Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 15 de 32

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Vingança em Manhattan

Capítulo 15

 

Babe McAdoo entrou na enorme sala de estar dourada, ao lado do vestíbulo, onde Carmen, sentada em uma das cadeiras vitorianas desconfortáveis, olhava para Jake, sentado à sua frente.

Não importava quantas vezes lhe dissessem que podia confiar nesse homem, seu instinto lhe dizia que não podia. Ela achava que ele era duas caras e, pior, inescrupuloso. Não o queria aqui. Mas sabia que, se quisesse ir até o fim, não podia insultar Spocatti nem Babe, que insistiam para que ela confiasse nele.

Portanto, ela ficaria de olho nele. Bem de perto. Se ele fizesse algum movimento errado, se afastasse um passo que fosse de suas verdadeiras intenções, presumindo que tivesse alguma, ela o mataria.

— Muito bem — disse Babe, aproximando-se e sentando-se na cadeira próxima a Carmen. — Sabemos onde Katzev mora. Sabemos que, em algum lugar, ele mantém Chloe Philips, uma das garotas de quem Carmen cuida com sua filantropia.

— Filantropia? — perguntou Jake. — É um pouco de exagero.

Babe lhe lançou um olhar frio. — Em meu mundo, Jake, chamamos de filantropia os milhões de que Carmen deu para St. Vincent. Em seu mundo, com seu ensino público e a criação de classe média, provavelmente isso é chamado de caridade. Eu garanto a você que, com a quantidade de dinheiro que Carmen doou nesses anos todos, o que ela fez chama-se filantropia. Mas não vamos nos ater às palavras. Temos uma situação com que lidar e não temos muito tempo para descobrir como resolvê-la da melhor forma possível.

Ela se virou para Carmen. — Você tem alguma ideia de aonde ele possa ter levado Chloe?

— Nenhuma.

— O que sabe sobre ele?

— Muito pouco. Sempre foi assim. O mesmo com Laurent, que só conheci brevemente. O consórcio é um enigma para mim. Foi assim que eles o montaram.

Babe virou-se para Jake. Ele era um homem grande e musculoso. Usava jeans, suéter preto, sapatos pretos. Ele era grande demais para a cadeira, o que provavelmente era o motivo para que estivesse inclinado para a frente. Os ombros largos não cabiam no encosto estreito e abaulado. As mãos estavam unidas à frente e Carmen notou que o terceiro dedo da mão direita dele não existia. Ela não notara isso antes e ficou olhando fixamente, tentando imaginar como ele o perdera.

— E você? — perguntou Babe a ele. — Seus negócios com o consórcio?

— O mesmo que Carmen. Você só fala com eles por meio de uma linha segura ou e-mail seguro. O trabalho é oferecido, os detalhes são fornecidos, você decide se quer aceitá-lo e negocia o dinheiro. — Ele olhou para Carmen. — Sempre que ela recusava um trabalho que envolvia matar uma criança, normalmente eu recebia a oferta. Obrigado pelos trabalhos, Carmen.

— Tenho certeza de que você gostou deles.

— Uma vida é uma vida.

— Não vejo dessa forma.

— O que diria a Spocatti?

— O que já disse. Não mato crianças, não aprovo isso. Há outras formas de lidar com uma situação.

— De qualquer forma — disse Babe, determinada a manter-se concentrada. — Gelling conseguiu descobrir onde Katzev mora. Pelo menos, um dos lugares onde mora. Mas esse é o endereço de Manhattan e o local é tão exclusivo, com um apartamento tão grande, que tenho certeza de que é sua residência principal na cidade. Uma vez, há muitos anos, antes que eu tivesse o bom senso de dar as costas à sociedade de uma vez por todas, acho que fui a uma festa lá.

— Onde é? — perguntou Carmen.

— Ele mora em uma cobertura na Quinta Avenida com a Setenta e Sete.

— Perto do céu — disse Carmen. — Presumivelmente, mais difícil de alcançar. Mas não para mim.

— Nem para mim — disse Jake.

Carmen o ignorou. Se esse filho da puta arrogante a atrapalhasse ao tentar resgatar Chloe, ela cortaria os testículos dele fora.

— Gelling também fez algumas pesquisas, que eu confirmei com os meus contatos — disse Babe. — Aparentemente, o nome verdadeiro dele é Iver Kester. Veio de Aberdeen, onde a maioria da família dele permanece, incluindo a mãe, que tem setenta e poucos anos. Kester tem quatro irmãos e uma irmã, e todos eles moram a cerca de um quilômetro da mãe. Eles têm uma fazenda em Aberdeen. A maioria da família trabalha lá, incluindo vários primos. A principal fonte de renda vem do queijo e do leite de ovelha que produzem e vendem, apesar de não terem ficado ricos com seus esforços. O queijo é vendido em todo o Reino Unido, até na Harrods, e rende o suficiente para que vivam modestamente.

— Sabemos exatamente onde moram?

— Sabemos. Mas eis o que vai deixar seu dia melhor, Carmen. Falei com Spocatti hoje de manhã. Um amigo dele, um assassino que mora em Londres, está em um avião nesse momento indo para o aeroporto de Aberdeen. Fica a uma hora de Londres, então ele chegará lá em breve. Lá, ele tem contatos que lhe darão os equipamentos de que precisará, caso seja necessário usá-los. Ele também receberá várias câmeras e equipamentos de vídeo. Pedimos a ele que nos envie fotos de vigilância assim que possível. O que precisamos mostrar a Katzev, ou Kester, ou seja lá como vamos chamá-lo...

— Katzev — disse Carmen. — É mais fácil.

— Muito bem — disse Babe. — Katzev. Precisamos mostrar a ele que sabemos quem ele é e onde sua família mora. Se ele guarda tanto segredo sobre sua vida, sobre quem e o que ela envolve, essa informação deverá balançá-lo até a raiz, especialmente depois que descobrimos que a família só o conhece como Iver. Não sabem de nada sobre a vida dupla que ele tem, o que significa que não fazem ideia de que o pequeno Iver, que fala russo fluentemente e usa um nome russo, é, na verdade, um assassino disfarçado que virou multimilionário.

— Você tem jeito com as palavras, Babe — disse Carmen.

— Eu queria ser escritora.

— Suspense?

— E há algum outro gênero?

O celular de Carmen vibrou no bolso e emitiu um bipe. Alguém deixara uma mensagem. Ela pegou o telefone, viu que era de Katzev e ficou parada por um momento, secretamente preocupada com o que ele tinha a dizer pelo fato de estar com Chloe. Em seguida, ela disse a Babe e Jake que a mensagem era dele.

— E o que diz? — perguntou Babe.

Carmen a abriu e, surpresa, disse: — É um vídeo.

Babe e Jake se levantaram e se posicionaram atrás dela, para que pudessem assistir juntos. Carmen pressionou um botão e o vídeo, que começava com uma tela preta, começou a passar.

Gradualmente, Chloe apareceu na tela. Estava sentada em uma cadeira, com as mãos algemadas e apoiadas no colo. A cabeça estava virada em um ângulo estranho. Havia sangue em torno da boca e um machucado logo abaixo do lábio inferior, que parecia partido. Ao olhar para Chloe, que ela conhecia desde que a garota tinha oito anos e que considerava como filha, Carmen se retesou em fúria. Chloe estava drogada ou inconsciente. Carmen notou o sangue no suéter dela e soube que estava inconsciente.

Concentre-se. Afaste-se dela. Preste atenção aos detalhes.

Havia uma luz acesa diretamente sobre ela, dificultando visualizar o lugar onde poderia estar, pois tudo o mais estava intencionalmente nas sombras. Ela não conseguiu ver o tamanho do aposento, mas não havia nada em volta de Chloe. Somente ela em uma cadeira, sobre um piso de cimento, com uma luz acima da cabeça.

Industrial.

Logo em seguida, soou a voz de Katzev.

— Carmen — disse ele para a câmera, naquele sotaque russo falso. — Aqui está sua Chloe. Uma visão triste, eu sei, mas ela não quis cooperar, então tivemos que tomar algumas medidas. Agora ela está descansando confortavelmente, acho, até que acorde com o que provavelmente será uma terrível dor de cabeça. Sou obrigado a dizer que você a criou muito bem. Ela tem coragem e admiro isso. Foi com você que aprendeu? É difícil dizer, pois ela vem das ruas. Ainda assim, ela a tem em alta conta. Isso deve ser gratificante, não concorda? Mesmo quando eu disse que você era uma assassina, ela a defendeu. Recusou-se a acreditar. Deve ser bom ser levada em alta conta. Ser amada incondicionalmente. Chloe até mesmo me pediu que tirasse a vida dela, em vez da sua. Esse tipo de devoção a outro ser humano é estranho para mim, claro, mas ainda assim o reconheço como sendo algo especial e raro.

Ele fez uma pausa. Carmen sentiu o coração apertar-se ao ouvir que Chloe sabia quem ela realmente era. Babe colocou a mão em seu ombro. O vídeo aproximou-se do rosto de Chloe e, dessa vez, Carmen viu outro machucado na têmpora da garota. Portanto, eles bateram nela e a deixaram inconsciente. O sentimento de vingança dentro de Carmen crescera a ponto de ela se sentir como um fio perigosamente esticado, algo que poderia arrebentar se recebesse mais peso.

Eu quero matá-lo, pensou ela, lembrando-se de Alex e olhando para Chloe. Eu vou matá-lo.

— O problema com Chloe é que essa coisa "especial" e "rara" morrerá em oito horas e meia — disse Katzev. — É o tempo que você tem para salvá-la. E salvá-la é simples. Basta me telefonar e se entregar. Você receberá um local designado onde nos encontrará. Nós a pegaremos e conservaremos, para que tudo seja esclarecido. Você saberá exatamente por que está sendo eliminada. Mas acho que, com todo o chamego entre você e Alex, já sabe o motivo. Mesmo assim, caso ainda haja alguma confusão, seremos bem claros antes de matá-la. Depois disso, Chloe será libertada. Você tem a minha palavra. Portanto, telefone em breve. Muito breve. E isso quer dizer em menos de oito horas e meia. Eu odiaria ter que matar Chloe. Ou ter que acender alguma fogueira hoje à noite...

Carmen desligou o telefone. Por um momento, ninguém disse nada. Ficaram parados processando o que viram e ouviram. Em seguida, Babe McAdoo que, como Gelling observara, se tornaria mais e mais concentrada e menos aérea à medida que a situação se desenrolasse, afastou-se de Carmen com as mãos unidas, quase como se estivesse dividindo o espaço à frente ao caminhar. Carmen a vira fazendo isso antes. Era como ela pensava.

— Precisamos pensar estrategicamente — disse ela. Babe acenou em direção ao mordomo, Max, que estava parado ao lado da enorme lareira de mármore, esperando instruções. Carmen a observou fazer um círculo no ar com o dedo e mover os lábios como se dissesse a palavra café. Observou-o sair da sala com uma prontidão que sugeria o motivo de um relacionamento tão longo e tão bem-sucedido.

— Alex deve ter descoberto alguma coisa — disse Carmen. — Ele não me contou nada, mas deve ter descoberto algo que poderia prejudicar o consórcio. Agora, presumem que, como éramos amantes, ele tenha me contado. O que não é verdade, pois ele sabia que poderia me comprometer.

— Alguma ideia do que possa ter sido? — perguntou Babe.

Ela deu de ombros. — Talvez ele tivesse informações sobre eles. Talvez tenha descoberto quem são alguns deles. Onde moram. Eu não sei, mas deve ser algo nessa linha. Como éramos íntimos, eles presumem que Alex compartilhou o que sabia comigo. Se é que sabia de alguma coisa. Por causa disso, nós dois viramos alvos deles.

— O que faremos agora? — perguntou Jake.

— Chloe é a minha prioridade — disse Carmen. — Para tirá-la de lá e mantê-la segura, eu vou entrar. Vou me entregar a eles.

Babe virou a cabeça rapidamente para ela. — Você não pode estar falando sério. Não importa o que faça, ainda vão matá-la. Ela viu o rosto dele. Sabemos como isso funciona. Vocês duas morrerão lá.

— Se ele tiver sorte, talvez me mate, mas não vai matar Chloe. Não vai acontecer. Não vou deixar acontecer.

— Como pode ter certeza? Eles tirarão suas armas e tudo o mais que tiver com você ao encontrá-los. Você não terá como lutar. Precisamos encontrar outras opções.

— Não vou simplesmente me jogar aos leões, Babe. Como você sugeriu, vamos ser estratégicos. — Ela levantou a cabeça quando Max entrou na sala com uma bandeja de café. Ele a colocou na mesa entre as cadeiras vermelhas e ela assentiu com a cabeça. — Vou dizer o que tenho em mente — disse Carmen. — Estou aberta a sugestões, até mesmo vindas de você, Jake. Quando resolvermos alguma coisa, vou telefonar para Gelling e ver se é algo que ele pode fazer. E, também, para ajudá-lo a manter-se conectado a nós. Se todos concordarmos com o que vou propor, ele não pode morrer agora.

 

* * *

 

Quando terminaram de conversar e todos concordaram sobre o que precisava ser feito, Carmen afastou-se de Babe e Jake, que estavam discutindo o plano, e telefonou para Gelling.

— Que bom ouvir sua voz, Carmen — disse ele. — É a minha segunda surpresa do dia. A primeira foi quando acordei. Sempre fico surpreso com isso. Leva alguns minutos até que eu acredite. O teto sobre a minha cama é branco e, algumas vezes, se a luz está no ângulo certo, como estava hoje de manhã, ele me deixa tão cego que acho que fui parar no céu. A segunda surpresa é ter notícias suas. Tem alguma novidade?

Ela contou a ele sobre o vídeo, o que discutira com Jake e Babe, os acordos que tinham sido feitos e o plano que resultara.

— Pode ser feito — disse ele, depois de um momento. — Não sei até que ponto, mas pelo menos parcialmente, o que deve ser suficiente. Com que rapidez precisa disso?

— O mais rápido possível.

— É sempre o mais rápido possível, assim como é sempre Berlim ou Beirute, Moscou ou Madri, mas nunca Brisbane. Nunca Canadá. Nunca Maine.

— Estamos em uma situação complicada, James.

— Deixe-me perguntar uma coisa, Carmen. Está disposta a morrer por essa garota?

— Estou.

— Mas por que você faria isso? É intrigante.

— Porque eu a amo. Porque ela está envolvida nisso por causa de sua associação comigo. Todos a desapontaram a vida inteira. Eu sei como é isso. Ele disse a ela qual é o meu trabalho e agora sou mais um desapontamento na vida dela. Pretendo consertar isso.

— Você é uma mulher complicada, Carmen. Cheia de nuances. Não pensa duas vezes antes de tirar a vida de um adulto, mas fará o que for possível para salvar a vida dessa jovem.

— Isso mesmo.

— É por isso que acho você fascinante. Quero que me ouça por um momento. Está em um lugar onde as pessoas podem ouvi-la?

— Sim.

— E pareceria estranho se saísse da sala?

— Sim.

— Então basta ouvir e interpretar como quiser.

— Muito bem.

— Eu fiz algumas pesquisas adicionais.

Carmen não sabia o que ele estava prestes a dizer, mas o tom hesitante na voz dele indicava que ela não ia gostar.

— O que descobri é intrigante. Babe McAdoo contou a você que ela conheceu Katzev?

— Sim, brevemente.

— Ela contou a você que eles foram amantes?

Um calafrio percorreu o corpo de Carmen.

— Foi muito rápido, um caso breve. Uma questão de semanas, há muitos anos, e não terminou bem. Mas antes que vá adiante com esse seu plano, você precisa saber de tudo. Foi o que prometi a Spocatti que faria. Contar a você tudo o que eu sei à medida que fosse descobrindo as coisas. Logo antes de você telefonar, conversei com ele, que estava preocupado com as notícias. Babe e Katzev foram amantes e uma coisa que aprendi nos meus cento e três anos, Carmen, é que quando você teve relações sexuais com alguém, as coisas ficam distorcidas, especialmente quando a morte está envolvida. Se ela ainda o odeia, poderá ser uma vantagem para você. Mas se alguma parte dela não o odeia, se vê-lo novamente evocar uma memória boa de um jantar romântico ou uma boa foda, não tenho certeza se ela irá até o fim ou do que isso significará para você se ela recuar. Ela contou a você que eles foram amantes?

Carmen olhou para Babe. Ela bebia café enquanto ouvia Jake, que gesticulava com as mãos e dizia algo que Carmen não conseguia ouvir por causa do rugido em seus ouvidos. — Não. Nunca.

— E não deveria ter contado?

— Eu teria.

— Tenha muito cuidado, Carmen. Eu tenho que me desculpar. Se eu soubesse disso antes, nunca a teria mandado encontrar-se com Babe McAdoo.