Vingança em Manhattan
Capítulo 18
Aberdeen, Escócia
Foi o homem mais velho que levantou a mão quando Liam Martin passou que o fez repensar a estratégia e dar meia volta. A ideia chegou repentinamente, ele a analisou e agiu rapidamente, pois sabia que estava certo.
Liam dirigiu de volta até a fazenda, saiu da B979 e entrou em uma longa estrada de terra que tinha, à direita, uma cerca de madeira. À frente dele, havia uma casa de fazenda, grande e branca, que parecia ter mais de um século. À distância, parecia estar em boas condições. Mas, ao se aproximar, ele pôde ver que ela precisava urgentemente de reparos. Parecia que tinha sido pintada havia muitos anos. As venezianas verdes estavam desbotadas, a porta da frente torta, uma das janelas quebrada e o telhado caindo aos pedaços.
Atrás dela e à direita, havia sete enormes celeiros vermelhos em uma fileira, um atrás do outro, como se fossem dominós gigantes deitados e prontos para serem varridos, talvez por um vento forte. Pelo espelho retrovisor, ele podia ver um redemoinho de poeira subindo das rodas do SUV e anunciando sua visita. Quando ele desacelerou na metade do caminho e parou, a poeira envolveu o carro de tal forma que, por um momento, ele não via nada.
Quando o ar clareou, ele olhou pela janela do lado direito e viu centenas de ovelhas sendo pastoreadas por vários cachorros e oito homens, um dos quais era o homem que acenara para ele quando passara a alguns momentos de carro, e que olhava para ele agora, juntamente com os outros.
Liam Martin saiu do carro, o rosto amigável aparecendo sobre o carro antes que ele levantasse a mão e abanasse para o grupo, que começou a avançar em sua direção com expressões curiosas, mas agradáveis.
— Olá — gritou ele. — Aqui é a fazenda dos Kester? Dos queijos? Não vi nenhuma placa. Se não for, peço desculpas por invadir.
O homem mais velho estava mais perto e avançou com um sorriso de negócios. Ele era magro, tinha cabelos pretos, uma compleição pálida e olhos cansados, mas brilhantes com uma expressão de boas-vindas.
Liam sabia o que ele estava pensando. Eles faziam queijo aqui, mas também o vendiam? Essa pessoa parara para elogiar o queijo deles? Para comprar? Liam tinha certeza de que não era a primeira vez que alguém parara para deixar elogios ou comprar o queijo. E, como era o sustento deles, qualquer pessoa era um possível cliente ou um freguês. Era melhor tratar as pessoas como amigas, particularmente com a casa naquelas condições.
— É a fazenda dos Kester — disse o homem mais velho. Ele deu a volta no carro e apertou a mão de Liam. — Sou Sholto Kester. Como vai?
O ar tinha um cheiro de esterco tão forte que Liam se lembrou da própria juventude. Ele fora criado pelos avós, que tinham gado, em uma fazenda em Witney. Quando ele tinha dezoito anos, e decidira que a vida na fazenda não era seu destino, Liam entrou para os fuzileiros, saiu como fuzileiro real e foi recrutado para essa carreira mais sombria que tinha agora.
— Estou bem, obrigado — disse ele. — Sou amigo de Iver. Ele me disse que, se algum dia viesse a Aberdeen, deveria vir para esses lados dar uma olhada no lugar onde ele cresceu. Somos amigos há alguns anos. Fizemos alguns negócios juntos em Nova Iorque.
— Qual seu nome?
— Michael Blake. — Esse era o nome que usava há anos. Da mesma forma que ele próprio, tinha um ar distintamente britânico. — Então, é aqui que fazem o queijo do qual Iver fala tanto.
— Ele fala sobre o queijo?
— Sim, fala. — Liam olhou em torno. — Bela propriedade.
— Obrigado.
Ele estava ciente dos outros se aproximando, incluindo a velha que usava jeans e galochas, e o tipo de roupa prática que não atrapalhava o trabalho.
Ele queria acabar com a conversa logo e olhou para o relógio. — Vou pegar um avião em algumas horas para voltar para Nova Iorque, mas, como a fazenda fica tão perto do aeroporto, passei aqui, entre um voo e outro, para tirar uma foto e mostrar a Iver que estive aqui. Vocês se importam se eu tirar uma fotografia de todos juntos? — Ele estalou os dedos. — Melhor ainda, gostariam de dizer olá para Iver? Seria brilhante. Tenho uma pequena câmera de vídeo e sei que ele adoraria. O que acham?
Eles se entreolharam e, então, assentiram. Pareciam interessados na possibilidade de dizer olá para Iver, que os visitava somente uma vez por ano, raramente telefonava e nunca escrevia. Eles começaram a se reunir.
Liam foi até o porta-malas do MKX e pressionou um botão na chave para abri-lo. Dentro da mochila pequena, havia três câmeras de vídeo diferentes. Uma era para profissionais; as outras duas eram mais comuns. Ele pegou a menos intimidadora das três — uma Flipcam branca — e contornou o carro, verificando se a bateria estava carregada. Estava e, melhor ainda, a câmera tinha resolução de 1080p.
— Ele raramente vem nos visitar, sabia?
Fora a mãe de Iver, parada no centro do grupo, quem dissera aquilo, com um sotaque um pouco mais suave do que o de Sholto. Ele olhou para o rosto envelhecido dela e viu que, por baixo da resistência criada pelo trabalho na fazenda, havia um traço de tristeza em seus olhos ao mencionar o filho.
— Eu lamento que ele não venha — disse Liam. — Talvez esse vídeo o faça sentir-se culpado sobre isso. — Ele sorriu para ela. — Talvez eu possa persuadi-lo a pegar um avião e vir para casa.
— Isso seria bom — disse ela. — Já faz mais de um ano.
— Ele não virá — disse um dos homens mais jovens.
— Você não sabe — disse ela. — Preste atenção. Tenho algo a dizer para Iver.
Aquilo intrigou Liam. Ele apontou a câmera para eles, disse "Agora!" e pressionou o botão vermelho para começar a gravar.
Nenhum deles sorriu para a câmera. Só ficaram parados lá, um do lado do outro, todos cansados no fim de um longo dia de trabalho. Cobertos de lama e esterco, grama marrom e lodo grudados sob as botas, a família de Iver Kester fedia a merda e tinha aparência pior ainda.
Eles olharam para a lente como se estivessem olhando diretamente para os olhos de Iver. O que Liam Martin viu foi uma mistura de saudades de Iver e raiva por ele ter passado tanto tempo sem visitá-los.
Ou, até onde ele podia ver, sem ajudá-los financeiramente.
Ele estava prestes a pedir que um deles dissesse alguma coisa quando a mãe de Iver quebrou o silêncio. Ela deu um passo à frente e levantou as mãos. — Você deveria estar aqui agora, Iver. Leve esse homem a sério e venha para casa. As coisas não estão bem aqui. Estão desesperadoras. Precisamos de você agora. Não amanhã. Agora. Antes que seja tarde demais.