dezenas de famílias que procuraram uma criança para criar, um filho. Ela fora considerada inútil, arruinada e, na escola, faziam questão de lembrá-la disso diariamente.

A única pessoa que aliviara a vergonha e o fardo que carregava por causa de tudo isso fora Carmen, a quem ela amava e que era o único motivo pelo qual ela queria sobreviver. O que disseram sobre ela ser uma assassina era mentira. Ela resolveu que não acreditaria nisso. Queria que seu relacionamento com Carmen continuasse, pois ela sempre fora boa. Portanto, Chloe decidiu que faria um esforço para que isso acontecesse.

De forma razoável.

Esse museu de carros tinha veículos absurdamente caros, sessenta ou mais deles, todos brilhando sob um único holofote colocado acima deles. Ali, ela vira algumas oportunidades no caminho para o banheiro e o bebedouro que lhe deram um rastro de esperança de, talvez, virar as coisas a seu favor.

Mantendo uma máscara de determinação no rosto, ela começou a processar essas oportunidades de forma que pudessem ajudá-la a escapar, caso uma janela fosse aberta e apresentasse uma fresta de liberdade. Não que ela esperasse que isso fosse acontecer. Na vida dela, as janelas não se abriam. As coisas sempre pareciam totalmente trancadas.

Sabendo disso, ela conhecia a si própria bem o suficiente para saber que não seria mantida como um animal para sempre, não importava o quanto se importasse com Carmen e quisesse vê-la novamente. Ela não tinha medo de assumir riscos, nem de enfrentar a própria morte, como achara que teria acontecido anos atrás quando a mãe trouxera para casa aquele idiota que batera nela com uma frigideira e fizera coisas inimagináveis a ela e à irmã.

Mas ela também sabia ser calculista quando era preciso. Como agora.

O depósito no qual a mantinham tinha duas possibilidades de saída. Ela vira a saída principal, que ficava à direita, provavelmente a uns dezoito metros de distância. Estava trancada? É claro que sim, mas isso não significava que, sob as circunstâncias certas, ela não podia ser destrancada.

Ainda assim, conseguir isso seria difícil, se não impossível. Por isso, ela gostava mais da outra opção, que envolvia usar a boca, a caixa de força que ela notara em uma ida anterior ao banheiro e a coleção de carros esportivos preciosos do russo. Essas três coisas poderiam ser úteis para que ela pudesse dar o fora dali.

Quando chegaram lá na primeira vez, o russo colocara dois homens armados para guardá-la. Mas, à medida que as horas se passaram e os homens ficaram inquietos, sugeriram, na frente dela, fazer turnos para vigiá-la. Perguntaram ao russo se isso era aceitável e ele concordara. Naquele momento, um dos guardas estava descansando em algum lugar na parte de trás do depósito. De onde estava sentada, ela não tinha ideia de onde ele estava, pois o espaço era muito profundo. Ela não conseguia vê-lo, o que provavelmente seria um problema.

O homem à sua direita estivera com ela por várias horas. Ele tinha uma espingarda pendurada no ombro esquerdo e segurava uma pistola na mão direita, a cerca de uns trinta centímetros dela. Talvez menos. O russo estava mexendo no telefone, ligando para algumas pessoas, caminhando entre os carros, parecendo agitado, enquanto montava um plano que provavelmente tinha a ver com ela.

Ela levantou as mãos algemadas para afastar o cabelo do rosto. O homem parado ao lado olhou para baixo e depois para longe. Ele era um brutamontes — alto e musculoso, o peito amplo espremido dentro da camiseta preta — mas estava começando a parecer cansado. Isso era bom, desde que ele não decidisse que estava na hora de acordar o companheiro para trocar de turno. Se isso acontecesse, ela teria alguém mais descansado por perto. Mais alerta. Ela decidiu que, se fosse fazer isso, teria que agir logo. Chloe temia que, se não agisse depressa, as coisas ficariam mais difíceis.

O que o homem parado ao seu lado não sabia era que, toda vez que ela erguia as mãos até o rosto, ou se abaixava para coçar uma coceira que não existia na canela ou na panturrilha, Chloe estava, na verdade, vendo o quanto podia mexer as mãos algemadas.

Não era ideal — por exemplo, ela não conseguia alcançar as costas — mas isso era de se esperar e não seria um problema muito grande quando fosse fazer o que tinha em mente.

Ela olhou para o russo, que caminhava em frente aos carros caros enquanto falava ao telefone, a cerca de nove metros à direita. Ele tinha uma arma? Ela não tinha certeza. Quando estivera perto dela mais cedo, ela não notara sinais de uma arma, mas isso não significava que não havia uma escondida sob o casaco.

Ela ouviu a conversa dele e ficou imaginando quem estava do outro lado da linha. Ele estava dando instruções de como chegar ao depósito e, pela primeira vez, ela soube onde estava. Estava em Hell's Kitchen, na rua Quarenta e Seis West, perto da Onze e ao lado do Hudson.

Ela não ficou surpresa com a localização.

— É melhor fazermos isso aqui — ela o ouviu dizer. — Faz sentido ser aqui. A garota está aqui. Além disso, Carmen não sabe que sou dono desse lugar. Parecerá um terreno neutro para ela. Você precisa trazê-la até aqui.

Fez-se silêncio enquanto ele escutava. — Está bem — disse ele. — Quando acha que pode chegar aqui com ela? — Silêncio. — Vejo vocês em uma hora. Gosto de seu plano, Vincent, mas precisa ter cuidado com os carros. Minha coleção está aqui. Quando chegar, verá carros por todo lado e não quero que nada aconteça com eles. Entendeu? Nada pode acontecer com eles. Quando você as matar, quero que seja rápido e limpo, e que nada aconteça com os meus carros. Isso mesmo. Eles são caros. E vá se foder, não importa se eles têm seguro.

Ele desligou o telefone, pegou um maço de cigarros no bolso do casaco e foi então que Chloe viu o coldre e a arma. Ele acendeu um cigarro, soprou para cima uma onda de fumaça azul, que envolveu uma das luzes, e pegou o telefone novamente. Ele estava tão distraído ao digitar os números que ela sabia que, se não agisse agora, perderia o momento para sempre.

O importante era o momento certo. Para tudo na vida. Ela aprendera isso quando deixara a mãe, o que provavelmente salvara sua vida. Será que ela conseguiria enganar a morte mais uma vez?

Era hora de descobrir.

Resolvida a ir em frente, ela sentiu o coração bater com força no peito. A adrenalina espalhou-se como lanças, ferroando cada parte de seu corpo até que ela se sentiu totalmente viva, frente a frente com a morte. Chloe respirou fundo, repensou o plano, memorizou o espaço novamente e agiu.

Ela se abaixou como se estivesse coçando a canela, olhou para a direita, viu o braço nu do homem com a arma na mão e, então, moveu-se da forma mais rápida e violenta possível.

Em um flash, os dentes de Chloe Philips estavam enterrados no antebraço do homem. Com todas as forças que tinha, ela enterrou os dentes bem fundo até baterem no osso, atravessou o músculo grosso e arrancou fora um pedaço do braço dele. Ela cuspiu no chão e sentiu o gosto de sangue na boca. Fez força para não vomitar por causa da quantidade de sangue que engolira e que agora a cobria. Atordoado pelo ato, o homem deixou a arma cair e Chloe a pegou logo antes de ele tentar chutá-la para longe.

Em vez disso, o pé dele bateu em seu ombro esquerdo, que pareceu desintegrar-se com a força do chute, mas não antes de ela segurar a arma desajeitadamente nas mãos e apontá-la à frente. Ele gritou de fúria e de dor, e depois pedindo ajuda. Mas Chloe Philips, nascida nas ruas e atormentada por muitos por causa de sua vida triste e podre, sabia que vencera um momento antes de mirar tremulamente na cabeça dele e disparar uma bala que lhe atravessou a garganta.

A surpresa encheu os olhos dele. O homem pareceu genuinamente chocado ao cair de joelhos, que quebraram com a força da queda. O sangue espirrou no chão de concreto. Ele cobriu o ferimento com a mão, mas Chloe acertara a carótida. Não havia salvação para ele e não era possível parar o jorro de sangue que pulsava por entre os dedos dele.

Ela notou movimento nos dois lados. Katzev e o outro capanga. O tempo era fundamental, apesar de parecer ter parado.

No momento, havia uma coisa mais a fazer.

Apesar da dor no ombro, Chloe deitou-se de barriga para baixo e olhou para a caixa de metal presa na parede à direita do bebedouro. Era a caixa de disjuntores. Tinha que ser, por causa dos fios grossos que entravam e saíam dela. Quando Katzev levantou a arma para ela, Chloe mirou na caixa, atirou e fez uma careta quando fagulhas voaram pelo aposento.

Instantaneamente, o depósito ficou mergulhado em uma escuridão tão densa e negra que ela não conseguia ver nada além da memória que guardara do espaço.

Ela se levantou, segurou a arma à frente e moveu-se cegamente por trás de um dos carros de Katzev. A dor em seu ombro esquerdo deslocado era excruciante. Ela bateu no carro e se encolheu. Será que o alarme dispararia? Não disparou. Ela se escondeu atrás do carro, ficou ouvindo e esperou.

Apesar da escuridão, ele viria atrás dela. E o outro guarda também.

Mas ela também tinha um plano para isso.