Vingança em Manhattan

Christopher Smith · Capítulo 5 de 32

Páginas do PDF

Vingança em Manhattan

Capítulo 5

Ela acenou para que entrasse na sala. Por um momento, ele não se moveu. Depois, olhou longamente para a arma e decidiu que era melhor entrar.

Carmen deu um passo atrás para minimizar a chance de ser vista pelos outros. — Aqui atrás — disse ela. — Comigo.

Ele aproximou-se.

— Se cooperar, não mato você. Se fizer alguma burrice, mato todo mundo. — Ela acenou com a cabeça em direção à faca de açougueiro. — Largue-a.

Ele hesitou, mas obedeceu e largou a faca sobre um dos carrinhos vazios ao seu lado.

Ela olhou para a cozinha além dele. Era somente uma questão de tempo antes que alguém se movesse lá dentro e os visse.

Mova-se.

— Preciso de uma roupa igual à sua — disse ela. — Não uma limpa. Quero uma suja. E preciso de um chapéu. Pode encontrar algo que caiba em mim?

— Não.

— Por quê?

— Há um tubo para a lavanderia no vestiário. No final do turno, jogamos nossas roupas de trabalho dentro dele.

— Então entre no elevador. Vou ficar com o que você está usando.

Ali, na saída da cozinha, não era preciso uma chave para abrir as portas dos elevadores, portanto, ela apenas pressionou o botão. As portas se abriram, ela acenou com a cabeça em direção ao elevador vazio e ele entrou. Ela colocou o pé em frente à porta direita para bloqueá-la enquanto mantinha a arma apontada para ele.

Ele tirou o chapéu de chef e começou a desabotoar a roupa, que chegava à altura dos joelhos. — É grande demais para você — disse ele.

— Não vou para um desfile.

Aquilo o deteve e ele olhou para ela com novos olhos. Para ele, a piada fora inesperada em uma situação como essa, mas não conhecia Carmen nem sabia a visão de mundo que ela tinha.

Ela começou a torcer o cabelo em um coque, o que era difícil, considerando o fato de que estava segurando uma arma carregada. Ainda assim, ela já o fizera antes e conseguiu novamente. Não ficava exatamente arrumado como a mãe dela a ensinara durante a adolescência na Espanha. Mas, naquela situação, serviria.

Ele entregou a roupa a ela, que tinha o odor metálico de sangue. — Presumo que queira o chapéu? — perguntou ele.

— Sim.

Ele o entregou para ela.

— Dê um passo atrás — disse ela.

Ele recuou e ela vestiu a roupa. Ficava enorme, mas não pretendia ser vista assim por muito tempo. Com a arma na mão, ela lutou com os botões enquanto ficava de olho nele.

— Por que está fazendo isso? — perguntou ele.

— Não fale.

— É uma pergunta simples.

Se ela contasse, talvez ele ficasse quieto por mais um minuto, que era todo o tempo de que precisava. — Há algumas pessoas aqui que querem me matar. Preciso de um disfarce para sair daqui. Esse é tão bom quanto qualquer outro.

— Quem quer matar você?

— E isso importa?

Ela colocou o chapéu na cabeça, mas ficou grande demais. Só que era feito de papel. Ela o tirou, dobrou um pedaço na parte de trás e passou a manga ensanguentada na parte de dentro, pressionando para baixo e segurando por um minuto para garantir que ficaria grudado. Ele ficou, mas por quanto tempo? O sangue era como cola, especialmente quando começava a coagular. Ela achava que funcionaria, mas quem sabe? Não havia certezas em situações como essa. Gentilmente, ela colocou o chapéu de volta à cabeça e, dessa vez, ele serviu.

— Talvez eu possa ajudá-la — disse ele.

— Eu recebi uma oferta igual a essa mais cedo e não deu certo.

— Olhe, se alguém aqui está tentando matar você...

Carmen deu um passo à frente e balançou a arma em um arco tão rapidamente que a coronha bateu no lado da cabeça dele antes que ele soubesse o que o atingira.

Ela poderia tê-lo matado, mas não quis. Diferentemente de Jon, ele não fizera nada para traí-la. Ele poderia identificá-la, mas as câmeras de segurança do hotel também, o que era muito pior, porque ofereciam provas. Ela não vira nenhuma câmera, mas isso não queria dizer nada. Sabia que, em algum lugar durante o tempo que passara ali, sua imagem fora capturada pelos aparelhos.

Ela estendeu o braço e o apoiou durante a queda. Batera com força o suficiente para deixá-lo inconsciente. Ela o encostou no canto do elevador.

— Você ficará bem — disse ela. — Tome uma aspirina quando acordar. Três, talvez. E obrigada por não fazer uma cena, como a maioria das pessoas faria.

Ela se virou para o painel atrás de si e pressionou o botão que levaria o cozinheiro ao quadragésimo sétimo andar. Carmen recuou, as portas se fecharam, ela ouviu o elevador subindo e virou sua atenção para a cozinha.

 

* * *

 

Só havia uma saída, pela entrada de serviço. Será que a estariam esperando lá? Com certeza. Mas eles não sabiam que ela viria pela porta, o que lhe dava uma certa vantagem, da mesma forma que a roupa ensanguentada e o chapéu do cozinheiro. Eles não a estariam esperando usando essa roupa. O disfarce talvez lhe desse algum tempo, mas não seria muito. Levaria um momento para que o registrassem, mas reconheceriam o rosto dela em pouco tempo. E, quando o fizessem, eles agiriam.

Ela não sabia quais eram as ordens que tinham. Atirar nela? Levá-la com vida? Ela tinha a sensação de que era a segunda opção. Katzev gostaria de se vingar pela participação dela na morte de Laurent. Se é que o motivo era esse.

Ela precisava de algo mais. Algo que os deixaria abalados e os distrairia.

O que estava considerando era arriscado, mas talvez funcionasse. Ela pegou o celular, que não era um aparelho comum. Era um telefone via satélite que parecia um celular, mas tinha uma antena grossa. Ninguém podia rastreá-lo. Sabendo disso, ela discou para a emergência.

A linha tocou uma vez. Quando a despachante atendeu, Carmen viu outra oportunidade. Ela entrou na cozinha, com o telefone escondendo o lado esquerdo do rosto, e caminhou diretamente para as portas duplas que levavam à escada e à entrada de serviço. Com a visão periférica, ela viu algumas pessoas. Seu passo era relaxado, sem pressa. Ninguém a parou nem disse nada.

Mas a despachante estava falando.

— Qual é a sua emergência? — repetiu a mulher.

Carmen esperou que as portas se fechassem atrás dela antes de descer a escada e contar à mulher a tragédia que acabara de presenciar.

 

* * *

 

Na base da escada, estava a porta sobre qual Jon falara mais cedo. Estava trancada, mas ela tinha as chaves dele. Depois de várias tentativas, ela encontrou a chave certa e esperou que o som das sirenes chegasse do lado de fora.

Levou cinco minutos e, quando chegaram, foi com força total, como ela sabia que seria. Afinal de contas, ela telefonara para relatar um homicídio triplo.

Ela dissera à despachante que houvera vários esfaqueamentos na calçada entre a Igreja de São Bartolomeu e a Rua Cinquenta. — Eles estão na Cinquenta — disse ela sem fôlego à despachante. — Do outro lado da rua, em frente ao Waldorf. Três pessoas na calçada. Acho que foram roubadas. Uma delas ainda pode estar viva. Por favor, corra!

Ela esperou até ter certeza de que a polícia estava lá, destrancou a porta e saiu.

Ainda estava chovendo.

O céu noturno estava repleto do som das sirenes e do movimento rápido de luzes piscando. As pessoas estavam começando a se aglomerar. Algumas delas, os policiais, estavam gritando.

À frente dela, na calçada, estavam dois homens grandes, vestidos de preto. Ela olhou para a esquerda e para a direita. Viu policiais vasculhando a rua. Viu mensageiros de hotel e motoristas observando a ação. Viu um dos dois brutamontes olhando para ela e ignorando-a. Depois virando-se para olhar novamente. Carmen o viu cutucar o parceiro quando ela caminhou até a rua, que agora estava congestionada com trânsito. Um policial impedia qualquer movimento dos carros. Era uma possível cena de crime. Outro policial estava na Park, onde o trânsito se movia.

Ela começou a caminhar em direção a ele.

Os dois homens a observavam. A mão dela estava sobre a Glock. O coração batia com força em seu peito, não tanto pelo medo, mas pela empolgação de saber que os tinha enganado.

Ao passar por eles, Carmen olhou bem para cada um dos rostos, reconhecendo um deles de um trabalho que ela fizera há anos, apesar de não conseguir se lembrar do nome dele. Ela viu a raiva no rosto deles. O ressentimento pela situação que ela criara. Eles sabiam que ela armara essa confusão na rua. Era tão claro como as luzes que piscavam e iluminavam os rostos furiosos.

— Diga a Katzev para se foder — disse ela para o homem que reconhecera. — E depois diga a ele para tomar cuidado.

— Você vai morrer, Carmen.

— Você acha?

— É só uma questão de tempo.

Ela continuou caminhando. Ouviu a chuva batendo no chapéu. Ficou imaginando se eles fariam algum movimento. Ou se acabara. Sem Alex em sua vida, uma parte dela não se importava se seu tempo terminara. Uma parte dela ficaria feliz de levar um tiro na nuca e entrar diretamente na escuridão onde Alex estaria esperando. Ela sentia muita falta dele. Mais do que tudo, queria estar com ele novamente. Mas, por causa do que acontecera a ele, uma parte maior dela queria muito ficar viva e fazer o que decidira. Ela voltara a Manhattan para se vingar. Pretendia fazê-los pagar pelo que tinham feito a ele. E a ela.

— Acho que isso é verdade para cada um de nós — disse ela por sobre o ombro. — Katzev está fazendo uma faxina. Vocês dois podem ser os próximos. Eu pensaria sobre isso se fosse vocês.

— Você não vai conseguir, Carmen.

— Conhecendo Katzev, acho que vocês também não. Mas olhem para mim. Mantenham os olhos na minha bunda, garotos. Nesse exato momento, estou indo embora.