Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 14 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 14

Dentre todas as propriedades que Illarion Katzev tinha em Manhattan, somente duas eram depósitos. O primeiro era inútil, pois estava cheio de itens para os quais não tinha espaço nos restaurantes ou nos hotéis, enquanto que o segundo era perfeito para suas necessidades, pois continha apenas sua crescente coleção de carros esportivos.

Portanto, esse depósito era espaçoso — nenhum dos carros estava estacionado perto dos outros. Ainda melhor, havia espaço suficiente para os outros carros que Katzev planejava comprar em breve, como o Mercedes Gullwing.

Os que ele tinha agora estavam simplesmente lá para quando precisasse sair à noite ou se quisesse apenas olhar para eles, tocá-los, sentar dentro deles e lembrar-se, com surpresa, mesmo nesse ponto de sua carreira, de que eram seus.

Ele adorava todos eles, aqueles trabalhos brilhantes de arte que cintilavam sob os holofotes posicionados no teto. Quando era garoto em Aberdeen, quando era apenas o pobre Iver Kester, o menino que colecionava revistas de carros e sonhava que uma vida melhor existia além da pobreza que ele conhecera na fazenda, mas não aceitava, Katzev nunca pensara que um dia conseguiria reunir uma coleção como essa.

No centro do aposento, havia algo diferente.

Sentada em uma cadeira de metal sob outro holofote, estava uma jovem com um capuz preto sobre a cabeça. Os pulsos estavam algemados e as mãos apoiadas sobre o colo.

Dois homens armados estavam ao lado dela. Além de pedir para usar o banheiro ou para tomar um gole de água no bebedouro ao lado do banheiro, ela não dissera nada desde que fora sequestrada na tarde anterior, ao sair do colégio Forest Hill e voltar para o abrigo que St. Vincent oferecia.

Naquele momento, ela simplesmente estava sentada lá, com a boca fechada, um dom que provavelmente aprendera na época em que ficava nas ruas. Ficar em silêncio, às vezes, era o suficiente para mantê-la viva.

Katzev foi até ela e, pela primeira vez em várias horas, tirou o capuz. O gesto súbito e a luz forte que a cegaram assustaram-na a ponto de fazê-la recuar e afastar-se dele — não tanto de medo, mas, pelo olhar em seu rosto, de raiva.

Ele se ajoelhou ao lado dela.

Ela afastou-se ainda mais dele. Um cacho dos cabelos loiros caiu sobre o rosto e ela o empurrou para trás da orelha com as mãos algemadas. O lábio inferior tremia, mas ele sentiu que não era de medo. Olhando para ela, sentindo o calor do ódio que emanava dela, ele quase esperou que cuspisse nele.

— Como você está, Chloe?

A garota fez menção de falar, mas pensou melhor e permaneceu em silêncio. Ela olhou ao redor do depósito, olhou para os carros novamente, viu os dois homens parados a seu lado. Viu as armas deles e, à frente dela, viu algo novo. Uma câmera em um tripé, apontada para ela.

— Está tudo bem — ele disse. — Você pode falar. Ainda não está morta. Vou dar a Carmen nove horas para que a proteja. Acha que ela o fará?

— Por que estou aqui? — perguntou ela.

— Por que Carmen a ama — disse Katzev. — Qual é o seu sobrenome, Chloe?

— Por quê?

— Porque perguntei educadamente e quero saber. Você certamente não quer que eu seja mal-educado, quer?

— É Philips.

— Chloe Philips. Soa bem. Quantos anos você tem?

— Dezesseis. Faço dezessete em dois meses.

— Um dia — antes que se dê conta, na verdade — não sentirá mais vontade de dizer que fará aniversário em dois meses. Isso, claro, presumindo que Carmen se entregue por você. Se ela não o fizer, talvez você morra com dezesseis, quase dezessete.

— Por que está fazendo isso?

Ele agiu como se não tivesse ouvido a pergunta. — Você é de um dos projetos, Chloe? De família pobre? Tirada dela pelo estado porque era maltratada? Não a alimentavam? Acabou em St. Vincent em um esforço de dar uma reviravolta em sua vida? É essa a sua história? Seus sapatos baratos dizem que sim.

Ela olhou para ele com uma expressão desafiadora. — É mais ou menos isso — disse ela. — Mas você se esqueceu da parte sobre meu pai ser um bêbado e minha mãe sair com qualquer um que a quisesse, incluindo o último que batia em mim. Mas, sim, é mais ou menos isso. Essa sou eu, sapatos baratos e tudo.

— Você é engraçadinha, hein? É influência de Carmen ou acontece naturalmente?

— Carmen me ensinou a enfrentar as coisas sozinha. Mas, quando se vem das ruas, como eu, rapidamente se aprende a lidar com idiotas como você. Carmen só me ajudou a melhorar minha habilidade, se é assim que quer chamar.

— Carmen diria que você está sendo irresponsável.

— Talvez. Mas é óbvio o que você vai fazer comigo, então por que eu deveria me importar? Por que não morrer em alto estilo? Minha vida não foi um grande pacote de presentes com um maldito laço vermelho, babaca. Foi uma merda desde o início, por que deveria terminar de forma diferente?

— Devo dizer que você fala muito bem para alguém tão jovem.

— Eu me dou bem nas aulas de inglês.

— Você pode ir longe.

Ela ignorou o sarcasmo dele e olhou em torno do depósito. — Esses carros são todos seus? — perguntou ela.

— Sim.

— Eles parecem muito caros.

— E são.

— Então, eles são uma compensação para um pinto pequeno?

Ele queria estender a mão e bater no rosto dela. Afinal, ele tinha mesmo o pinto pequeno. Mas, se o fizesse, sabia que a fúria dela se transformaria em silêncio, e ele não queria isso.

Inesperadamente, ele descobriu-se fascinado por ela.

Katzev levantou-se e a observou. Ela não era muito grande. Um pouco mais de um metro e meio de altura, talvez uns quarenta e cinco quilos, a pele branca, que provavelmente ficaria vermelha sob o sol de verão, belos olhos azuis que estavam apertados e olhando para ele com dureza.

Quando eles a seguiram no dia anterior durante a caminhada da escola para o abrigo, havia alunos à frente e atrás dela, mas Chloe Philips andava sozinha, as costas retas, o passo determinado, a boca apertada, os sapatos baratos soando sobre a calçada.

Quando chegaram a um ponto em que um dos homens dele pudera caminhar ao lado dela e pedir que entrasse no carro parado à frente ou morreria, ela hesitara por um momento, olhara para ele, mas não oferecera resistência quando foi levada até o meio-fio. Fora a coisa mais peculiar que Katzev vira em anos. Ela simplesmente entrara na parte de trás do carro, sem fazer perguntas.

— Ontem — disse ele. — Quando a pegamos. Por que não lutou?

— Por que eu lutaria? — Ela acenou com a cabeça para o homem à direita dela. — O garotão aqui disse que me mataria. E ele tinha uma arma. Eu a senti quando ele se encostou nas minhas costas. Eu teria sido uma idiota se tentasse lutar, então fiz o que ele me disse.

— Estava assustada?

— Está falando sério?

— Mas você está tão calma agora. Desafiadora.

— Eu não dormi na noite passada. Em vez disso, tentei imaginar como isso terminaria. E só há uma resposta. Vocês vão me matar. É para isso que seus dois brutamontes estão aqui e é para isso que aquela câmera está aqui, para gravar tudo. É isso que acontece com gente como eu. Não vai terminar bem. Nunca terminou bem para mim, então por que eu deveria lhe dar a satisfação de me contorcer? Não vai acontecer. E, francamente, a essas alturas da vida, depois de ter apanhado de formas que você, com seus carros brilhantes, suas roupas bacanas e seus sapatos caros, nem consegue imaginar, não vale a pena.

— O que não vale a pena?

— A vida não vale a pena.

— Isso não é verdade.

— Ora, vamos. Agora, vai me dar uma lição de moral sobre o valor da vida quando está prestes a tirar a minha? Muito esperto, cara. Genial.

— Eu também vim do nada — disse ele.

— E olha o que isso fez por você. Transformou-o na pessoa excelente que é hoje. Tem orgulho do que você virou? Seus pais ficariam orgulhosos com o que está prestes a fazer? Com o que provavelmente já fez uma centena de vezes na vida?

— Nada disso é pessoal, Chloe, pare de agir como se fosse.

— Está de sacanagem comigo? Minha vida está em jogo. Não fica mais pessoal do que isso, cara.

— Você é só a isca. Nada mais.

— Mentira.

Fazia anos desde que alguém o enfrentara desse jeito. Normalmente, quando ele colocava alguém na situação dela, a pessoa implorava, se desculpava, fazia promessas vazias e chorava. Implorava até não ter mais palavras. Chorava, gritava, pedia outra chance. Mas essa não. Ela estava furiosa e não se importava, por causa do que a vida fizera com ela. Ela o deixava confuso e intrigado.

Ele se virou e a encarou. — Vamos fazer uma coisa, Chloe.

— É mesmo? O quê?

— Você vai falar diretamente para aquela câmera. Depois vou enviar o arquivo de vídeo para Carmen. Não teste minha paciência dizendo a ela que está em um depósito. Vamos repetir, de novo e de novo, até que faça tudo certinho. Se recusar, nosso amigo não vai deixar as coisas agradáveis para você. Você é uma garota esperta. Basta dizer a ela que está assustada e que precisa da ajuda dela.

— Mas eu não estou assustada, já disse isso a você. Espero morrer aqui.

— Então finja que está assustada.

— O problema não sou eu — disse ela. — Eu sou a isca, lembra-se? Você está tentando atingir Carmen. Por quê?

Não importava se ela soubesse. Afinal, apesar do fato de ele admirar a coragem dela, ainda a mataria, pois ela vira seu rosto e poderia identificá-lo. — Carmen esteve envolvida com um homem chamado Alex Williams. Ela contou a você sobre ele?

— Não.

— Você sabe que ela é uma assassina?

— Isso é mentira.

— Na verdade, não. Mas ela ama você, então, tente perdoá-la. Será difícil, eu sei. Mas você vai conseguir.

Ele observou o rosto de Chloe transformar-se em pedra. Finalmente, ele encontrara um nervo.

— De qualquer forma, o amante dela descobriu informações sobre a minha organização e provavelmente contou a ela. Então, precisamos nos livrar dela. Achamos que ela tem informações suficientes para nos comprometer e, por isso, nós decidimos eliminar os dois.

— Vocês quem?

— O consórcio.

— O que é isso?

— Um grupo de pessoas como eu.

— Há mais pessoas como você?

— O mundo está cheio de pessoas como eu.

— E quem é você?

— Alguém que fará o que for preciso para conseguir o que quer.

— E quando é suficiente?

— Nunca é suficiente. Não para nós.

— Por quê?

— Porque não é assim que trabalhamos. Queremos tudo, independentemente do que é necessário fazer para conseguir. Somos iguais a qualquer governo ou líder político, então não nos julgue.

— Como você fez com os meus sapatos baratos?

— Lamento.

— Não importa. — Ela fez uma pausa. — Você sabe, é meio ridículo justificar suas ações comparando-se com líderes e governos corruptos. É engraçado. Você deve enxergar isso. A palavra-chave é corrupto.

— O que preciso ver daqui para a frente é uma atuação sua. Você vai olhar para aquela câmera, vai fazer uma cara de aterrorizada, e vai dizer a Carmen que foi sequestrada, que sua vida foi ameaçada e que, se ela não se entregar, você será assassinada.

— Você vai me matar de qualquer jeito.

— Não é verdade.

— Então acha que sou uma idiota. Eu amo Carmen. Ela significa tudo para mim. E eu duvido muito que ela seja uma assassina. Você está mentindo. Se eu tivesse algum motivo para viver, seria por ela. Não vou entregá-la. Não vou gravar o seu vídeo.

— Não, de verdade, você vai.

— Não, de verdade, eu não vou.

— Tem certeza disso?

— Tenho certeza. Não vou participar disso. Não vou me associar com a morte de uma mulher que me deu mais apoio do que qualquer outra pessoa. Pode me matar se quiser. Como eu disse, além de Carmen e talvez um ou dois amigos, não tenho muitos motivos para viver. Lembro-me disso todas as vezes em que sou tratada com uma merdinha no colégio, e isso acontece praticamente todos os dias. Então, vá em frente. Já até pensei em me matar no passado. Qual é a diferença? Um de nós vai fazê-lo. Então, vá em frente.

— Na hora certa — disse ele. Katzev olhou para o homem ao lado dela e acenou com a cabeça. Com um movimento rápido, a coronha da arma dele bateu na têmpora de Chloe Philips e a deixou inconsciente. A cabeça caiu em direção ao peito. Os cabelos loiros cobriram o rosto. Katzev a estudou, decidindo que os cabelos teriam que mudar de lugar para revelar o rosto dela. Olhando para Chloe, ele achou que também precisavam de um pouco de sangue para transmitir uma mensagem de seriedade.

— Bata na boca dela — disse ele.

O homem que tinha batido na têmpora dela o fez, com força, e o lábio começou a sangrar. Com a força do golpe, o sangue espirrou no queixo e pingou no suéter cinza.

— Tire os cabelos da frente do rosto.

O homem obedeceu.

Katzev se aproximou e posicionou a cabeça de Chloe de forma que ficasse ligeiramente inclinada para baixo e para a direita. Não haveria dúvidas sobre quem ela era quando o vídeo fosse assistido.

Ele foi para trás da câmera, ligou-a e colocou o foco em Chloe Philips. Satisfeito, ele começou a falar para a câmera, enviando para Carmen sua própria mensagem, acompanhada da visão ensanguentada da única jovem que ele sabia que ela amava.

Quando terminou, compactou o arquivo e o enviou em um e-mail criptografado para o telefone de Carmen.